Vereador paulistano custa R$ 115 mil por mês

 

Os vereadores voltam ao trabalho nesta terça-feira sob olhar atento da sociedade incomodada com o reajuste de 61,08% que eleva o salário deles para R$ 15 mil por mês. O gatilho salarial do legislativo foi disparado em Brasília com a decisão da Câmara dos Deputados e põe em questão quanto vale um político.

Antes que você publique qualquer comentário desaforado – e eu compreenderia perfeitamente sua reação – faço aqui as contas de olho nos gastos da maior cidade do País com a sua Câmara Municipal. De dinheiro que vai para sustentar diretamente o vereador e seu gabinete, deve-se por na conta:

Salário R$ 15.013
Verba de gabinete R$ 84.407,60
Verba indenizatória R$ 15.393,75

Puxando o traço, chegamos a R$ 114.814,35 por mês.

Lembro que a verba de gabinete paga o salário dos 18 assessores a que têm direito; e a verba indenizatória será recebida desde que o parlamentar apresente as notas fiscais comprovando seus gastos com material de escritório, telefone, gasolina, viagens para outras cidades, material gráfico, manutenção de site entre outras despesas ligadas ao mandato.

Aqui não está calculado o dinheiro para sustentar toda a Casa e seu corpo de funcionários

Não entrarei na conta rasa se o que desembolsamos para sustentar os vereadores é muito alto ou não. Entendo que é fundamental analisarmos antes o que fazem cada um desses vereadores pela cidade.

Um parlamentar que cumpra seu papel de representante da população e fiscal do prefeito começa bem nesta avaliação. São tarefas difíceis pois exigem enorme esforço para superar interesses partidários e políticos. Imagine um vereador da base governista ao se deparar com uma ação do prefeito que cause prejuízos à cidade. Denuncia e prejudica o trabalho de seu correligionário ou se cala para evitar desgaste do Governo, tentando resolver o problema apenas nos bastidores?

É importante que zele pelo dinheiro público defendendo a aplicação do Orçamento de forma equilibrada e nos programas considerados prioritários para a cidade, alertando sempre que verbas deixem de ser investidas nos setores para as quais foram destinadas.

Em relação ao dinheiro que gastamos para sustentá-lo, o verereador tem de formar um gabinete que atenda mais aos interesses de mandato do que de campanha. É comum as vagas serem distribuídas entre cabos eleitorais em lugar de profissionais capacitados a atuar em áreas ligadas a atuação de parlamentar. Um vereador que atue na comissão de finanças é recomendado que tenha entre seus funcionários especialistas em finanças públicas, por exemplo.

Além disso, deve estar ciente de que a cotratação de pessoal e empresa precisa não apenas ser legal, mas moral. Contratar empresas ligadas a parentes ou que não sejam idôneas é desrespeitar o dinheiro do cidadão. E sai caro para a cidade.

A transparência nas ações, a clareza na defesa de suas ideias e a abertura de canais de comunicação e participação de eleitores com o mandato são outras formas de tornar bem mais barato o peso de um vereador nas contas públicas.

Por tudo isso, é preciso que o cidadão se aproxime do vereador pois somente assim terá noção mais clara sobre quanto ele realmente vale para a cidade. Aproveite a retomada dos trabalhos legislativos na Câmara de São Paulo e adote um vereador. Controle os políticos antes que eles controlem você.

De submundo

 

Por Maria Lucia Solla


Ouça De Submundo na voz da autora

dinheiro refrigerante
entorpecente cigarro
café anfetamina
o último modelo do carro

sexo cocaína
agrotóxico maconha
álcool açucar
antidepressivo ansiolítico
crack heroína
extasy computador
chiclete morfina

remédio para emagrecer
para dormir
acordar transcender

droga
mais ou menos aceita
época vai
sociedade vem
delas não escapa ninguém

Ela vem, se instala, deixa um pouco disso leva um pouco daquilo, como a rede jogada no mar; como tudo na vida.

O dinheiro, por exemplo, é droga, mas não se faz plebiscito para decidir sobre o futuro dele; para saber quem é contra e quem é a favor. Não se cria comissão especial para criminalizar ou descriminalizar o dinheiro e, mesmo assim, é a droga que mais mata! Mata-se por ele e morre-se por ele todo dia, a cada minuto.

E é nessa falta de rumo, em meio ao que pode e o que não pode, que deixamos de reconhecer nossa verdade e criamos um submundo que possa viver por nós a face escura da vida. É nesse submundo que droga e crime florescem. Nós criamos, armamos e sustentamos o submundo, e gastamos o que sobrou blindando carros, trancando a casa, com medo do homem que nos lembra quem somos.

o que te tira o sono
não é o vasto mundo
mas o código diverso
do teu e do meu universo
que povoa o submundo

Nasce de nossa determinação sobre o que pode e o que não pode, a bandidagem. O proibido atrai, gera lucro atrelado ao risco, para o lerdo e para o corisco.

Insistindo em controlar e manipular, em manter o dedo acusador apontado, para mudar o mundo do lado de fora, não chegaremos a lugar nenhum. O mundo externo é reflexo do mundo interno. É difícil de entender, mas é a realidade. O que vemos fora é a foto holográfica do que carregamos em nós.

No início do século passado, o governo norte-americano proibiu o álcool através de uma emenda em sua constituição, a XVIII, o que atraiu e alimentou a Máfia. Quando percebeu a besteira que fez, desproibiu a proibição, arrancou o poder das garras do crime e sacramentou o fato na XXI emenda. Coisa de gente grande.

Cada proibição determina o ouro da vez, e criam-se exércitos para proteger a decisão tomada, não para proteger o homem. Não custa lembrar que a maneira mais rápida e eficaz de perder é agarrar; tentar controlar.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

A riqueza de Lemann e Joesley

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Por Carlos Magno Gibrail

Jorge Paulo Lemann, brasileiro, de ascendência suíça, vindo de Harvard, e Joesley Batista, brasileiro, de ascendência goiana, vindo do açougue do pai, são os novos protagonistas globais, de acordo com Larry Rohter do New York Times.

Dias antes da divulgação do crescimento da economia brasileira neste primeiro semestre, quando obtivemos uma das mais altas taxas de aumento do PIB, confirmando a confiança global que o mundo nos tem conferido ultimamente, o jornalista Larry Rohter já indicava como uma de suas resultantes o sucesso brasileiro em formar uma nova geração de empreendedores.

Rohter aponta os dados do BCG Boston Consulting Group de Harvard, indicando que de 2006 a 2008 o número de milionários brasileiros aumentou de 130 mil para 220 mil. O que equivale ao acréscimo de aproximadamente 70%. Crescimento que continua, possibilitando ao Brasil apresentar um quadro maior de milionários do que a Índia, embora com uma população 1/6 da indiana.

Lemann (48ª fortuna mundial), esportista de alto desempenho, penta campeão brasileiro de tênis, iniciou a sua trajetória de negócios comprando a Garantia, pequena corretora. Usando pioneiramente o modelo de “private equity” e assimilando o sistema de Goldman Sachs, focado na meritocracia, onde proporcionava status e ganhos invejáveis aos colaboradores, transformou a corretora em um grande Banco de Investimento. E, também seus principais talentos, Marcel Telles e Alberto Sicupira em executivos de sucesso. Hoje, a 152ª e 176ª fortunas do mundo, Telles e Sicupira são seus sócios na 3G, a empresa que acaba de acordar a compra da Burger King por US$ 4 bilhões.

Isto depois de comprar as Lojas Americanas, AmBev, Submarino, Blockbuster, formar a Inbev, incorporar a Budweiser, além de ser grande acionista de empresas como a Gafisa e Oi.

Joesley Batista e família anteviram oportunidade na crise cambial de 1998 e recorrendo ao BNDES levantaram o capital necessário para o envolvimento no mercado exportador Em 2007, compraram a Swift para, em 2009, adquirir a Pilgrim’s Pride e superar a Tyson Foods, passando a ocupar a liderança mundial no processamento de carne.

Para a satisfação dos brasileiros, provavelmente também de Caetano Veloso, compositor da canção que cita o NYT, o jornalista declara:

Uma coisa fica clara: o domínio brasileiro sobre todas as etapas do setor mundial de carne. O país já é o maior exportador mundial de carne bovina e agora, com a oferta pelo Burger King anunciada na quinta-feira, disporá de mais um veículo para encorajar o consumo em todo o mundo. Isso que é sinergia.

Lemann e Joesley, origens e estilos diferentes chegaram ao mesmo destino, demonstrando que várias trajetórias podem levar a um mesmo ponto. Embora a família Batista chame mais atenção pela evolução de classe social, que tanto os norte americanos reverenciam.

Mais do que o sucesso destes empreendimentos, o fato de surgirem de talentos iniciais em pequenos negócios é que certamente atrai a mídia.

A origem distinta de ambos não deverá diferenciar o futuro dos empreendimentos, entretanto o estilo poderá fazer diferença no aspecto de RH. Ou seja, na formação, manutenção e retenção dos talentos tão necessários ao desenvolvimento dos negócios. A história da civilização tem demonstrado que as grandes rupturas sociais foram demandadas por líderes oriundos das classes abastadas. E, não será anomalia se o setor privado depender de líderes aristocratas para se aprofundar na meritocracia.

Lemann conta hoje, além de Telles e Sicupira, com profissionais balizados na meritocracia.

Harvard ou Frog* até agora não fez diferença na evolução dos negócios de Lemann e Joesley, mas como ficará nos aspectos inerentes aos recursos humanos?

Frog = From Goiás, método familiar e duro de administrar.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feira no Blog do Mílton Jung

O universo particular do luxo

 

Por Dora Estevam

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Neste domingo, São Paulo, Jardins – Oscar Freire, Haddock Lobo, Bela Cintra e Sarandi, o quadrilátero mais chique da cidade -, será cenário do maior evento de luxo aberto ao público, do País. Os visitantes, estimam perto de 10 mil pessoas, vão receber tratamento VIP e passar momentos valiosos ao lado de pessoas que se encantam com a riquíssima variedade de lojas da região.

O cenário mais apropriado recria nestas ruas um típico e charmoso passeio pelos palácios franceses. É a quarta edição do evento no qual o público terá acesso às novidades da moda, da arte, da cultura e entretenimento – da gastronomia, também, esta não poderia faltar, são 23 restaurantes. Quem recebe a todos é a marca de champanhe Promenade Chandon, que estará presente nas 34 lojas que participam da festa e terão sua vitrines “vestidas” especialmente para o momento.

Pensando em luxo e falando nele, lembrei-me de uma entrevista que li na revista Poder, nº28, com o CEO da Louis Vuitton, Monsieur Carcelle. Ele recebeu a Poder e conversou 15 minutos sobre a marca. Entre uma pergunta e outra, o repórter quis saber qual a importância do mercado de luxo, já que a Marca Vuitton é das mais valiosas neste mundo diferenciado. É um império de 449 lojas próprias. Faz ideia? Bem, Monsieur respondeu: “Luxo para nós é traduzido por ‘treat yourself’ ” – ou seja, mime-se. Mimar-se mesmo em tempos de crise, resume o CEO.

Deve ser por isso que quando estamos chateadas saímos correndo às compras.

Vamos ao dicionário verificar o que significa luxo. Está no Aurélio:

“Luxo, vida que se leva com grandes despesas supérfluas e o gosto do conforto excessivo e do prazer. Bem ou prazer custoso.”

Vamos à prática: você acha que bom gosto e personalidade no vestir são artigos ou comportamento de luxo? Você acha que ter uma parede repleta de livros do chão até o teto é luxo? Como você vê o luxo?

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Este é o estúdio do estilista Karl Lagerfel em Paris, repleta de livros em todas as paredes, fotografado por Todd Selby.

É claro que se a pessoa estiver só olhando pra baixo a visão será sempre de pobreza, de miséria, de lamúrias, de gente derrotada que se se encosta nas outras. Pra estas o luxo é um absurdo, é um desperdício de dinheiro. Mas não dá para negar que o luxo existe e tem muitas, milhares de pessoas que são luxuosas, que gastam mesmo, sem dó. E com elegância.

Vai me dizer que nunca cobiçou um belo carro projetado no melhor estilo, da melhor marca, provocativo e eficiente. Ah, tá ! Então, que tal uma viagem inesquecível, sem erros. Com a bagagem toda recheada com os melhores produtos de beleza, estilo e conforto do mundo. E as joias, os relógios: impossível nunca ter desejado um sequer.

Uns dirão: o luxo não sustenta a alma, ninguém vive dele … este lugar-comum todo. Pois eu digo: você só conhece a pessoa quando ela tem dinheiro.

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Veja a modelo Gisele Bundchen, saiu do Sul do País, com uma mão na frente e outra atrás, não tinha grana para comer, morar, a família era bastante humilde, com maneiras bem simplórias, lá da roça, e, no entanto, hoje nada no dinheiro – por, favor, no sentido figurado. Acaba de construir uma casa na Califórnia para morar com o marido e filho no valor de US$41 milhões. Imagina tudo isso. É puro luxo.

É a tendência natural de quem ganha dinheiro. Bem entendido, de quem ganha muito dinheiro. E se ganha e na bagagem leva muita cultura, ai então o luxo não tem limite.

Exemplos aqui no Brasil é o que não faltam. A começar ou comparar jogadores de futebol, cantoras e cantores populares. Assim que se tornaram celebridades, o consumo aumentou, de compras que vão desde mansões até jatos particulares. Sim, é preciso um alerta: do luxo pro brega é um erro só.

E antes que alguém critique: não estou me referindo a cafonices ou a deslumbramentos. Lembra-se do significado de luxo?

Queridos e queridas, se vocês não tiverem um compromisso neste domingo (das 17h30 às 20h30) – e estiverem aqui por São Paulo – vão até os Jardins, tomem uma taça de Chandon e tenham uma aventura com classe. Eu sei que no fundo, no fundo você é um cliente exigente e faz questão da pura sofisticação.

Dora Estevam é jornalista é escreve sobre moda e estilo no Blog do Mílton Jung, aos sábados.

Reginaldo e Mônica, na alegria e na falência

 

Por Frederico Mesnik

Mônica estava desolada. Com o casamento marcado para o fim do ano, sua festa, que há pouco saciava todas as suas fantasias de princesa, estava agora,reduzida ao quintal de casa. Nada de cornetas reais para sua entrada suntuosa, garçons com bebidas exóticas, ou o amigo DJ para agitar a pista até o amanhecer. A nova realidade comportava somente poucos convidados para uma recepção modesta, sem muita pompa, somente o necessário. A lua-de-mel, antes um cruzeiro pelo Caribe, estava agora transferida para a casa de Peruíbe – e com os sogros, para cortar custos.

Da euforia vieram os planos e da fragilidade das decisões veio à decepção. Com pouco mais de R$ 50.000 resgatados do seu FGTS meses antes, Reginaldo foi seduzido pelo glamour da bolsa de valores. O caminho era fácil. Abre-se uma conta em uma corretora, faz-se a transferência do dinheiro e, em pouco tempo, vem a possibilidade de comprar e vender ações. Como toda corretora moderna, sua plataforma eletrônica dava acesso a um mundo de informações, de dados macroeconômicos a opiniões e recomendações de analistas, grafistas e palpiteiros em geral, via fórum de discussão. Balela para um engenheiro hábil em matemática, capaz de digerir e dominar o mercado financeiro em pouco tempo.

Por que não investe em um bom fundo de ações? Cogitou seu irmão mais novo, Márcio. Hoje, a internet disponibiliza um acervo de informações e rankings sobre os melhores gestores com anos de experiência, toda uma formação específica e habilitação pelos orgãos competentes.

Nada disso, replicou Reginaldo! Já estou dominando o processo. Tenho acesso às informações de que preciso tudo on-line e “de graça”. Porque vou pagar 2% ao ano de taxa de administração se eu sei fazer sozinho?

E foi assim, com toda prepotência de uma mente brilhante e inexperiente que Reginaldo debutou pelos meandros fascinantes dos mercados. O mesmo analista que há pouco recomendara a venda de Petrobras agora mandava comprar. Dizia que o aumento dos preços do minério de ferro já estavam precificados e Vale não era uma boa opção. Do vizinho veio a dica de Varig que subia sem parar com rumores de venda. Nos fóruns discutia-se Itaú. Montou sua carteira ao ponderar tantas ideias de tantas fontes diferentes e ganhou dinheiro. Dobrou seu capital em pouco mais de três meses ao mergulhar no boato da empresa e soube conter sua ganância ao realizar o lucro. Marcou o casamento e deu a Mônica um orçamento dos sonhos, que como já sabemos, estava com os dias contados.

Estava confiante, sentindo-se poderoso e apto para arriscar. Do grafista veio o cenário de realização e do analista uma operação de volatilidade, envolvendo o mercado de opções. Abriu seu Excel e “planilhou” tudo. Calculou os retornos, os riscos, o VAR, as gregas e tudo que havia aprendido com todos os canais disponíveis. Montou sua posição, tomou banho e foi para uma entrevista agendada com uma empresa multinacional de bens de consumo. Ganho fácil com operação casada de mercado à vista e derivativos, difícil errar. Márcio, te dou uma comissão de 1% se você ficar aqui monitorando o mercado para mim, disse Reginaldo. Fique de olho na planilha, e se acender alguma luz vermelha você me liga.
Foi para entrevista com um pé em cada canoa. De um lado o mirabolante mundo dos ganhos fáceis; do outro, a árdua tarefa de arrumar um emprego. Afinal, o casamento estava marcado.

Começou a entrevista e Reginaldo percebeu que seu celular estava sem sinal. Suou frio e perdeu a concentração bem como qualquer chance de receber uma proposta de trabalho. Saiu correndo para ligar para casa e gelou ao ouvir as inúmeras mensagens desesperadas do irmão comissionado. O mercado tinha virado com a descoberta do pré-sal, as gregas abriram, houve chamada de margem e Márcio, sem titubear, zerou as posições com 80% de prejuízo! Era tarde demais.

Os sonhos construídos nas últimas semanas ruíram como a fragilidade de um castelo de areia, junto com os sonhos maritais de Reginaldo e Mônica.

Do surgimento da internet veio a facilidade de acesso às mais diversas informações. A Geração Y mergulhou no mundo virtual e o acesso à bolsa via plataforma eletrônica de home broker cresceu vertiginosamente. Estima-se hoje que aproximadamente 200 mil investidores entre 16 e 35 anos trocam suas posições diariamente na Bovespa, algo como 8% do volume mensal de negociação, ou R$ 8 bilhões. A expectativa de ganhos rápidos e fáceis é um atrativo para uma geração afoita que consegue ouvir música, trabalhar, acessar o Facebook ao mesmo tempo em que opera seu capital nos mercados.

Não sou contra o uso do home broker e para cada regra há exceções com a revelação de talentos. Por outro lado, a grande maioria costuma tomar um tombo grande para depois reavaliar. Já ouvi muitas histórias parecidas – óbvio que usei aqui um exemplo caricato – e todas tem um ponto em comum: investidores educados que vão ganhando confiança com o tempo e percebem, de uma maneira bem cara, que o mercado financeiro é ambiente para profissionais. Operar sozinho é como auto-medicação. Começamos com uma simples aspirina e, em pouco tempo, o farmacêutico indica aquele remédio novo para dor nas pernas. Doses erradas, combinação com outros medicamentos e efeitos colaterais são os ingredientes para comprometer a saúde física.

Não vamos também comprometer a saúde financeira e mental. Para operar sozinho, use uma quantia pequena para brincar e se divertir. Deixe a gestão do seu patrimônio para profissionais! Sabemos que o ser humano tem o viés de esquecer as perdas e de dar mais valor aos ganhos, o que dificulta a auto-análise e a visão real de que sozinho é muito difícil ganhar dinheiro na bolsa com consistência e segurança de longo prazo.

Esperamos que Reginaldo tenha aprendido uma lição, pois o primeiro prejuízo costuma ser o menor e, quem sabe, com sorte e um bom gestor ele e Mônica possam comemorar o primeiro ano de casados com muito estilo.

Leia aqui outros artigos publicados por Frederico Mesnik

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

Me dá um dinheiro aí !

 

Por Abigail Costa

Experimente contar um problema pra alguém.

– Isso não é nada!
– Imagine que….

Como se problema tivesse dimensão de mais ou menos, maior ou menor.
É problema e pronto.
Simples ? Não.

Fulano tem uma dívida, você ganha um pouco mais do que ele.
Logo, você vai dar uma força para cobrir a conta bancária do camarada.
Isso é o que ele espera, claro o teu salário é maior!
Mas e as suas despesas ? Elas também não são maiores ?

Tenho vivido fases parecidas.
Não se iluda, não falo de “gordos rendimentos”, mas dos que ainda acreditam que a obrigação é sempre dos outros.

Esse era um assunto que realmente não me incomodava. Deixava rolar.
Passou a incomodar quando começei a perder amigos e dinheiro.

É assim:

– Preciso da sua ajuda. No fim do mês, eu pag….

Sempre no fim de um mês que nunca chega.
Ele fugindo de você, e você sem jeito de cobrar.

E vem o pensamento:
– Por que não apliquei esse dinheiro na bolsa, lá se perdesse sabia do risco.

Passei por uma saia justa outro dia.
Eu e ele.
Quando desliguei o telefone, fiquei com raiva de mim.
Repeti em alto e bom som:
– Eu não aprendo !

Do fim do mês vai ficar para o dia 15.
Você acredita?
Quer apostar?
Não faça isso.
Corremos o risco de perder.
De novo.

Abigail Costas é jornalista, escreve às quintas-feira no Blog do Mílton Jung e, que fique claro, nunca me emprestou dinheiro.

A psicologia de ser do contra

 

Por Frederico Mesnik

Sir John Marks Templeton, um dos maiores gestores da humanidade disse certa vez que é impossível gerar um retorno superior aos seus investidores sem fazer algo diferente do que a maioria. Essas palavras sábias são esquecidas no cenário atual de alta volatilidade, pouca visibilidade e estratégia míope de que devemos nos posicionar hoje para o mercado de amanhã e fazer o mesmo depois de amanhã e assim por diante.

Em certa ocasião e em sintonia com a opinião de Sir Templeton, Sir John Maynard Keynes disse: “The central principle of investment is to go contrary to the general opinion, on the grounds that if everyone agreed about its merit, the investment is inevitably too dear and therefore unattractive”.

O princípio central de gestão é ser contra o consenso, baseado no fato de que se todos concordam sobre seu mérito, o investimento é inevitavelmente muito desejado e, portanto não atraente. Infelizmente, o mercado de hoje é caracterizado por investidores preocupados em não ter retornos abaixo do seu benchmark e com medo de ir contra a multidão.

Um estudo recente do Professor Partha Dasgupta da St. Johns College mostrou que num horizonte de dois anos, as principais ações compradas por investidores institucionais tiveram um rendimento médio de 17% abaixo das principais ações que estes mesmos investidores venderam, no mesmo período de tempo. Este estudo foi estendido para fundos de ações (large caps, small caps) sendo value ou growth com resultados similares, mostrando que independentemente do seu universo, ser do contra traz resultados no longo prazo.

Não estamos dizendo que ser do contra basta para ganhar dinheiro. Aliás, estar junto com a multidão parece ser a opção menos arriscada. O que estamos querendo dizer é que os fundamentos e nossas convicções ditam nossas decisões de investimento, mesmo que sejam contrárias ao consenso do mercado.

A maior falha de um gestor é a incapacidade de distinguir entre fundamentos e expectativa refletida nos preços dos ativos. Uma casa de apostas é uma boa metáfora para ilustrar a diferença. Aqui temos duas variáveis: os fundamentos que indicam a probabilidade do time ganhar (track-record, jogadores, técnico, situação financeira do clube, árbitros, condições do campo e do tempo, etc) e a expectativa, que podemos ver claramente no quadro de apostas, refletindo o preço em proporção ao prêmio ou no caso dos times, o rateio. Um time com alta expectativa de ganhar a partida e o campeonato paga menos do que aquele com baixa expectativa.

Um bom gestor foca não só no sentimento geral, nas expectativas, mas também em como os sentimentos podem levar a grandes possibilidades de arbitragem entre os fundamentos e as expectativas. Às vezes nos enganamos de que estamos agindo de forma racional e avaliamos todos os prós e contras das diversas alternativas. Mas isso não é verdade na maioria das ocasiões, pois em muitos casos decidir a favor de X não é mais nada do que gostar de X. Compramos carros que gostamos, escolhemos casas e férias que gostamos e depois justificamos nossas escolhas de diversas maneiras. Além do mais, o que gostamos é altamente influenciado pelo que outras pessoas gostam, e escolher boas opções de investimentos é muito mais do que simplesmente comprar o que gostamos.

Um gestor precisa de independência para ter conforto e convicção de apostar contra a multidão quando há uma possibilidade de arbitragem entre os fundamentos e as expectativas. Esta independência torna-se difícil, pois quanto maior este gap, maior a pressão para ser parte da maioria. Além disto, a independência precisa ser objetiva para dar habilidade ao gestor de formar suas opiniões sem ser influenciado por fatores externos. Afinal, os preços não só informam os investidores, mas influenciam suas decisões.

Um bom investidor também precisa ter orientação de longo prazo, pois o ato de investir é inevitavelmente um exercício de probabilidade e precisamos ter a percepção de que o mercado pode demorar a revisar nossas expectativas.

Ter opiniões próprias que às vezes vão contra o consenso não é fácil. O primeiro passo é esclarecer os motivos e endereçá-los, trazendo credibilidade e transparência ao mercado. O importante não é acertar sempre, mas ter a convicção e coragem de correr contra a manada, pois é aí que estão as melhores opções de investimentos.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

Seleção brasileira de ativos

 

Por Frederico Mesnik

Quando perguntaram a Albert Einstein qual era a força mais poderosa do universo, ele respondeu: “os juros compostos!”. A alocação inteligente de ativos traz a oportunidade de ver nossos investimentos crescendo com a mágica dos juros sobre os juros.

Durante anos, grandes fortunas foram perdidas porque gestores ignoraram os preceitos básicos de uma boa alocação de ativos: diversificação, rebalanceamento e análise de riscos. No longo prazo é preciso dar atenção a cada uma destas variáveis.

Na sua base, alocação de ativos é buscar aplicações que não só podem se valorizar como também se comportar de uma maneira diferente das outras aplicações na carteira. Quando um ativo está perdendo seu valor por algum evento econômico-financeiro, é bom ter outro na carteira que sobe de valor no mesmo cenário. Chamamos isto de não-correlação. No fundo, a essência da diversificação é a busca pela não-correlação. A boa diversificação é aquela que envolve várias classes de ativos que têm resultados diferentes nos diversos cenários de mercado.

Vamos pensar em uma seleção de futebol: para vencer no mundo dos investimentos precisamos de um time forte e balanceado. Precisamos de bons atacantes quando o tempo está favorável e de bons defensores que protegem o nosso campo quando as coisas não vão bem. Do mesmo jeito que um time precisa ter um goleador, nossa carteira precisa de ativos que entregam resultados constantes acima da média, independentemente das condições de mercado.

Um técnico monta sua equipe avaliando cada jogador. Seus pontos fortes e fracos, histórico de desempenho e acima de tudo sua integração com a equipe. O técnico precisa saber o que cada jogador pode e não pode fazer, quais são os seus limites e sua posição ideal. Construir uma carteira é a mesma coisa. A combinação de ativos precisa ter harmonia e integração para atacar no momento propício e defender em momentos de turbulência. Desta maneira, teremos um retorno consistente com os nossos objetivos e sem surpresas.

De tempos em tempos devemos olhar nossa carteira para realizar os lucros daqueles investimentos que subiram acima da média e comprar aqueles que estão abaixo. O rebalanceamento faz com que a carteira mantenha suas alocações originais. O famoso mantra “Compre na Baixa e Venda na Alta” é alcançado com esta atividade. Conforme os ativos vão se valorizando e ocupando uma porção grande da carteira, a boa alocação manda vender e reinvestir em ativos que não estão indo bem, e assim por diante, pois o cenário é dinâmico.

Um bom técnico está sempre atento ao jogo pensando em coisas que podem dar errado, e é assim que devemos pensar. Analisar o risco não é nada mais do que avaliar o quanto estamos dispostos a perder. Devemos sempre estar atentos aos tipos de risco que estamos correndo e como eles podem afetar nosso portfólio para tomar medidas e reduzí-los ou até anulá-los.

Não há muito segredo para se ter sucesso na alocação de ativos. O processo exige muita arte, paciência, perspicácia, curiosidade e inteligência profissional. Como um terno feito sob medida: em alocação de ativos todos temos o mesmo tecido, mas cada um tem seu gosto e seu corte. Para os bons ternos busquemos um bom alfaiate para nossa carteira, um bom gestor!

Obrigado leitor pela atenção.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, tem especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

Introdução a um mundo novo e inovador

 

Por Frederico Mesnik

Durante quase mil anos a humanidade mergulhou em um período de estagnação intelectual e pouca inovação. Sem competição, metas ou a simples necessidade de superação, o ser humano permaneceu no ostracismo da Idade Média.

Com a queda do Império Bizantino e a consequente ascensão do Império Otomano, em 1453, o acesso comercial à África e Ásia via Mediterrâneo foi fechado. A perseguição aos mercadores locais fomentou o êxodo para outros países. Nações ibéricas se uniram contra o poderio dos otomanos no continente para buscar caminhos alternativos ao Oriente.

Da sede por novas soluções vieram as inovações e a necessidade de correr riscos. Navegadores saíram em busca de uma solução alternativa, fora do contexto comum e descobriram as Américas. A humanidade entrou em um círculo virtuoso de crescimento e deste Renascimento veio a ponte para a Era Moderna.

O mesmo acontece agora no Brasil. Inovar e arriscar serão fundamentais, pois com a queda abrupta da taxa referencial de juros para um dígito e pressões inflacionárias, não será possível atingir retornos satisfatórios reais sem uma diversificação da carteira em produtos diferenciados de alto valor agregado. A habitual alocação passiva em títulos públicos e fundos de grandes bancos não vai capturar o vento com a eficiência necessária para que a carteira cruze o Atlântico. É essencial que haja velas modernas, instrumentos de navegação de última geração e uma tripulação de primeira para aproveitar os ventos certos e navegar com segurança até o outro lado do oceano.

São os gestores independentes os mais habilitados a suprir esta necessidade. Com equipes de gestão altamente capacitadas, produtos ativos, estrutura dinâmica e controles sofisticados, seus produtos de renda variável têm ultrapassado o rendimento do Ibovespa nos últimos anos com risco ainda menor. Mantendo agilidade para antecipar movimentos e reagir rapidamente às mudanças dos mercados, estes gestores podem assumir, sem comprometimento algum, posições contrárias ao censo comum, e são justamente estas posições contrárias que trazem os maiores benefícios. Já grandes gestoras de grandes bancos não têm essa agilidade e a tomada de decisão é lenta e comprometida por inúmeros outros fatores que podem até conflitar com o objetivo único do cliente: ganhar dinheiro com segurança.

Esta coluna tem como objetivo a introdução ao mundo da gestão inovadora e independente. Vamos aqui dissertar sobre vários temas de grande interesse ao público. Vamos abordar conceitos e apresentar ferramentas para auxiliar na alocação eficiente de ativos. Temas serão tratados de forma clara, isenta e objetiva, com intuito de instruir e dar segurança para navegar em águas novas.

Como todo gestor independente, prezo a transparência e valorizo o contato com clientes. Aguardo sugestões para temas que sejam de interesse comum aos leitores para serem abordados nas próximas edições. Vamos começar um diálogo e uma longa jornada juntos.

Obrigado leitor pela atenção.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em administração de empresa pela London Business School e tem especialização em finanças pela Universidade de Chicago, GSB. A partir desta semana, será mais um parceiro no Blog do Mílton Jung e vai conversar sobre o nosso dinheiro.

“A prefeitura errou”, diz vereador que apoia prefeito

 

O debate sobre o Orçamento do Município de São Paulo ganha um tom estranho momentos antes da sua aprovação que deve ocorrer na tarde desta terça (15.12). O relator é o vereador Mílton Leite, do DEM, partido do prefeito, que na entrevista ao CBN SP salientou várias vezes que a prefeitura errou ao elaborar o orçamento para 2010, o que o obrigou a retirar R$ 1 bilhão do que estava previsto inicialmente e havia sido aprovado em primeiro turno pelos próprios vereadores.

Não bastasse o fogo amigo, ainda há uma discussão na base de apoio do Governo Municipal, pois além de reclamar do secretário que elaborou o Orçamento (Manuelito Magalhães, ligado ao PSDB), que deixou o cargo recentemente, Milton Leite também diz que os vereadores tucanos estão com ciúmes e por isso falam que não terão suas reivindicações atendidas na distribuição de verbas para o ano que vem.

A briga está em torno do que será feito com o dinheiro público da cidade de São Paulo em 2010. O relator estima que a prefeitura terá algo próximo de R$ 27 bilhões, enquanto a prefeitura teria orçado R$ 28 bilhões. Os vereadores do PSDB queriam ter mais verbas em subprefeituras que estão em suas bases eleitorais, o relator preferiu colocar dinheiros em outros redutos eleitorais.

Me ajude a entender tudo isso ouvindo a entrevista com o vereador Milton Leite (DEM)

O PT assiste a tudo e tem pouco poder de fogo para transferir dinheiro para suas áreas de interesse e, por isso, prefere apresentar emendas que servem muito mais para chamar atenção para o que considera absurdos da prefeitura nos investimentos previstos para 2010. Por exemplo, o prefeito Gilberto Kassab terá R$ 120 milhões para publicidade, R$ 30 milhões a mais do que neste ano, R$ 90 milhões a mais do que no ano passado.

O partido não tem muito o que reclamar pois agiu da mesma forma quando esteve no Governo. Por exemplo, defendeu com unhas e dentes que a prefeita Marta Suplicy tivesse o direito de remanejar até 15% de todo o dinheiro previsto no Orçamento para as áreas que entendesse ser prioritárias em detrimento a tudo que foi discutido na Câmara Municipal. Agora, do outro lado do balcão, reclama que Kassab terá este percentual para fazer o que bem entender em 2010. Em um caso e no outro, o índice é um absurdo pois desmerece todas as negociações que ocorrem no parlamento sobre o orçamento.

Ouça a entrevista do vereador Antonio Donato, do PT