A incerteza certa da vida

Por Beatriz Breves

Sabe aquelas situações tão inusitadas que, quando acontecem, ficamos sem acreditar?

Uma delas aconteceu de verdade com uma professora primária que trabalhou durante 16 anos em uma escola, lecionando da 2.ª à 4.ª série. Quando chegou o momento de se aposentar e requereu ao INSS a aposentadoria especial de professora, foi informada de que aqueles 16 anos não poderiam ser computados como exercício do magistério porque o CNPJ da instituição não correspondia ao de uma escola.

Há um detalhe que torna a situação ainda mais surpreendente: essa escola funcionou durante cerca de 80 anos na cidade do Rio de Janeiro e já havia encerrado suas atividades havia pelo menos dez anos.

Como pode?

Como é possível alguém ter sido professora de uma escola, milhares de alunos terem passado por suas salas de aula e concluído ali o ensino fundamental e médio e, décadas depois, surgir a informação de que, formalmente, aquela instituição não era uma escola?

A pergunta que imediatamente nos ocorre: e os certificados emitidos durante todos esses anos? Não teriam validade? Estariam milhares de alunos, que ali estudaram ao longo de oito décadas, diante da possibilidade de descobrir que seus estudos não possuíam valor legal?

Não pretendo entrar aqui no mérito jurídico da questão, tampouco no aspecto moral que ela possa envolver. Deixo essas considerações para que cada leitor tire suas próprias conclusões.

O que me interessa é outra coisa.

Interessa-me pensar sobre o improvável que, tantas vezes, atravessa a vida e nos deixa perplexos, justamente porque aquilo que parecia impossível, de repente, torna-se realidade.

E, para compreender isso, talvez seja necessário olhar para a trajetória humana não como uma linha previsível, mas como um sistema não linear e caótico.

Se tudo aquilo que vivemos — nosso passado, nossa história, nossas relações e até nossas expectativas de futuro — encontra-se, de alguma maneira, condensado no instante do Agora, então esse instante necessariamente participará da constituição do instante seguinte.

O fato é que o ser humano se encontra permanentemente inserido em outros sistemas — familiares, afetivos, profissionais, sociais, culturais — e em contínua interação com eles. Por isso, a cada instante, já não somos exatamente aquilo que éramos no instante anterior e tampouco podemos saber, com absoluta certeza, aquilo que seremos no próximo.

Em um sistema não linear e caótico, os acontecimentos não se sucedem simplesmente por uma relação direta e proporcional entre causa e efeito. O sistema se retroalimenta, recebe continuamente novos elementos, sofre interferências e se reorganiza.

Nós também.

A todo instante somos afetados por acontecimentos, encontros, decisões, acasos, escolhas próprias e escolhas de outras pessoas. Cada nova interação passa a integrar o sistema e participa daquilo que acontecerá depois.

É justamente essa dinâmica que introduz uma dimensão de imprevisibilidade na trajetória humana.

Um acontecimento aparentemente insignificante ocorrido hoje pode, ao se articular a uma sucessão de outros acontecimentos, produzir consequências muitos anos mais tarde.

É aqui que podemos compreender o conhecido efeito borboleta.

Uma pequena alteração nas condições iniciais de um sistema pode, ao longo do tempo, produzir efeitos de enorme magnitude.

Em meu livro Entre o Mistério e a Ignorância, ao abordar o efeito borboleta, recorri a um antigo provérbio de George Herbert (1593–1633), citado por Gleick para mostrar como um acontecimento aparentemente mínimo pode desencadear consequências de grande alcance (BREVES, 2021, p. 20):

Por falta de um prego, perdeu-se a ferradura;
por falta de uma ferradura, perdeu-se o cavalo;
por falta do cavalo, perdeu-se o cavaleiro;
por falta do cavaleiro, perdeu-se a batalha;
por falta da batalha, perdeu-se o reino.

Portanto, por falta de um minúsculo prego, perdeu-se um reino.

A força desse provérbio está justamente em mostrar que aquilo que parece pequeno no presente pode tornar-se decisivo muito adiante.

E assim também acontece em nossas vidas.

Gostamos de imaginar que possuímos uma rotina relativamente predeterminada: amanhã acordaremos, cumpriremos nossos compromissos, seguiremos nossos projetos e, de alguma maneira, continuaremos a trajetória que já conhecemos. E provavelmente grande parte disso acontecerá.

Mas basta um pequeno acontecimento não previsto para que uma nova sequência se inaugure.

Uma pessoa que encontramos por acaso; um telefonema; uma decisão aparentemente banal; um documento preenchido décadas antes; uma informação incorreta em um cadastro. E o instante seguinte já será outro.

No caso daquela professora, algo ocorrido — ou deixado de ocorrer — muitos anos antes permaneceu silencioso durante toda uma trajetória profissional. Ela trabalhou, ensinou crianças, participou da vida de uma escola e construiu sua história como professora.

Décadas depois, aquele pequeno elemento administrativo reapareceu e interferiu diretamente em seu instante do Agora, em seu momento presente.

Talvez seja justamente isso que a teoria do caos possa nos ajudar a compreender sobre a experiência humana: a vida possui continuidade, mas não possui uma trajetória inteiramente previsível.

Somos história, somos relações, somos escolhas, mas também somos acontecimentos.

E o Agora, embora carregue tudo aquilo que fomos, permanece sempre aberto às inúmeras possibilidades daquilo que ainda poderemos ser.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Eu já sei!

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Imagem de @anapaula_feriani por Pixabay

Nossa mente é uma estrutura interessante. Gosta muito de pensar, falar, falar, falar … Volta para o passado, vai para o futuro, pula para fora da gente, vem para dentro e fica ruminando, elocubrando, criando hipóteses e ideias.

Ela também parece muito dona de si:  “Fulano não gosta de mim”; “Que absurdo o que aquela pessoa fez”; “Tenho certeza de que não vou conseguir”; “Não tenho sorte na vida”; “A humanidade está perdida”. Veja só como acredita que já sabe muitas coisas, várias “verdades”.

Então, nós pegamos nossa mente “muito sábia” e saímos por aí. Já adivinhamos o que as pessoas pensam sobre nós e quais são as intenções escondidas delas. Também prevemos nosso futuro e concluímos que há coisas que nem vale a pena tentar, porque não darão certo mesmo. E conhecemos várias regras sobre a vida, a sociedade, a política, a economia, o comportamento humano…

Não temos mais o que aprender. Não precisamos observar o que está acontecendo para entender, de fato, quais informações devemos considerar ao formar nossas ideias e opiniões. Bloqueamos conceitos novos acontecimentos diferentes do que esperávamos, simplesmente porque nossa mente já sabe tudo. Afinal, por que gastar tempo e energia com isso?

É uma questão de economia. É isso que o cérebro faz. Ele quer trabalhar o mínimo possível, então deixa nossa mente bem rígida e fechada: “Não precisamos de mais nada. Já sabemos.” Percebeu a armadilha?

Caímos nesse buraco do isolamento, da ignorância, da pequenez. Embora possamos  expandir conhecimentos, estratégias, planos e possibilidade, não o fazemos. Preferimos  “sentar na nossa verdade” e permanecer ali, restritos.

E se trocássemos o “Eu já sei!” pelo “Me fale mais…”? E se trocássemos o buraco pela abertura, pela curiosidade e pela expansão?

Pense comigo: para que ficar preso se é possível voar?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

6 ou 9, uma questão de perspectiva

Por Beatriz Breves

Foto de Erik Mclean no Pexels.com

Muitas vezes, a polarização entre duas ou mais pessoas se torna inegável. É comum que cada lado tente convencer o outro de que detém a verdadeira versão dos fatos. Nesse movimento, amizades antigas se rompem, famílias se desentendem, casais se afastam; enfim, pessoas queridas se perdem ao longo da busca pela suposta “verdade”.

A divergência de ideias, quando acompanhada de emoções intensas, cria ruídos que se acumulam até provocar um verdadeiro curto-circuito nas relações.

Costumo dizer que, quando estamos falando de pessoas de boa índole, a opinião em si importa muito menos do que parece. Na maioria das vezes, tratando-se do mesmo assunto, o que muda não é a essência da ideia, mas o ângulo a partir do qual cada um enxerga a situação.

É nesse ponto que a metáfora do número 6 ganha força. Duas pessoas, se estiverem frente a frente, cada uma com o número voltado para si, verão coisas diferentes: para uma, trata-se de um 6; para a outra, de um 9. Embora estejam diante do mesmo símbolo, encontram-se, ao mesmo tempo, diante de dois números distintos. Ambas acreditam estar certas e, sob a perspectiva em que se posicionam, realmente estão. Assim, duas pessoas podem contemplar o mesmo ideal e, ainda assim, interpretá-lo de maneiras completamente diferentes.

A polarização surge, muitas vezes, da insegurança diante do diferente: o medo de que, ao escutar o outro, se perca o rumo dos próprios ideais e, portanto, de si mesmo. Soma-se a isso a dificuldade de lidar com sentimentos intensos, tornando o caminho para o diálogo mais árduo. Assim, em vez de se aproximar, a pessoa se afasta; em vez de escutar, ataca; em vez de perguntar, julga.

Há, porém, algo ainda mais curioso nessa metáfora e que muito pode nos ensinar. Quando aproximamos a visão do 6 da visão do 9, contemplamos o número 69. Nesse encontro, não há mais disputa sobre quem está certo, porque aquilo que antes era oposição se transforma em complementaridade, simbolizando integração, reciprocidade e a possibilidade de duas perspectivas coexistirem. Não se trata de transformar o 6 em 9 ou o 9 em 6. Cada um permanece o que é. Trata-se de reconhecer que ambos podem compor algo maior quando colocados, lado a lado, de forma harmoniosa.

Talvez seja justamente essa a habilidade que falte a algumas pessoas: a capacidade de transformar o embate em encontro; lembrar que discordar não significa desarmonia; aceitar que ninguém enxerga tudo sozinho; trocar certezas rígidas por curiosidade genuína. Quando percebemos que o ideal é comum, mesmo que as ideias sejam divergentes, abrimos espaço para o diálogo, para a convivência e para a construção conjunta.

No fim das contas, entre os números 6 e 9 existe apenas um giro de perspectiva. E, quando esse giro acontece, o que antes separava passa a unir. É nesse movimento que nasce o número 69 — não como consenso, mas como convivência possível e amadurecida.

Entretanto, é preciso lembrar que somos seres humanos, dotados de grande complexidade, com um mundo interno repleto de sentimentos que, se não forem bem administrados, podem gerar disputas, segregação e desavenças. Por isso, não será surpresa se, mesmo quando os que veem 6 e os que veem 9 se integrarem, surgir alguém que diga que, na verdade, o número é 96. E isso não seria necessariamente destrutivo ou ruim. Pelo contrário: é justamente entre a integração e a divergência que emergem novos caminhos, ampliando horizontes e dando origem a novas ideias.

O importante é reconhecer que, assim como os números 6, 9, 69 ou 96, as ideias também podem assumir formas distintas, desde que o ideal permaneça ético, digno e coerente. É essa ética compartilhada que fortalece o ideal comum e as relações.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

De incerteza

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Olá,

 

peço licença para compartilhar um texto que escrevi em agosto do ano passado, aqui para o blog do Mílton Jung. Como as ideias insistem em me boicotar, fui espiar para saber por onde se embrenhava minha reflexão, há um ano. Sabe como é, olhar no espelho do tempo faz bem. A percepção também é íntima dele.

 

Nós, filhos dos homens, nascemos e renascemos infinitas vezes numa vida só. Sempre sós. Todos nós. Ressuscitamos como nos fez ver o filho Dele, e a cada ressuscitar temos oportunidade de ver o novo a piscar. Tudo sempre novo. É paralisar, ou experimentar e enfrentar. Nos esforçamos no entanto para acreditar que tudo continua como era, pelo medo de soltar o velho, de deixar ir a dor e o prazer conhecidos, mas nada continua. Nada permanece. Vida é pura, e simplesmente, impermanência. Repetimos o que ouvimos, dizendo que vida é movimento, do mesmo modo que rezamos o Pai Nosso e a Ave Maria, como dizemos eu amo você, como dizemos quase tudo o que dizemos. Sem sentir. Sem verdade. O som corneteia pela boca, acostumado e apressado que é, e amordaça a alma. Usamos frases já feitas para não corrermos o risco de aceitar que nada é como antes, não é, Mílton Nascimento?

 

Rugas redesenham nossos corpos, a pele cansada de se agarrar em nós se afasta e a gente renasce. Sempre. Tem quem coleciona dores, tem os que preferem amores, os que miam e os que criam, os que param enquanto outros se preparam e os que se queixam, com medo de continuar, com medo de se olhar de perto. Param no ponto.

 

Passa uma, passa outra oportunidade, e nos esquivamos delas com medo de embarcar em mais uma viagem divina, aqui na Terra. Mas está ali, ao alcance da mão, sempre. Se a gente consegue se distanciar um pouquinho que seja do próprio ego, percebe que a certeza é só fumaça aprisionada por ele, fumaça que asfixia a incerteza, parteira do renascer.

 

É isso.

 

Entendi que fui até ali só para lembrar que certeza é fumaça aprisionada pelo ego.
Até a próxima inspiração, ou não…

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De ignorância e inconsciência

 

Por Maria Lucia Solla
(revisitando texto de 26 de maio de 2007)

Estava aqui pensando sobre a relação entre ignorância e inconsciência. Teria Sócrates dito “só sei que nada sei” quando se deu conta de que não há começo e nem há fim?

há que reformular a certeza
há que manter acesa a disposição
de mudar de posição
de ver a vida de ângulo diferente
para descobrir a verdade surpreendente

sobre a mesma-e-velha coisa
a gente alicerça tanta certeza
que perde do entorno a beleza
tropeça nos tocos que constrói
e chora e diz ai dói

permitimos que mania e certeza
nos tomem de assalto
feito erva-daninha
e vivemos em continua ladainha

cercados de pura chatice
vivemos patinando
entra idade sai idade
morrendo de medo da felicidade

afinal o modelo é senho franzido
critico de tudo
insatisfeito o tempo todo
vivendo preocupado
sem tempo de viver

a humanidade já teve de aceitar que estava errada
quando achava que a Terra era quadrada

Achamos que o sol girava em torno de Nossa Santa Grandiosidade, lembra? Até que Nicolau e Galileu, um pisciano polonês e um aquariano italiano, que gostavam de olhar para o céu, e olhavam, perceberam que a terra dava uma volta em torno de seu eixo, uma vez por dia, e em volta do sol, uma vez por ano. Acordamos para as evidências em relação ao planeta, mas ainda não, em relação a nós, pobres seres humanos. Ainda nos acreditamos sóis. Matamos por verdades. Morremos por elas.

Hoje sei que se ignorância é não saber o que existe à volta, inconsciência é não saber o que existe dentro. Se ignorância nos faz perder a dignidade como ser terreno, inconsciência nos faz perder a dignidade como ser cósmico.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza cursode comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

De Certeza e de Deus

 

Por Maria Lucia Solla

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O mundo externo, e consequentemente o interno, tem passado por poucas e boas.
Nada é. Não há certeza. Ou melhor, certeza nunca houve, mas nós nos agarramos e continuaremos a nos apegar a tristes arremedos dela.

De religiões e dogmas, desisti há muito. Era levada por ventos curiosos, mas não me entregava nunca. Mesmo babando de inveja da certeza dos que a tinham; mesmo doida por pertencer a uma tribo que me acolhesse, cedo percebi que essa acolhida custava caro demais. Preço que eu não queria pagar.

Quanto a certeza, com a dose de incoerência que todos temos no cardápio – confessemos ou não -, ainda me pego indo atrás de uma ou outra, no fim. No entanto, enquanto cobiço uns pares delas, também quero me livrar das que teimam em se agarrar em mim.

O vazio de certeza, no início, dá insegurança. Como nos primeiros passos não encontrar estendida a mão da proteção. Como pedalar pela primeira vez sem as rodinhas de trás, ou pular na piscina e não ver a cara molhada e divertida do pai acenando; dando a mão.

O homem se separou da Natureza e de Deus, e disputa, a unha, certeza por certeza. Por vezes, a tiro. Paga por ela, morre por ela. Ajoelha-se e vende a própria alma por um vislumbre dela; e no entanto, à única certeza irrefutável, que é nossa de graça, viramos as costas e nos recusamos a aceitar.

a morte do corpo material
a viagem é de ida e volta
ponto final

Hoje, só não percebe quem não quer: a vida aperta a porca, e o parafuso penetra a carne e é então que é preciso aceitar que na dor há propósito; ela nos impulsiona a encontrar a via que desemboca na harmonia, que é o modus operandi da Criação. Se não fosse assim, se Ela não fosse movida a ritmo, harmonia, equilíbrio e perfeição

os planetas se chocariam uns contra os outros em frenética dança egocêntrica
o Sol viria espiar a Terra e nos exterminaria com uma lambidas de suas régias labaredas
a lua preguiçosa apareceria de quando em quando de luz opaca e sonolenta
as estrelas sairiam em caminhada pelos céus de outras galáxias
e seríamos sem elas ainda mais tristes

Eu não estaria aqui esperneando na busca do equilíbrio e da harmonia pessoal.
Da minha sanidade mental.

E como isso tudo me remete a Deus, lembro que quando menina eu tinha certeza Dele, mas sentia pena do Deus da minha certeza, e chorava. Ouvia dizer que Ele era maior e melhor que tudo e todos, e isso me levava a pensar um Deus material, velho, barbudo, sisudo, distante e solitário. Um Deus que julgava, condenava e tinha preferências entre os humanos e suas tribos. Se não fizéssemos o que Ele determinava, nos expulsava de seu Reino e nos virava as costas. Para sempre. Isso me perturbava, trazendo ansiedade,
aos sete anos de idade.

Eu pensava um Deus eterno que sofria de solidão eterna. Sem amigos! Quem
pode ter amigos sendo melhor e maior que todos!

mas voltando a certezas confesso
escrevo para delas me livrar
não para novas conquistar

E enquanto isso você, do outro lado da tela, ouve meus ais e uis nascidos da birra de não ter o que quero, quando quero, nascidos da frustração. E eu não jorraria palavras, ipis e urras, britados da satisfação.

E sem certezas, não tenho resposta pronta nem mapa do tesouro. Não tenho a pretensão de explicar o Divino e Seus desígnios. Não tenho receita para o meu nem para o teu bem-estar. E vou vivendo.

E Deus?
Hoje, dele não tenho certeza.
Eu o sei, o sinto e o percebo nos meus momentos de lucidez.

mas quando me deixo tomar por uma ou outra certeza
sofro e o resultado é nefasto
isso acontece sem dúvida
quando eu Dele me afasto.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung com fé e certeza nas suas incertezas