Luis Felipe Scolari estava feliz. O presidente Fábio Koff, também. Sentimento que foi compartilhado com os cerca de 10 mil torcedores que estiveram na Arena Grêmio para recepcionar o novo velho treinador. Há milhões de gremistas que, como eu, comemoraram do seu jeito a volta de Felipão 18 anos depois de ter nos oferecido algumas das maiores alegrias que o futebol poderia nos dar: ser campeão. E foi este o grito que surgiu das arquibancadas assim que ele apareceu no gramado, nesta tarde de quarta-feira, para abafar as vozes que teimavam – e tinham seus motivos, é lógico – em lembrar as derrotas recentes pela seleção brasileira. Dentre esses últimos havia muitos gremistas, sem dúvida, reticentes com a contratação, descrentes na recuperação do técnico ou temendo assistir ao ocaso do ídolo.
Logo que soube do convite feito a Felipão lembrei-me de uma camisa antiga que tinha do Grêmio, surrada pelo tempo, com o tricolor desbotado pelas inúmeras vezes que passou na máquina de lavar. Salvei-a duas ou três vezes do saco de roupas velhas que seriam dispensadas pela minha mulher até que foi definitivamente levada embora por ladrões que entraram na minha casa. De todas as camisas, medalhas e outros quetais do Grêmio roubados, há dois anos, é dela que mais senti falta. Seu valor não estava na qualidade do tecido, no quanto estava preservada ou não, mas nas lembranças impregnadas em sua malha. Nos momentos de alegria e sofrimento que havíamos passado juntos. Felipão é um pouco aquele camisa, desgastado pela vida, marcado pelas críticas, com brilho precisando de um lustre, mas sempre capaz de reavivar nossa memória pelas graças alcançadas.
O desempenho do time e os resultados em campo precisarão aparecer logo para que a confiança contamine o estádio por completo, e Felipão sabe disso mais do que ninguém. A estreia dele será no Gre-Nal, na casa do adversário, e temos consciência que com menos de dez dias de comando é impossível ter o time planejado dentro de seus conceitos. Mas uma vitória nessas circunstâncias, seria o sinal que está faltando para os incrédulos perceberem que a mística dele é tão maior e mais importante do que seu trabalho. É crendo nesta mística construída a partir de trabalho muito duro que estou apostando no sucesso do Grêmio e de Felipão (o que talvez não signifique muito, pois eu sempre aposto no Grêmio). Chego a ter alucinações de que o destino começa a escrever mais uma incrível história no futebol, oferecendo a oportunidade para que o técnico que já venceu quase tudo em sua carreira, mas foi duramente golpeado em sua reputação pela performance da seleção na Copa 2014, renasça levando o Grêmio à Libertadores – quem sabe até pela conquista da Copa do Brasil -, ao título sul-americano e ao Mundial Interclubes. Em meu sonho, sem nenhuma lógica, Scolari comandaria o Grêmio em uma final contra o alemão Bayern de Munique e, nos penaltis, após disputado empate em 0 a 0, ratificaria ao Mundo sua capacidade e força. Felipão se transformaria em lenda.
Os que desde o anúncio da contratação do técnico me criticam pela satisfação com que o recebo têm minha compreensão. É difícil mesmo de explicar esta sensação que nos move, esta confiança quase sem sentido que nos faz acreditar na força de uma história, em resultados considerados impossíveis e vitórias inimagináveis. Apenas lamento que não sejam capazes de saborearem o prazer de serem um Imortal.






