Reminiscências – De minha mãe

 

Por Julio Tannus

 

… Aos 94 anos de idade:

 

Comecei a vida estudando e acabei estudando para viver.
Aquele que não sabe que não sabe: é um tolo, evita-o. Aquele que não sabe e sabe que não sabe é simples: ensina-lhe. Aquele que sabe e não sabe que sabe: está dormindo, acorda-o. Aquele que sabe e sabe que sabe: é sóbrio, segue-o.

 

Somos todos estudantes na escola da vida.

 

O sorriso custa menos que a eletricidade e dá mais luz.

 

A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas deve ser vivida olhando-se para frente.

 

A vida é como uma bicicleta, você cai se parar de pedalar.

 

Se você quiser algum lugar ao sol, precisa saber enfrentar algumas queimaduras.

 

Quem sabe muitas vezes não diz. E quem diz muitas vezes não sabe.

 

Somos feitos de carne, mas temos que viver como se fossemos de ferro.

 

Quem viaja na garupa não dirige a rédea.

 

Agir sem pensar é como atirar sem fazer pontaria.

 

Colha a alegria de agora para a saudade futura.

 

Hino à Paraty:
Paraty quanta saudade.
Paraíso a beira-mar.
Permita Deus que eu não morra, sem para lá eu voltar.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

De mãe

 

Por Maria Lucia Solla

 

A lua

 

mãe é ser divino
e o somos todos
ou não?
pai filho irmão santo demônio
andarilhos na mesma estrada
entoando cantilena com coração e mente recheados de sentimento ressentimento
desejo sonho
de contradições que se chocam arrastando umas as outras
num pra-lá-e-pra-cá de ficar zonzo

 

na verdade somos só machos e fêmeas
homens mulheres garfos colheres
nada há que nos dignifique
além do amor que se manifesta na compaixão na alegria e na dor

 

estou enganada
ou o emissário de Deus veio mesmo trazer a mensagem
de que a lei dali pra frente seria o amor
e que o resto era descartável
bobagem

 

vivemos no entanto a chorar da dor
dando crédito demais ao desgosto
a recusar o amor que é proposto

 

pois bem
entre homens e mulheres
foi a elas sugerido que carona dessem
pra que outros viessem
e suas lições aqui aprendessem

 

como árvore a mãe dá fruto
num milagre constante
gera fragmento
que quando vinga se torna completo para ser

 

a história da santidade materna não me convence
confesso
pois há pai que merece mais que ela
que cuida do rebento de caderno livro e de panela
relegando a plano inferior o que antes era valor

 

hoje eu
em meio à religião
ao perdão ao ladrão e ao espertalhão
vislumbro só um pecado
o de nos considerarmos só corpo
e deixarmos a alma de lado

 

bem e mal existem
mas não separadamente
como um não conter o outro
só os cegos de plantão nisso ainda insistem

 

assim que hoje em vez de homenagear cada mãe-amada-e-a-não-amada
escolho olhar a criança violada e o pequeno abandonado
seja ele pobre ou abonado

 

quem diz que mãe é santa
mente
quando ontem hoje e amanhã
a menina violada se faz mãe de repente

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De pai e mãe

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De pai e mãe” na voz e sonorizado pela autora

Somos dependentes de deuses, da mesma forma que são dependentes de nós, os filhos. Somos dependentes, cada um na sua medida, de objetos, sensações, hábitos, entidades, crenças. Não resistimos ao invisível, intocável, inatingível, impensável. E lhes conferimos poder. Nas suas mãos depositamos a responsabilidade que deveria ser nossa.

Há deuses para todos os gostos: os que exigem algumas coisas, os que são contra outras, os que têm emoções humanas como ira, vingança, preferência; e todos têm seus inimigos também. Como nós.

Não sei como são os teus deuses, nem qual é o grau da tua dependência. Nem você sabe, mas vou enfrentar a minha, com tudo; com minhas células, meu sangue, meus músculos. Com a consciência.

Quando digo: Deus! – Criador, Pai, Mãe, Grande Ser – me dirijo a uma entidade desconhecida, raras vezes intuída, questionada, idolatrada, traduzida nas mais diversas línguas, pelos mais diversos corações.

E digo: Pai! – Mãe – dá-me força para que eu não bata o pé feito criança mimada, sempre que alguma coisa não toma o rumo que eu esperava que tomasse. Pai! – Mãe, Irmãos invisíveis, Anjos, Arcanjos, Entidades de todas as raças, de todos os credos, Devas da Natureza, Natureza – olha para mim que sou pequena, frágil, solitária e que vivo em busca do ponto de origem que mora em mim, e que é a fagulha que faz existir tudo o que deve existir. Eu sei que está ali, em algum lugar, em mim, no outro, em tudo o que é; um ponto mágico para ligar e desligar, aqui e ali, para que eu me equilibre, que possa oferecer amor, respeito, consideração, solidariedade, e para que eu aprenda a atrair para mim, o mesmo, e mais.

Pai! – Mãe, Senhor dos Mares dos Ares, da Terra, Ondinas, Fadas Silfos, Senhor da Lua e do Sol – ilumina minha consciência, para que eu, de algum modo, encontre o que procuro. Ilumina minha consciência para que ela perceba quanto ainda é pequena, e quanto espaço ainda precisa ocupar.

Mãe! – Pai, invisíveis, visíveis, faz o mesmo a todo aquele que demonstrar no coração, que busca o mesmo que eu. Mesmo que não saiba expressar esse desejo. E o mesmo a todos os outros, à minha esquerda, à minha direita, que vão lá na frente e aqueles de quem ouço os passos, ali atrás.

Você ouve? você pensa nisso? ou não…

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Seminário sobre creche tinha de tudo, menos mães

 

Pintura de criança

Por Devanir Amâncio
ONG Educa São Paulo

O seminário sobre o  crônico problema da falta de creches e Emeis na cidade de São Paulo, no sábado, 26 de março,  no Jardim Míriam, região de Cidade Ademar,  Zona Sul, estava repleto de assessores de políticos, funcionários e professores da Escola Estadual Yolanda Bernardini, onde aconteceu o evento.

Nada de importante foi anunciado pelas autoridades. Poucas cobranças e muitos aplausos para o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider. Ambos afirmaram que dinheiro não falta para a educação.  

Dona Maria de Fátima saiu frustrada, mora na favela Elba, perto dali, tem duas crianças à espera de vagas -,  estava com um carrinho de mão na porta da escola,por volta das duas horas,  atrás de  cesta básica e informações sobre os benefícios sociais do Governo. Dona Fátima, não  entrou para os discursos, não permitiu  que fosse fotografada, mas deu uma dica importante :
 
“Tem uma creche fechada na Av. Dona Belmira Marin, no Grajaú, desde dezembro do ano passado, os filhos de uma amiga minha eram matriculados na escolinha, é uma creche muito grande, tem dois prédios bonitos… de um, já roubaram duas janelas …. fica em frente à escola do Estado Adelaide Rosa, uma escola pixada de cima em baixo. A creche com certeza tem alguma coisa a ver com a Prefeitura, porque era um entra sai de gente da Educação… É de lá que precisa tirar foto para saber o porque a creche está fechada …se todo mundo tá procurando e falando de creche. E pode anotar aí o meu endereço.” 

O advogado Manoel Del Rio , presidente da ONG Apoio – Associação de Auxílio Mútuo , justificou a sua ausência no seminário:

“Estou reunido com alguns voluntários, estudando a dívida da Prefeitura de São Paulo com o Governo Federal, dados que pegamos no Conselho Regional de Economia (CORECON – SP) . Estamos assustados ! O orçamento da Prefeitura para 2011 é de 36 bilhões de reais, a dívida é de 52 bilhões. A Prefeitura vai pagar só de juros neste ano 3 bilhões e mais 4 bilhões de parcelas da dívida. Queremos traduzir isso de forma simples para as comunidades. Pretendemos organizar um seminário nos próximos dias e trazer o Governo Federal para discutir o assunto. Não há outro caminho : é preciso renegociar a dívida de São Paulo. Os juros causam grandes estragos sociais à nossa Cidade… Se investisse um bilhão por ano dos juros da dívida na educação infantil, daria para suprir significativamente a carência de creches e Emeis, e com um pouco mais , fazer melhorias na escola pública, na rede de sáude e construir nova casas populares.”

De onde vem esta força ?

 

Por Abigail Costa

Uma das maiores recompensas da minha profissão de jornalista é conhecer pessoas. Em todos os lugares, gente interessante com histórias para contar. Isso, histórias. Conhecimento.

Nem sempre você vai para uma reportagem de entrega de Oscar. Nem tudo são flores, ainda mais morando e trabalhando nesta cidade chamada São Paulo.

Esses últimos dias tem sido de um enorme aprendizado. Tenho conhecido mulheres, mães. Diferentes do que tinha visto antes.

Entro na casa delas para ouvi-las. Elas falam de dor, de perda. Choram, pedem justiça, não cruzam os braços. E num dado momento a conversa ganha um rumo diferente. A voz continua embargada, mas decidida.

Encontrei com Márcia numa manifestação no centro. Ela veio do Rio de Janeiro para contar que o filho foi morto. Vítima de uma “troca de tiros com policiais”.

Márcia passou quatro anos trabalhando para mostrar a inocência do garoto de 16 anos. Conseguiu provar que os assassinos do filho eram dois PMs. Hoje, condenados e expulsos da corporação.

Já Maria Aparecida, mãe de Alexandre, descreve o que aconteceu: o filho foi morto no começo do mês na frente da família. Apesar dos apelos da mãe, do irmão de 13 anos, a cena de espancamento só parou quando Alexandre já não oferecia mais “resistência”. O crime dele: a moto estaca sem placas, disseram os policiais.

Ouvir essas histórias tristes contadas por quem mais sofreu e sofre pela falta dos filhos é difícil. Mas no meio de tanta tristeza, elas têm uma força inacreditável. No caso da Márcia, incansável. Lutaram para provar que os filhos que criaram não são bandidos.

Elas são mulheres simples.
Elas são mulheres fortes.
Elas são mães.

Abigail Costa é jornalista, mãe de dois meninos e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung

Vermelho Valentino para sua mãe

 

Por Dora Estevam

Se eu tivesse que oferecer um estilista de presente para uma mãe ou se eu fosse esta mãe, com certeza seria o italiano Valentino. O estilista que rompeu definitivamente o monopólio parisiense da moda e seduziu o mundo com criações luxuosas e femininas.

Eternamente vermelho.

Valentino abre 1

Quantas vezes você chegou a ver os vestidos maravilhosos de Valentino no tapete vermelho da festa do Oscar?

Vestidos deslumbrantes usados por mulheres indiscutivelmente elegantes como Audrey Hepburn, Jacqueline Kennedy e a princesa Diana. Na agenda contemporânea, Claudia Schiffer, Sharon Stone e Linda Evangelista.

Atualmente, as coleções assinadas por Valentino vão além de moda feminina e masculina, suas charmosas criações se expandiram para acessórios como perfumes, relógios, óculos e bolsas.

Sem dúvida o século 20 foi incrivelmente especial para o estilista que expandiu seu império para além da Itália, abriu lojas na França, Inglaterra, Japão, Estados Unidos, Coréia Indonésia, entre muitos outros países.

Valentino MeioQuando se fala em moda a impressão que dá é que tudo são flores, mas você imagina o que Valentino passou para chegar no topo da alta-costura?

Valentino Clemente Ludovico Garavani, nascido na cidade de Voghera, em 1932, teve que romper muitas barreiras a começar pelo monopólio parisiense que não admitia estilistas estrangeiros.

Valentino terminou os estudos em Milão, onde aprimorou seu conhecimento em arte e escultura, depois foi estudar em Paris  na Chambre Sybdicale de la Haute Couture. Na capital, aproveitou para fazer um estágio e algumas aulas de dança e teatro.

Ai você me pergunta, de onde vem afinal a inspiração para o estilista gostar tanto de vermelho? Bem, ainda nesta ocasião, o jovem Valentino começou a frequentar a Ópera de Barcelona, ao notar que a maioria das roupas dos trajes  usados em cena era vermelha, ele se deu conta que depois do preto e branco não existia cor mais bela.

Enfim, estamos falando de uma época muito elegante, La Dolce Vita italiana. Em 1957, com 27 anos, Valentino abriu seu próprio ateliê em Roma e lançou seu primeiro desfile solo. O impacto foi grande, até a atriz Elizabeth Taylor largou tudo para assistir, depois disso ela encomendou um vestido para a premiere de Spartacus. Faz ideia?

Dai em diante as estrelas Ornella Mutti, Sophia Loren e Mônica Vitti se encantaram com o jovem italiano.

Nos anos 60, a moda londrina invadiu o mercado com as criações de Mary Quant e com isso os preços da alta-costura baixaram muito. Valentino esperto que era, deu um verdadeiro golpe de mestre, preparou a sua coleção prêt-à-porter, se dedicou mais a criação e expandiu a marca.

Em 1968, ele costurava para as mulheres de políticos e as mais famosas atrizes, sem contar que fez o vestido de casamento da amiga dele Jacqueline Kennedy.

Valentino Abre

Valentino sempre foi inteligente e soube aproveitar as oportunidades e as mudanças de cada época. Digo isso, porque já em 70, com todas as mudanças sobre as quais falamos nesta coluna, ele criou peças incríveis com estampas extravagantes com leopardos, zebras e girafas, vestidos suntuosos de noite e não poupava plumas, paetês e bordados.

Em 2008, Valentino se aposentou, mesmo dizendo que não conseguiria ficar longe das tesouras. A marca ele já havia vendido para uma empresa britânica.

Talento e criatividade nunca faltaram para o mestre italiano que  sempre surpreendeu com suas criações arrojadas e sempre femininas.

Seduziu  mulheres do mundo inteiro. Porque sempre soube traduzir os sentimentos tão delicados, sofisticados, glamorosos e luxuosos.

As mães merecem um homem assim.

Dora Estevam é jornalista, escreve ao sábados no Blog do Mílton Jung e, mãe, fala em causa própria na coluna de hoje.

Desprendendo-me

 

Por Abigail Costa

A maternidade chegou, digamos, na fase madura. Depois dos 30. Estava tão acostumada em ser eu – e quando tinha que dividir era só com meu marido – que quando aquele pequeno homem chegou em casa desorganizou minha vida.

As noites não seriam mais as mesmas. De fato não foram. E quantas delas passei em claro com ele berrando no colo. O pensamento era só esse:”acabou meu sossego”.

Era uma sensação de perda de liberdade, de tranquilidade, de sono gostoso depois de namorar muuuuuuuuuuito.

Agora, eu tinha uma responsabilidade que pesava. Não só porque tinha sono e não podia ir pra cama. Vestir aquela blusa cheias de botões, durante meses (não por opção) para ter praticidade na hora de amamentar, confesso nem sempre me dava prazer.

Mas o tempo, sempre ele, se encarregou de colocar os pingos dos is.

Daquelas noites sobraram as olheiras na fotografia; das mamadas do meu bebê, saudade.

Ele se desprendendo, a vida voltando ao jeito que era.

Meu pequeno grande homem já tem suas responsabilidades e as desempenha muito bem. A mim cabem pequenas complementações como mãe.

Você já não é tão requisitada como antes. Definitivamente, ele não morrerá de sede sem você.

De vez em sempre um carinho, que mal tem ?

Numa dessas voltas, eu, cortando as unhas naqueles dedinhos já crescidos, comecei a fazer perguntas com aquela voz quase idiota que usamos para conversar com animais e crianças:

– Já não precisa mais da mamãe pra trocar as fraldas, não é? Nem pra mamar?

Consegui perguntar mais meia dúzia de besteiras até cair em prantos.

Ele “pensando” ser mais uma das minhas brincadeiras disse inocentemente:

– Você é uma atriz e tanto, não é mamãe?

– Pois é – respondi, passando as mãos no rosto e disfarçando as lágrimas.

Fui pro banheiro pra me olhar sozinha no espelho. “Tá louca mulher?” Perguntei pra mim mesma.

Passei uns dias pensando nesse episódio.

Louca não. Lúcida.

Estamos nos desprendendo.

Assim como foi preciso me acostumar com a chegada do meu bebê, estou me acostumando com as outras etapas. Sofrer como lá atrás sofri quando ele chegou mudando a minha vida, sei que não vai dar pra escapar. Sofrerei.

De novo me lembro da frase preferida da minha mãe.

“Com o tempo tudo passa”.

Abigail Costa é jornalista e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung

De queda de braço

Por Maria Lucia Solla

Ouça ‘De queda de braço’ na voz da autora (música: Round Midnight, Stann Getz)


Gripe Olá,

Você se lembra de quando era legal ficar resfriado? Não, não digo legal porque fosse divertido, mas era socialmente aceito.

Atchiiiim!

Confesso. Sim, estou resfriada. Meu raciocínio anda devagar, quase parando nas curvas mais fechadas. Ou é o tico que espirra, ou o teco que tosse. E a conexão cai.

Resfriado significava, há pouquíssimo tempo, carinho especial da mamãe, das tias, dos amores e dos amigos. Um evento. Nada de escola. Nada de trabalho. Chazinho de limão adoçado com mel, muito suco de laranja, bolinho de chuva e mingau de aveia quentinho.  E cama. Repouso era fundamental. O xarope não era amargo, mas era transgressor; trazia um quê de bebida alcoólica. Em três dias, podia sobrar um restinho de tosse, um espirro aqui, outro ali, mas dava para levar.

Resfriado era um mal banal.

Aprendia-se na escola que muitos tinha morrido em decorrência de pestes, e que a Gripe Espanhola tinha feito um estrago danado. Era história, e só. No Brasil não tinha peste, epidemia, e confesso que não faz muito tempo que ouvi a palavra pandemia, pela primeira vez.

Hoje, valha-nos Deus! Cama? Nem pensar. Não dá. Crise, minha gente. Alerta vermelho! Trabalho é fundamental para o fundamental, só que fundamental não é tão fundamental assim, a gente se arrebenta, sem entender bem porquê. Vai na onda. Foi e será sempre assim.

Hoje, quando resfriados, nos arrastamos para fora da cama e nos entupimos de droga; mas nem assim vencemos o tal do resfriado. É queda de braço. Ele aponta e a gente se arma. Pílulas de todas as cores, em horário apontado na agenda. Resfriar-se é proibido. A queda de braço é tanta que os vírus, certamente movidos por instinto de sobrevivência, como nós, se fortalecem e se defendem como podem.

Hoje, se você espirra em casa, tudo bem. No restaurante, atrai olhares desgostosos de quem se sente ameaçado e chega a desistir da sobremesa e do cafezinho. Pernas, para quê te quero!  Agora, se você espirra no aeroporto… Sabe Deus quando voltará a ver a família.

E eu, o que faço? Vou para cama? Vou à festa na casa do Bertrand e da Sandrine? A paella gigante é tentação demais para uma descendente de espanhóis. Uso máscara? Fico em casa e continuo meu trabalho? Preparei o almoço, de véspera, na panela elétrica, de cozimento lento. Coloquei os ingredientes ali, ontem à noite, e ela preparou um cozido delicioso. Lavo a louça? Dou um cochilo? Saberemos amanhã.

E você, quando fica resfriado, faz o quê?

Pense nisso, ou não, e até a semana

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos escreve no Blog do Milton Jung mesmo abaixo de tossidos e espirros.

De Conselho

Por Maria Lucia Solla

Minha mãe, a conselheiraOlá,

Minha mãe sempre foi, e ainda é, uma mulher diferente. Fazia tudo com arte. Quem ainda tem um dos seus Cristos na Cruz, feitos com corda, sabe do que estou falando. Ou um de seus panôs feitos em veludo, brocado, feltro, seda, com personagens e cenários aplicados, pintados, e bordados com os mais diversos fios e pedrarias.

Quando eu era menina, a gente chamava pai e mãe de senhor e senhora, pedia a benção beijando a mão, e não se metia em assunto de gente grande. Minha mãe não falava dela. Era fechada, mas com o tempo fui descobrindo que veio de uma família muito unida e carinhosa, que era linda e que tinha 17 anos quando se casou com meu pai.

A mamãe nunca foi de muita risada. As mulheres que riam alto ou riam dobrado, ainda causavam estranheza. No caso da mamãe, o recato e a timidez eram regados, e muito bem cultivados, pelo ciúme do meu pai. Seu sangue luso-espanhol era de um homem bonito, alegre, sociável, sedutor, mas dominador e possessivo, entre outras características. O fato é que a minha mãe descobriu, no susto, que casamento pode não ser um conto de fadas. Que pessoas não são metades de uma laranja.

Um belo dia – sim, porque são todos belos – ela se deu conta de que cada um de nós é um universo tão complexo quanto cada galáxia existente neste, e em circuitos ainda maiores e mais complexos. Foi então que resolveu tomar o caminho de Alzheimer. Levou sua mente para outro plano de consciência, mas continua a nos educar, através do silêncio. Se eu pedisse a ela um conselho sobre o que deveria fazer, neste domingo de Páscoa, ela diria: “Vá ver seu filho, sua nora e seus netinhos. Eles precisam de você, e você precisa deles. Isso é vida, filha.” A gente demora mas aprende, mãe. Eu vou.

E você, vai ver alguém importante, hoje?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça “De Conselhos” na voz da autora


Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos revela as coisas de sua vida para que a gente seja capaz de descobrir aquelas que estão fechadas em nossa alma.