Aposentados e renegados

 

Por Carlos Magno Gibrail

Da intrínseca cultura brasileira reverenciamos a juventude e renegamos a idade. A começar pela própria. A aposentadoria não poderia encontrar destino melhor do que aquele que vimos ontem, vemos hoje, e certamente, veremos amanhã se não se fizer algo para mudar.

Se as pessoas fossem tomadas como produtos, fato não recomendável, o ciclo de vida provavelmente teria tratamento técnico melhor do que o dos aposentados pelo INSS. O Boston Consulting Group de Harvard estabeleceu quatro etapas dentro do Ciclo de Vida de produtos: Introdução, Crescimento, Maturidade e Declínio. Também chamadas de Criança Prodígio, Estrela, Vaca Leiteira e Abacaxi. A ciência é prolongar a Maturidade alongando a chegada ao Declínio ou, até mesmo, descartando-o e criando diversificações.Este inevitável ciclo, como o da vida das pessoas, exige acompanhamento permanente para adaptação às mudanças do mercado, aqui considerado como meio ambiente.

Matriz_BCG

Entretanto, não é o que tem sido aplicado à vida profissional dos cidadãos brasileiros. Embora, há décadas os aposentados ocupem um proeminente espaço na agenda política nacional.

Collor e FHC postaram medidas a favor da Previdência e, aparentemente, em detrimento dos trabalhadores. Direção que Lula também tomará, quando anuncia veto ao projeto aprovado pela Câmara e que foi votado ontem no Senado. Reajuste acima de 6,14% e fim do fator previdenciário.

O balizamento essencialmente político que tem sido dado aos aposentados tem levado de um lado a uma posição homogênea de quem está no poder e, de outro a um afastamento da técnica, da demografia e principalmente da sociologia.

Há nove meses observávamos que:

“Dos 26,5 milhões de brasileiros aposentados 8,5 milhões ganham acima de um salário mínimo. Não possuem mais força competitiva no mercado de trabalho, que os rejeita. Não recebem reajustes compatíveis na pensão devida pelo Estado, que os discrimina. E são taxados no valor que recebem de aposentadoria pelo Sistema Tributário, que os assalta. Ainda assim são acusados de ameaçar o INSS, como se fossem os responsáveis pela incapacidade atuarial de Governos passados e pela frieza contábil do Governo presente”.

(leia o artigo completo, publicado em 01/07/2009)

Na sexta, o deputado Flavio Dino saiu em defesa dos 8,5 milhões em artigo que elege como justiça social o aumento de 7,7% aprovado pela Câmara e baseado em 80% do PIB de 2008. Acresce ainda que o PIB de 2010 deva crescer pelo menos 6%.

Ontem, o editorial da Folha endossou a posição do economista Fabio Giambiagi, que, há 20 anos, defende mudanças nas regras da Previdência Social propondo equilíbrio contábil e alertando contra as bases numéricas em momentos de economia positiva. A “Bomba demográfica” que intitula o artigo é provavelmente inspirada no livro de Giambiagi: “Demografia, a ameaça invisível”.

Este cenário conturbado fica ainda mais nebuloso quando se introduz a recente opinião dos candidatos Dilma e Serra. Dilma propõe intervenções especificas e momentânea. Serra endossa o que Lula decidir. Ora, Lula já avisou que veta aumentos acima de 6,14%, e a retirada do fator previdenciário. E, assim como nunca neste país, é hora de o jornalismo consciente entrar neste quadro eleitoral e pressionar a posição dos candidatos sem tangenciar para também não renegar os 8,5 milhões de aposentados.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

De Grécia

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça Da Grécia na voz e sonorizado pela autora

Da galeria de Érato_79 no Flickr

O jornal Zero Hora trazido de Porto Alegre pelo meu fiho Luiz Fernando estampa na capa: “Brasil socorre Grécia com US$ 286 milhões”.

Não sei o que significa essa quantia para você; para mim é dinheiro que não acaba mais, e me faz curiosa. Quero saber que tipo de socorro é esse e leio a matéria.

Pelo que entendi, o FMI – Fundo Monetário Internacional correu a cestinha por alguns países que já foram socorridos antes, e que portanto não podem nem fingir que estão rezando, olhos semicerrados em fervorosa prece, nem que não viram a cestinha passar.

Ainda pelo que pude entender, se todo mundo não participar dessa vaquinha, a vaca vai pro brejo, no mundo todo.

Queria ser uma mosquinha para ver o que acontece nesses bastidores. Ou melhor, não queria não. Já vi gente morrer de overdose muito menor e menos letal.

Mas voltando ao socorro, o negócio foi quebrar o porquinho e meter a mão no bolso.

Agora, se você ingenuamente credita no que eu acreditava, pode mudar o canal, pode desviar a atenção porque mesmo esse socorro compulsório vem com vantagem embutida no pacote. Os países que emprestam na verdade estão investindo. Tipo agiota ou gerson: sempre leva vantagem.

Ainda confessando minha ignorância do tema, vejo o FMI como um Banco Big Brother planetário, que pega cá dá lá, e vice-versa, e leva o seu.

Esses milhões, que no caso são duzentos e oitenta e seis, saíram da nossa reserva internacional. Vou parar por aqui porque não conseguiria nem explicar para um neto meu o que é reserva internacional. Seria um fiasco. Não sou boa para números. Finanças, então…

Aprendi ainda, lendo a matéria, que eu tenho, tu tens, ele tem, nós temos US$ 249 bilhões na reserva internacional e o Brasil vai investir, quero dizer socorrer a Grécia com parcos US$ 286 milhões.

Se você se pergunta o que é que deu em mim para me meter a falar do que eu não entendo – e nem quero entender – eu explico: Não foi a transação financeira que me chamou a atenção.

O caso é que eu amo a Grécia.

Tenho uma ligação incrível com a terra, a cozinha, a música, o idioma, a gente. Pedras, vulcão, mares azuis como o céu de primavera, carneiros assados, batatas ao forno, tudo regado abundantemente com azeite da absoluta melhor qualidade e com limão siciliano. Terra das buzúquias e do mussaká. Da dança, de tragédia e de alegria. Alegria que nasce dali: da tragédia. Quando a tragédia atinge seu ponto máximo é que a gente encontra o chão – o fundo do poço – e consegue dar impulso para de novo respirar.

Com os gregos não é diferente: de tanto treinar, século após século, após século, esse mecanismo se automatizou.

na Grécia a arte faz parte do dia a dia
há tragédia na dança
e dança na tragédia
ali tudo é criação
comida música beleza história e dança
em qualquer situação

Numa casa grega com certeza, se come em volta do fogão, do lado, na frente ou atrás dele, dependendo da arquitetura da cozinha. Muda a cozinha, muda o endereço, e a festa em volta da mesa e do fogão é a mesma.

Enfim, o que vai acontecer com a Grécia?

Não sei. Só sei que muitos gregos que conheci trabalham para o governo. São funcionários públicos; ele ou ela, ou ele e ela e toda a família. O governo paga regiamente e oferece inúmeras vantagens como a de servir a pátria em Nova Iorque ou São Paulo, ganhando em euros mais moradia garantida e viagens de férias para a mãe pátria, duas vezes ao ano.

Syntagma

Eu poderia falar ainda da tristeza de voltar a Atenas e ver o centro, a praça Syntagma modernizada.

O berço do mundo virou cama-box!

E agora vou ouvir um pouco de música grega e sonhar que tudo vai bem, obrigada.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Como as encarroçadoras de ônibus andam no País

 

Roberto Ferreira, da Fabus, há mais de 30 anos, relembra das lutas de empresários e funcionários para o desenvolvimento do setor de carrocerias, no Brasil. Na primeira parte desta nova série de reportagens, o “Ponto de Ônibus” mostra como o segmento enfrentou o período da inflação.

CARROCERIAS SOBRE CHASSI DE CAMINHAO

Por Adamo Bazani

O fechamento de uma empresa e a onda de demissão e incerteza são dos maiores sofrimentos para o trabalhador. Não se resume a números em uma estatística de desemprego, são famílias, sonhos e projetos ameaçados – um carro a ser comprado, uma casa ou um tratamento médico que caem por terra.

Quem assistiu de perto este cenário, por muitas vezes, foi Roberto Ferreira, diretor executivo da Fabus, Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, entidade que reúne as principais encarroçadoras do país. Há 33 anos na função de executivo da entidade, Roberto diz que a indústria de ônibus se desenvolveu muito e vive condição favorável, atualmente. Nem sempre foi assim, ressalta.

“Sou enfático em dizer que a indústria de encarroçamento de ônibus no Brasil é uma grande vencedora, contribuiu com o desenvolvimento do País e, mesmo que a duras penas, soube superar os momentos econômico e social mais difíceis, no s anos de 1980 e 1990”

Nascido no Bosque da Saúde, zona sul da capital paulistao, Roberto Ferreira, de 65 anos, mudou-se para Santo André, no ABC Paulista, quando era criança. Seu primeiro contato com os transportes foi entre os anos de 1966 e 1968, quando administrava com o pai, Olegário Ferreira, uma distribuidora de bebidas na região:

“Eu cuidava da parte administrativa na distribuidora, e meu pai com um velho caminhão vendia as bebidas. Tirando a área central do ABC, as demais ruaseram de barro e cascalho. Quando chovia era um Deus nos acuda. Meu pai atolava com o caminhão e eu tinha de providenciar o resgate. Na época, para trabalhar com transporte, não bastava apenas dirigir. Tinha de entender de mecânica. E eu via meu pai trabalhando, consertando o velho caminhão. Lembro-me, por exemplo, da dificuldade que era, principalmente nos dias depois de chuva forte, a subida da Rua Gamboa para a Juazeiro, no Paraíso, em Santo André. Quantas vezes o caminhão do meu pai atolava neste lugar”.

Na distribuidora de bebidas, Roberto conheceu as dificuldades no transporte e desenvolveu experiência para gerenciar empresas:

“Peguei o tino para gerenciar e dirigir um negócio de uma tal maneira que quando vendemos a distribuidora, ela valia três vezes mais que na época quando entramos no negócio”.

Na década de 1970, Roberto Ferreira continuava no ramo de transportes. Desta vez, como gerente da Expresso Santa Catarina, em Blumenau, uma empresa de transporte de carga seca. Querendo voltar para São Paulo, ele descobre uma vaga para diretor executivo da Fabus.

“Quando cheguei na sede da entidade, na Rua Guaiaúna, na Penha, fui entrevistado por um mestre em transportes: o senhor José Massa, na época presidente da entidade e que, entre 1945 e 1946, fundou a Caio – Companhia Americana Industrial de ônibus -, homem visionário, um dos pioneiros da fase profissional de fabricação de carrocerias no Brasil”.

Em 16 de fevereiro de 1977, ele assume o cargo de diretor da Fabus. Mal sabia que anos depois, por causa da conjuntura econômica, além de problemas específicos no setor, enfrentaria um dos maiores desafios de sua carreira.

“No início, pensava que era mais tranquilo que o gerenciamento da transportadora. Quanto estive à frente da Expresso Santa Catarina, eram problemas como caminhão quebrado, frete não entregue na hora, discussões por causa do preço das entregas, e na Fabus, todas as associadas entregavam seus balanços direitinho e relatavam as necessidades do setor, para entrarmos em contato com montadoras, fornecedores e poder público. Mas, as coisas logo depois não foram tão tranquilas assim”.
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Quero só o comercial de margarina

 

Por Abigail Costa

Tirei um tempinho nesses dias para uma função diferente: pesquisadora. Nada de laboratório e ampolas. Que pena!

Diante dos meus amigos, da manicure, na fila do caixa do supermercado. Só faltou a prancheta.

“Você está se sentido cansado? Desanimado? Tem que levantar e o corpo pede mais cama?”

Quando a resposta era positiva, isso aconteceu na maioria das vezes, me sentia um pouco mais animada. Era como se eu não estivesse sozinha no mundo do não-quero-fazer-nada.

Ouvi justificativas para o caso.

“Em certos períodos isso é normal mesmo … às vezes a gente precisa de um tempo”.

Mas o que me fez pensar no que estava me incomodando veio da minha querida Maria Lúcia:

“Muitas pessoas estão focadas para um lado ruim que acaba contaminando todo o resto”.

Isso mesmo.

Pregamos o melhor e fazemos diferente.

Quer um exemplo?

Você está se sentindo de bem com a vida? Ligue a televisão no noticiário. Pronto, o terapeuta ganhará mais um paciente.

Jesus! Que coisa mais perversa! É tanto tiro que uma das balas teima em furar a tela da minha 40 polegadas!

Aí o engravatado roubou. O outro mesmo comprovado o crime não foi punido e voltou pra casa. E o sujeito está largado na maca do hospital enquanto a vinheta das eleições já começa a rolar no espaço reservado para a propaganda de margarina.

Falando em margarina. Nem gosto tanto do produto só que ADORO quando aqueles segundos vão ao ar! Adoro ver a família na mesa, aquele sol da manhã entrando pela janela, o pão quentinho saindo fumaça …

De volta as tragédia rotineiras. Outra descoberta da minha pesquisa.

Todos se queixam das notícias sangrentas. Querem a boa notícia. Mas se “eles” exibem, diariamente, o que a gente está careca de ver é porque tem mercado pra isso. Caso contrário, o Ibope registraria queda na audiência.

Entre não querer ver e assistir tem uma longa distância.

Então, mesmo que você se proponha a só prestigiar o “comercial de margarina”, tem sempre um mensageiro do apocalipse:

“Você viu? Que coisa, não, estamos perdidos”.

Pra terminar minha “terapia em conjunto”, o caos é quando o marido chega pra você todo carinhoso e diz:

“Amor, temos que economizar”.

Pronto! Aí me mundo caiu de vez! Pior que desta vez, ele tem razão.


Abigail Costa é jornalista e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung

Reginaldo e Mônica, na alegria e na falência

 

Por Frederico Mesnik

Mônica estava desolada. Com o casamento marcado para o fim do ano, sua festa, que há pouco saciava todas as suas fantasias de princesa, estava agora,reduzida ao quintal de casa. Nada de cornetas reais para sua entrada suntuosa, garçons com bebidas exóticas, ou o amigo DJ para agitar a pista até o amanhecer. A nova realidade comportava somente poucos convidados para uma recepção modesta, sem muita pompa, somente o necessário. A lua-de-mel, antes um cruzeiro pelo Caribe, estava agora transferida para a casa de Peruíbe – e com os sogros, para cortar custos.

Da euforia vieram os planos e da fragilidade das decisões veio à decepção. Com pouco mais de R$ 50.000 resgatados do seu FGTS meses antes, Reginaldo foi seduzido pelo glamour da bolsa de valores. O caminho era fácil. Abre-se uma conta em uma corretora, faz-se a transferência do dinheiro e, em pouco tempo, vem a possibilidade de comprar e vender ações. Como toda corretora moderna, sua plataforma eletrônica dava acesso a um mundo de informações, de dados macroeconômicos a opiniões e recomendações de analistas, grafistas e palpiteiros em geral, via fórum de discussão. Balela para um engenheiro hábil em matemática, capaz de digerir e dominar o mercado financeiro em pouco tempo.

Por que não investe em um bom fundo de ações? Cogitou seu irmão mais novo, Márcio. Hoje, a internet disponibiliza um acervo de informações e rankings sobre os melhores gestores com anos de experiência, toda uma formação específica e habilitação pelos orgãos competentes.

Nada disso, replicou Reginaldo! Já estou dominando o processo. Tenho acesso às informações de que preciso tudo on-line e “de graça”. Porque vou pagar 2% ao ano de taxa de administração se eu sei fazer sozinho?

E foi assim, com toda prepotência de uma mente brilhante e inexperiente que Reginaldo debutou pelos meandros fascinantes dos mercados. O mesmo analista que há pouco recomendara a venda de Petrobras agora mandava comprar. Dizia que o aumento dos preços do minério de ferro já estavam precificados e Vale não era uma boa opção. Do vizinho veio a dica de Varig que subia sem parar com rumores de venda. Nos fóruns discutia-se Itaú. Montou sua carteira ao ponderar tantas ideias de tantas fontes diferentes e ganhou dinheiro. Dobrou seu capital em pouco mais de três meses ao mergulhar no boato da empresa e soube conter sua ganância ao realizar o lucro. Marcou o casamento e deu a Mônica um orçamento dos sonhos, que como já sabemos, estava com os dias contados.

Estava confiante, sentindo-se poderoso e apto para arriscar. Do grafista veio o cenário de realização e do analista uma operação de volatilidade, envolvendo o mercado de opções. Abriu seu Excel e “planilhou” tudo. Calculou os retornos, os riscos, o VAR, as gregas e tudo que havia aprendido com todos os canais disponíveis. Montou sua posição, tomou banho e foi para uma entrevista agendada com uma empresa multinacional de bens de consumo. Ganho fácil com operação casada de mercado à vista e derivativos, difícil errar. Márcio, te dou uma comissão de 1% se você ficar aqui monitorando o mercado para mim, disse Reginaldo. Fique de olho na planilha, e se acender alguma luz vermelha você me liga.
Foi para entrevista com um pé em cada canoa. De um lado o mirabolante mundo dos ganhos fáceis; do outro, a árdua tarefa de arrumar um emprego. Afinal, o casamento estava marcado.

Começou a entrevista e Reginaldo percebeu que seu celular estava sem sinal. Suou frio e perdeu a concentração bem como qualquer chance de receber uma proposta de trabalho. Saiu correndo para ligar para casa e gelou ao ouvir as inúmeras mensagens desesperadas do irmão comissionado. O mercado tinha virado com a descoberta do pré-sal, as gregas abriram, houve chamada de margem e Márcio, sem titubear, zerou as posições com 80% de prejuízo! Era tarde demais.

Os sonhos construídos nas últimas semanas ruíram como a fragilidade de um castelo de areia, junto com os sonhos maritais de Reginaldo e Mônica.

Do surgimento da internet veio a facilidade de acesso às mais diversas informações. A Geração Y mergulhou no mundo virtual e o acesso à bolsa via plataforma eletrônica de home broker cresceu vertiginosamente. Estima-se hoje que aproximadamente 200 mil investidores entre 16 e 35 anos trocam suas posições diariamente na Bovespa, algo como 8% do volume mensal de negociação, ou R$ 8 bilhões. A expectativa de ganhos rápidos e fáceis é um atrativo para uma geração afoita que consegue ouvir música, trabalhar, acessar o Facebook ao mesmo tempo em que opera seu capital nos mercados.

Não sou contra o uso do home broker e para cada regra há exceções com a revelação de talentos. Por outro lado, a grande maioria costuma tomar um tombo grande para depois reavaliar. Já ouvi muitas histórias parecidas – óbvio que usei aqui um exemplo caricato – e todas tem um ponto em comum: investidores educados que vão ganhando confiança com o tempo e percebem, de uma maneira bem cara, que o mercado financeiro é ambiente para profissionais. Operar sozinho é como auto-medicação. Começamos com uma simples aspirina e, em pouco tempo, o farmacêutico indica aquele remédio novo para dor nas pernas. Doses erradas, combinação com outros medicamentos e efeitos colaterais são os ingredientes para comprometer a saúde física.

Não vamos também comprometer a saúde financeira e mental. Para operar sozinho, use uma quantia pequena para brincar e se divertir. Deixe a gestão do seu patrimônio para profissionais! Sabemos que o ser humano tem o viés de esquecer as perdas e de dar mais valor aos ganhos, o que dificulta a auto-análise e a visão real de que sozinho é muito difícil ganhar dinheiro na bolsa com consistência e segurança de longo prazo.

Esperamos que Reginaldo tenha aprendido uma lição, pois o primeiro prejuízo costuma ser o menor e, quem sabe, com sorte e um bom gestor ele e Mônica possam comemorar o primeiro ano de casados com muito estilo.

Leia aqui outros artigos publicados por Frederico Mesnik

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

A psicologia de ser do contra

 

Por Frederico Mesnik

Sir John Marks Templeton, um dos maiores gestores da humanidade disse certa vez que é impossível gerar um retorno superior aos seus investidores sem fazer algo diferente do que a maioria. Essas palavras sábias são esquecidas no cenário atual de alta volatilidade, pouca visibilidade e estratégia míope de que devemos nos posicionar hoje para o mercado de amanhã e fazer o mesmo depois de amanhã e assim por diante.

Em certa ocasião e em sintonia com a opinião de Sir Templeton, Sir John Maynard Keynes disse: “The central principle of investment is to go contrary to the general opinion, on the grounds that if everyone agreed about its merit, the investment is inevitably too dear and therefore unattractive”.

O princípio central de gestão é ser contra o consenso, baseado no fato de que se todos concordam sobre seu mérito, o investimento é inevitavelmente muito desejado e, portanto não atraente. Infelizmente, o mercado de hoje é caracterizado por investidores preocupados em não ter retornos abaixo do seu benchmark e com medo de ir contra a multidão.

Um estudo recente do Professor Partha Dasgupta da St. Johns College mostrou que num horizonte de dois anos, as principais ações compradas por investidores institucionais tiveram um rendimento médio de 17% abaixo das principais ações que estes mesmos investidores venderam, no mesmo período de tempo. Este estudo foi estendido para fundos de ações (large caps, small caps) sendo value ou growth com resultados similares, mostrando que independentemente do seu universo, ser do contra traz resultados no longo prazo.

Não estamos dizendo que ser do contra basta para ganhar dinheiro. Aliás, estar junto com a multidão parece ser a opção menos arriscada. O que estamos querendo dizer é que os fundamentos e nossas convicções ditam nossas decisões de investimento, mesmo que sejam contrárias ao consenso do mercado.

A maior falha de um gestor é a incapacidade de distinguir entre fundamentos e expectativa refletida nos preços dos ativos. Uma casa de apostas é uma boa metáfora para ilustrar a diferença. Aqui temos duas variáveis: os fundamentos que indicam a probabilidade do time ganhar (track-record, jogadores, técnico, situação financeira do clube, árbitros, condições do campo e do tempo, etc) e a expectativa, que podemos ver claramente no quadro de apostas, refletindo o preço em proporção ao prêmio ou no caso dos times, o rateio. Um time com alta expectativa de ganhar a partida e o campeonato paga menos do que aquele com baixa expectativa.

Um bom gestor foca não só no sentimento geral, nas expectativas, mas também em como os sentimentos podem levar a grandes possibilidades de arbitragem entre os fundamentos e as expectativas. Às vezes nos enganamos de que estamos agindo de forma racional e avaliamos todos os prós e contras das diversas alternativas. Mas isso não é verdade na maioria das ocasiões, pois em muitos casos decidir a favor de X não é mais nada do que gostar de X. Compramos carros que gostamos, escolhemos casas e férias que gostamos e depois justificamos nossas escolhas de diversas maneiras. Além do mais, o que gostamos é altamente influenciado pelo que outras pessoas gostam, e escolher boas opções de investimentos é muito mais do que simplesmente comprar o que gostamos.

Um gestor precisa de independência para ter conforto e convicção de apostar contra a multidão quando há uma possibilidade de arbitragem entre os fundamentos e as expectativas. Esta independência torna-se difícil, pois quanto maior este gap, maior a pressão para ser parte da maioria. Além disto, a independência precisa ser objetiva para dar habilidade ao gestor de formar suas opiniões sem ser influenciado por fatores externos. Afinal, os preços não só informam os investidores, mas influenciam suas decisões.

Um bom investidor também precisa ter orientação de longo prazo, pois o ato de investir é inevitavelmente um exercício de probabilidade e precisamos ter a percepção de que o mercado pode demorar a revisar nossas expectativas.

Ter opiniões próprias que às vezes vão contra o consenso não é fácil. O primeiro passo é esclarecer os motivos e endereçá-los, trazendo credibilidade e transparência ao mercado. O importante não é acertar sempre, mas ter a convicção e coragem de correr contra a manada, pois é aí que estão as melhores opções de investimentos.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

Seleção brasileira de ativos

 

Por Frederico Mesnik

Quando perguntaram a Albert Einstein qual era a força mais poderosa do universo, ele respondeu: “os juros compostos!”. A alocação inteligente de ativos traz a oportunidade de ver nossos investimentos crescendo com a mágica dos juros sobre os juros.

Durante anos, grandes fortunas foram perdidas porque gestores ignoraram os preceitos básicos de uma boa alocação de ativos: diversificação, rebalanceamento e análise de riscos. No longo prazo é preciso dar atenção a cada uma destas variáveis.

Na sua base, alocação de ativos é buscar aplicações que não só podem se valorizar como também se comportar de uma maneira diferente das outras aplicações na carteira. Quando um ativo está perdendo seu valor por algum evento econômico-financeiro, é bom ter outro na carteira que sobe de valor no mesmo cenário. Chamamos isto de não-correlação. No fundo, a essência da diversificação é a busca pela não-correlação. A boa diversificação é aquela que envolve várias classes de ativos que têm resultados diferentes nos diversos cenários de mercado.

Vamos pensar em uma seleção de futebol: para vencer no mundo dos investimentos precisamos de um time forte e balanceado. Precisamos de bons atacantes quando o tempo está favorável e de bons defensores que protegem o nosso campo quando as coisas não vão bem. Do mesmo jeito que um time precisa ter um goleador, nossa carteira precisa de ativos que entregam resultados constantes acima da média, independentemente das condições de mercado.

Um técnico monta sua equipe avaliando cada jogador. Seus pontos fortes e fracos, histórico de desempenho e acima de tudo sua integração com a equipe. O técnico precisa saber o que cada jogador pode e não pode fazer, quais são os seus limites e sua posição ideal. Construir uma carteira é a mesma coisa. A combinação de ativos precisa ter harmonia e integração para atacar no momento propício e defender em momentos de turbulência. Desta maneira, teremos um retorno consistente com os nossos objetivos e sem surpresas.

De tempos em tempos devemos olhar nossa carteira para realizar os lucros daqueles investimentos que subiram acima da média e comprar aqueles que estão abaixo. O rebalanceamento faz com que a carteira mantenha suas alocações originais. O famoso mantra “Compre na Baixa e Venda na Alta” é alcançado com esta atividade. Conforme os ativos vão se valorizando e ocupando uma porção grande da carteira, a boa alocação manda vender e reinvestir em ativos que não estão indo bem, e assim por diante, pois o cenário é dinâmico.

Um bom técnico está sempre atento ao jogo pensando em coisas que podem dar errado, e é assim que devemos pensar. Analisar o risco não é nada mais do que avaliar o quanto estamos dispostos a perder. Devemos sempre estar atentos aos tipos de risco que estamos correndo e como eles podem afetar nosso portfólio para tomar medidas e reduzí-los ou até anulá-los.

Não há muito segredo para se ter sucesso na alocação de ativos. O processo exige muita arte, paciência, perspicácia, curiosidade e inteligência profissional. Como um terno feito sob medida: em alocação de ativos todos temos o mesmo tecido, mas cada um tem seu gosto e seu corte. Para os bons ternos busquemos um bom alfaiate para nossa carteira, um bom gestor!

Obrigado leitor pela atenção.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, tem especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

Confissões no banheiro

 

Por Rosana Jatobá

Depois de Madonna ter assumido que faz porque “gosta de senti-lo escorrer entre as pernas” ficou mais fácil lançar a ideia em rede nacional.

A delicada tarefa coube à competente repórter Monalisa Perrone, que, sem perder a elegância, anunciou a campanha da ONG S.O.S Mata Atlântica:

“Faça xixi no banho”.

Monalisa explicava que, ao ignorar o vaso, o telespectador poderia economizar muitos litros de água:

“Pra descargas com caixa acoplada são pelo menos 12. E nos  vasos com válvulas, muito mais:  60 litros por vez. ”

A ONG calcula que, evitando apenas uma descarga por dia, o consumidor poderia economizar até 4.380 litros de água por ano. Somente em São Paulo seriam poupados mais de 1.500 litros de água por segundo.

O apelo ambiental e econômico não foi suficiente para evitar discussões calorosas na redação. Um editor disparou:

– “Uma matéria como esta só ensina o povo a ser ainda mais mal-educado. Isso é um desserviço! Se a moda pega, a luta pra ensinar as pessoas a não fazer xixi nas piscinas, por exemplo, vai por água a baixo!”

De volta à emissora, Monalisa foi recebida com um banho de água fria:

– “Imagina se eu vou deixar meu banheiro com resto de urina pelos cantos! Ou você pensa que eu vou levar uma vassoura e um desinfetante pro box?”

– “Mas o xixi é limpinho” – repete Monalisa. “Eu disse na reportagem que 95% são água e o restante, uréia e sal” 

Não houve consenso.

Em casa, experimentei a façanha. Nos primeiros dias, com estranheza. Afinal, um contato tão direto assim com o xixi, por mais limpo que pareça, é sempre um contato com um dejeto; e, dependendo do dia em que se ingere pouca água  ou se toma um remédio, o tal resíduo pode exalar um cheiro forte e exibir uma coloração mais intensa, comprometendo sua imagem de pessoa asseada diante do próximo usuário do chuveiro.

Pensamento inócuo.

Depois de uma semana já havia me acostumado com a tal sensação propagada pela pop star.

Em visita a uma amiga que mora em Paris, me surpreendi quando ela disse que este é um hábito por lá. E de quebra, muita gente otimiza a capacidade de armazenamento do  vaso sanitário. O fatídico xixi que antecede o sono, fica lá a madrugada toda à espera do primeiro jato do dia. Assim, vão os dois xixis pelo cano de manhã.  Outra descarga poupada!

Minha empregada diz que aderiu à campanha, coisa que confesso não ter apurado. 

O fato é que essas pequenas iniciativas têm mesmo o poder de contagiar. Talvez por aliviar a culpa pela sobrecarga que impomos ao planeta, talvez pela probabilidade apavorante de passar sede.

Um estudo do Credit Suisse Research Institute, datado de novembro de 2009, revela que em 2020,  37% da população global, ou seja, 2,8 bilhões de pessoas, vão lidar com a falta d´água. Situação que pode piorar se as previsões do IPCC, com relação às mudanças climáticas, se confirmarem.
Mas o que temos a ver com isso, se o Brasil detém 13% da água doce do planeta? 

Primeiro, porque há uma percepção errada de que temos água em abundância. Nossos recursos hídricos estão mal distribuídos pelo país. Há excesso no Norte e escassez em grandes centros urbanos e nas áreas de climatologia desfavorável, como no semi-árido nordestino. A poluição dos recursos hídricos pelo lançamento de esgotos domésticos e efluentes industriais também a ajuda a acentuar os problemas de escassez.

Segundo, porque as pressões decorrentes deste déficit hídrico mundial poderão representar uma enorme ameça para países que têm grandes estoques de água, como o Brasil, diz a pesquisa.

Para mim, o hábito de evitar o desperdício vem de berço. Mas agora levo ainda mais a sério o desafio da higiene, usando o mínimo de água possível.  A máxima “menos é mais” lava a alma.

O problema é o risco de radicalizar. Convivo com uma voz, vinda do além, que me manda todos os dias  fazer uma varredura pela casa, em busca de chuveiros e pias pingando. É um tal de torcer com tanta força os registros, vedando a passagem da água, que a simples tarefa de abrir a torneira precisa do esforço concentrado de pelo menos duas pessoas.

Confesso que também não resisto a provocar o maridão, que tem um encontro sagrado e demorado com o banho.

Outro dia fui até questionada pela minha sogra:

– “Você não acha que este é um dos poucos prazeres que meu filho pode ter, depois de um dia extenuante de trabalho?”

– “Tudo bem. Tem razão” – disse à nora, resignada.
Não vou impedi-lo de curtir a forte relação com a água quente jorrando do chuveiro. Ao contrário, vou ajudá-lo a descobrir outros prazeres de um banho relaxante… sem deixar rastros no banheiro, claro!

Que vivam as Madonas!!! 

Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre sustentabilidade e outras necessidades.

Piratas e picaretas da sociedade moderna

 

Por Rosana Jatobáhttp://www.flickr.com/photos/paratyemfoco/

Depois de bater perna pela Oscar Freire, atraída pelas vitrines em liquidação, Patricia avisa à amiga:

-Preciso ir na 25 de março. Tenho que comprar minha Gucci. Soube que os coreanos estão fazendo cópias perfeitas!
– E se alguém descobrir que é falsa?
– Do jeito que eu sou fina e descolada, a maioria vai olhar pra mim, arder de inveja e constatar : ela é bem-sucedida! No meu metier, é preciso usar certos ícones de status social…
-Você não acha melhor ir até a loja da Gucci no shopping e investir numa bolsa verdadeira? Você terá um produto de qualidade, que suas netas poderão herdar. Veja o custo-benefício.
– Você acha que eu tenho R$ 3 mil pra dar numa bolsa?
– Mas eles dividem em até 5 vezes no cartão.
– Nem se dividissem em 20 vezes! Acho um absurdo a ganância desses  empresários da moda internacional.
– E quem paga a pesquisa feita pra desenvolver um produto como este? Quem paga a matéria-prima de primeira?  E o trabalho artesanal? Já ouviu falar em propriedade intelectual?
– Não sei quem paga. Eu é que não pago!!

A conversa se esvazia na abordagem superficial dos direitos do autor.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, O jornalista italiano Roberto Saviano lança o livro Gomorra, em que revela o modelo de produção de grifes italianas. Para reduzir os custos, tercerizaram os serviços de tecelagem, normalmente em países da Ásia, por meio de um sistema de concorrência.

A grife desenha as roupas e entrega os modelos para inúmeras pequenas confecções. Imigrantes ilegais trabalham dia e noite, num regime análogo ao da escravidão,obrigados a produzir mais e em menos tempo. A confecção que ganha a concorrência é paga. Quem perde, não ganha nada, mas pode ficar com as roupas produzidas. Este “encalhe” vai para as mãos de comerciantes informais. O mercado é inundado por roupas e acessórios piratas infinitamente mais baratos do que os originais e com um alto padrão de qualidade.

Dos guetos de Pequim para a 25 de março, a bolsa da Patrícia chega de navio, invisível aos olhos de quem fiscaliza.

Eu pergunto: Se a poderosa indústria da moda não garante um processo de produção social e ambientalmente responsáveis, quem vai exigir tal responsabilidade do consumidor?
Eu respondo: Historicamente, as leis criadas para proteger a propriedade e o lucro são mais severas e efetivas do que as que foram implantadas para defender a vida e a dignidade.

Ali mesmo na 25 , o motoboy Gilvan encontra o desejado DVD que vai assistir com a família no fim de semana. Mas antes ouve a provocação do colega de profissão.

– Seu Capitão Gancho do asfalto, qualquer hora dessas tu vai ser preso. Pirataria é crime!
-A 25 tá cheia de polícia e em toda esquina tem venda de produto pirata, perante os homens da lei. O próprio presidente Lula assistiu a “Dois Filhos de Francisco” em cópia pirata. Se eu posso comprar o dvd por R$ 4, por que pagar R$ 40 ?
– Tá sonegando imposto e incentivando o crime organizado!
– Se eu pagar imposto, aí é que vou incentivar o crime organizado. Ou você conhece quadrilha mais organizada que o governo, que toma os impostos e não devolve nada ao povo? Pelo contrário, enfiam o meu dinheiro nas meias e cuecas. “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. E eu ainda tô ajudando o camelô, coitado, que tá trabalhando em vez de assaltar por aí.

Enquanto isso, o Pesquisador Pablo Ortellado , do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (GPOPAI), da Universidade de São Paulo (USP), legitima o comportamento do Gilvan:

“Vejamos o caso da pirataria comercial, na venda em camelôs, que é uma transação comercial e um empreendimento de capital de pequeno porte. Quando esse tipo de pirataria é voltado para o segmento popular, ele tem a característica de oferecer às pessoas pobres o acesso a bens culturais digitais. O benefício comercial é enorme: a estimativa é de que se multiplica por sete o acesso à música e por 2,5 aos filmes. Isso não causa prejuízo significativo para a indústria porque essas pessoas estavam excluídas do mercado, pois não têm meios econômicos para pagar R$ 30 em um CD ou R$ 60 em um DVD”.

Numa outra universidade, o aluno Marvin sente-se à vontade para contar como usa os programas de compartilhamento na internet:

– Faço parte do grupo musical da minha igreja e posso afirmar que mais de 70% dos CDs e Playbacks utilizados por grupos e corais são piratas. Quem nunca usou uma imagem em seu blog que não foi criada pelo próprio blogueiro? Quem não baixou ou deixou alguém instalar um programa sem a compra da licença? Será que todos os programas que tem no computador foram comprados numa loja de produtos de informática?

Marvin engrossa as estatísticas. Entre os brasileiros que têm Internet em casa, 45% revelam que baixam conteúdo pirata.

Eu pergunto: Sendo a Internet uma rede baseada em computação digital, copiar arquivos digitais ou baixar um arquivo que está disponível é pirataria?

Desta vez quem responde é Sérgio Amadeu da Silveira, sociólogo e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo.

“Os negócios construídos no mundo industrial não têm mais sentido nas redes digitais. No mundo das redes digitais, quando alguém copia um arquivo, não está tomando nada do original. É equivocada a ação das indústrias de copyright no mundo das redes digitais. Falar para não copiar nas redes digitais é ir contra a natureza técnica das próprias redes. A indústria agonizou sem se adaptar à nova situação tecnológica do mundo, e optou por reagir à pirataria de uma maneira repressiva. Só agora, há cerca de dois anos, é que efetivamente começou a desenvolver novos modelos de negócio, com a venda de música digital a preços mais baratos.

Patrícias, Gilvans e Marvins representam a parcela de 72% da sociedade que admite já ter utilizado um produto pirata.

Antes da crítica feroz, vale uma reflexão.

Tomemos o cuidado de não virarmos Piratas Sociais. Seres que ouvem ou lêem as versões lançadas pelos governos ou pela indústria, se apropriam das informações oficiais, e tecem longos discursos moralizadores.

A Sustentabilidade prega uma sociedade múltipla, em que todos são ouvidos e valorizados em seus desejos e necessidades.

O crescimento econômico não pode ser um fim em si mesmo, mas uma forma de atingir objetivos sociais, respeitando o meio-ambiente.

Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre sustentabilidade e consumo.

Veja mais imagens da Galeria de Exposição Coletiva do Paraty

Introdução a um mundo novo e inovador

 

Por Frederico Mesnik

Durante quase mil anos a humanidade mergulhou em um período de estagnação intelectual e pouca inovação. Sem competição, metas ou a simples necessidade de superação, o ser humano permaneceu no ostracismo da Idade Média.

Com a queda do Império Bizantino e a consequente ascensão do Império Otomano, em 1453, o acesso comercial à África e Ásia via Mediterrâneo foi fechado. A perseguição aos mercadores locais fomentou o êxodo para outros países. Nações ibéricas se uniram contra o poderio dos otomanos no continente para buscar caminhos alternativos ao Oriente.

Da sede por novas soluções vieram as inovações e a necessidade de correr riscos. Navegadores saíram em busca de uma solução alternativa, fora do contexto comum e descobriram as Américas. A humanidade entrou em um círculo virtuoso de crescimento e deste Renascimento veio a ponte para a Era Moderna.

O mesmo acontece agora no Brasil. Inovar e arriscar serão fundamentais, pois com a queda abrupta da taxa referencial de juros para um dígito e pressões inflacionárias, não será possível atingir retornos satisfatórios reais sem uma diversificação da carteira em produtos diferenciados de alto valor agregado. A habitual alocação passiva em títulos públicos e fundos de grandes bancos não vai capturar o vento com a eficiência necessária para que a carteira cruze o Atlântico. É essencial que haja velas modernas, instrumentos de navegação de última geração e uma tripulação de primeira para aproveitar os ventos certos e navegar com segurança até o outro lado do oceano.

São os gestores independentes os mais habilitados a suprir esta necessidade. Com equipes de gestão altamente capacitadas, produtos ativos, estrutura dinâmica e controles sofisticados, seus produtos de renda variável têm ultrapassado o rendimento do Ibovespa nos últimos anos com risco ainda menor. Mantendo agilidade para antecipar movimentos e reagir rapidamente às mudanças dos mercados, estes gestores podem assumir, sem comprometimento algum, posições contrárias ao censo comum, e são justamente estas posições contrárias que trazem os maiores benefícios. Já grandes gestoras de grandes bancos não têm essa agilidade e a tomada de decisão é lenta e comprometida por inúmeros outros fatores que podem até conflitar com o objetivo único do cliente: ganhar dinheiro com segurança.

Esta coluna tem como objetivo a introdução ao mundo da gestão inovadora e independente. Vamos aqui dissertar sobre vários temas de grande interesse ao público. Vamos abordar conceitos e apresentar ferramentas para auxiliar na alocação eficiente de ativos. Temas serão tratados de forma clara, isenta e objetiva, com intuito de instruir e dar segurança para navegar em águas novas.

Como todo gestor independente, prezo a transparência e valorizo o contato com clientes. Aguardo sugestões para temas que sejam de interesse comum aos leitores para serem abordados nas próximas edições. Vamos começar um diálogo e uma longa jornada juntos.

Obrigado leitor pela atenção.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em administração de empresa pela London Business School e tem especialização em finanças pela Universidade de Chicago, GSB. A partir desta semana, será mais um parceiro no Blog do Mílton Jung e vai conversar sobre o nosso dinheiro.