Conte Sua História de São Paulo 470: a revolução das estudantes do Maria Imaculada

Maria Elisabete Fonseca Marun

Ouvinte da CBN

Loja Sears em foto publicado no site Os Anos 50

Eu morava na rua Amâncio de Carvalho, perto do ponto final do ônibus 48, linha Paraíso-Anhangabaú. Estudava no Colégio Maria Imaculada bem perto da Praça Osvaldo Cruz.

É na praça que começa a avenida mais famosa de São Paulo: a Paulista. Alguns saudosos podem contestar porque a Avenida São João também é um local muito admirado pelos paulistanos até em música.

A Osvaldo Cruz era uma linda praça onde havia a escultura de um índio com sua lança, pronto para pescar algum peixe do pequeno lago que ali existia. Muitas vezes, após as aulas, eu e minhas colegas chegávamos até perto da água para nos refrescar.

A grande novidade naquela região foi a inauguração da loja Sears Roebuck, onde hoje funciona o Shopping Paulista. Seu slogan era impactante: “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”. Sensacional! Tendo chegado em 1949, a Sears revolucionou o varejo na cidade.

O acontecimento gerou uma revolução na disciplina do Colégio Maria Imaculada. As alunas cabulavam as aulas para visitarem a Sears. No térreo, o cheiro de amendoim torrado e açucarado, rescendia pela loja.  Nenhuma de nós resistia a um pacote.

No andar inferior onde se vendia discos havia uma pequena cabine na qual se ouvia as novidades do Rock and Rool. Logo, as irmãs da escola proibiram que ouvíssemos aquele ritmo. As freiras nos seguiam e éramos obrigadas a ouvir reprimendas em plena loja. Assim que elas apareciam, era um correria só para fugir da punição que seria certa.

O Maria Imaculada ainda está lá. Hoje atende meninas e meninos. A Sears, o cheirinho de amendoim, os produtos que ficavam a mostra e a música dos discos  permanecem na minha memória.

Ouça aqui o Conte Sua História de São Paulo

Bete Marum é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Juliano Fonseca. Escreva a sua história de São Paulo e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o novo site da CBN – cbn.com.br —, o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo

O ano novo está dentro de você

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de Jonas Von Werne

“É dentro de você que o ano novo

cochila e espera desde sempre”

Carlos Drummond de Andrade

A buzina insistente alerta para o caos que está no trânsito. Uma pessoa passa gesticulando e xingando, correndo, porque não tem tempo a perder. Pessoas se encontram e ao invés de desfrutarem da felicidade desse momento, preferem se queixar sobre as chatices cotidianas.

Nos preparamos para as festas de fim de ano. Uma checagem no armário e a conclusão é de que não há roupa que agrade, apesar de tantas estarem lá. Uma pausa para olhar no espelho, olhos nos olhos, e logo identificamos uma coisa que não gostamos em nós.

Na esperança que as coisas mudem para o próximo ano, listamos metas. Listas de metas que ficam guardadas, adiadas, esquecidas. Talvez por serem coisas difíceis de se realizar… Talvez por serem coisas que não são prioridade.

Você deve estar pensando: “isso aqui não deveria ser sobre esperança e renovação, afinal estamos num momento de comemorações?”.

Você tem razão!

Permita-me completar: nós somos convidados todos os dias a momentos de esperança, renovação e comemorações. A cada manhã, a vida nos convida para um dia a mais. Um dia a mais de oportunidades para sermos felizes, para amar, para perdoar, para viver intensamente o momento de um café quentinho ou de um abraço apertado.

Fazer a vida valer a pena não parece tarefa fácil. Há uma lista de coisas – essa não foi feita por nós – que nos desafiam a todo instante.

Mas não espere pela passagem do tempo. Não adie aquilo que você tem a oportunidade de viver hoje, não importa se janeiro, setembro ou dezembro. O ano novo está dentro de você. Cada vez que você tem esperança, cada vez que você se renova, cada vez que você comemora… É sempre ano novo!

Há momentos em que a gente aperta demais a buzina, aperta o passo, se esquece daquilo que é valioso e essencial.

O que fazer?

Recomeçar. Nós temos a chance de recomeçar.

E não seria isso o significado do ano novo? Dar uma nova oportunidade para nós, para a vida

E nesse recomeço, inspirada pelo samba de Arlindo Cruz, acredito que “iremos achar o tom, um acorde com lindo som e fazer com que fique bom outra vez, o nosso cantar, e a gente vai ser feliz…”

Com fé e esperança, desejo que seja ano novo em todos os seus dias.

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Avalanche Tricolor: uma questão de fé

 

Botafogo 0 x 1 Grêmio
Brasileiro – Maracanã

 

 

Um rosário estava na mão de Alex Telles na saída para o vestiário no primeiro tempo. Pelo que disse ao repórter curioso, sempre leva com ele o símbolo de sua religiosidade. Onde guarda durante a partida, não sei, mas que precisou de muita fé para alcançar a conquista parcial, até aquele momento, sem dúvida. No pior momento do jogo, quando acabávamos de ficar com um a menos em campo, sofríamos pressão intensa de adversário que já foi apontado como candidato ao título e disputava a vice-liderança diante de seu torcedor, soubemos manter a cabeça no lugar e a bola nos pés. Situação rara nos mais de 90 minutos jogados nesse sábado, no Rio de Janeiro. Refiro-me à raridade de controlarmos a bola, pois o equilíbrio emocional se fez durante praticamente toda a disputa. Foi nesse instante que, mais uma vez, um de nossos muitos volantes, Riveros, apareceu no ataque, foi à linha de fundo e, em vez de dar um chutão para dentro da área a espera de um cabeceio salvador, com a cabeça erguida encontrou Alex chegando pela meia esquerda, entregando-lhe a bola com açúcar e com afeto. O camisa 13 gremista – ainda vou pedir essa camisa para mim – na mesma velocidade com que entrou na área, ajeitou a bola para concluir de forma certeira e indefensável: 1 a 0, mantido heroicamente até o fim da partida.

 

O gol teve a crença e coragem de Renato. Na jogada anterior, o técnico havia reclamado de Alex que, em vez de se aventurar na ponta esquerda, ficou recuado durante troca de passe. Temia, com certeza, deixar a defesa desguarnecida em setor do campo por onde o adversário demonstrava preferência em jogar. Mas Renato sabe que seu esquema, por muitos considerado retranqueiro, exige ousadia de seus jogadores. Impõe aos atacantes marcar como zagueiros, às vezes até quando estão atacando, como aconteceu com o atabalhoado Kleber, no lance da expulsão. O treinador escala três zagueiros e aposta na chegada deles na frente, como ocorreu em ao menos dois lances de perigo no primeiro tempo, através de Rodolfo e Werley. Compõe o time com três volantes mas não se satisfaz com seus desarmes, exige a presença deles no ataque quando possível como aconteceu com Souza, em um dos primeiros lances de gol do time; com o incansável Ramiro, que roubava a bola atrás e aparecia como companheiro de Barcos próximo à área do adversário; e com Riveros, tão importante no lance de gol nessa partida quanto o foi ao marcar o gol da vitória no jogo anterior. Os alas também são exigidos pelo técnico, por isso Pará protagonizou bela jogada pela direita quando já tínhamos inferioridade numérica em campo e superioridade no placar. E, claro, só por isso Alex Telles apareceu na entrada da área para receber passe de Riveros e marcar o nosso gol da vitória. Bressan, despachando todo perigo que surgia, e Dida fechando o gol nas poucas vezes em que a bola conseguia cruzar nossa linha de marcação, não fazem por menos. Apesar de não chegarem ao ataque, por razões óbvias, refletem a disposição do elenco em atender às ordens de Renato.

 

Os raros e caros leitores deste Blog sabem que costumo não confundir minhas convicções religiosas com minha paixão futebolística. Não arrisco pedir a Deus nas missas de Domingo por melhores resultados em campo, pois sei que Ele tem coisa demais para se importar. E eu, coisa mais importante para pedir. Mas de alguma maneira as crenças de Alex e Renato contaram com uma forcinha divina nessa partida de sábado à noite. Talvez obra de Padre Reus que assiste às partidas do Grêmio nas mãos de meu pai, que, lá em Porto Alegre, aperta a imagem dele com fé e muita força.

 

N.B: Como reservo minhas conversas com Ele para coisas importantes, desde após a partida tenho pedido toda a força para a recuperação do técnico Osvaldo de Oliveira, que passou mal ao fim do jogo. Além de ótimo ser humano, um amigo para quem sempre vou querer o melhor.

"Bote fé, bote esperança e bote amor"

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Costumo escrever nas terças-feiras os textos que produzo para este blog, mas esses são postados somente dois dias depois. Como não poderia deixar de ser, escolhi, como assunto, a visita do Papa Francisco. Afinal, não era necessário ser adivinho para saber que nada poderia ser mais importante. Deus me livre de fazer pouco dos Papas que estiveram no Brasil antes do atual Pontífice. Todos os três que aqui vieram foram bem-vindos. João Paulo II, recordista de estadas em nosso País, teve rápida passagem, em 1979, pelo Rio de Janeiro. Depois, em 1980, visitou treze 13 cidades brasileiras em doze dias. Uma delas foi Porto Alegre. Nessa, porque é onde moro desde a mais tenra idade, deixou muito bem marcada a sua presença. Lembro-me, especialmente, da Santa Missa, que oficiou ao ar livre, bem pertinho da minha casa e do Estádio Olímpico, do Grêmio. O local passou a ser chamado de Largo do Papa. Em visita do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, se não me engano, pronunciou, em português, esta pequena, mas inesquecível frase: “O Papa é gaúcho!”. João Paulo II fez ainda mais duas visitas ao Brasil: uma em 1991, outra em 1997, essa já com a saúde debilitada.

 

Bento XVI, esteve aqui em 2007. Na semana passada, o Papa Francisco assombrou o Brasil desde a sua chegada. Creio que não exagero. Seus primeiros movimentos no Rio de Janeiro foram, simplemente, fantásticos, a começar pelos episódios vistos pelas tevês que cobriram o trajeto dele, do Galeão até o Palácio da Guanabara, durante o qual, no modesto Fiat Idea que o conduzia, acabou cercado por multidão de pedestres, para pasmo e medo dos telespectadores e responsáveis por sua segurança. Quem não viu os primeiros movimentos do Papa Francisco, perdeu uma das suas mágicas. Houve outras que nem preciso relembrar, especialmente, as que ocorreram na praia de Copacabana, com o seu público de mais de três milhões de, na sua maioria, jovens católicos cheios de entusiasmo. Entre as frases que Francisco – o Modesto – pronunciou – todas profundas, uma das que mais gostei foi esta, dirigida aos participantes da Jornada Mundial da Juventude: “Bote mais amor na sua vida, assim, você encontrará muitos amigos que caminham com você. Bote fé, bote esperança, bote amor”. Para mim,o Papa Francisco foi o Homem do Ano de 2013.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

De Certeza e de Deus

 

Por Maria Lucia Solla

MVC-662F

O mundo externo, e consequentemente o interno, tem passado por poucas e boas.
Nada é. Não há certeza. Ou melhor, certeza nunca houve, mas nós nos agarramos e continuaremos a nos apegar a tristes arremedos dela.

De religiões e dogmas, desisti há muito. Era levada por ventos curiosos, mas não me entregava nunca. Mesmo babando de inveja da certeza dos que a tinham; mesmo doida por pertencer a uma tribo que me acolhesse, cedo percebi que essa acolhida custava caro demais. Preço que eu não queria pagar.

Quanto a certeza, com a dose de incoerência que todos temos no cardápio – confessemos ou não -, ainda me pego indo atrás de uma ou outra, no fim. No entanto, enquanto cobiço uns pares delas, também quero me livrar das que teimam em se agarrar em mim.

O vazio de certeza, no início, dá insegurança. Como nos primeiros passos não encontrar estendida a mão da proteção. Como pedalar pela primeira vez sem as rodinhas de trás, ou pular na piscina e não ver a cara molhada e divertida do pai acenando; dando a mão.

O homem se separou da Natureza e de Deus, e disputa, a unha, certeza por certeza. Por vezes, a tiro. Paga por ela, morre por ela. Ajoelha-se e vende a própria alma por um vislumbre dela; e no entanto, à única certeza irrefutável, que é nossa de graça, viramos as costas e nos recusamos a aceitar.

a morte do corpo material
a viagem é de ida e volta
ponto final

Hoje, só não percebe quem não quer: a vida aperta a porca, e o parafuso penetra a carne e é então que é preciso aceitar que na dor há propósito; ela nos impulsiona a encontrar a via que desemboca na harmonia, que é o modus operandi da Criação. Se não fosse assim, se Ela não fosse movida a ritmo, harmonia, equilíbrio e perfeição

os planetas se chocariam uns contra os outros em frenética dança egocêntrica
o Sol viria espiar a Terra e nos exterminaria com uma lambidas de suas régias labaredas
a lua preguiçosa apareceria de quando em quando de luz opaca e sonolenta
as estrelas sairiam em caminhada pelos céus de outras galáxias
e seríamos sem elas ainda mais tristes

Eu não estaria aqui esperneando na busca do equilíbrio e da harmonia pessoal.
Da minha sanidade mental.

E como isso tudo me remete a Deus, lembro que quando menina eu tinha certeza Dele, mas sentia pena do Deus da minha certeza, e chorava. Ouvia dizer que Ele era maior e melhor que tudo e todos, e isso me levava a pensar um Deus material, velho, barbudo, sisudo, distante e solitário. Um Deus que julgava, condenava e tinha preferências entre os humanos e suas tribos. Se não fizéssemos o que Ele determinava, nos expulsava de seu Reino e nos virava as costas. Para sempre. Isso me perturbava, trazendo ansiedade,
aos sete anos de idade.

Eu pensava um Deus eterno que sofria de solidão eterna. Sem amigos! Quem
pode ter amigos sendo melhor e maior que todos!

mas voltando a certezas confesso
escrevo para delas me livrar
não para novas conquistar

E enquanto isso você, do outro lado da tela, ouve meus ais e uis nascidos da birra de não ter o que quero, quando quero, nascidos da frustração. E eu não jorraria palavras, ipis e urras, britados da satisfação.

E sem certezas, não tenho resposta pronta nem mapa do tesouro. Não tenho a pretensão de explicar o Divino e Seus desígnios. Não tenho receita para o meu nem para o teu bem-estar. E vou vivendo.

E Deus?
Hoje, dele não tenho certeza.
Eu o sei, o sinto e o percebo nos meus momentos de lucidez.

mas quando me deixo tomar por uma ou outra certeza
sofro e o resultado é nefasto
isso acontece sem dúvida
quando eu Dele me afasto.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de Comunicação e Expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung com fé e certeza nas suas incertezas

Inferno astral

 

Por Abigail Costa

Meu amigo desfrutava as últimas horas do fumódromo permitido dentro da empresa. Entre uma tragada e outra uma conversa entre virginianos. Como estamos próximos de completar mais um ano de vida, tudo o que não vem dando muito certo é culpa do inferno astral.

– Relaxa! Deixa pra resolver depois. São esses dias!

– Calma! Esse tipo de preocupação vai passar assim que chegar o dia do seu aniversário.

– Sério? Isso existe? De verdade?

Sabe que em determinados momentos é até bom acreditar em horóscopo, meditar nas palavras escritas no adesivo do pára-brisa do carro na sua frente.

“Deus deu a vida para cada um cuidar da sua”.

Essa li outro dia e costumo repetir a frase em tom de brincadeira.

Já pensou se a gente pudesse entregar a nossa vida nas mãos de alguém que durante um tempo zelasse por ela com paciência, amor, carinho, e nos devolvesse com juros, cotação lá nas alturas? Assim como um investidor cuida do nosso dinheiro, vez ou outra? Ações, euro, dólar, imóveis. Não quero nem pensar, faça o melhor por mim.

Acontece isso quando o mundo parece despencar na nossa cabeça. Vem de lá, de cá. Aparecem problemas até no pé da mesa!

Jesus apaga a luz ! Quando acender de novo tudo estará resolvido.

Enquanto ninguém toca na tomada, vou acreditando neste tal Inferno Astral, um jeito malandro que meu amigo me ensinou de ganhar tempo pra pensar melhor. No balanço das contas a gente percebe que alguns problemas não são assim tão urgentes.

Eles aparecem pra testar a nossa fé.

Abigail Costa é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung sem nunca perder a fé