É um privilégio viver em São Paulo, para alguns

 


Texto publicado, originalmente, no Blog Adote São Paulo, da Revista Época São Paulo

Favela do Moinho

 

Encontre um conterrâneo morando fora da terra natal e você notará nele uma ponta de desejo de voltar para casa um dia qualquer. É um sentimento normal para quem decidiu tocar sua vida distante de onde nasceu. De muitos amigos do Rio Grande do Sul que já vivem em São Paulo há algum tempo, costumo ouvir planos para o retorno – um trabalho que pretendem fazer, uma casinha que vão comprar ou uma história mal acabada que imaginam dar o ponto final. Tenho um amigo em especial que é carioca, fala com forte sotaque e torce para o Flamengo, estudou no interior paulista e mora na capital muito mais tempo do que viveu na cidade do Rio. Brinco com ele: “só você não sabe que é paulista”. Vive aqui, trabalha aqui, é feliz aqui, mas um dia, quem sabe, talvez …

 

Confesso que eu mesmo muitas vezes me refiro a casa em que morei na infância, no bairro do Menino Deus, em Porto Alegre, como “lá na minha casa” quando, na realidade, minha casa fica bem aqui na zona Sul de São Paulo, fui eu quem construí ao lado da minha mulher e onde meus filhos nasceram (perdão, filho nascer em casa é modo de se expressar, há muito que eles nascem nos hospitais). Ao contrário da maioria dos amigos que veio de outros Estados, não desenho meu futuro ou aposentadoria na capital gaúcha e não vai aqui nenhum sentimento de frustração com o Rio Grande do Sul, estado que admiro por uma série de fatores, apenas tenho dificuldade, neste momento, de imaginar minha vida longe de São Paulo, onde ganhei personalidade profissional e desenvolvi meu conhecimento. São tantas as oportunidades que encontramos e tão ricas as experiências que trocá-las por qualquer outro lugar não me parece viável.

 

Este sentimento, porém, não é compartilhado pela maioria das pessoas que vive em São Paulo, incluindo aqui os paulistanos de nascença, conforme mostrou com clareza a pesquisa IRBEM 2012, feita pelo Ibope e encomendada pela Rede Nossa São Paulo, na qual 56% dos entrevistados disseram que gostariam de deixar a cidade, índice que chega a incríveis 66% quando ouvidos moradores dos distritos de Aricanduva e Mooca. A diferença entre o que penso e o que pensa a maioria me parece facilmente explicável. São Paulo não é uma cidade para todos, beneficia muito mais uns do que outros e oferece oportunidades diferentes, muito diferentes como mostram os índices de desigualdade que fazem parte da mesma pesquisa. O índice de satisfação média na questão desigualdade social é de apenas 4,3 quando se trata de conseguir emprego, em uma escala de 1 a 10. O de acesso à saúde é de 3,9 e o à moradia de 3,8. Nem todos tem os mesmos serviços à disposição. Veja que dos 96 distritos em que a cidade é dividida 45 não têm biblioteca infanto-juvenil e 44 não têm biblioteca para adultos. As diferenças também ocorrem nas áreas de lazer, educação, transporte, saúde e tantas outras. Como alertou Oded Grajew, um dos fundadores da Rede Nossa São Paulo, em comentário no programa CBN São Paulo: “esta desigualdade é insustentável, causa de muitos dos males que enfrentamos”.

 

Sinto-me um privilegiado por morar em São Paulo, e aqui pretendo viver por muito tempo ainda, mas adoraria saber que nossos gestores públicos e todos os demais que se oferecem para encarar este desafio tivessem projetos para diminuir estas desigualdades. Seria um presente e tanto para a cidade que completa 458 anos, no dia 25 de janeiro, saber que um dia todos terão os mesmos privilégios que tive desde que cheguei por aqui, em 1991.

Schettino, um comandante de navio covarde

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Meus avós, desde a minha mais tenra infância, moraram conosco na casa paterna. Quando o meu avô faleceu, passei a dividir com a minha avó um dos quartos da residência de três dormitórios. Os inúmeros livros do meu pai, o que veio a calhar para um menino que gostava de ler, isto é, este seu criado, guardados numa estante com portas envidraçadas, então ficaram à minha disposição nela, que era um dos móveis do quarto e o que mais me interessava. Até papai se dar conta de que nem todos os livros podiam ser lidos por crianças, eu devorava os que, por algum motivo, chamavam mais minha atenção. Ao descobrir as leituras que não condiziam com a idade do leitor, as portas da estante passaram a ser chaveadas. Antes, porém, entre os proibidos, jamais vou esquecer, li dois que figuravam entre os proibidos: O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós, Zadic,do filósofo iluminista Voltaire e O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Não lembro se os entendi. Já os que tratavam de aventuras de toda espécie, que eu compreendia perfeitamente, eram os que mais me agradavam. Em vários deles, que contavam sobre naufrágios – e chego ao assunto, me desculpem, após enorme nariz de cera – fiquei sabendo que o capitão ou comandante, em casos de navios que se acidentam, é sempre o último a abandoná-los e, em histórias por mim lidas, em certos caso, vão ao fundo com a embarcação.

 

Havia, dentre histórias verídicas acerca de acidentes com navios, havia também as que eram fruto da verve de escritores. Criança, eu sempre dei crédito aos relatos das tragédias marítimas reais. Espantou-me saber que, Francesco Schettino, o comandante do Costa Concordia, ao contrário do que ocorreu em desastres anteriores ao que está na ordem do dia, foi o primeiro ou dos primeiros a desembarcar. Logo ele, o principal culpado pelo terrível acidente, eis que levou o imenso navio para as proximidades da costa, alegando, em sua defesa, que as cartas não indicavam a presença das rochas que arrombaram o casco da embarcação, mentira deslavada. Não me recordo que, em tragédias anteriores – a do Andrea Doria, por exemplo – o comandante tenha deixado passageiros e tripulantes entregues à própria sorte. As notícias garantem que Schettino está preso. Mas até quando? Covardia do tamanho da que se viu deveria ser punida com prisão perpétua.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A coragem de Eike

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Eike Batista, mineiro de nascimento, carioca por opção, rico por determinação. É definitivamente um brasileiro raro. Não por ser milionário, mas por ser e parecer ser.

 

Desde o Império, na figura do Barão de Mauá, a história do Brasil jamais apresentou cidadão equivalente em fortuna e desenvoltura em alardeá-la. De D. Pedro II à presidenta Dilma, a primeira explicação para justificar a inibição dos ricos em parecer como tal foi a predominância do catolicismo em nosso país em detrimento do protestantismo. A ponto da Veja desta semana, que estampa na capa a foto de Eike, apresentasse a origem da palavra latina que pode significar empobrecimento ou enriquecimento. “Lucrum” como “logro” para o Catolicismo e “profecius” como “progresso” para o Protestantismo, do estudo desenvolvido pelo respeitado sociólogo alemão Max Weber.

 

Em 2010, o embate da TV Record com Eike não endossa esta tese. Outra explicação pode estar no medo dos ricos em se tornar alvo de bandidos ou de autoridades fiscais ou policiais. Como sabemos, as investigações que as empresas de Eike absorveram da Polícia Federal, sob a alcunha de “Toque de Midas”, segundo a revista Carta Capital, redundaram nos dias subsequentes numa perda de valor em bolsa de 5,3 bilhões de reais. Montante significativo, até mesmo para quem possui a fortuna pessoal avaliada em 50 bilhões de reais, ou aproximadamente 30 bilhões de dólares.

 

Ainda assim, Eike, depois de ter antecipado a sua liderança no ranking brasileiro das revistas especializadas em economia, arrisca-se novamente. Seu prognóstico agora é que até 2015 deverá ser o homem mais rico do mundo. Pelas notícias de ontem sobre o comunicado à Comissão de Valores Mobiliários da BOVESPA pela OGX, empresa 100% dele, foi encontrado petróleo a 102 km da costa fluminense com profundidade de 155m com estimativa de até 3 bilhões de barris. Uma “benção” não despercebida pela cotação das ações da companhia, que teve alta de 5,3% no dia. Parece que independente da cor, branca, dourada ou negra, está endossando o “Toque de Midas”, transforma tudo em ouro.

 

Eike, 43 anos, é um currículo e tanto para uma extensa e independente biografia. Enquanto a lei não permite, é aconselhável ler a autobiografia recém-lançada. Vale a pena confirmar algumas premissas, tais como recordar que a função de vendas é primordial, assim como fazer o que gosta nem sempre é o possível. Portanto o melhor é atuar no possível. Com prazer.

 

Se Irineu Evangelista de Souza , o Barão de Mauá, não conseguiu segurar o séquito de D.Pedro II, batendo de frente com os escravagistas, Eike Batista, talvez melhor vendedor, ficou amigo do rei e tornou-se o maior doador de Lula. Faz parte.

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

A bicicleta ainda vai te pegar

 

 

Acabo de sair do Rio de Janeiro e ainda estou a bordo do avião que me traz de volta a São Paulo, enquanto escrevo este texto. Havia um mormaço na cidade que levou muita gente para a praia, nessa segunda-feira. Nada impressionante, pois estamos no Rio e em período de férias. O branco da pele de algumas pessoas que vi passeando na orla – diga-se, as vejo da janela do táxi – sinaliza que muitos são turistas. O que realmente me impressionou foi a legião de bicicletas laranjas na beira mar, ruas e avenidas adjacentes. Estão disponíveis para aluguel e, me parece, caíram no gosto dos cariocas e simpatizantes pela praticidade que oferecem e pelo baixo custo – os mensalistas pagam R$ 10 e se for por apenas um dia, R$ 5. Não havia um trecho do roteiro Santos Dumont-Leblon-Santos Dumont, que cumpri para atender compromisso profissional, no qual não havia uma “Laranjinha” interferindo na cena. Seriam 600 disponíveis e carregando a marca e a cor do Banco Itaú em uma bela jogada de marketing – assim como o Bradesco fez ao adotar a Ciclofaixa de Lazer, em São Paulo. A capital paulista também tem bicicletas de aluguel, estão em estações de metrô, especialmente, mas não chamam tanta atenção porque se escondem entre os carros.

 

Ainda com a imagem das bicicletas cariocas na cabeça, logo que sentei na poltrona do avião me deparei com elas em destaque em reportagens da revista de bordo da Gol Linhas Aéreas. Se os salgadinhos e docinhos não agradaram, a leitura se fez agradável com o texto e as fotos de Denis Russo Burgierman que descreve a aventura de passar três dias visitando o centro paulistano a bordo de um bicicleta. Pedalou 80 quilômetros e conheceu hotéis, restaurantes, bares e demais atrações turísticas. Uma das recomendações: ter em mãos o mapa Ciclo Rotas SP 2011, idealizado por Leandro Valverdes, um dos donos da Ciclo Vila, bicicletaria na Vila Olímpia. Denis usou um bicicleta dobrável que agilizou o passeio e a hospedagem.

 

Não é que encontro outra bicicleta, na mesma edição. Esta bem mais velha, com marcas de ferrugem e, curiosamente, usada por um repórter digital. Explico. A publicação convidou dois repórteres a viajarem para Fortaleza, um com todo tipo de facilidade oferecida por equipamentos eletrônicos e o outro, a moda antiga – até máquina de fotografia com filme, ele portou. Lucas Pretti precisou de informações que estavam na internet, acessada em seu celular, para saber onde alugar uma bicicleta, pois funcionários de hotel, taxistas, vendedores e moradores não tinham a menor ideia, o que demonstra que a prática não é comum: “A cidade não tem infraestrutura nem apelo turístico voltado a experiências urbanas. Também não há ciclovias, mas a cidade é plana, com uma paisagem linda, e a coragem de se aventurar era grande … Para mim foi mais divertido tomar sol pedalando do que em uma cadeira na praia. Um prazer que só a internet pôde proporcionar” – escreveu Pretti.

 

Assim como todos as demais cidades brasileiras, Fortaleza tem de estar pronta para a ocupação urbana que os ciclistas estão proporcionando. E você fique atento porque um bicicleta ainda vai te pegar (no bom sentido). Esteja no táxi ou na poltrona do avião, elas tomam cada vez mais espaço.

Aviso aos navegantes

 

Desde o sábado, quando houve mudança no site da CBN, o Blog aqui também foi renovado em seu visual e na funcionalidade. Nestes primeiros dias, porém, os leitores tiveram problemas para publicar seus comentários – pelo o quê peço desculpas. Hoje, está tudo em ordem e você já pode aproveitar o novo visual que tem como intenção colocar nas suas mãos mais facilidades para acessar as diferentes seções. O que mais me agradou nesta mudança do Blog foi o espaço que privilegia os textos e as fotos. Naveguem à vontade, palpitem e nos ajudem a construir este trabalho.

Hora de Expediente estreia hoje no Jornal da CBN

 

Dan StulbachLuiz Gustavo MedinaJosé GodoyMilton Jung

 

O trio do Fim de Expediente vai acordar mais cedo e, a partir de hoje, participa do Jornal da CBN, em uma conversa descontraída sobre os assuntos mais importantes e irreverentes do dia. Dan Stulbach, Luis Gustavo Media – o Teco e José Godoy estarão comigo no quadro Hora de Expediente que vai ao ar às 8h45 da manhã. Para comemorar a estreia, fomos presenteados com estes cartuns de Bruno Drumond, de O Globo. Olheiras minhas à parte, agradecemos a lembrança e esperamos atender a expectativa do nosso ouvinte-internauta.

 

O Liberdade de Expressão segue na programação com Viviane Mose, Arthur Xexeo e Carlos Heitor Cony, agora com novo horário: às 9h10 da manhã.

Candidato cassado pagará nova eleição

 

Por Antônio Augusto Mayer dos Santos

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ministro Ricardo Lewandowski, e o Advogado-Geral da União, Luís Inácio Adams, firmaram um convênio inédito e de altíssima pedagogia.

 

O seu objeto é coerente e tem origem incontroversa: a recuperação dos recursos a serem gastos pelo Erário, em nome do cidadão, com as eleições suplementares, aquelas que são realizadas quando a eleição regular de Prefeito e Vice-Prefeito é anulada pela Justiça Eleitoral em razão da cassação do mandato daquele que se elegeu por corrupção eleitoral, abuso de poderes ou compra de votos e cuja votação ultrapassou mais da metade dos votos válidos.

 

Nos termos do documento formalizado pelos chefes das duas instituições, a partir de informações disponibilizadas pelo TSE em vista do custo operacional do novo pleito que será realizado, o gasto público da nova eleição será cobrado pela AGU daquele candidato que lhe deu causa. Esta providência, que é prática e objetiva, pode ser inserida como um fragmento da Reforma Política.

 

De rigor, trata-se de uma medida inédita em termos de punição, não obstante a sua questionabilidade constitucional. Por não se tratar de um texto de lei e sim de um ato administrativo, a questão é passível de discussão no âmbito do Supremo Tribunal Federal vez que a determinação impõe custos ao cidadão sem que exista uma expressa previsão para tanto. Por outro lado, certamente esta é uma providência estatal que pode inibir àquelas candidaturas ou campanhas eleitorais onde pretendentes irresponsáveis “ganham mas não levam” em função de ilicitudes que praticam.

 

Se a causa que anulou o pleito é reprovável, nada mais sensato do que responsabilizar aquele que a determinou. Afinal, a regra é a normalidade. Nestes termos, em outubro passado o Ministério Público Federal do Mato Grosso postulou ao Poder Judiciário relativamente a um ex-prefeito cassado para que pagasse a nova eleição realizada.

 

De acordo com levantamentos do TSE, a União Federal já gastou cerca de R$ 6 milhões com os pleitos suplementares desde 2004, sendo que aproximadamente metade deste valor foi gasto entre 2010 e 2011. Ora, tais quantias são expressivas e deixaram de ser empenhadas para outras prioridades sociais. “É um dinheiro público, é um prejuízo, um dano que foi causado ao erário em função de um ilícito praticado e o nosso ordenamento jurídico autoriza, então, que esses danos sejam regularmente ressarcidos”, disse o Ministro.

 

Com absoluta razão o Presidente do TSE. Afinal, para qualquer pleito, convém lembrar, são necessários os pagamentos das despesas com o auxílio alimentação dos mesários, transporte das urnas eletrônicas, etc. Como de dezembro de 2008 para cá já ocorreram 176 novas eleições no país, sendo que outras quatro já estão agendadas para os meses de janeiro, fevereiro e março deste, algumas contas podem ficar bem salgadas. Com isto, em boa hora, o bolso passa a ser elemento integrante da democracia e da política.

 

Antônio Augusto Mayer dos Santos é advogado especialista em direito eleitoral, professor e autor dos livros “Reforma Política – inércia e controvérsias” (Editora Age) e “Vereança e Câmaras Municipais – questões legais e constitucionais” (Editora Verbo Jurídico). Às segundas, escreve no Blog do Mílton Jung.

De vivendo a vida

 

Por Maria Lucia Solla

 

Olá,

 

às vezes sinto que desperto de sono profundo, e vejo as coisas à minha volta com uma clareza difícil de descrever. Não sei dizer se é arte da mente ou do coração, mas é magia pura.

 

Hoje eu estava arranjando a mesa da sala para comemorar a vinda do meu filho Paulo, – o aniversário dele é na segunda-feira – e resolvi dar um jeito nos enfeites de Natal que ainda estavam em cima do aparador, esperando carona para ir para a sua caixa, descansar por mais um ano.

 

Peguei e curti um por um – bolinha, pinha com toque de dourado, laço vermelho, laço dourado, bengala do bom velhinho, o próprio, rechonchudo, sorridente, e toda a galera do presépio, presente do Marcos, para levá-los de volta para o tanto que lhes cabe neste latifúndio. Eles moram no meu quarto, num baú que pretendo mandar armazenar, desde o dia em que cheguei neste apartamento, para fazer lugar para uma cadeira de leitura. Daquelas de sonho, sabe? Costas bem acomodadas, coluna quase feliz, pernas posicionadas confortável e saudavelmente; uma cadeira perfeita. Uma lâmpada de leitura, aérea para não ocupar espaço, estrategicamente posicionada, e um aparador na parede, para os livros do momento – e só esses -, e uma ou duas xícaras de café ou chá, conforme a situação.

 

Então por um segundo pensei um pensamento rançoso, condicionado, envolvido em teia de aranha: cadeira de leitura? pra quê? pra quê perder tempo e jogar dinheiro fora, se vou deixar este apartamento quando vender? e se a cadeira não tiver espaço no outro apartamento ou casa onde vou morar? E a engrenagem pirou: pra quê pendurar quadros, se não vou ficar? pra quê isso, pra quê aquilo? E no quê dentro de mim disparava um programa novo, como um balão de surpresas que estoura e te enche de mimos, me dei conta de que, sim, um dia eu também vou deixar este corpo, e não é por isso que vou deixar de cuidar dele, que não vou viver a vida com fome e com sede, até me fartar dela. Então olhei para o lado e resolvi armazenar os amigos natalinos numa gaveta do armário ao lado da mesa, ou seja, foi como se o móvel tivesse me cutucado o ombro e dito: ei, ml, olha pra mim. Você não quer a tua cadeira? Esvazia o baú. Eu guardo isso pra você.

 

Sei que não é nenhum ovo de Colombo, mas em mim teve um efeito daqueles. Pelo que não posso ter, não quero mais chorar, mas vou atrás de tudo que achar possível. Não vou me escravizar por nada, mas não vou desistir também. Vou tentar fazer o que sempre prego: saborear o minuto como se fosse meu primeiro e último. Vou atrás de cada sonho possível, aceitar o que me faz sorrir e guardar feito tesouro, os bons momentos. Um toque, uma palavra, um olhar, um desejo.

 

E você? Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Na passarela do Morumbi

 

Por Dora Estevam

Tenho andado bastante pelas calçadas do Morumbi, zona Sul de São Paulo, em especial na Avenida Morumbi. Estes passeios são excelentes oportunidades para se perceber as coisas boas e ruins que estão em nosso entorno. Tem morador que conserva bem as calçadas e fachadas, além de manter seu espaço limpo. Pensa no bem estar dentro de casa e de quem passa do lado de fora, também. Outros esquecem que moram em uma cidade grande e imaginam que o bairro ainda é uma enorme fazenda, deixando as plantas e vegetação tomarem conta das calçadas, impedindo o passeio. Sem contar que muitas estão com o piso quebrado, intransitável. Notei, também, sacos de lixo colocados fora de hora da coleta, atrapalhando o caminho. A suprefeitura da região poderia aproveitar a nova lei das calçadas para iniciar fiscalização mais rigorosa.

 

Próximo do restaurante Casa da Fazenda, encontra-se um dos marcos da região, o portal que teria sido a entrada principal da grande fazenda que foi o bairro. Ocorre que bem neste trecho o portal toma conta de toda a calçada e nunca se preocuparam em criar uma passagem para pedestres, obrigados a andar e arriscar a vida na movimentada avenida. Para quem visita o local ou apenas está caminhando como eu, muito cuidado: o calçamento é irregular e a falta de uma tampa de ferro deixa a mostra um buraco perigosíssimo, cair lá é pé quebrado na certa.

 

O passeio segue em frente e me chamou atenção a existência de pontos de ônibus por toda extensão da avenida. Mais ainda: a gostosa área verde que se tem à disposição; pode-se sentir o perfume das flores e eucaliptos dispersos nas casas e muros. O movimento de pessoas e carros aumenta quando se aproxima o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. É notável a diferença do tratamento para a redondeza, em especial a limpeza e a segurança. Foi o único trecho no qual encontrei carro de polícia.

 

Mais adiante, descendo a Avenida Engenheiro Oscar Americano, as calçadas estão em fase de restauração. Em um bom pedaço, o morador – ou será a prefeitura ? – decidiu trocar todo o piso, está ficando ótimo. Mas cuidado, não vá com muita vontade que logo você terá problemas. Perto do Hospital São Luiz a calçada é horrível e para piorar fios da Eletropaulo estão pendurados na altura das pessoas, o que causa aflição. Na vizinhança tem de tudo, inclusive morador que coloca cones diante da casa para impedir que os demais estacionem. Esquisito, pois a rua é pública, e, pelo que sei, só não se pode parar na guia rebaixada, nas proximidades das esquinas e quando houver alguma restrição sinalizada com placas. Se não, vá em frente. Ou melhor, estacione. Mas o morador fez as regras dele. Merece uma visitante da CET.

 

O Morumbi é um bairro para quem anda de carro, não a pé. Em muitos dos faróis pelos quais tentei atravessar, em cruzamentos, não encontrei faixa de segurança e, em alguns casos, foi preciso arriscar e correr ara não ser atropelada. Eu escapei, ainda bem.

 

O caminho foi ficar mais gostoso na Avenida Cdade Jardim, não que a preocupação com a segurança diminua, mas as calçadas são amplas e mais bem conservadas, a medidas que tem muitos imóveis reformados. Para finalizar o passeio, atravessei a ponte e senti o mau cheiro do Rio Pinheiros, com água escura, espessa e cara de abandono total. Uma pena.

 

Mesmo que a área residencial anda predomine, existem atrações interessantes para quem visita o Morumbi: a Casa da Fazenda já citada, a Casa de Vidro da artista Lina Bo Bardi, a Fundação Maria Luiza (bárbara, vale muito a pena conhecer), a Capelinha com exposições e o estádio do São Paulo.não posso esquecer o icônico Hospital Alberto Einstein.

 

De todos os aspectos que me chamaram atenção ao transformar o bairro mais arborizado de São Paulo em minha passarela da ida “particular” é a vasta área verde em torno de casas e nas praças. Que Deus o proteja assim! E os moradores, também.

 

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: Competir com harmonia

 

Gestão de empresas e pessoas foi o tema da entrevista de Wandick Silveira, diretor-presidente do Grupo Ibemec Educacional, ao programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Ele falou da necessidade de as empresas criarem um ambiente de competição mas, também, de harmonia para motivar os colaboradores e reter talentos. Durante a entrevista, Wandick comentou, ainda, sobre os jovens de até 24 anos e a influência deles nas relações corporativas.

 

 

O Mundo Corporativo vai ao ar, quartas-feiras, 11 horas, no site da Rádio CBN (www.cbn.com.br) com participação dos ouvintes-internautas pelo Twitter @jornaldacbn e e-mail milton@cbn.com.br. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN