Fora da Área: a cara da nossa torcida na Copa 2014

 

A Copa das Selfies registrou nos 48 jogos da fase de grupos o envio de mais de 32 milhões de fotos, segundo informou Ethevaldo Siqueira, no quadro Mundo Digital, do Jornal da CBN. O SindiTeleBrasil, que reúne as empresas do setor, relatou que durante essas partidas foram feitas 2,5 milhões de ligações telefônicas e em torno de 31 milhões de conexões para envio de dados. A frente de todos esses números, estão milhões de torcedores que foram aos estádios ou curtiram a festa do futebol. Para ilustrar essas marcas, convidei ouvintes do Jornal da CBN a enviarem suas fotografias pelo Twitter @jornaldacbn. Consegui reunir 77 fotos, algumas de colegas nossos da rádio como você poderá ver no painel a seguir:

 

Mais Brasil

 

Por Nei Alberto Pies
professor e ativista de direitos humanos

 

Desde a Copa de 98, escrevo sobre a realização das Copas do Mundo e a participação da Seleção Brasileira neste grande evento esportivo. Acredito que estádios de futebol representam para os brasileiros “espaços de construção de identidade, de cultivo de bons valores humanos e espaço para viver e experimentar os melhores relacionamentos”. Acredito que, em todas as Copas do Mundo, brasileiros e brasileiras fazem uma revisão de si mesmos, jogando com seu orgulho, sua cidadania e seu amor à Pátria como componentes fundamentais da identidade brasileira.

 

Em 2014 não faltaram aqueles que quiseram ensinar um novo jeito de torcer por esta nação e pelo futebol brasileiro, sendo contra aquilo que vem de nossa alma e nossa essência: o gosto pelo futebol. Mas “erraram o pulo”, pois para a imensa maioria, o futebol reflete as diferenças, os potenciais, os talentos e a criatividade. O futebol representa muito do nosso povo, de sua postura e de sua vontade de vencer e apresentar-se ao mundo.

 

O Brasil não precisa mais impressionar ninguém, em nenhum quesito, muito menos no futebol. O Brasil deve se fazer respeitar por tudo aquilo que tem de bom e todos os brasileiros deveriam orgulhar-se do país que somos. Esta é a atitude fundamental para continuarmos lutando, diariamente, por um Brasil cada dia melhor. Este imenso país possui um povo que não pode ser subestimado por sua inteligência, criatividade e ousadia.

 

O falso pessimismo que tentaram imprimir neste país tem a ver com a resistência às mudanças substantivas que ocorreram no Brasil nos últimos anos, para a maioria dos brasileiros. Tem a ver com a ampliação das possibilidades democráticas de vivermos a cidadania, nem sempre bem vistas por aqueles que se sentem donos desta nação. Tem a ver com um novo e importante advento que se aproxima: as eleições gerais.

 

Os brasileiros provam, mais uma vez, que a maior riqueza está na garra, na fé e na esperança que se fazem na luta cotidiana de cada cidadão e cidadã brasileira. Os brasileiros manifestaram que querem mais do que já conquistaram, mas sabem que não existem mágicas nem ideias “mirabolantes” que irão mudar o percurso da ampliação de sua cidadania.

 

Emprestamos nossa terra, nossa altivez e nossa cultura para a realização do maior espetáculo do mundo. Sem medo de expor ao mundo nossas contradições, durante a realização da Copa do Mundo, fomos nos alimentando daquilo que mais temos de bom. Apesar de excessos de uma minoria, unimos os nossos sentimentos de brasilidade nos mais equidistantes rincões e comunidades deste país.

 

A Copa do Mundo pode não trazer título à nossa Seleção, mas já nos trouxe de volta o que queriam nos tomar: a fé e a esperança de que nosso país vai dar certo! Brasileiro de verdade acredita no Brasil e age nas horas certas. Sabe que este país tem uma enorme dívida com a cidadania e com a falta de oportunidades para com a maioria dos brasileiros: pobres, explorados, sem estudo, sem trabalho, sem saúde, sem dignidade. Esta conta quem vai pagar é a nossa rica nação brasileira e quem deve exigir é a organização e a luta da coletividade, agora alimentada por um sentimento de “mais Brasil”.

Fora da Área: quem chora por último chora campeão

 

 

Chorei muito na vida. Nas conquistas pessoais, nas vitórias de amigos e nas mortes, também. Nas arquibancadas do velho Olímpico Monumental chorei muitas derrotas. Os colegas mais próximos começavam a me preparar a medida que o jogo se aproximava do fim, pois sabiam que meu choro era inevitável diante da partida perdida. Quando fui para dentro do campo ou das quadras, chorei mais ainda. De alegria, mas principalmente de raiva por não alcançar os resultados que sonhava. Chorava ao ver injustiças acontecendo à minha frente. Às vezes o choro me levava ao descontrole e as lágrimas se transformavam em violência. Tinha de me conter. A maioria das vezes, ser contido. Ao deixar o esporte competitivo, voltei a chorar de emoção em especial nas vitórias de meu time do coração. O esporte, sempre o esporte a mexer comigo. O mais feliz de todos os choros foi na incrível conquista da Segunda Divisão, em 2005, quando o Grêmio foi protagonista da Batalha dos Aflitos. Naquele dia, levei os filhos a chorar, também. E não tive vergonha. Me orgulhei. Até hoje quando revejo o filme que conta essa epopeia, os olhos enchem de água. Encharco as vistas com muito mais facilidade do que se possa imaginar, às vezes com notícias que me tocam, favores que recebo ou me permitem oferecer.

 

Talvez é de tanto chorar que não me surpreende a reação dos jogadores brasileiros nesta Copa. A cantoria do hino à capela nos estádios tem tocado muitos deles. É nítida a tensão com que cada um está enfrentando a responsabilidade de disputar o Mundial dentro do Brasil. São todos muito jovens e forjam suas personalidades jogo a jogo. A reação de Julio Cesar antes de partir para seu maior desafio, a cobrança de pênaltis na decisão da vaga às quartas de final, contra o Chile, chegou a me assustar, pois transparecia insegurança. Descobrimos, após duas defesas, que era apenas agradecimento pelo destino lhe oferecer a oportunidade de reescrever a história na seleção. Os olhos marejados de Thiago Silva, o capitão, desde a primeira partida, poderiam embaçar sua liderança, mas a torna transparente e humana. Nada disso, porém, tem convencido muitos críticos e torcedores que se incomodam com os chorões da nossa seleção. Não é por acaso. Crescemos ouvindo que homem que é homem não chora. Meninos não choram (Boys Don’t Cry), é o que diz o refrão da música do The Cure, que conta a história de personagem que ri diante do sofrimento do amor perdido, “escondendo as lágrimas em meus olhos”.

 

Os meninos do Brasil não escondem as lágrimas de seus olhos. Não têm vergonha da sinceridade de suas lágrimas. E compartilham seu choro com toda a Nação. Que continuem a nos fazer chorar, também. Até a final desta Copa do Mundo, porque quem chora por último, chora campeão.

Fora da Área: com sofrimento, emoção e lágrimas ganhamos os que torcem pelo Brasil

 

 

Falei com o pai por telefone pouco antes de a partida começar. Assim como na minha, na casa dele também tem quem não torça pela seleção do Brasil. Sentimento que, confesso, não consigo entender especialmente em Copas do Mundo. Não que as pessoas tenham o dever de vibrar com as coisas do futebol, mas bem que poderiam ser solidárias aos milhões de brasileiros que buscam na bola o prazer do sorriso. Mas vamos deixar para lá tudo isso, afinal este texto é para comemorar a passagem do Brasil às quartas de final e o iniciei pela conversa que tive com meu pai porque ele havia me perguntado quem seria o maior torcedor da seleção aqui em casa. Respondi de bate-pronto que era eu, pois os meninos nunca tiveram esta ligação que tenho com o futebol e muitas vezes assistem às partidas de canto de olho, pois o grosso do olho está voltado para as acirradas disputas no League of Legend, jogo eletrônico com maior número de adeptos no mundo, no qual ambos são craques. Verdade que, nesta Copa, o interesse deles aumentou de forma considerável, provavelmente resultado do barulho que o Mundial provoca na internet e entre colegas na sala de aula. Saiba, porém, caro e raro leitor deste blog, que após ter visto o que vi durante a disputa de vaga contra o Chile vou ter de voltar a ligar para meu pai e corrigir a resposta.

 

Diante da televisão, a medida que o Brasil revelava-se incapaz de apresentar um desempenho a altura da nossa expectativa, meus dois guris, sentados, um no sofá e o outro no piso, sofriam como somente os torcedores de futebol sabem sofrer. Um esfregava as mãos no rosto insistentemente, enquanto o outro se agarrava nas almofada como tentando se proteger dos riscos de gols que surgiam a cada falha do nosso sistema defensivo. Um se calava, querendo entender por que o Brasil não era capaz de ficar com a bola em seus pés, enquanto o outro praguejava para se desfazer do nervosismo. Compartilhavam comentários sobre o sumiço de Neymar e a tentativa de drible de Neymar; o erro de Hulk e a tentativa de chute de Hulk; a ineficiência de Fred e a de Jô, também; o toque de bola do Chile, a velocidade do Chile. Pô, o Chile de novo!Que susto! Juntos reclamamos o gol anulado, a falta não marcada e o impedimento assinalado, mesmo sabendo que o juiz tinha razão. Torcemos pelo fim do jogo, pois temíamos o gol adversário. Ficamos satisfeito com o Brasil da prorrogação e com medo da decisão nos pênaltis. Que isso! Gritamos antes do silêncio que tomou conta da sala na bola que explodiu no travessão de Julio César no último minuto de jogo.

 

A vaga decidida nos pênaltis era novidade para eles em Copa do Mundo. Assisti de mãos dadas com o que estava mais próximo. Mãos que suavam frio. Que tapavam os olhos. Que se contraíam na cobrança chilena. Que se contorciam na cobrança brasileira. Que socavam o ar na comemoração de cada gol marcado e voltavam a se juntar por Júlio César. Angústia transformada em alegria na bola final que bateu no poste, e em pura emoção ao vermos as lágrimas do nosso goleiro que chorou copiosamente diante das câmeras, diante do Mundo – cena que me dá a certeza de que raras atividades permitem a dor e a redenção em praça pública como o futebol. E por isso sou um torcedor de futebol e fico ainda mais feliz em descobrir que meus filhos, também.

Fora da Área: confesso minha infidelidade na Copa

 

 

Desde que a Copa se iniciou tenho me transformado em um vira-casaca de carteirinha – no futebol, vira-casaca é como chamamos o torcedor que troca de clube, que torce um dia para um, outro dia para outro. Você, caro e raro leitor deste blog, sabe bem que de time não mudarei jamais. Serei gremista até a morte (apesar de que gremista é, por tradição, imortal, ou pensa ser). Já registrei neste blog, também, o quanto e por que torço para a seleção brasileira. Sendo assim, quando Grêmio e Brasil estiverem em campo, não tenha dúvida de que lado estarei. Agora, quando estamos diante de uma Copa do Mundo, onde 32 seleções se enfrentam, e você assiste a praticamente todos os jogos, o coração fica despedaçado. Claro que eu poderia apenas ver as partidas como um admirador do esporte, mas sou muito passional para não ser conquistado por uma ou outra seleção que esteja em campo.

 

Uso alguns critérios pouco confiáveis para decidir se comemoro um gol ou não. Por exemplo, por Jung que sou nada mais natural do que sempre estar ao lado da Alemanha. Posso debandar para a Itália em homenagem ao Ferretti que carrego no sobrenome. Uruguai e Argentina merecem minha admiração pela proximidade com o Rio Grande do Sul, onde nasci. Conheci os países do Cone Sul antes mesmo de viajar para qualquer estado brasileiro. Tem ainda os Estados Unidos onde nasceram e ainda moram três dos meus sobrinhos, ou a Inglaterra que o filho mais velho admira pela língua, ou a Coreia do Sul que o mais novo gosta devido aos costumes e ao videogame.

 

Agora mesmo estão jogando Alemanha e Estados Unidos enquanto na outra partida está Portugal e Gana. Seria bom ter os portugueses na próxima fase, pois gosto de craques como Cristiano Ronaldo, mas a seleção não ajuda muito. Os alemães tem vários deles e não precisaria da minha torcida, no entanto é admirável a forma como jogam e sei que lá em casa, em Porto Alegre, tem gente feliz. Ao mesmo tempo é louvável o esforço dos americanos em praticar o esporte e isto me entusiasma durante a partida em alguns momentos. Os ganeses, depois de todas as confusões, não mexem comigo. Nesse vai e vem de emoções, torço por um gol aqui, quem sabe a reação acolá. E, talvez, se o empate vier, por que não uma virada? Vibro com jogadores que lutam de forma destemida mesmo diante de todas as suas limitações, por isso esperei um gol do Equador contra a forte França, na penúltima rodada. Comemorei toda vez que Messi marcou, em especial no finzinho daquele jogo com o Irã, apesar de estar achando incrível o que os iranianos conquistavam até aquele momento frente a uma das seleções favoritas ao título. Aplaudi todos os gols de Inglaterra e Uruguai quando fui à Arena Corinthians.No fim, percebo que o que mais quero nesta torcida da Copa é assistir a jogos bastante disputados, bola rolando com qualidade e jogadores se expressando com raça. Torço para ser testemunha da história que alguns desses personagens incríveis estão escrevendo.

 

Chegamos à segunda fase da Copa e pela forma como foram definidos os confrontos para as oitavas de final, percebo que ainda vou exercitar muito a minha infidelidade de torcedor. Menos amanhã, porque amanhã é Brasil. E eu sou fiel torcedor do Brasil.

Nem os deuses do trânsito salvam

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sei que há quem se dá ao trabalho de ler o que escrevo no blog do Mílton. Não penso que sejam muitos esses abnegados.Tenho por eles (ou ele?),como não poderia deixar de ser,grande respeito. Por isso,afora outros cuidados,lembro que digito o texto nas terças-feiras,mas esse somente é postado nas quintas.Assim,sou obrigado,dependendo do assunto,a correr o risco de que ele fique defasado. Vou usar,no do dia 26,um subterfúgio. Isto é,morador que sou de Porto Alegre,só não sofro com o trânsito caótico dos dias de jogos da Copa do Mundo na Arena da Beira-Rio,porque fico acoitado – ou quase isso -em minha casa. Morador,que sou,da Zona Sul,sofro com a proibição de ir,pelas vias normais,ao Centro da cidade. Já as anormais,que aumentam o trajeto uma enormidade e não contribuem em nada com a velocidade do deslocamento,só podem ser utilizadas por quem tem necessidade de chegar,depois de gastar muito combustível e torrar a paciência,ao local de destino.

 

Nesta terça-feira,estou redigindo o meu texto e lendo na Zero Hora,jornal gaúcho,esta manchete: “PARA (TENTAR) EVITAR O CAOS NO TRÂNSITO”

 

Explica o matutino que,”depois dos congestionamentos no dia de Austrália x Holanda,a EPTC – Empresa Pública de Transportes – preparou ações para tentar aliviar a vida dos motoristas porto-alegrenses”. Afora essa providência,Prefeitura e Estado – leio na ZH – apenas para os seus servidores em Porto Alegre ,anunciou ponto facultativo. Tomo a liberdade de duvidar que essas e outras decisões tenham obtido o esperado efeito (ou seria o desesperado efeito)adotado pelas autoridades ditas competentes,visando a ter evitado,na quarta-feira,25/6,a repetição do caos. Tenho pena dos moradores de prédios,alguns luxuosos,situados nas proximidades do Beira-Rio:eles nunca imaginaram que bem à frente de suas residências,o que era um estádio clubista, viraria Arena.Lembro isso porque,nos dias de jogos da Copa, os proprietários de apartamentos,no local, têm de mostrar documento oficial comprovando que residem na área com entrada restrita. Oxalá,me engane,mas creio que somente os deuses do trânsito podem ter evitado um novo caos na Zona Sul de Porto Alegre,suas adjacências e as supostas vias de mobilidade para quem tem urgência de ir ao Centro Histórico desta cidade.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele). Desta vez, porém, dado o tema escrito, o editor (seu filho) antecipou a publicação em um dia e, pelo descrito na imprensa gaúcha, a expectativa de que haveria grande congestionamento nesta quarta-feira, antes do jogo da Argentina, estava correta.

A Copa na Moda

 

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

A indústria da roupa esportiva, como que antevendo o bom nível de futebol da COPA 14, desenvolveu vestuário condizente com a qualidade do futebol apresentado. Um exercício de inovação de produto. Roupas funcionais, elegantes, tecnológicas e dentro das tendências atuais da moda.

 

A Nike, que veste a seleção brasileira, pesquisou o corpo de cada jogador para identificar as áreas de maior tensão e esforço. Desenvolveu então matéria prima que reforçasse essas regiões e pudesse fornecer maior elasticidade e consistência. O peito e os ombros foram beneficiados. A Nike é a marca com maior presença na COPA, fornecendo uniformes para as seleções dos Estados Unidos, Inglaterra, França, Holanda, Portugal, Grécia, Croácia, Coréia do Sul e Austrália.

 

A Puma marca esportiva pioneira na preocupação com a moda, e que patrocina as seleções da Itália, Suíça, Uruguai, Chile, Camarões, Costa do Marfim, Gana e Argélia, criou um tecido cuja tecnologia faz micro massagens no corpo do atleta, além de apresentar um look atlético e de moda. A peça mais justa traz o beneficio adicional de dificultar o cada vez mais tradicional recurso do puxão na camisa.
A Adidas, que é responsável pelas roupas da Espanha, Alemanha, México, Colômbia, Rússia e Japão, desenvolveu o mais leve de todos os tecidos até então criados por ela.

 

Para o futebol, e para a indústria do vestuário esportivo, este é definitivamente um legado da COPA 14. Incontestável, ao que tudo indica, pois os jogadores tem se manifestado com satisfação às novidades apresentadas. E pelo que temos visto em relação a outros componentes, como cabelos, tatuagens e demais adereços, a moda é elemento de destaque neste show de bilhões. De pessoas e de dólares.

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras.

Fora da Área: classificado, sem ilusão e com Neymar

 

 

No Tribunal Militar, o funcionário negociou compensar no restante da semana as horas não trabalhadas nesta segunda-feira porque o carro dele estava impedido de circular durante todo o dia, em São Paulo. A enfermeira informou por e-mail que havia combinado com um paciente e assistiria ao jogo no quarto em que ele está hospitalizado. Alguns escritórios replanejaram as atividades, diminuíram o expediente ou liberaram os funcionários em horário escalonado. Houve quem arriscasse o transporte público, de ônibus ao trem, mesmo sem saber se conseguiria ser bem atendido no retorno para casa. Os torcedores brasileiros driblaram as dificuldades de mobilidade, bloqueios de ruas e avenidas e a insensibilidade de administradores para chegar a tempo de assistir ao jogo do Brasil. Cada um fez o que pode do lado de fora do campo, enquanto lá dentro nossos jogadores tentavam retribuir com um futebol mais bem jogado do que nas duas partidas iniciais desta Copa. Tanto quanto as medidas adotadas nas cidades diminuíram os congestionamentos, em relação ao jogo anterior, as estratégias de Luis Felipe Scolari levaram a seleção à vitória contra Camarões. Nos dois casos, nada foi definitivo. Muitos problemas seguem nas cidades, da mesma forma que na nossa equipe, mas nesta, ao menos, temos Neymar, que faz toda a diferença. O camisa 10 brasileiro driblou, provocou, brilhou e marcou dois gols.

 

Como as soluções para nosso cotidiano são mais complexas, passo a escrever apenas do futebol. Felipão esbravejou ao lado do gramado, gesticulou para reposicionar seu time, percebeu erro na movimentação dentro da área que nos levou a tomar o gol de empate e a dificuldade para a bola passar de pé em pé e migrar da defesa para o ataque. Mesmo terminando o primeiro tempo com vantagem – pois se nada dava muito certo, tínhamos Neymar -, o treinador entendeu que estava na hora de mudar a equipe e trocou Paulinho por Fernandinho. Se aquele fez um jogo no diminutivo, esse foi grande, defendeu, chegou à frente, trocou passe e, de bico, marcou o seu gol, resultado de uma triangulação muito legal de ver entre ele, Oscar e Fred. Aliás, Fred foi mais uma boa notícia no segundo tempo. Fez, de bigode, o primeiro gol na Copa e ainda participou de lances importantes. No fim das contas, saímos do Mané Garrincha líderes do grupo, com uma goleada e com o goleador do Mundial. (Neymar, claro).

 

O Brasil se classificou às oitavas de final para enfrentar o Chile, no próximo sábado, no Mineirão, em Belo Horizonte. Precisará melhorar ainda mais para superar o adversário sul-americano, mesmo que as estatísticas estejam a nosso favor. Sabe que tem dificuldades nas alas, na marcação dos volantes e na articulação no meio de campo. Conhece seus limites e está buscando soluções, como a entrada de Fernandinho que deve ter conquistado a vaga de titular. Avança no Mundial, sem nenhuma ilusão e com Neymar. E isso faz uma baita diferença.

Fora da Área: quem diria, o Itaquerão virou Arena na Copa

 

 

Vestido para a Copa, a Arena Corinthians deixa de ser Itaquerão. É a primeira impressão que se tem com a proximidade do estádio que foi desenhado com arquitetura diferente da que estamos acostumados. Os velhos campos de futebol e as novas arenas têm, em sua maioria, linhas arredondadas com arquibancadas, cadeiras e camarotes sobrepostos em várias circunferências. À distância, desde o estacionamento onde o ônibus fretado nos deixou, a arena, que visito no dia em que Uruguai e Inglaterra se enfrentaram pela segunda rodada do grupo D do Mundial, lembra um ginásio poliesportivo muito grande. Há os que brincam dizendo que se parece com uma impressora caseira. A medida que nos aproximamos, entendemos melhor a estrutura entregue poucas semanas antes do início do Mundial e que causou tanta polêmica seja pela necessidade, seja pelo custo, seja pelas mortes (aliás, não encontrei nenhuma referência a estes que perderam a vida durante a obra). O material usado é de primeira linha e o telão na área externa, que dá as boas-vindas aos torcedores se destaca pela tecnologia. Os métodos e processos implantados são marcas da construção que quase não percebemos mas que que se tornam fundamentais para oferecer qualidade e modernidade ao ambiente. Já ouvi falar do ar condicionado que deixa a grama na temperatura ideal e a manterá em condições para não se errar um só passe – como brincou há algum tempo o ex-atacante Ronaldo. Disseram-me, ainda, que os vestiários são excepcionais com área suficiente para pequeno campo de treinamento, o que dará mais conforto e eficiência ao aquecimento pré-jogo.

 

Sob a direção da Fifa, impressiona mesmo a quantidade de funcionários e voluntários e a forma como se esforçam para melhor atender ao público. Talvez por ter cara de gringo ou devido ao vermelho britânico do casaco que vesti para enfrentar o frio da quinta-feira passada, em São Paulo, muitos arriscaram palavras em inglês enquanto outros preferiram a mímica em lugar do diálogo. Todos, porém, eram bastante solícitos e se não eram capazes de dar uma resposta logo procuravam alguém que resolveria a dúvida do visitante. Mesmo aqueles com cara de segurança sabiam ser simpático e talvez por isso são chamados internacionalmente de “steward” palavra que em inglês pode ser traduzida também como mordomo, o que de certa maneira mostra mudança de conceito em relação aos brutamontes de terno e gravata pretas que geram medo em lugar de respeito na maioria dos eventos. O sorriso no rosto não é suficiente, porém, para fazer as filas do banheiro e dos bares andarem mais rápido do que os ponteiros do meu relógio que mostravam faltar mais de 30 minutos para entrada das seleções no gramado quando encarei a primeira delas. Banheiro em estádio é quase tudo igual diante do comportamento dos torcedores mais entusiasmados que gritam, riem e dizem bobagens típicas de homens em bando. O da Arena Corinthians ao menos é bonito e, aparentemente, limpo. Espero que resista assim quando ocupado apenas pelas nossas torcidas. As atendentes da lanchonete, assim como a maioria dos funcionários, oferecem simpatia na falta da maioria dos produtos que aparece na tabela de preços. Cerveja, refrigerante e água têm de sobra. Tudo feito e tudo servido, nesta ordem, volto para minha cadeira já com a bola rolando. Entrada das seleções, hinos entoados e apito inicial ficam para a próxima.

 

Assistir ao jogo em estádios construídos com a concepção de arena é um privilégio que havia tido há quatro anos quando fui ao Green Point, na Cidade do Cabo, uma das cidades-sede da Copa do Mundo na África do Sul. A sensação foi muito parecida pois a arquitetura coloca o torcedor próximo do campo, independentemente do lugar que você sentar. “É imagem Full-HD”, brincou meu companheiro de torcida. Bem verdade que as arquibancadas provisórias, que serão retiradas assim que a Copa se encerrar, além de quebrar a harmonia visual, não parecem oferecer o mesmo conforto dos demais espaços. Ficaram muito altas, distantes e sem cobertura. Devia fazer frio demais lá em cima, porque próximo do gramado a temperatura já era suficientemente baixa. Os dois telões são muito úteis e consultados a qualquer lance pelos torcedores. É uma pena que para restringir a pressão sobre o árbitro os momentos mais polêmicos são censurados pela Fifa, diferentemente do que acontece na televisão. Já a imagem revelando os torcedores faz a festa de todos os presentes. Outro destaque na Arena da Copa é a mistura de brasileiros, uruguaios e ingleses que nos dá a ideia de civilidade, sempre ausente nos jogos locais. Havia setores dominados pelos azuis e dominados pelos vermelhos, mas o colorido das arquibancadas sinaliza que a convivência é possível na Copa. Temo que isto jamais se repita após o Mundial. A experiência se completou pelo acesso que tive ao centro de imprensa e ao salão das entrevistas coletivas, no qual desfilei por escadas e portas largas com piso de mármore. A acessibilidade me chamou atenção e a facilidade com que os torcedores entram e saem das arquibancadas, também. O estádio se esvazia rapidamente e com segurança. Demorado é o caminho de volta para casa, devido a enorme distância de Itaquera ao centro de São Paulo, sem falar de outros bairros nas zonas Sul e Oeste da capital paulista.

 

Assim que a Copa passar, o Corinthians retoma o local e boa parte da estrutura de atendimento será desfeita, tanto quanto as arquibancadas provisórias. Muitas obras precisarão ser concluídas, dentro e fora da Arena. Agora, com certeza, seus torcedores assistirão aos jogos com muito mais conforto e precisão e terão bons motivos para se orgulhar. Espero que as torcidas organizadas e o nosso futebol desorganizado não desperdicem esta oportunidade e permitam que o Itaquerão continue sendo a Arena Corinthians (ou a Arena de São Paulo, como batizou a Fifa).

Um empate em memória do amigo Salvador

 

Milton Ferretti Jung

 

Somos dois aqui em casa que acompanhamos a Copa do Mundo pela televisão:Maria Helena,minha mulher,e eu. Não faço a mínima questão de assistir a algum jogo na Arena Beira-Rio ou seja lá como estão chamando o reformado estádio do Inter. Não deixei de ver até agora nenhuma das já várias partidas disputadas. Somente sento à mesa da cozinha para tomar o café da manhã. Faço as restantes refeições diante da tevê do living. Já Maria Helena divide o interminável CityVille,que ela joga no computador,com os embates que rolam pela televisão. Não sei como ela consegue acompanhar a Copa e o seu jogo compartilhado por amigas de várias nacionalidades. Sei que Malena,como é chamada pelos íntimos,não gosta do futebol português e implica,especialmente,com o craque Cristiano Ronaldo. Nem preciso dizer para que seleção ela torceu no dia 16.

 

Ao contrário de Malena,eu fiquei com pena do Melhor Jogador do Mundo. Ele é vaidoso,mas vá lá. No jogo contra a Alemanha,Cristiano,além de estar enfrentando uma equipe que, em matéria de futebol pode ser vista como,no bom sentido,Deutschland über alles,não contou com o apoio dos seus companheiros. Deixaram-no abandonado. Não há quem não saiba que,em um esporte coletivo,embora alguns sejam protagonistas,os demais têm de exercer da melhor maneira possível as suas funções. E não foi isso que se viu em Alemanha 4 x 0 Portugal.

 

Assim como não gosta de Cristiano Ronaldo e,por tabela,da Seleção Portuguesa,Maria Helena cai de amores pelo México. Ocorre que,por seis anos,cultivamos forte amizade com um mexicano,odontólogo e professor universitário,com quem conversamos diariamente pela internet. Ele sabia tudo sobre computadores. Quando as nossas máquinas não funcionavam a contento,Ignacio Salvador Mendés Ordóñes as corrigia por controle remoto. Malena e eu tivemos nele um extraordinário professor de espanhol. Hoje,ela fala e escreve nessa língua com perfeição. Em troca,eu escrevia para ele em português,bancando professor. Salvador,de uma hora para outra,desapareceu. Creio que morreu,porque era uma pessoa com saúde frágil. Sentimos sua falta,mas ficamos apreciando o México e,por extensão,a sua Seleção,graças à nossa amizade com ele. Em homenagem a Salvador,torcemos por um empate no jogo dessa segunda-feira. Achamos que,com isso não estaríamos traindo a nossa Seleção.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)