Jovens não acreditam em aposentadoria e desafiam mercado de trabalho

 

 

Em arquivos pessoais, guardados em um dos muitos discos rígidos que mantenho em casa, encontro gafe cometida em entrevista à TV Câmara pelo então presidente da Casa, deputado Severino Cavalcanti. Diante da acusação de irregularidades cometidas por ele, acabara de se reunir com líderes dos partidos e sacado da maleta um pacote de medidas para o País, aquilo que os políticos costumam chamar de agenda positiva. Das medidas que Cavalcanti listou durante a entrevista, antes de sofrer um “apagão”e interromper a conversa ao vivo com o jornalista da emissora, estava a necessidade de o Brasil fazer a reforma da Previdência.

 

A gravação é de 2005 e pouco tempo depois Cavalcanti renunciou ao cargo para escapar da cassação por cobrar propina de R$ 10 mil por mês do dono de um dos restaurantes da Câmara dos Deputados. Pouco mais de 10 anos depois do ocorrido, o ex-deputado está com 84 anos e afastado da política. E a reforma da previdência segue sendo uma promessa não cumprida.

 

Com o governo em exercício de Michel Temer, o tema voltou à pauta. E sofre os mesmos ataques: mudanças nas regras não podem prejudicar quem já está dentro do sistema; aumento da idade mínima não resolverá as contas da previdência; o combate a fraudes e desvios seria suficiente para equilibrar o caixa; e mais uma série de afirmações que são usadas para que tudo fique como está.

 

Gente de primeira linha já mostrou por A + B que a previdência não resiste por muito tempo se não houver mudança no cálculo da aposentadoria e países – mundo afora – já deram mostras da encrenca que se aproxima aqui no Brasil. Prefiro, porém, deixar para quem entende profundamente do tema que use os argumentos mais apropriados para que a reforma avance.

 

Estou aqui lembrando do assunto pois leio, em O Globo, que 12% dos jovens entre 20 e 34 anos esperam trabalhar até morrer, segundo pesquisa feita pelo Manpower Group e pela Reputation Leaders, com 19 mil millennials (a geração que nasceu a partir de meados da década de 1980).

 

O Japão é o país com a maior porcentagem de entrevistados que não esperam se aposentar. São 37%, pouco mais de duas vezes o índice do segundo colocado, a China (18%). A Grécia, que deixou-se quebrar para depois fazer mudanças radicais nas regras da previdência, aparece em terceiro lugar, com 15% – informa a reportagem que você pode ler aqui.

 

O Brasil, diz a pesquisa, ocupa a 12a colocação: 10% dos jovens acreditam que vão trabalhar a vida toda, sem conseguir se aposentar. Um dado interessante é que de 60% a 69% dos millennials brasileiros estão confiantes ou otimistas com as perspectivas de suas carreiras.

 

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Vale a pena ler a pesquisa completa pois há outras informações importantes sobre o comportamento dos millennials em relação ao mercado de trabalho

 

O resultado deste estudo, em relação a perspectiva de aposentadoria, nos aponta para algumas verdades.

 

A primeira, e mais óbvia, é que há descrença quanto as regras da previdência pública, pois poucos acreditam que poderão contar com o dinheiro da aposentadoria para se manter.

 

A segunda é que precisaremos urgentemente pensar como o mercado de trabalho será capaz de acolher essa mão de obra. Se os jovens acreditam que terão de trabalhar até ficarem velhos (na melhor das hipóteses, muito velhos), onde estarão os empregos para os mais jovens que continuarão chegando a esse mercado?

 

Definitivamente, a discussão do Trabalho e da Previdência não tem mais espaço para gafes, esquecimentos e manobras nem pode ficar refém de políticos sem compromisso com o futuro.

7 comentários sobre “Jovens não acreditam em aposentadoria e desafiam mercado de trabalho

  1. O jovem de hoje tem que pensar no futuro e fazer investimento em aposentadoria privada porque não se sabe até quando vai existir a previdência social mal administrada por nossos governantes.
    Felizmente a população de idosos está aumentando mas infelizmente a população de jovens no mercado de trabalho está diminuindo porque está cada vez mais difícil sobreviver num país devastado pela corrupção.

    • Sílvio, provocado por seu comentário, imagino que seria interessante um programa com a Mara Luquet no qual poderíamos apresentar opções para os jovens montarem sua estratégia para a aposentadoria desde agora.

  2. Acredito que deve-se começar pela reforma fiscal, procurando auxiliar as empresas existentes a criar postos de trabalho e incentivar a geração de outros novos, em modelos de negócio de maior perspectiva de sobrevivência e sustentabilidade (ex. TIC e green jobs), estimulando o empreendedorismo como forma de absorver a crescente oferta de mão de obra.

    Pensando a diante, com o aumento do montante arrecadado no setor produtivo, o governo poderá investir mais na saúde: praticar a medicina preventiva na população garante uma melhor qualidade de vida, mantendo o cidadão apto a exercer função profissional por mais tempo.
    O poder público também poderá voltar seu empenho à educação: capacitação profissional. Economia na área de segurança pública (menos crimes), no gasto com saúde na forma da medicina corretiva (saber se cuidar) e do custo do próprio estado (consciência política – escolha de governantes mais eficientes).

    Só neste cenário futuro, penso eu, poderíamos tomar uma decisão que sanasse de uma forma justa o tal “rombo” da previdência social a os demais equívocos em sua gestão. Atualmente vejo que tentarão apresentar soluções mais voltadas à política, postergando o “encarar” do problema como se deve, devido a falta de opções.

    • Rodolfo, bem encaminhada sua proposta com soluções a serem adotadas para enfrentar o desafio do trabalho e da previdência nos próximos anos. No Brasil, as medidas que surgem costumam ter horizonte restrito, pontuais e corporativos. Precisaríamos, sim, de saídas a longo prazo. Obrigado!

      • Não agradeça, eu sou quem lhe devo!
        Sou daqueles que como você, tentam com o próprio remo, virar a canoa ao sevado,

  3. Pingback: Aposentadoria sem futuro: as novas gerações que se preparem | Mílton Jung

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