50 debates no rádio e um espaço para o contraditório

Produtores do Jornal da CBN
Letícia Valente e Carlos Grecco produziram o “50 Debates para o Brasil”

Tudo começou com uma ideia na sala de reunião. A proposta se transformou em um dos projetos mais interessantes — e também mais pretensiosos — da cobertura eleitoral da CBN. Diante da falta de conteúdo no debate político e das certezas que todos temos sobre os diversos assuntos que nos cercam, decidimos abrir espaço no horário nobre do rádio para discutir temas que afetam a vida pública e o cotidiano dos brasileiros.

À ambição do projeto, batizado de 50 Debates para o Brasil, vieram os desafios. Primeiro, selecionar os temas mais relevantes. Depois, encontrar pessoas com autoridade para defender pontos de vista diferentes — nenhuma delas poderia ser candidata a cargo eletivo neste ano. Por fim, convencê-las a apresentar argumentos consistentes, respeitando o tempo do rádio e dos ouvintes: dois minutos para cada uma das duas respostas que faríamos.

Muitos assuntos entraram e saíram da lista até chegarmos à versão definitiva. Para cada tema, era preciso encontrar dois nomes capacitados a defender suas ideias. Houve quem recusasse o convite por receio de não conseguir sustentar seu ponto de vista em tão pouco tempo. Outros não quiseram se expor ao contraditório, tentaram escolher o oponente ou demonstraram desconfiança em relação à liberdade de expressão que propusemos.

Ao fim e ao cabo, os produtores Letícia Valente e Carlos Grecco conversaram com mais de 250 pessoas até chegar ao grupo de 100 debatedores que participaram da série, ao longo de três meses. Os dois também criaram uma gigantesca planilha para organizar e planejar o projeto. Eu não me atrevia a tentar entendê-la; cumpria o que me determinavam.

Os temas passaram por segurança, Justiça e direitos; educação, saúde e proteção social; trabalho, impostos, orçamento e atividade econômica; meio ambiente, recursos naturais e energia; além de democracia, instituições e liberdade de expressão.

Em cada debate, dois especialistas com posições diferentes apresentaram argumentos sobre questões como a escala 6×1, a maioridade penal, o uso de câmeras por policiais, a regulação das redes sociais, a Previdência, as políticas de saúde e os limites da atuação do Estado.

Coube a Cássia Godoy e a mim — com a participação de Nadedja Calado em alguns debates — mediar as conversas. Precisávamos fazer perguntas que levassem cada debatedor a expor seu pensamento sem subterfúgios. Essa, convenhamos, foi a parte mais fácil. Difícil era controlar o tempo das respostas de quem estava entusiasmado com a possibilidade de convencer o cidadão de suas certezas. E fazer isso com elegância e respeito.

Desde que 50 Debates para o Brasil foi ao ar, em 21 de julho, os ouvintes participaram ativamente. Sugeriram novos temas e propuseram abordagens diferentes das apresentadas pelos convidados. Acrescentaram reflexões ao que havia sido dito e lamentaram a falta de tempo para aprofundar a conversa. Também houve quem criticasse os assuntos escolhidos, os entrevistados e os argumentos apresentados.

Chamou minha atenção a dificuldade de algumas pessoas em compreender o próprio conceito do debate de ideias. Criticam a abertura de espaço ao contraditório e não toleram que alguém com opinião diferente seja ouvido. É um retrato da sociedade que a intolerância vem ajudando a construir.

Fico satisfeito ao perceber que o rádio e o jornalismo continuam relevantes na vida dos cidadãos. Projetos como este são possíveis, mesmo quando seguem na contramão do que pensa uma parcela de uma sociedade dividida.

Isso só foi possível porque a CBN conta com uma equipe de jornalistas e radialistas competentes, dispostos a colaborar com a disseminação do conhecimento.

No Jornal da CBN, destaco especialmente o trabalho de Letícia Valente e Carlos Grecco, além dos demais profissionais de produção que estiveram conosco durante todo o projeto. Também contamos com uma infraestrutura técnica que nos deu segurança para realizar os debates com áudio e vídeo. Cito aqui Paschoal Júnior, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti, que estiveram ao nosso lado no estúdio.

Depois de 50 debates, fiquei com a percepção de que o país ainda tem espaço para discutir ideias de maneira saudável, equilibrada e produtiva para os cidadãos. Seria importante que partidos e políticos reconhecessem essa necessidade e ajudassem a promover essas conversas. Lamento que não tenham estado à altura desse desafio durante a campanha eleitoral, que chega agora à sua semana final.

Nós seguiremos fazendo a nossa parte. E contando com a sua companhia, caro  e cara ouvinte.

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