O cinema triunfa na Paulista

 

Por Carlos Magno Gibrail

Em outras regiões da cidade e do planeta terra, o cinema ao vivo tem ajudado a restituir ao mundo a verdade do mundo. É o que vimos há uma semana, quando um jovem foi agredido no rosto por outro jovem com lâmpada fluorescente.

Até então o grupo do agressor, apoiado por pais e advogados, inventaram situações e acusações infundadas. Bastou a imagem gravada para um dos advogados de defesa conscientizar-se e sair do caso. É bem verdade que mesmo diante da cena irrefutável houve quem discutisse o real, o que comprova a mente distorcida orquestrada pela ética disforme, que criou e desenvolveu comportamento tão desequilibrado nos jovens provocadores.

A enorme repercussão do fato gravado foi do tamanho da sua gravidade, todavia o foco de homofobia, embora relevante, não é o mais importante. O contundente é a agressão em si, gerada do nada ou do tudo. Vindo de meninos com instrução e famílias constituídas.

Esta complexidade deve ser estudada, principalmente para verificar se não é a resultante daquelas escolas cujos pais exigem que os filhos sejam tratados como clientes. E, como tal, sejam os “donos” dos colégios.

Menos complexa, mas tão importante quanto à psicologia do caso é a questão do uso generalizado das câmeras sob o aspecto legal e ético.

A cidade de Londres que previne e pune o crime com a maior quantidade urbana de câmeras do mundo; pesquisadores como Paco Underhill, que formou uma teoria do varejo através das câmeras; esportes como a Fórmula1 e o Tênis, que impedem injustiças nas competições milionárias com repetição de lances duvidosos; assim como uma série de residências, condomínios e empresas que têm tido sucesso na segurança com as câmeras de gravações, são exemplos para análise desta controvertida questão da invasão de privacidade dos cidadãos.

O dinheiro na meia, o dinheiro na bolsa e depois a reza, a mini saia da Uniban e a grande quantidade de babás espancando bebês mundo afora, foram protagonistas de casos que sem elas não existiriam.

O Rodeio das Gordas por falta de imagens gravadas ainda preenche muitas telas eletrônicas de relacionamento.

A FIFA, entidade dirigente do esporte mais popular do mundo, quanto mais expande seu império mais teme as câmeras. Certamente para manter o simulacro tão bem alicerçado do poder centralizado e estimulador para as demais confederações afiliadas. A ponto dos atores principais, os futebolistas, adotarem o mesmo e progressivo papel de simuladores absolutos. Chegam a trocar os pés pelas mãos, até mesmo para vagas no supremo torneio da entidade.

As cidades, cada vez mais populosas, deveriam prevenir e punir a criminalidade urbana como prioridade, sem receios de cerceamento pelas imagens.

É hora de repensar a liberdade de gravar e ser gravado. O cinema poderá ser bem-vindo neste cenário urbano contemporâneo. Reproduzindo o cotidiano com suas tragédias, dramas, farsas e comédias. Cinema ao vivo, para todos e para tudo.

Graças a ele, a promotora da Infância e Juventude Ana Lunardelli decretou ontem a internação dos quatro adolescentes envolvidos na agressão da Avenida Paulista na Fundação Casa por tentativa de homicídio e lesão corporal.

O pedido foi motivado “pelas imagens divulgadas pela polícia”. Sem elas, os agressores, libertados, arquitetavam a defesa com a imaginação que a ausência de imagem permite.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

O “benefício” da progressão penal

 

Por Paulo Fernandes Lira
Advogado e Ouvinte-internauta do CBN SP

Está correto pensarmos que ao mandar um homem preso para a cadeia estamos resolvendo um problema social? Que, após o devido processo legal, se condenado, será reintegrado à sociedade por nosso sistema carcerário?

Ao responder esses e outros questionamentos correlatos, digo que não, pois sob o fundamento de resolver questões sociais tão graves, como a violência e a criminalidade, encarceram-se pessoas em verdadeiras universidades do crime, esquecendo-se que elas voltarão piores do que quando lá ingressaram, e portanto, para que serviu o cumprimento da pena aplicada, senão para piorar aquele cidadão e ainda, onerando o erário estatal. Mas a essas perguntas, das quais já nos demoramos muito para responder, sofremos os efeitos nefastos que estão aí para quem quiser ver, o galopante e desenfreado aumento da criminalidade, da pobreza, do analfabetismo, etc…

Contudo, o fato é que, vivemos num Estado de Direito, democrático, em que devemos obediência às leis e ao cumprimento destas, e desse modo não podemos nos esquecer que a Lei de Execuções Penais vigente em nosso país prevê a progressão da pena ao condenado, assim como o direito a saída temporária, nos casos nela previstos, desde que cumpridos seus expressos requisitos.

Assim que, tanto pela saída temporária do preso ou a progressão da pena, que nesse último caso é a mudança de regime para outro menos gravoso, temos que são direitos do condenado e uma obrigação do Estado, por força de Lei.

No que se refere à matéria do Estadão de 24/10/10 “ As fugas de sempre” (pg. A3), em que pese a coerência de suas ponderações, cumpre-nos observar que, como operador do Direito, o Juiz das execuções está adstrito ao cumprimento da Lei, não lhe cabendo suprimir ou criar direitos. Como se diz “ O Juiz é a boca da lei” É o Estado-Juiz quem deverá analisar se o preso condenado preenche as previsões legais para obter o benefício por ele requerido, que em caso positivo deverá ser concedido, sob pena de ser reformado na instância superior.

Não concordo com o que foi dito “Com os juízes pressionados a conceder benefícios indiscriminadamente, pois estão assoberbados de trabalho e não tem tempo de analisar caso a caso…”. Não se trata de mera liberalidade do Estado-Juiz em conceder ou não, está previsto em lei e dependem, exclusivamente, da satisfação de requisitos pré-determinados na Lei de Execuções Penais. Vejamos o que dizem os artigos 112 e 123 da referida lei.

“Art. 112. A pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada pelo juiz, quando o preso tiver cumprido ao menos um sexto da pena no regime anterior e ostentar bom comportamento carcerário, comprovado pelo diretor do estabelecimento, respeitadas as normas que vedam a progressão.”

“Art. 123. A autorização será concedida por ato motivado do juiz da execução, ouvidos o Ministério Público e a administração penitenciária, e dependerá da satisfação dos seguintes requisitos:

I – comportamento adequado:
II – cumprimento mínimo de um sexto da pena, se o condenado for primário, e um quarto, se reincidente;
III – compatibilidade do benefício com os objetivos da pena.

Temos que, ainda que o magistrado, em seu íntimo e por sua experiência de vida, entenda de maneira diversa, deverá dizer a lei por meio de suas decisões.

Desse modo, não podemos atribuir ao juiz da execução o ônus de, por mera liberalidade conceder ou não a progressão da pena ou a saída temporária do preso, pois não se trata de um juízo de valor pessoal e sim de uma previsão legal, e como tal deve ser cumprida.

Cabe portanto à sociedade, por meio dos nossos representantes, adequar as leis aos nossos tempos.

Prevenir e investigar, pede especialista em segurança

 

São Paulo tem de ter uma polícia com capacidade de investigar, atendimento competente nas delegacias e ações de prevenção. Em resumo, é o que pensa a coordenadora-adjunta do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Nancy Cardia, entrevistada pelo CBN São Paulo para identificar temas que devem ser debatidos pelos candidatos ao Governo do Estado.

Nancy Cardia entende que houve uma queda expressiva no número de homicídios no Estado, mas a solução dos crimes ainda tem índices muito baixos. Para melhorar o trabalho de investigação, ela diz que é preciso investimento em treinamento e tecnologia. Não esquece, também, de chamar atenção para o trabalho dentro do sistema prisional

Ouça aqui a entrevista com Nancy Cardia, da USP

As entrevistas que o CBN São Paulo tem realizado, nesta semana, têm a intenção de estimular o ouvinte-internauta a refletir sobre assuntos que interferem na sua qualidade de vida para que sirvam de base para a série com os candidatos ao Governo que se inicia no dia 8 de setembro, quarta-feira que vem.

Você pode participar enviando agora sua pergunta para milton@cbn.com.br ou publicando sua mensagem aqui no Blog do Mílton Jung

Governo recua e anuncia reforço (?) no Rodoanel Sul

 

Foram necessários 20 dias para o Governo do Estado de São Paulo admitir que os transportadores de carga e seguradoras tinham razão ao reclamar da falta de segurança aos motoristas no trecho sul do Rodoanel. Em nota, divulgada nessa quarta-feira, a Secretaria Estadual de Segurança Pública anunciou o reforço do policiamento na área informando que “o efetivo foi praticamente dobrado para auxiliar no patrulhamento”.

Em junho, os donos das empresas de transporte de carga disseram que as seguradoras se negavam a pagar indenização caso os caminhões fossem alvos de bandidos no trecho sul do Rodoanel pois o policiamento não era suficiente e havia falhas no sinal de telefonia celular, o que prejudicava o monitoramento eletrônico. As seguradoras confirmaram a restrição, ao CBN SP. Na época, primeiro por nota, depois em entrevista, o Governo disse que “o discurso do Sindicato não se sustenta”.

A curiosidade entre as informações divulgadas pelo Governo de São Paulo em julho e hoje é quanto ao número de viaturas que rodam na região para dar segurança aos motoristas.

Na nota do dia 16 de julho, afirmava que “existem duas bases da Polícia Militar Rodoviária com 19 viaturas e motos disponíveis” (leia nota aqui)

Na nota de ontem, diz que as medidas para implementar a segurança prevêem o uso de 17 viaturas do 1º Batalhão de Polícia Militar Rodoviária, duas viaturas do Tático Ostensivo Rodoviário e o helicóptero Águia da Polícia Militar.

A persistirem as contas, o único reforço no trecho é o uso do helicóptero, pois o número de viaturas permanece o mesmo.

Sobre o tema:

Seguros ‘proíbem’ caminhões de rodas no Rodoanel Sul

Governo de Sp diz que não há roubo de carga no Rodoanel

Sem número, seguradoras insistem em restrição ao Rodoanel

Gerente do Rodoanel diz que seguradoras estão mal informadas

A nota da Secretaria de Segurança Pública, divulgada ontem:

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O trauma de um ônibus queimado

 

Por Adamo Bazani

Ônibus queimado em São BernardoIndignação e trauma. Estes eram os sentimentos dos funcionários da Auto Viação ABC Ltda. Nessa terça-feira, 3 de agosto, o Caio Apache Vip II, prefixo 233, da empresa foi cercado por criminosos na rua dos Feltrins, bairro Demarchi, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.

Com truculência, o grupo obrigou motorista, cobrador e passageiros da linha 409 (Estação Santo André/ Jardim LasPalmas) a abandonarem o veículo. Todos tiveram de sair correndo. Em poucos segundos, após ser banhado de combustível, provavelmente gasolina, o ônibus virou uma enorme tocha de fogo. Felizmente ninguém se feriu, fisicamente.

A gerência da empresa falou ao ‘Ponto de ônibus” e foi possível constatar o sentimento de perda, não de um veículo apenas, mas de confiança, da sensação de segurança. Os funcionários ficaram traumatizados, muito assustados e precisaram ser amparados. Com os passageiros não foi diferente.

Mesmo se tratando de uma ação que dizem ser isolada e, provavelmente, não vai ocorrer todo o dia no mesmo local, a marca permanece. Enquanto estes criminosos ficam impunes, o motorista, cobrador e os demais passageiros vão ter de continuar a vida, trabalhar. E, como as vezes o País passa a sensação de que o trabalhador tem menos oportunidades e benefícios que o criminoso, voltar a Rua dos Feltrins não vai ser a mesma coisa. Talvez, enquanto estávamos conversando com a gerência da empresa ou escrevendo o post, os criminosos até tenham voltado ao local para ver os restos do ônibus, como se fosse um troféu.

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Comandante da Rota diz que foi salvo “graças a Deus”

 

Vítima de atentado e alvo de 11 tiros na manhã de sábado, o comandante da Rota em São Paulo, Paulo Telhada, disse que não morreu “graças a Deus” e tomará ainda mais cautela, pois “você sempre espera que tenha problemas, agora [quando ataca] a sua casa é complicado”.

Ele afirmou em entrevista ao CBN São Paulo que a polícia não mudará sua forma de atuar contra o crime organizado e os ataques que ocorreram no fim de semana sinalizam que o trabalho da segurança pública no Estado incomoda os criminosos.

Para ele, muitas outras coisas precisam mudar, a começar pela “glamorização dos bandidos”. Telhada disse que “bandido aparece na mídia andando com mulheres bonitas” e visto como “um coitadinho, enquanto a polícia é algoz”. O comandante da tropa de elite da polícia paulistana voltou a falar em Deus quando comentou que “homem que vai a Igreja não mata”.

Um dos fatos que chamaram atenção é que para Telhada o homem que foi morto após participar de atentado contra o quartel da Rota é um egresso do sistema penitenciário, viciado em droga, que teria dívidas a pagar e, por isso, teria sido obrigado a participar da ação. Porém, o comandante preferiu não comentar sobre o fato de que o sistema prisional não é capaz de recuperar as pessoas que cumpriram pena pelo crime cometido.

O tenente-coronel Paulo Telhada nega que alguma facção criminosa domine os presídios no Estado de São Paulo e entende que é prematuro afirmar que os ataques contra ele e o quartel da Rota tenham relação com o incêndio de carros.

Ouça a entrevista completa do tenente-coronel e comandante da Rota Paulo Telhada ao CBN São Paulo

“Beliscão dói pra cacete” *

 

 

Por Carlos Magno Gibrail

Pain/une souffrance~

No lar, unidade física, social e emocional do ser humano, o ordenamento das relações concretas e abstratas é balizado pelo estado.

Para construí-lo é preciso seguir normas e padrões municipais. Água, luz, telefone são fornecidos dentro de critérios pré-estabelecidos. As relações sociais e humanas devem respeitar a constituição e as leis sociais e trabalhistas. É proibido o incesto, a pedofilia, o uso de drogas, etc.

É um sistema que preserva a ordem necessária para manter a liberdade dos cidadãos sem infringir o espaço e a dignidade dos demais.

O governo, atendendo a solicitação da Rede “Não bata, eduque”, que reúne entidades de defesa das crianças, propôs a proibição de castigos corporais, para complementar o Estatuto da Criança e do Adolescente, passando “maus tratos” para “uso de castigos corporais ou de tratamento cruel ou degradante”.

A criança, peça mais frágil dos componentes do lar, ficará mais protegida com uma lei que deverá servir, como na Suécia, para inibir eventuais transgressões de modo que esta anomalia possa ser extirpada.

Tal qual aconteceu na Suécia em 1980 quando foi criada, e está ocorrendo nos países mais conservadores da Europa, como França e Grã Bretanha, 58% dos brasileiros são contra a lei, de acordo com o Datafolha. Esta população que está contra a “lei das palmadas” em sua maioria (72%) já apanhou dos pais, numa evidente demonstração de conservadorismo.

Herdamos o gosto pelo banho dos indígenas, mas não o respeito pelas crianças. Índio não bate em criança. Contrapondo-se aos “selvagens”, Lino de Macedo do Instituto de Psicologia da USP considera que o projeto “quer regular a intimidade da casa, da relação pai e filho”.

Nesta linha de preocupação com a interferência do estado, uma série de conservadores e intelectuais se manifestou contra a lei. Cony e Viviane Mosé, por exemplo , assim como o secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, José Gregori. Neste caso os Direitos Humanos dos adultos.

E as crianças?

Bem, perguntei ao meu filho Rodolfo, 7 anos, que respondeu favoravelmente à lei. Informei, entretanto que muitos brasileiros eram contra a lei. “Mas são bandidos, não?”

*Frase do Presidente Lula

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, é pai do Rodolfo e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

 Imagem da galeria digital de Constanza Hernandez, no Flickr

Quem roubou o palmito ?

 

Bons dias aqueles em que a Copa do Mundo tomava conta das manchetes. Na capa dos portais eram as falas de Maradona, as broncas do Dunga e os tropeços dos craques que apareciam em destaque. Fotos de torcedoras bonitas e torcedores loucos chamavam a atenção dos internautas que corriam a clicar no link para saber/ver do que se tratava. Estive fora do Brasil durante toda a Copa, mas os telejornais não devem ter agido de maneira diferente. E muita gente, é provável, reclamou “por que só falam disso ?”

Nem bem a Copa havia se encerrado, cheguei ao apartamento de uma brasileira em Roma e, como gesto de carinho, ela ligou o canal internacional de uma das emissoras do País. Com cinco minutos de jogo, carinhosamente, perguntei se era possível desligar a televisão. O noticiário me embrulhava o estômago.

O jogador de futebol acusado de trucidar com a namorada; o advogado suspeito de matar a ex-dele; o marido que bateu na mulher por nove horas; e o grupo de jovens que teria participando de estupros. Foi esta a seleção de notícias elencada pelo editor do telejornal, com direito a arte, reconstituição, entrevista ‘bombástica’ e suíte, para os telespectadores que vivem longe do País.

Cheguei a imaginar que seria uma estratégia para que os brasileiros que estão no exterior não se lamentassem por viverem tão distante. Bastou desembarcar no Brasil, porém, para ver que aquele era apenas um resumo do noticiário que dominava a programação na TV – portais, jornais e rádios também não escapam, mas impactam menos. Da sequência de manchete ao conteúdo jornalístico, a violência dramatizada é dominante.

A enorme diversidade de fontes de informação derrubou audiências cristalizadas pelo tempo. Todos os veículos tradicionais de comunicação perderam espaço que não será mais recuperado. Não convencidos de que os índices do passado não voltam mais – quem os teve, não os terá; quem nunca teve, continuará não tendo -, popularizou-se o noticiário contaminado pela ideia de que o povo gosta de sangue.

O caso envolvendo o goleiro Bruno, claro, seria destaque no Brasil e em qualquer outro lugar do mundo. É ex-capitão e jogador de futebol do time de maior torcida do País suspeito de participar de um crime bárbaro.

Assim como, não se deve eliminar a cobertura jornalística dos casos de violência – o tema é extremamente preocupante e importante. Estaríamos sendo coniventes e ausentes se deixássemos de lado o assunto.

No entanto, o excesso banaliza. Perde-se a dimensão de cada caso.

Qualquer briga de bar pode virar pauta na redação. Um confronto entre bêbados na madrugada que resultou em assassinato é suficiente para mobilizar uma equipe completa de TV que se transformará, talvez, no único ponto de luz daquele bar decrépito localizado em um bairro mal-conservado. Assim que os ‘escutas’ ficam sabendo, surge a ordem para que o repórter de rádio tire os pés da mesa e saia correndo a cobrir o fato. O fotógrafo do jornal chega junto com ele na tentativa de registrar o “nada”. E um delegado de polícia está de plantão para dar sua entrevista consagradora.

Mudar esta rotina é tarefa de coragem, pois seguir a cartilha nos exime da crítica, na maioria das vezes. Se “todos fazem assim”, por que não farei também? Para que inventar? Repetir é bom e conserva o emprego, pensam alguns.

Procurar a cobertura mais inteligente e criativa é coisa rara. Seja por covardia, seja por desconhecimento. Afinal – é impossível não constatar -, o que vemos na tela (no noticiário em geral) é reflexo da falta de preparo e educação. Jornalistas e jornalismo são frutos desta sociedade em que vivemos.

Tenho tido dificuldade de assistir aos telejornais da noite – tradicional fonte de informação do brasileiro – dado o destaque que se oferece à desgraça. Imagino crianças e jovens em busca de notícia, já que os pais e professores insistem que eles têm de estar por dentro de tudo o que acontece no mundo. Meus filhos têm preferido selecionar os temas diante do computador.

Com tudo isso, não me surpreendeu história contada por um colega jornalista. O filho, com apenas 3 anos de idade, ao saber que o pai estava de malas prontas para uma reportagem sobre palmito, logo quis saber: “Mas quem roubou o palmito?”

A violência diminui na África, só até o fim da Copa

Direto da Cidade do Cabo

Jornal da Cidade do Cabo

Duas moças apareceram mortas dentro de uma casa em Parrow, região bem distante dos olhos dos turistas que estão na Cidade do Cabo. Talvez do alto da Table Montain, visitada aos milhares todos os meses, um observador mais atento, de costas para o mar, conseguisse enxergar no horizonte resquícios deste distrito que está no subúrbio e assistiu ao seu empobrecimento, desde o Apartheid. Uma com 20 e a outra com 19, eram amigas de escola e a suspeita é que foram assassinadas por um rapaz que as conhecia. A mais velha das duas vinha se recuperando do vício das drogas, mas parece ter perdido a luta. A polícia promete investigar os motivos do crime e imagina apresentar o matador em breve.

O duplo assassinato vai parar na primeira página dos jornais locais muito mais pela relação que havia entre as duas estudantes e o provável assassino, pois sem o olhar jornalístico da busca do sensacional, o caso seria apenas mais um a fazer parte da crônica de violência contada todos os dias nas cidades da África do Sul, que dominam a parte mais baixa das listas internacionais de pesquisas sobre qualidade de vida.

Por contraditório que pareça, o Cabo que surge no topo destas classificações (é a quarta colocada entre cidades do Oriente Médio e África, segundo pesquisa mundial da Mercer que presta serviço na área de consultoria) não consegue esconder a chaga provocada pela brutalidade. Está aqui a mais alta taxa de homicídio do país com 62 assassinatos por 100 mil habitantes, surpreendente para quem anda nas ruas bem policiadas, neste período de Copa.

Policia na Cidade do Cabo

Para o Mundial, o governo africano incrementou em 44 mil o número de policiais para tentar controlar a violência. Hoje, são 190 mil de acordo com dados oficiais. E especialistas em segurança veem com otimismo o resultado alcançado até aqui, apesar das constantes notícias de turistas, jogadores e jornalistas assaltados, principalmente em cidades como Johannesburgo e Durban. Ontem mesmo, colegas nossos tiveram o cofre de seus quartos arrombado e todo o dinheiro levado embora. As estáticas mostram que o roubo é o “esporte preferido” dos bandidos sul-africanos.

Instituições que estudam questões relacionadas a segurança pública afirmam que os cerca de R 1,2 bilhão investidos no setor para a Copa do Mundo – isto representa algo em torno de U$ 173 milhões – tem reduzido os índices de violência. Gareth Newham, do Instituto para Estudos da Segurança, comparou as taxas de crimes com a Copa do Mundo de Críquete (esporte levado a sério por aqui), em 2003, e calcula que houve, com a de futebol, uma redução de até 24%, segundo informa o jornal sul-africano The Times. Andre Snyman da organização Eblockwatch lembrou que, historicamente, nos meses de maio e junho as taxas são menores se comparadas com setembro, outubro, novembro e dezembro, porém é evidente que a forte presença do policiamento tem inibido os bandidos – por incrível que possa parecer àqueles que nestes sete dias de Copa já foram vítimas de alguns deles.

Long Street na Cidade do Cabo

Ao passear pela mais antiga rua da Cidade do Cabo, Long Street, onde bares com arquitetura vitoriana destacada pela presença de balcões sobre a calçada recebem turistas e moradores locais, chama atenção uma outra característica nas fachadas. O comércio mantém portas de grade na maioria das vezes fechadas nem sempre, porém, altas o suficiente para impedir a invasão de algum assaltante que queira se aventurar na área.

Os portões de ferro se devem a dois fatores, e o primeiro é psicológico, dizem alguns por aqui: há uma paranoia que toma conta das pessoas que vivem em uma cidade na qual se tem notícia a toda hora de algum crime. Pergunto-me se aí onde você vive também não ocorre o mesmo. O segundo motivo é histórico: foi a forma dos brancos se protegerem de invasões que imaginavam seriam cometidas pelos negros ao fim do Apartheid.

O regime que separou as pessoas por cor, raça e horror ainda se reflete na sociedade sul-africana de maneira contundente. Os avanços que a luta de Nelson Mandela implementou são evidentes, mas a cicatriz aparece na pele, na arquitetura e na vida dos negros.

Distrito 6 na cidade do Cabo

Hoje mesmo, estive no Distrito 6 de onde cerca de 60 mil pessoas foram arrancadas de suas casas, a partir de 1966. Além de um museu que lembra aquela barbaridade, quarteirões vazios tomados pela grama e erva daninha foram mantidos para chamar atenção do crime cometido com este povo. Uma injustiça que começou a ser desfeita apenas em 1994.

Atente-se para as datas. O Brasil conquistava o Tetra nos Estados Unidos, quando o regime de segregação estava vindo abaixo. A história é muito recente e ainda viva na África do Sul. Por isso, criticar o país e seu povo pela violência e pobreza que ainda imperam é injusto se não levar em consideração a deterioração sofrida pela sociedade sul-africana.

Injusto, também, é esta gente continuar sendo vítima de uma elite política que ascendeu ao poder na carona de Nelson Mandela e tem esquecido parte de seus ideais. Motivo de seu descontentamento com os organizadores da Copa do Mundo 2010, pois o líder eterno deste país esperava que os jogos trouxessem não apenas visibilidade, mas benefícios concretos para os cidadãos. A ele não bastava um sistema de segurança que se desfizesse assim que a Fifa e sua famiglia fossem embora daqui – o que vai ocorrer no dia 11 de julho. Era preciso uma ação capaz de tirar o país do topo da classificação dos mais violentos do mundo, que transformasse a sociedade sul-africana mais segura não para mim, que voltareiao Brasil em algumas semanas, mas para seu próprio povo.

Morador de rua na Cidade do Cabo

A riqueza apareceu nesta Copa para quem a comanda, para os patrocinadores e seus patrocinados. Alguns segmentos faturaram mais, sem dúvida. Porém, muito do que poderia ficar por aqui foi parar nas mãos de gente lá fora e a renda não foi distribuída como Mandela sonhou.

Por isso, penso naquele senhor maltrapilho, com cheiro de cachaça, sentado na calçada assistindo ao passeio dos turistas em uma rua no centro da Cidade do Cabo. Ele estava sentado, sujo, desconsolado e triste. E, certamente, não se deve ao mal futebol jogado pela seleção da África do Sul.

De onde vem esta força ?

 

Por Abigail Costa

Uma das maiores recompensas da minha profissão de jornalista é conhecer pessoas. Em todos os lugares, gente interessante com histórias para contar. Isso, histórias. Conhecimento.

Nem sempre você vai para uma reportagem de entrega de Oscar. Nem tudo são flores, ainda mais morando e trabalhando nesta cidade chamada São Paulo.

Esses últimos dias tem sido de um enorme aprendizado. Tenho conhecido mulheres, mães. Diferentes do que tinha visto antes.

Entro na casa delas para ouvi-las. Elas falam de dor, de perda. Choram, pedem justiça, não cruzam os braços. E num dado momento a conversa ganha um rumo diferente. A voz continua embargada, mas decidida.

Encontrei com Márcia numa manifestação no centro. Ela veio do Rio de Janeiro para contar que o filho foi morto. Vítima de uma “troca de tiros com policiais”.

Márcia passou quatro anos trabalhando para mostrar a inocência do garoto de 16 anos. Conseguiu provar que os assassinos do filho eram dois PMs. Hoje, condenados e expulsos da corporação.

Já Maria Aparecida, mãe de Alexandre, descreve o que aconteceu: o filho foi morto no começo do mês na frente da família. Apesar dos apelos da mãe, do irmão de 13 anos, a cena de espancamento só parou quando Alexandre já não oferecia mais “resistência”. O crime dele: a moto estaca sem placas, disseram os policiais.

Ouvir essas histórias tristes contadas por quem mais sofreu e sofre pela falta dos filhos é difícil. Mas no meio de tanta tristeza, elas têm uma força inacreditável. No caso da Márcia, incansável. Lutaram para provar que os filhos que criaram não são bandidos.

Elas são mulheres simples.
Elas são mulheres fortes.
Elas são mães.

Abigail Costa é jornalista, mãe de dois meninos e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung