A Moda no pós-pandemia pode melhorar a economia e a sustentabilidade

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Foto: Pixabay

 

O cenário vivenciado pela ação do Covid-19 está acelerando mudanças que viriam em ritmo mais lento, como a digitalização, hoje obrigatória. Ao lado de inúmeras projeções e sugestões para enfrentar os desafios por vir, destacamos a preocupação em criar empregos.

 

A empregabilidade nacional que já vinha com taxas desconcertantes teve acentuada queda; e a priorização na criação de empregos é absolutamente essencial para a volta à normalidade econômica e social no país.

 

Nesse contexto, há uma combinação de fatores que levam necessariamente ao setor de vestuário como um dos segmentos mais estratégicos para o processo de melhoria da taxa de emprego, da sustentabilidade e de novas oportunidades de negócio. Ou seja, o setor é intensivo de mão de obra, é um dos mais poluidores, é gigantesco em valor e é altamente potencial para inovações.

 

A indústria da Moda só perde para a indústria da construção civil na absorção de mão de obra. É intensiva de mão de obra, ao mesmo tempo que é de baixo capital de investimento. É o posto de trabalho criado com o menor investimento entre todas as indústrias — além do aspecto social nas camadas carentes da população.  

 

A indústria brasileira de confecção de roupas perdeu competitividade para a Ásia. Sofremos eliminações em todos os parques industriais de produção de roupas — das costureiras externas individuais, das costureiras externas de grupos, dos grandes confeccionistas até as grandes corporações industriais.

 

O cenário negativo para a indústria nacional ainda se acentuou devido a moda ter enveredado para o fast fashion, tão propício ao produto descartável — com prejuízo da qualidade de mão de obra e com o estrago feito no meio ambiente, pelas características da execução e do uso. Entretanto, no cenário de hoje, o fast fashion perdeu o protagonismo, assim como a Ásia começou a gerar incerteza para o negócio da moda brasileira, pela convulsão política, sanitária e econômica — afinal, o dólar com instabilidade de picos de até 50% é inadministrável.

 

Em relação à sustentabilidade estamos diante de um negócio de 2,4 trilhões de dólares anuais, que emprega 75 milhões de pessoas, e vão ao lixo 500 bilhões de dólares. 1/3 das pessoas usam as roupas apenas no primeiro ano da compra. É bom lembrar que a maior parte dos países do mundo tem um PIB bem inferior aos 2,4 trilhões da Moda, e o PIB do Brasil é em torno desse valor. Stanley Jones da ONU Meio Ambiente, fonte destes dados, lembra que os impactos do uso de agrotóxicos nas colheitas de algodão não podem ser esquecidos. 

 

Daniela Chiaretti, do Valor, em março, já reportava que a indústria da Moda polui mais que navios e aviões, respondendo por 8% e 10% das emissões globais de gases-estufa, sendo o segundo setor da economia que mais consome água, e produz cerca de 20% das águas residuais do mundo. Os oceanos recebem 500 mil toneladas de microfibras sintéticas por ano, e as pessoas consomem 60% a mais de peças do que há 15 anos.

 

Por isso, a Moda começou a agir, embora ainda reduzidamente.

 

A H&M comercializa 95% de itens com algodão orgânico ou reciclado. A Ikea criou uma cortina cuja tecnologia ajuda a limpar a poluição de ambientes internos. A Prada lançou com sucesso mochilas feitas de plásticos recolhidos dos oceanos. A Adidas prevê renda de 1 bilhão de dólares em tênis desenvolvido com material natural.  A Osklen lançou bolsas com o couro  do Pirarucu.

 

A Carteira 2019 do ISE Índice de Sustentabilidade Empresarial BOVESPA já conta com expressivas empresas do varejo como a Renner, C&A e Lojas Americanas. A Malwee está inserida totalmente em projeto de sustentabilidade, assim como a Marisol no setor infantil já trocou o “consumidor” por “usuário”.

 

Na última NRF Retail’s Big Show, em janeiro deste ano, significativo evento do varejo norte americano, ficou evidenciado um conjunto de novos modelos de comercialização para o vestuário.

 

Lojas que abrem espaço para a venda de roupas usadas: second hand — onde se destacam inclusive as grandes marcas centenárias do mercado do luxo. Sistemas de locação de roupas, com alternativas de clubes em que há uma rotação permanente de suprimentos para clientes que recebem em casa periodicamente novos produtos. Sistemas de reciclagem onde são recolhidas roupas usadas para reaproveitamento do todo ou de parte das peças. 

 

Essas inovações já estão colocadas à disposição do mercado por consultorias especializadas, internas e externas a algumas empresas pioneiras. Na verdade, parte dessas ações o mercado de automóveis já disponibiliza. Compre seu carro novo e dê o usado de entrada. Ou alugue um carro para o fim de semana. Ou faça um leasing.

A Manancial, especializada em sustentabilidade criou o projeto Linha Certa, que objetiva criar soluções de mão de obra feminina para a indústria de confecção nos presídios femininos, cumprindo vários dos Princípios e Objetivos da ONU. A meta da Manancial é entregar para as confecções uma alternativa para exercer uma relação de ganha-ganha com todos os envolvidos no processo. Resolverá a produção das peças, dará uma profissão e uma remuneração para as presidiárias, além da redução das penas.

 

No rol das especulações sobre as resultantes do vírus, há uma tendência a esperar o aumento da humanização nas relações sociais, e talvez uma empatia mais presente. O projeto Linha Certa acolhe perfeitamente a melhora nas relações humanas, além de contribuir inegavelmente para a empregabilidade. 

 

NE: Para aprender um pouco mais sobre este tema, inscreva-se, de graça, e assista à palestra do autor deste post, Carlos Magno Gibrail com Angela Garcia, hoje, no encerramento do ENCOAD 2020

 

 

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.

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