Direto da Cidade do Cabo
Além da mão inglesa – que ainda atrapalha a maioria dos turistas -, os britânicos que estiveram por aqui no século 19 parecem ter deixado outro legado para o trânsito da Cidade do Cabo: o respeito ao pedestre e ao ciclista. Parar antes da faixa de segurança e dar preferência aos que caminham e pedalam, é comum por aqui.
Foi neste ambiente que decidimos – eu e mais três colegas do Portal Terra – fazer um tour pela cidade de bicicleta. Tivemos de buscá-la no centro porque se a encomenda fosse no hotel custaria bem mais caro e a caução também seria maior. Com R 160, moeda local, algo próximo de R$ 50, você aluga uma bicicleta por 24 horas, e deixa o número do cartão de crédito à disposição para casos de desaparecimento.
O trajeto havia sido planejado com um mapa em mãos, mas logo o nosso caminho sofreu mudanças. Avenidas que nos levaram a passar por prédios modernos e calçadas largas foram escolhidas por curiosidade. A cidade que tem um pouco da cara do Rio de Janeiro, já que está na orla e tem o morro logo atrás, também abriga construções como as da avenida Berrini, em São Paulo (não me refiro a bom gosto, mas a dimensões). Isto se justifica por ser a capital legislativa da África do Sul, onde o Parlamento Nacional e vários escritórios do governo estão postados, além de ser um pólo comercial e industrial importante no país.
Mesmo o passeio tendo se iniciado logo após o meio-dia, o trânsito não chegou a ser uma barreira. Em algumas vias centrais era preciso prestar bem atenção para não sermos traídos pela mão invertida. Com exceção de um motorista que não pensou duas vezes ao fazer a conversão à esquerda para entrar na garagem, o que obrigou uma freada brusca, os demais parecem ser cuidadosos com os ciclistas – ao menos com estes que tem cara de turista.
Atravessar as ruas é tarefa facilitada pois todas as calçadas são acessíveis com guias rebaixadas. Nos locais em que não existem semáforos, a faixa de segurança é facilmente identificável seja pela pintura zebrada seja pelo piso diferenciado. Não há também aglomeração de pessoas circulando, o que permite pedaladas e paradas estratégicas para fotografia ou apenas para apreciar uma construção qualquer. Isto talvez seja resultado da baixa densidade demográfica de Cidade do Cabo. Cerca de 3 milhões e meio de habitantes vivem em uma área de 2.455km2 – bem mais extensa do que a maioria das cidades sul-africanas. Cálculo rápido:1.425 habitantes/km2.
Desnecessárias, talvez, e pouca utilizadas, com certeza, encontramos faixas exclusivas de bicicleta com sinalização horizontal e nos postes em parte do nosso caminho que a esta altura do campeonato já se aproximava de Waterfront, onde se encontra um complexo de lojas, bares e hotéis. Elas, por sinal, estão em rotas turísticas o que me leva a entender que tem como objetivo os que pedalam por lazer.
Questiono a necessidade das ciclofaixas demarcando a área pelo fato desta ser, claramente, uma cidade amigável dos ciclistas. Parece que mesmo sem estes sinais, o respeito seria mantido, como vimos nos trajetos em que a ciclofaixa não existe.
Quanto a utilização das mesmas, nosso passeio que durou cerca de 3 horas deu a impressão de que a bicicleta está na cidade apenas para quem se diverte, não para quem trabalha. Cruzamos por pouquíssimos ciclistas em todo o caminho que fizemos.
Caminho, aliás, que foi ganhando contornos ainda mais bonitos quando nos aproximamos do porto, área muito bem aproveitada que mistura o movimento de carga e descarga de navios com a exploração turística do local. Ali tivemos que pedalar com muito cuidado, devido ao grande número de pessoas, a maioria torcedores devidamente identificados, seja pelas camisas, seja pelos gritos.
Saindo da aglomeração, procuramos a Beach Road, que não se perde pelo nome, e encontramos quebra-mares curiosos, feitos de cimento em formato de âncoras gigantes. Trajeto que só foi possível porque estávamos de bicicleta. De carro teríamos ido embora sem prestar atenção no local. Este é um dos grandes baratos do passeio de bicicleta. Conseguimos enxergar melhor a cidade.
Foi de lá que tivemos das melhores visões do Green Point, estádio que será inaugurado na sexta-feira com a partida entre França e Uruguai. Chegar até ele passou a ser nosso novo objetivo, apesar de o mar batendo do lado direito também nos chamar atenção. O caminho é todo margeado por prédios novos com muitos apartamentos abrigando torcedores – tais eram as bandeiras esticadas nas sacadas.
Foi a possibilidade de nos aproximarmos do estádio que nos deu fôlego para continuar com a pedalada. No entorno do Green Point, as ciclofaixas estão delimitadas sobre as calçadas, com espaço para ida e volta, além da faixa dos pedestres. As placas alertam que lá é proibido parar automóveis em dias de evento. Em compensação, o número de vagas para os carros é enorme na área de estacionamento, o que faz com que o jornalista sem credencial ou o torcedor sem ingresso tenha de permanecer distante.
Depois de apreciar esta construção polêmica – por seu custo e local (outro dia conto esta história) – e muito bonita, nos restava voltar para “casa”. Afinal já estávamos a quase 3 horas pedalando.
A facilidade com que o deslocamento foi feito, a beleza das áreas pelas quais passamos e as novidades do caminho evitaram o cansaço deste que é ciclista nas horas vagas e pouco acostumado a fazer esta aventura em São Paulo, cidade que, infelizmente, não é amiga da bicicleta.







Um sistema semelhante é usado há cerca de 10 anos em cidades do Canadá, conforme mostramos no post 


