Da universidade se espera a busca de soluções para o jornalismo em crise

 

 

Este vídeo é resultado da conversa que a estudante Mahayla Haddad teve comigo durante a participação no 4o BetaJornalismo, promovido pela faculdade de jornalismo, da Escola de Comunicação e Arte da PUC-PR, no ano passado. Falo sobre crise no jornalismo e a expectativa de que soluções surjam da criatividade, inovação e responsabilidade dos jovens jornalistas.

4o Beta Jornalismo: a plataforma não é jornalismo; o jornalismo está no conteúdo

 

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Encerrei semana passada, em Curitiba, conversando com estudantes de jornalismo no 4o Beta Jornalismo, promovido pelo curso de jornalismo Escola de Comunicação e Arte da PUC-PR. Levei para o palco do encontro a palestra “Jornalismo em crise? Oba” na qual descrevo inúmeras situações que enfrentamos no nosso cotidiano mas, principalmente, exalto pessoas e veículos que têm buscado soluções para as dificuldades que surgem.

 

A conversa foi longa e produtiva. É muito bom ver estudantes entusiasmados com a escolha da profissão que fizeram e esperançosos de que serão capazes de oferecer soluções para os desafios que aparecem na nossa trajetória, mesmo que diante de muitas incertezas ainda.

 

Fiz questão de reforçar a ideia de que o futuro do rádio e do jornalismo vai surgir a partir das experiências que eles desenvolverem no ambiente universitário ou de um cara qualquer que resolva se debruçar sobre o tema na frente da tela de seu computador e talvez jamais tenha pensado em entrar em uma faculdade de jornalismo.

 

Em virtude da agenda de palestras, respondi apenas algumas das muitas perguntas enviadas à moderadora do encontro, a professora Michelle Thome. As demais recebi por e-mail e aproveito para publicá-las aqui no Blog com as devidas (ou indevidas) respostas.

 

Como pretensão e água benta não fazem mal a ninguém (é esse mesmo o ditado?), espero assim abrir um espaço para dialogarmos com estudantes e profissionais de jornalismo.

 

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Vamos às perguntas. Vamos às respostas:

 

 1) Quando e como você teve a ideia de fazer uma palestra sobre a crise no jornalismo?

 

Minha inspiração foi o livro “Problemas? Oba”, de Roberto Shinyashiki, tema de entrevista realizada no programa Mundo Corporativo da CBN. A ideia de substituir o soluço por soluções diante de uma crise, me pareceu mais honesta com jovens que decidiram seguir carreira no jornalismo. Quando pensei nas crises que tive de encarar desde que me inicie na profissão, percebi que essas dificuldades já nos desafiavam há muito mais tempo: antes mesmo de começar no jornalismo, na década de 80, havia assistido às dificuldades enfrentadas pelo meu pai para manter sua família diante dos problemas econômicos da companhia jornalística na qual dedicou toda sua vida.

 

2)    Você disse que os estudantes devem pensar em radiojornais diferentes daquele que você e outros profissionais fazem. Que tipo de radiojornal você gostaria de fazer se tivesse sua própria rádio?

 

Faço o jornal que gostaria de fazer: abrindo a manhã do noticiário, com equipe de reportagem cobrindo os principais fatos, entradas ao vivo sempre que necessário, amplo e diversificado time de comentaristas, liberdade para tratar dos diferentes temas e em uma emissora que me oferece prestígio e projeção. Dos mais jovens, espero novas ideias e capacidade para me mostrar caminhos diferentes para atuar. Estou disposto a encarar os desafios que me forem propostos.

 

3)    Percebo que, às vezes, eu e os colegas não temos vontade de ir atrás das fontes, evitamos fazer ligação telefônica ou ir até o local… será alguma característica da nossa geração? Como combater essa preguiça?

 

Não é preguiça, é timidez. E timidez é comum. Também tive medo de conversar com outras pessoas, constrangimento em questionar personalidades e dúvida se a abordagem que deveria fazer era a mais apropriada. Pegue o telefone agora e ligue para aquela fonte que você está precisando falar … o tempo nos ajuda a superar essas barreiras, pode ter certeza.

 

4)    O que você acha do jornalista que, além de dar a notícia, faz o papel de comentarista?

 

Isso depende do estilo de apresentação de cada profissional. Alguns são mais adeptos da reportagem, da informação; outros, do jornalismo opinativo. Há espaço para todos eles na programação. E demanda do público, também.

 

É preciso ainda levar em consideração que mesmo o jornalista que supostamente só da notícia também dá opinião na escolha da notícia que dá e na ênfase do fato que relata.

 

Devemos tomar cuidado apenas para não nos transformarmos em falastrões, apesar de este tipo de apresentador fazer sucesso em alguns lugares.

 

5)    Há espaço para a radiodramaturgia hoje em dia?

 

O investimento em documentário de rádio me parece mais viável, um modelo pouco explorado na programação, dada a necessidade de planejamento apurado, roteiro mais bem elaborado e sonorização qualificada – nem sempre encontramos espaço para a produção deste tipo de material na programação. Gostaria, porém, de ver emissoras produzindo documentários. Seria bem interessante desenvolver esta experiência.

 

6)    Tem alguma emissora de rádio – ou programa jornalístico – no exterior que você recomenda que a gente ouça?

 

A BBCNews, em Londres, faz excelente trabalho radiofônico assim como a NPR , nos Estados Unidos. São dois grupos de comunicação que exploram diferentes formatos de programa e o fazem de maneira qualificada.

 

7)    Qual a diferença entre o programa de rádio e o podcast feito a partir dele?

 

Nem todo produto de rádio deve ser transformado em podcast. Porém, todos os quadros, comentários, reportagens e programas especiais produzidos no rádio podem ser oferecidos neste novo formato. E não há necessidade de adaptação. As emissoras podem, também, aproveitar da infraestrutura técnica e da equipe de profissionais que mantém para produzir material exclusivamente em podcast. O desafio é tornar este modelo sustentável. Para se ter ideia: em um mês, os ouvintes da CBN baixam mais de 10 milhões de podcasts produzidos pela emissora.

 

8) Todo mundo pode fazer jornalismo? Plataformas como o Medium ajudam ou atrapalham o trabalho do profissional?

 

Seguindo critérios jornalísticos tais como o respeito a regras básicas, apuração precisa, busca incessante da verdade e a manutenção da hierarquia do saber, todos podem produzir material com características jornalísticas e reproduzi-lo em diferentes meios de comunicação, inclusive (por que não?) no Medium. Vamos lembrar que a plataforma não é  jornalismo; o jornalismo está no conteúdo.

 

9)  Para você, qual o melhor assunto para se cobrir?

 

Os fatos que ajudam a transformar pessoas, independentemente da área em que aconteçam: na política, na economia, na saúde, na educação …

 

10) Você recomenda que o ouvinte entre diretamente com sua voz no ar para passar uma informação relevante, como acidente de trânsito?.

 

Recentemente, durante o furacão Matthew, nos Estados Unidos, colocamos no ar, ao vivo, moradores da região. No triplo acidente – terremoto, tsunami e desastre nuclear – que ocorreu no Japão, há cinco anos, também usamos esse recurso. Já ocorreu de fazermos uso dos ouvintes para relatar situações críticas nas cidades como dificuldades no transporte público.

 

O ouvinte é uma fonte de informação que deve ser respeitada e levada em consideração na cobertura dos fatos. Lembre-se, porém, que a responsabilidade pela informação publicada ainda assim é do jornalista. Portanto, podemos usar essa estratégia mas com comedimento e responsabilidade. Deve ser exceção e não regra.

 

11) Quais suas técnicas para agilizar o processo de busca de informações?

 

Formar uma boa rede de fontes, que são pessoas e serviços que tenham um nível de informação acima da média nas mais diferentes áreas. Jamais esqueça, porém, que um dos desafios na nossa função é equilibrar agilidade e precisão. Nunca sobrepor uma a outra.

 

12) Como manter a credibilidade com a fonte quando ela pede para não ser identificada?

 

Não identificá-la, sem dúvida.

 

Antes disso, porém, entender quais os interesses que levariam aquela determinada fonte a passar uma informação e não querer que sua identificação fosse revelada. Lembre-se que não existe OFF sem interesse.

 

E não esqueça: preservar o sigilo da fonte é um direito do jornalista, mesmo que ações recentes da Justiça tenham tentado quebrar essa relação de confiança.

 

13) O que uma boa cabeça de matéria de rádio deve conter?

 

Primeiramente, um texto simples, direto e objetivo; escrito para quem vai ouvir e não para quem vai ler; capaz de instigar a curiosidade do ouvinte sem contar toda a história. Erro comum no rádio: repetir na cabeça o texto de abertura da reportagem. Elimine essa prática.

 

14) Seu pai trabalhou anos em rádio. O que ele te ensinou sobre esta profissão?

 

Aprendi muito assistindo e ouvindo meu pai na locução das sínteses noticiosas que apresentou, nos programas que participou e nos jogos que narrou. Alguns aspectos me chamaram mais atenção: a precisão na pronúncia dos nomes e descrição dos fatos, a correção no uso da língua portuguesa e, especialmente, a humildade diante do microfone e a honestidade frente aos colegas e empresa.

 

15) É possível fazer estágio na CBN São Paulo?

 

A rádio CBN, assim como todas as emissoras que integram o Sistema Globo de Rádio, em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte, realiza programa de estágio para contratação de estudantes de jornalismo. Neste momento, estão abertas as inscrições para alunos que se formarão em dezembro de 2017. Não perca esta oportunidade.

 

A seguir, alguns posts sobre jornalismo publicados neste blog:

 

Sete características essenciais para ser jornalista

 

Jornalismo pragmático esquece o ser humano

 

O desafio que a união do rádio com a internet impõe aos estudantes de jornalismo

 

Entrevista: o rádio, o jornalismo e o jornalista na era da internet

 

No jornalismo nem tudo é relativo

A linguagem do rádio AM

 

No mês em que comemoramos os 90 anos do rádio no Brasil, fui entrevistado por Saulo de Assis, graduado em comunicação social pela Unimep, para trabalho que desenvolve sobre a linguagem do rádio AM. Divido com você o que penso sobre o assunto, a partir das perguntas formuladas pelo Saulo:

 

– A linguagem jornalística das rádios AM garante a médio/longo prazo a fidelização do público? A linguagem mudou nas últimas décadas para manter audiência e/ou atrair novos públicos? Quais as mudanças?

 

A linguagem do rádio somada ao seu conteúdo é que fidelizam o público. Percebe-se, nas últimas décadas, a popularização desta linguagem provocada pela mudança de perfil do público AM, assim como também se identifica a vulgarização no texto radiofônico, contaminado, cada vez mais, pela linguagem escrita. Esquece-se, o que nos ensinou o jornalista catalão Ivan Tubau , do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, que ao escrever para quem ouve, se deve escrever como quem fala. Teimamos em reproduzir textos de mídias impressas, redigidos para quem lê.

 

– A linguagem empregada no radiojornalismo nos dias de hoje nas emissoras AM atrai os jovens? Se não, por quê?

 

A linguagem empregada no radiojornalismo, pelos motivos que apontei na resposta anterior, não me parece ser o maior atrativo para qualquer dos públicos, seja jovem ou não.

 

Esta questão, porém, me permite abordar o aspecto educativo e de formação que o rádio tem em diferentes camadas da sociedade brasileira. Ao desenvolvermos o conteúdo e a forma desta programação temos de estar ciente deste papel. No tocante a linguagem, por exemplo, é claro que devemos estar com os ouvidos abertos ao que as pessoas dizem, a forma como dialogam e as expressões que usam. Temos de ser capazes de ouvir este rumor popular, esta linguagem falada pelo nosso público, levá-la para dentro da redação, limpá-la e entregá-la de volta levemente melhorada a ponto dessas pessoas a receberem de volta reconhecendo-a como sua.

 

– A diferença de qualidade de áudio do AM para o FM é um fator determinante para o declínio da audiência do AM?

 

A difícil recepção de som das emissoras que transmitem em AM, principalmente nos grandes aglomerados urbanos, tem afastado cada vez mais seu público que busca informações em outras fontes ou nas emissoras em frequência modulada.

 

– Em que medida o processo de digitalização de rádios afeta as emissoras AM?

 

Assim como a internet foi um novo oxigênio para o rádio, a digitalização o será para as emissoras que transmitem unicamente em AM. Porém, o modelo de digitalização a ser implantado terá de ser muito bem estudado, a medida que o alto custo para a recepção destas transmissões poderá torná-lo inacessível ao público do rádio AM, formado por classes sociais mais populares, como a própria mediação de audiência nos mostra.

 

– O sistema de rádio AM corre o risco de ser extinto? Por quê?

 

A enorme dimensão e as diferenças sociais e regionais do país podem levar a sobrevivência do rádio AM, nos moldes de hoje, por muitas décadas ainda. Porém, é evidente a necessidade de uma modernização na transmissão de seu sinal e o apuro maior na qualidade do conteúdo oferecido a um público que tende, pelo maior acesso às informações, ser cada vez mais exigente.

 

– Na CBN, o que está sendo feito para atrair jovens e manter a linguagem acessível e atraente a esse público?

 

Atenção ao que dizem e pensam; percepção do que necessitam, mesmo que eles ainda não tenham identificado estas demandas; adaptação dos temas discutidos na programação; e ocupação dos espaços que hoje usam para consumir informação. São estratégias usadas, nem sempre com êxito, no intuito de atrair os jovens que, por chegarem ao mercado de trabalho, precisam construir novas fontes de informação. Este é o enorme desafio que a rádio CBN tem pela frente, assim como todas as demais empresas que atuam na radiodifusão. Temos de estar cientes de que as novas gerações estão consumindo notícias em outros formatos, e precisamos colocar nossos produtos nestes formatos, por isso a internet é um meio a ser explorado pelo rádio.

 

E se temos realmente interesse em formar estes jovens, temos a obrigação de prezar a boa língua portuguesa. De forma simples, clara e objetiva, como pede a línguagem do rádio.

Presente do Dia dos Pais

 

Por Milton Ferretti Jung

Recebi, lá pelo dia 30 ou 31 de julho, não lembro bem, um telefonema do Mílton, no qual ele me informava que tínhamos sido convidados para comparecer a um programa da TV Canção Nova que iria ao ar em 8 de agosto. O apresentador Gabriel Chalita queria que participássemos do Papo Aberto. Assunto: Dia dos Pais, que se festeja, como se sabe, no segundo domingo deste mês. Só quem é muito desmiolado talvez não se recorde desta efeméride,tantos são os anúncios sobre a data divulgados pela mídia.

Permitam-me que apresente Gabriel Chalita, especialmente para os leitores e/ou telespectadores do Rio Grande do Sul. Ele, que é formado em Direito e em Comunicação e Semiótica, foi eleito deputado federal com 560.022 votos. Vai concorrer, agora, à prefeitura paulistana. O convite para o Papo Aberto, como não poderia deixar de ser, foi aceito de imediato. Graças a ele, aproveitei para visitar meu filho, minha nora e meus netos. Mais do que isto, a participação no programa me deu a rara chance de compartilhar com o Mílton o relato de nossas histórias profissionais, algo jamais imaginado por mim e, com certeza, por ele. Confesso que fiquei emocionado ao ouvir os elogios feitos por Gabriel Chalita ao comportamento do Mílton tanto no seu trabalho quanto como pai de família e senti ,mais uma vez, que o guri que, em 91, se mudou com armas e poucas bagagens para São Paulo, só teve a ganhar com a troca. Confesso, também, que a coragem que ele demonstrou ao deixar a casa paterna para se estabelecer em uma terra então estranha, não faz parte das minhas poucas virtudes, porque jamais gostei de viajar ou de ficar só em lugares distantes do meu lar. Não exagero se disser a quem lê este texto que, como pai, fui capaz de ensinar algumas coisas aos meus filhos – a Jacqueline, o Mílton e o Christian – mas eles souberam aprimorá-las e passá-las aos seus filhos.

Durante o programa, comentei que o Mílton, no microfone, fala muito. Não foi isso que ensinei a ele. Nisto, somos diferentes: na minha profissão nunca fui âncora, sempre lidei com a leitura de notícias e de textos, criados ou não por mim; narrei futebol durante décadas; participo, hoje de um programa de debates esportivos; no início da minha carreira até fiz radioteatro, mas precisava apenas interpretar as partes que me tocavam no script. Já o Mílton me impressiona quando faz ou concede entrevistas, seja porque sempre se mostra bem informado sobre os assuntos que aborda com os seus entrevistados, seja porque, quando, especialmente, fala do rádio como veículo, demonstra pleno conhecimento do assunto.
Encerro este texto agradecendo a Gabriel Chalita pela chance maravilhosa que nos deu de falarmos sobre nossa profissão e de nossas famílias.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (meu pai)

Ladrão se esconde, não se homizia

 

Para um trabalho sobre a melhor maneira de a Polícia Militar se comunicar com o cidadão, me perguntaram o que esperava de um policial durante uma entrevista. “A verdade”, pensei de bate pronto. Na hora de responder, porém, fui além:

Por muitos anos, se disse que informação é poder. O avanço tecnológico que mudou a relação emissor-receptor mudou também esta máxima. Hoje, o caminho não é mais unilateral. De mim para você. É multi-lateral. De todos para todos. Portanto, informação não é poder; comunicação é.

E comunicação não é o que eu digo; é o que você entende. Portanto, não basta você estar à disposição do jornalista para entrevistas ou repassar informações que considerar importante. É preciso fazer isto de maneira simples, direta e objetiva – este para mim é um mantra da boa comunicação.

Deixe de lado os jargões da corporação, o formalismo da fala ou o discurso distante da realidade. Defina bem quais são as principais mensagens a serem transmitidas, pense em argumentos convincentes, reúna os dados, números e nomes essenciais. Ao falar com o jornalista lembre-se de contar histórias que podem chamar atenção do público.

Elimine palavras que fazem parte do folclore policial: O elemento não se homizia; a pessoa se esconde – é assim que a gente fala no dia-a-dia; é assim que temos de falar para o público.

Quando entrevisto um porta-voz, não espero um robô treinado, sem alma, com discurso automático. Quero um cidadão disposto a conversar com a sociedade. Que fale a nossa língua. Que seja simples, direto e objetivo. E que diga a verdade.

Alckmin diz que “briga” com Serra é pimenta da imprensa

 

À uma sequência de manchetes que contrapõe Alckmin a Serra, o governador de São Paulo respondeu: “isto é pimenta da imprensa”. Aproveitei a conversa para saber se não seria resultado da relação dele com o ex-candidato à presidência estar apimentada: “Posso falar por mim …” E a entrevista nesta manhã no CBN SP, transmitida, também, pela internet, foi em frente.

Acompanhe aqui a entrevista do Governador Geraldo Alckmin para o CBN São Paulo.

O Governador que volta ao Palácio dos Bandeirantes tem habilidade com as palavras, evita usar expressões fortes e desconfortos mesmo com opositores. Por isso, não era de se esperar que fizesse alguma declaração bombástica, principalmente em consideração a um colega de partido. Mas que o tema tem pautado conversas nos corredores do palácio e da política não tenha dúvida.

Para ser justo, Alckmin usou apenas uma palavra mais forte: “frouxa”, para definir a política cambial do Banco Central, que anunciou nesta manhã algumas medidas para conter a desvalorização maior do dólar. Porém, prefere o tom mais ameno para falar sobre suas relações com a União. Conversou, ontem, com o ministro José Eduardo Martins Cardoso, e conversaria logo após a entrevista com o vice-presidente Michel Temer, também presidente do PMDB. Conversas protocolares, disse.

Sobre planos de governo, reforçou as promessas de campanha na área de transporte, rodovias, educação e saúde. Tem os dados e nomes na ponta dos dedos. Apenas não prometeu aumento salarial para ninguém, o que certamente desagradou a série de ouvintes-internautas que enviaram perguntas sobre o tema. Eram, especialmente, professores e policiais que reclamam da falta de valorização da categoria.

Por falar em policiais, não conseguiu explicar por que o Detran não funciona nas mãos da polícia, a ponto de determinar a mudança do departamento de trânsito para secretaria distante da Segurança Pública. Se depender dele, vai para a Secretaria de Gestão. Ainda não bateu o martelo. Nem respondeu a pergunta, preferindo falar da metade cheia do copo em vez da metade vazia: “teremos mais policiais atuando na sua função, nas delegacias e investigando”.

Da Copa, Alckmin praticamente descartou plano B e depositou confiança no estádio do Corinthians para a festa de abertura: “sem dinheiro do estado”, garante. De qualquer jeito, anunciou encontro com o presidente da CBF Ricardo Teixeira, nos próximos dias.

O governador Geraldo Alckmin parecia bem mais à vontade desta vez do que na época em que esteve no estúdio como candidato ao governo. Àquela foi entrevista tensa, preocupada, apesar de liderar as pesquisas com folga. Chegou a tirar a gravata azul assim que chegou à rádio, logo após tomar café em padaria de Santa Cecilia. Vendo às câmeras, se arrependeu, pediu para um assessor trazê-la de volta, mas o programa estava no ar (e as imagens, também). Foi sem gravata mesmo.

Após uma hora de entrevista, com participação de ouvinte-internautas, por e-mail e Twitter, se despediu de todos, agradeceu a oportunidade, pegou seus assessores, um número razoável de seguranças e subiu no helicóptero rumo ao Palácio.

Próxima conversa (protocolar, lógico): Michel Temer.

Alckmin é o entrevistado do CBN SP, no rádio e na internet

 

Alckmin do PSDB na CBNAs negociações com o Governo Federal, a revisão das contas do Governo Serra, as mudanças na educação e os planos para o transporte são alguns dos temas da entrevista, ao vivo, com o governador de São Paulo Geraldo Alckmin, nesta quinta-feira, no CBN SP. Das 9h45 às 10h45 da manhã, ele estará no estúdio de internet da CBN e responderá perguntas enviadas por ouvintes-internautas.

Um dos assuntos que mais motivam a participação do público é o da educação. Nesta semana, após entrevistar o secretário-adjunto João Cardoso Palma Filho vários e-mails chegaram relatando preocupação com a qualidade de ensino e as dificuldades que os professores enfrentam em sala de aula. O mesmo tem ocorrido desde ontem quando anuncie a entrevista com o Governador.

Desde que assumiu o Governo, Alckmin tem retomado ideias de sua administração anterior e chamou atenção ao anunciar que iria rever os contratos assinados por José Serra. Falou-se em auditoria, expressão negada pelo tucano. Com certeza, pretende reestudar os contratos com as concessionárias das rodovias com a intenção de reduzir o valor dos pedágios – conforme prometeu durante a campanha eleitoral.

Logo após a entrevista, Alckmin segue para o Palácio dos Bandeirantes onde se reunirá com o vice-presidente da República e presidente nacional do PMDB Michel Temer. Oportunidade em que poderá discutir parcerias do Estado com a União e tratar da presença do partido na administração paulista, a medida que o PMDB perdeu espaço na gestão dele.

A primeira entrevista a gente nunca esquece

 

Carlos Magno Gibrail

… a gente e a autora, também.

Dilma Rousseff reafirmou ao “Washington Post” o que já tinha externado em sua primeira entrevista como presidente eleita, quando sinalizou uma mudança na política externa brasileira ao definir como “bárbara” a ameaça de um provável apedrejamento contra a iraniana Sakineh Mohammadi de acordo com as leis e tradições locais.

Mais uma vez, coube ao tradicional jornal americano o mérito de estampar tão importante indício, publicando a fala sobre o apedrejamento, e que, certamente, repercutirá internacionalmente assim como aconteceu ontem na imprensa nacional:

“Não sou presidente do Brasil, mas me sentiria desconfortável, como uma mulher eleita presidente, em não dizer nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando eu assumir. Não concordo com a posição brasileira. Não é a minha posição.”

“Não concordo com práticas que tenham características medievais contra as mulheres. Não há nuances. Não vou fazer nenhuma concessão nessa matéria”.

As mulheres são de Vênus e os homens de Marte?

Vejamos o que o presidente Lula disse sobre o mesmo tema:

“Se começassem a desobedecer às leis deles para atender aos pedidos dos presidentes, daqui a pouco haverá uma avacalhação”.

No momento em que a Suíça quebra a isonomia democrática, com o tratamento dado aos imigrantes após plebiscito nacional, e Holanda, Itália e Dinamarca se tornam precursoras de um fantasma que assombra a Europa, designado de fascismo suíço por Vladimir Safatle em seu artigo de ontem na Folha, é imprescindível que o Brasil se apresente de forma enérgica em defesa dos Direitos Humanos.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

Grabois quer união socialista além da eleição

 

Na última entrevista da série com os candidatos ao Governo do Estado, não havia militantes na porta nem equipe de televisão no corredor. A presença de Igor Grabois, do PCB, mobilizou apenas a sua assessora de comunicação – mais do que isto, uma defensora dos ideais socialistas pregados pelo partido. Foi dela que veio o alerta para o fato de que a entrevista seria transmitida pela internet, portanto “cuidado com a imagem”.

Gola da camisa e blazer arrumados no que era possível, Grabois começa a falar com a tranquilidade de quem dá aula e domina o tema. A união dos partidos socialistas, a atuação dos conselhos populares, o fim das privatizações e o não pagamento da dívida de São Paulo com a União são assuntos que fazem parte do cotidiano dos comunistas brasileiros – sim, eles existem para espanto de alguns ouvintes-internautas que teimam em não entender como seria possível inserir na sociedade o discurso anti-capitalista. E para a surpresa dos institutos de pesquisa que não conseguem registrar um só voto em favor do candidato.

Grabois sabe bem qual o papel do PCB nesta eleição e defende o Poder Popular, a principal plataforma política do partido. Não dá sinais, porém, de esperança de vitória. Seria preciso, como ressaltou na entrevista, uma frente socialista que reunisse não apenas os partidos de esquerda, mas os movimentos sociais, também. Um encontro que não visasse apenas a eleição. Uma utopia quase tão distante quanto a sociedade que deveria surgir após a derrocada do sistema capitalista.

Houve essa tentativa de união na eleição presidencial de 2006 quando o PCB se juntou com o PSOL e o PSTU. Não funcionou: “a candidatura ficou concentrada em uma personalidade”, disse o candidato em referência a Heloísa Helena.

Grabois, assim como a maioria dos candidatos ao Governo de SP, também não se inscreveu no site do Ficha Limpa, no qual se compromete a atualizar as contas da campanha a cada semana, divulgando o nome dos doadores e a forma como o dinheiro é gasto. Nem tanto pelo custo da campanha – R$ 50 mil -, muito mais pela falta de organização: “sei lá o que aconteceu no partido”.

Fora do ar, seguimos a falar de educação, tema que tem sido discutido de forma superficial no debate político. Ele é a favor da progressão continuada, mas não da maneira como foi instituída na rede pública paulista; e se espanta quando ouve candidatos propondo boletim de notas contra todas as recomendações pedagógicas em vigor. Porém, não se assusta ao saber da ideia de um de concorrentes ao cargo de Governador de que para resolver o problema vai colocar dois policiais na porta de cada escola. “Se ouve de tudo”.

Antes de ir embora, a assessora de Grabois, em tom entusiasmado, anuncia: voltaremos aqui com o Poder Popular constituído.

Perguntômetro

Seis perguntas e comentários foram encaminhados diretamente para o candidato Igor Grabois. Todas foram repassadas para a assessoria do PCB, juntamente com questões que haviam sido enviadas para todos os candidatos entrevistados pela CBN.