Por Maria Lucia Solla
Ouça De sombra na voz da autora, e sonorizado por ela

Ego é assunto matreiro. Cresce quando ouve falar de si. Empana a visão da gente. Tenta torcer e retorcer tudo a seu favor. Sempre.
Assim como Jung – com todo respeito e guardadas as proporções devidas – sou sujeito de minhas próprias experiências e de minhas conclusões. Cada dia novas amostragens, novas análises, conclusões renovadas. Apesar de envelhecer, sou nova, a cada dia. Como ele, me meto em tudo o que me atrai. Vou atrás da Mitologia, da Alquimia – no meu caso no fogão -, da Fotografia, do Teatro, da Literatura, do Artesanato, e por aí afora. Cada dia mais longe e, contraditoriamente, mais perto do centro de mim.
Circulei e ainda circulo pelo I Ching, Lexicograma, pelo Tarô de Marseille, pelas Runas, Astrologia, Cosmologia, Psicanálise, Reiki, Pirâmides, Feng Shui, Regressão. Sou curiosa; já confessei. Visitei e ainda visito as ideias de religiões, da espiritualidade e do equilíbrio interior e, nesse particular, onde consegui encontrar algumas respostas e maior paz, foi no silêncio da meditação.
Presto atenção no comportamento dos meus amigos, dos inimigos e principalmente no meu.
e é aí que o bicho pega
quando a gente se olha
acreditando ver
e se dá conta de que perdeu
e ainda perde tempo demais na fantasia
sem se olhar de verdade
ou olhando sem se ver
A gente se considera às vezes demais às vezes de menos. Difícil se olhar e se ver simplesmente. Difícil aceitar a carcaça e a limitação que nos impõe. Difícil aceitar a fugacidade da vida, a lerdeza do momento difícil e a velocidade incontrolável daquele saboroso.
difícil viver
difícil morrer
Fico ofendida quando me considero importante demais e não admito que não me tratem com a deferência que creio merecer. O egão empedernido se rebela.
E sofro.
não chora
não dá bola
se vira dá de ombros e rebola
mostra a língua
o negócio é viver
Fácil dizer!
Como lidar com o danado do ego? Ego é tradutor do inconsciente. Censor e repressor. É ele que reconhece nossa identidade pessoal.
quando inflado toma conta do pedaço
te leva às alturas te empana a visão
e num zaz te atira de cara no chão
Não domamos o ego porque simplesmente não nos convém. Nos recusamos a reconhecer nosso lado sombra. Só queremos o lado claro da lua.
os outros têm
e nós o vemos muito bem
É preciso declarar no espelho a própria ignorância, para que ela nos impulsione na escalada do saber.
é preciso aceitar cada faceta
da nossa limitação
para que ela nos leve à compreensão
e abra uma brechinha no véu da ilusão.
No nosso lado luz, já estamos carecas de focar com lente de aumento para que possamos muito mais brilhar, e o outro ofuscar.
O perigo está em ofuscar tanto, que você acaba deixando de ser visto.
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve, iluminada, no Blog do Mílton Jung