Ando devagar

 

Por Abigail Costa

Começo de abril de 2010. Não é falta de assunto, mas tudo está andando tão rápido que quando paro pra pensar nisso tem que ser rápido.

Ainda outro dia reunimos amigos em casa numa função gostosa para brindar a chegada do ano, depois uma viagem planejada, início das aulas.

Tudo já faz parte do passado.

Tenho encarado essa “passagem rápida” do tempo, dia a dia, bem-vivida ! Aproveitado mesmo.

Jantar em família é pra eles. O prato preferido de um filho, a massa recheada do outro, a bebida que nós gostamos. De sobremesa,  as gargalhadas – a parte deliciosa da noite.

Depois, um encontro com uma amiga – ouvir, falar, reforçar as palavras de carinho. – Até um outro dia !

E assim vamos nós. Sem a obrigação de correr paralelo ao tempo.

Pela manhã, os compromissos. Se entra algum extra, algum tem que sair. Não dá para espremer as horas. Caso contrário eles vão se somando, você se esgotando.

Compromisso de hora em hora fica bonito na agenda do médico. Reparou?   Tudo enfileirado, das oito às oito. Agora, o seu doutor cumpre o horário?

Se cumpre passa pra mim. Os meus, não!

O nome do seriado não sei, mas me lembro que  alguém dizia:

– “Perceba como as pessoas se apropriam de várias vidas e acabam deixando de viver a dela”.

Numa vida é impossível não cumprir várias  tarefas. Carregá-las  depende da vontade de sofrer.

Pode ser uma opção.

A minha é aproveitar as horas desta quinta-feira, 1º de abril de 2010.

Único dia, mês e ano.

Se fez, fez. Se não deu, vire a página. Vá para a outra tarefa.

Carregar tudo nas costas é uma opção.

Abigail Costa é jornalista e, às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung, sem pressa

Se você sentir que não dá, não força

 

Por Abigail Costa

Essa foi uma das inúmeras pérolas que colecionei durante os anos que passei pelos estádios de futebol.

Entre uma jogada e outra, o narrador soltava a frase….

Na ocasião, ela cabia durante os noventa minutos de jogo.

Saí das quatro linhas há algum tempo, mas o velho e bom profissional continua narrando as partidas. Entre outras palavras de efeito, ele caprichando nos “rrrrrrr”.

“Se você sentirrrrrrr que não dá, não forrrrrrrrça”.

Antes que alguém diga que temos que morrer tentando, (isso fica lindo no texto), faço aqui minhas costuras.

O não força não significa desistência.

Se a gente entender como uma forma de guardar forças para o que realmente interessa, a vida fica mais leve.

Não tem um dia que não me deparo com uma situação onde não forçar é o melhor resultado.

Isso, principalmente em relação as pessoas. As mais próximas, sempre.

“Será que não é melhor isso para você?” “Amanhã não é mais conveniente?”

“Quero aquilo, hoje mesmo!”

Mesmo sabendo que a decisão tomada não chega a ser a mais conveniente, fico quieta.

No lugar de espernear mostrando o por quê das escolhas, não forço.

Liberdade para ele, respeito pra mim.

E no trabalho? Quantas vezes isso não acontece?

Quantos por causa dos outros estragam seu dia, sua família? Prejudicam a família.

Insistiram e forçaram a barra.

Tenho usufruído da experiência do narrador. Tem dado certo.

“Isso vai te deixar feliz?”

Que bom!

Eu estou ainda melhor.

Abigail Costa é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung sem forçar

Você vale o que você tem … no momento

 

Por Abigail Costa

Não é de hoje que as comissárias, tirando uma ou duas,  me incomodam. E muito. Não porque usam aquela maquiagem carregada, uniforme que de tão apertado parece ter sido emprestado pela irmã mais nova.

Elas me incomodam pela maneira como tratam as pessoas. Principalmente, as que amargam oito, dez horas no INPS – conhecido, também, como classe turística.

E isso não é privilégio das nossas moças ?

Somando as minhas horas de voo, fechei uma conta meio negativa no quesito educação. As internacionais também sofrem desse mal.



Outro dia numa companhia aérea americana, a viagem tinha como destino Roma, Itália. Pois bem, ao meu lado estava uma siciliana de uns 60 anos. Chega a aeromoça tão experiente quanto a passageira e vomita o cardápio em inglês

– “Ma che è sucesso? ”  

– “Che parla?”

Repetia as frases e as complementava com as mãos.



Entrei na conversa sem ser convidada – eu me senti a desconfortável.  

– “Pollo, pasta !?”



A americana entregou aquela bandeijinha de papelão recém-saído do microondas.


Caraca ! Conclui que má-educação não era regalia Made in Brazil.



Há  pouco tempo meu conceito sobre elas mudou. Ou seria por que mudei de classe ?



A troca não foi só por mais conforto. Foi por mais educação, gentileza e paciência de parte delas.



Na hora de escolher o menu do almoço, uma jovem se ajoelhou ao meu lado. 

– “Esqueci meus óculos” – gentilmente ela explicou prato por prato.

A outra chega:

– ” Com licença, Senhora …. champagne ?”

Caros, detesto ter que admitir isso… Mas é verdade.



Você pode não ter um pardal pra dar água, porém se estiver passeando com o cachorro esnobe da patroa, o tratamento será outro.



Viva as aparências !

Abigail Costa é jornalista e desde que escreve no Blog do Mílton Jung viaja de classe executiva 

Vaidoso sim, vaidade não

 

Por Abigail Costa

Vaidade. Os sintomas são falta de humildade, ignorância, prepotência e outros males.

Essa é uma doença grave que atinge homens e mulheres. Em comum um cargo, uma cadeira, uma mesa e pelo menos um subordinado. Às vezes, nem isso é necessário para a manifestação da doença.

Os mais sensatos já administram a vaidade como uma epidemia.

A medicação ainda que oferecida de graça e em largo estoque geralmente não é bem aceita.

Não falo da vaidade em ter o melhor carro, em querer a roupa da moda, em desejar uma jóia no aniversário de casamento. Falo da vaidade de uma estima exagerada de si mesmo. Uma afirmação esnobe da própria identidade.

Aliado a um mísero cargo, é de chorar … de raiva.

Estava eu outro dia, começo de noite, com uma entrevista agendada. É claro, quase mais ninguém no prédio. Cheguei, indentifiquei-me, o segurança não sabia quem era e muito menos onde estava o sujeito que eu procurava. Saquei o celular da bolsa e liguei direto para o promotor.

“Minha sala é a número tal, rua F”.

Calcule: Rua dentro de um prédio. Agora, pense de como uma portaria é longe da outra. O segurança balançou a cabeça negativamente:

– “Não, ninguém poderá acompanhar a senhora sem antes falar com o assessor de imprensa”.

– “Mas o promotor disse que nós podemos ir direto!

– “Na sala dele manda ele. Aqui, mando eu”.

Na casa dos outros até estando certa, se abaixa a cabeça. Lá vamos nós, câmera, tripé, equipamento de luz, sacolas com bateria e meu sapato salto 15. Ou seria 22 ? Subimos rampas e mais rampas em busca do cara para autorizar nossa passagem. Quando encontrei, segurei a língua.

– “Não precisava vir aqui, por que vocês não foram direto?”

Descemos rampas e mais rampas, passei de novo em frente ao segurança. Ele sentiu que eu estava para estourar:

– “Só estou cumprindo a minha função”.

– “Meu senhor, isso eu entendo. Agora, a opção em me fazer de idiota é sua”.

Pra mim a vaidade não é um dos sete pecados capitais. Ela é o pecado. Fere o outro, maltrata a alma.

O pior é que o dono da vaidade sente-se orgulhoso. Quem é maltrado sente mais do que humilhação. Essa doença é tão perigosa que desencadeia na vítima uma série de sentimentos ‘não-santos’.

No mínimo, você imagina:

“Tudo bem, quando morrer esse sujeito também vai pro buraco”.

Isso se alguém empurrar.

Abigail Costa é jornalista, escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung e ai de quem decide pisar nos calos dela.

Intimidade é pra ter filhos ou brigar

 

Por Abigail Costa

Certo dia, um político jantava na casa de amigos quando alguém chegou até ele:

– O que o senhor pensa ?

Logo foi interrompido.

– Meu caro, senhor não. Quando se referir a mim, por favor, Presidente.

E olha que ele já estava distante daquela foto que enfeita toda a
repartição pública há décadas.

O ex-com-vontade-de-ser-eterno continuou:

– Meu filho nunca se esqueça de um detalhe importante. Intimidade
serve para duas coisas: Gerar filhos e criar brigas. E nenhuma delas eu quero com você.

Nunca votei nesse cara, nem mesmo o admirava como político, mas essa frase é demais.

Há algum tempo, ele partiu dessa para uma melhor mas volta e meia estou com ele na cabeça por conta dessa “intimidade”.

E não é que a maioria entra na onda da intimidade sem ser convidado?

Decidi certa vez pintar o cabelo de vermelho, (desculpe estava na
moda, pode perguntar pra Dora Estevan). Cheguei no trabalho e um colega e soltou na lata:

– Não gosto desta cor pra você.

Foi assim, na lata. E eu nem perguntei nada. Aliás nem o sobrenome dele sabia.

Mandei o troco:

– E você sabe que essa franja não combina com o seu rosto?

Ele ficou sem graça. Era careca, daquelas que emanam brilho. Não fui, digamos sem educação. Não tínhamos intimidade pra essa
conversa.

Quer ver outra? Acontece sempre.

– Comprou outro vestido? De sapato novo? A carteira é só pra
combinar com a bolsa?

Por acaso te mandei a fatura do meu cartão de crédito? Te pedi opinião? Então, me deixa.

É sempre assim, as pessoas falam o que querem. Chegam e despacham. Mas quando o outro lado devolve, o grosso é você.

Muitos não se contentam em ser apenas amáveis, discretos. Tentam entrar na sua vida sem ter recebido convite. Se esquecem que liberdade vai e vem, na mesma medida.

E que intimidade coletiva, não dá. Ela pede “eleitos”. E eu já tenho o meu.

Resultado: Dois filhos, lembra?

Intimidade…… filhos.

Nesse caso, ainda bem sem brigas.

Abigail Costa é jornalista, escreve às quintas no Blog do Mílton Jung e ao enviar o texto disse para o editor ficar tranquilo, cortar o que quiser, pois temos intimidade pra isso. Temos mesmo, mas não havia o que tirar nem por.

O roteiro está pronto mas a viagem não é minha

 

Por Abigail Costa

Marianne me pediu um favor, daqueles irrecusáveis.



As malas estão prontas (quer dizer umas três peças estão dentro de uma, a outra vai vazia e o resto se traz de lá), mas não tenho ideia do que fazer. 

Destino, ai aí aí, Nova York. ADORO.



Usei sem exagero umas quatro, cinco horas, colocando no papel o que já tinha feito por lá e o que valia a pena recomendar.



Primeiro a lista, vai gostar, tem que ver, tem que comprar.



Lugares. A parada obrigatória é no High Line, um parque suspenso, numa área de uma antiga linha de trem, o primeiro desse tipo no país, a nove metros de altura da rua Gansevoort. A localização é perfeita. No badalado distrito de Meatpacking, com lojas e gente descolada. Além de funcionar como mirante na cidade – do alto se vê o Rio Hudson, Estátua da Liberdade e o Empire State – o lugar é perfeito para um brunch – piquenique mesmo. Antes de subir, passe em uma das lojinhas no andar de baixo e compre delícias. Quando o pedido é feito “to go” vem numa cestinha. Super-fofa !



E a lista continua. Agora nos cosméticos (não vou colocar nome de loja, não faço publicidade de graça, aliás nem pagando). 

Muitos são os departamentos recheados de cremes e afins. A novidade do momento é um rímel que promete deixar os cílios EL – grandes e largos. Um shampoo de ginseng com cereja – dá prá imaginar? – da fruta, o antioxidante; da raiz, o desestresse; e o cansaço das madeixas, até relaxei….



Seguindo: ela vai viajar com o pai (quer coisa mais aconchegante? viajar com o pai depois dos vinte e tanto de idade!) que adora comida italiana, então  dicas de restaurantes que servem deliciosos raviólis com recheios a gosto, desde que o creme seja de mascarpone, e de sobremesa bolo de pistache com sorvete de creme (chocolate também cai bem).



Como ninguém é de ferro, pelo menos para as mulheres, uma bolsa. Só uma. DAQUELAS!



Antes de passar para o computador pedi ajuda para minha querida Aline, descoladérrima, das minhas, nunca acha que exagero, mas sempre que eu mereço.



Aline já tinha um roteiro de onde ir, o que comprar, pra onde olhar. Tudinho pronto.



Coloquei as minha dicas e as dela no “pacote” e  entreguei a minha amiga com uma recomendação: leitura de bordo.



Me senti fazendo parte da viagem da Marianne. Mesmo sem bilhete comprado, sem reserva no hotel, eu também vou.



Quero estar ao lado dela nas entradas aos restaurantes, nas visitas aos parque, nas compras….



Fico imaginando o olhar de satisfação em comemorar o aniversário numa das cidades mais lindas do mundo junto com  o que considero  o mais importante no mundo: a família.



– Quer alguma coisa de lá?  


- Quero!



Mari, quero muito que essa viagem seja inesquecível.



Ps. Muita fotos, por favor.

Abigail Costa é jornalista, escreve às quintas-feira no Blog do Mílton Jung e está sempre de malas prontas

Da estupidez da enchente à gentileza do banheiro

 

Por Abigail Costa

– Moço qual é o próximo voo?
– Para onde senhora?
O moço elegante e engomado da companhia área parecia surpreso.
– Destino? Qualquer um, desde que a chuva não pare a cidade.

Esse diálogo só aconteceu na minha cabeça, tamanho o desespero de ficar três horas e 10 minutos para percorrer 23 quilômetros do trabalho para casa.

Deu fome e pra encher o estômago água. A água engana mas enche a bexiga, logo…
O negócio começou a apertar.

No rádio, o Eros Ramazzotti cantava “Unica come sei”. E eu respondia: única e sem saída. Assim que encontrei uma, tive que decidir: entre a Marginal congestionada e a avenida lotada. Optei pela avenida. Pelo menos tinha a chance de encontrar um boteco – meu interesse imediato era um banheiro.

Nada de restaurantes, bares.
Um posto no meio do caminho, no meio do caminho um posto.
Aleluia !

Já não tinha mais vontade de nada. Sentia dores. Na bexiga? Nem sei dizer, já estava generalizada, sem exageros. Parei o carro, desci meio curvada tentando me equilibrar no salto alto (tão elegante sempre, e tão ridículo naquele momento).

Meu primeiro olhar encontrou a placa SANITÁRIO. Foi tipo paixão à primeira vista. Ela piscou pra mim. Antes precisava localizar o frentista. Estava na cara que a porta estava trancada. Imaginei uma linha reta e mirei o rapaz gordo de boné vermelho.

– Posso usar o banheiro?
Ele sem nenhum pudor:
Vai trocar o óleo, hein?
Não entendi a brincadeira, ou não quis. Queria sim um banheiro.

Sorridente, ele saca um galão de óleo vazio que servia para segurar uma pequena chave. Agarrei o galão como um troféu e me mandei. Claro que a caminha ao meu destino não foi fácil. Passar entre os carros com aquele negócio nos braços, chamava a atenção. E muito.

Alguns motoristas sabiam exatamente onde eu ia. Certamente muitos já teriam passado por isso. Mirei a setinha enquanto pensava: Mesmo que não tenha papel já tô no lucro. Quando abri a porta, estava num oásis. Limpeza, papel higiênico, papel toalha e sabonete líquido. Nem acreditei.

Passada mesmo fiquei quando li na parede:

“Senhores clientes, caso não encontre o recinto limpo, sem papel ou com problemas de iluminação, aperte a campanhia e avise a gerência”.

Como assim? Estou fora de São Paulo ?

Aquilo me fez engolir a vergonha que estava sentindo em ser paulistana e sentir orgulho das pessoas que tentam fazer desta cidade um pouco melhor. Evidentemente, fui agradecer ao frentista. Ele ficou até meio sem graça. Talvez como eu, não esteja acostumado a gentilezas.

Abigail Costa é jornalista, escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung e teve de encarar com altivez o temporal de ontem na cidade de São Paulo

Assim se faz uma limonada

 

Por Abigail Costa

Tenho  me sentido meio-ácida.

Tudo bem que se botar na ponta do lápis tinha lá meus motivos para o meu lado limão. A semana começou com o meu pequeno no hospital, só isso já me deixa sem rumo. Nada me tira mais do eixo do que a febre de filho. Chego até me preparar para de vez em quando… Só que quando o termômetro bate na casa dos 38,5º, me desespero.

Alguns dias de preocupação e depois vai passando.

Família, casa, cachorros e gato. Esse conjunto de vidas tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo no tema dependência.

Primeiro o filho: olhar dengoso do tipo fica-do-meu-lado-por-favor! Agora o cachorro. Acabei de dar remédio, banho…. Sim, o cão também teve febre. Coitado. Percebi que até emagreceu.

É assim, cuido, tomo conta, fico olhando se dormiu, comeu …. e me consumo. Energia gasta. Pilha quase no fim, mas me sinto uma privilegiada.

Essa acidez, prefiro lidar como um excesso de zelo. Enquanto vejo meus colegas enlouquecerem por conta do trânsito, este definitivamente não me amola. Atrasos, tiro de letra. Bem sei que de outra maneira já estaria batendo os pinos.

Chefes, se dá um jeito. Falta de dinheiro agora pra pagar as contas, deixa para o mês seguinte e se parcela.

Mas os meus problemas domésticos, estes não consigo repassar.

Tenho que estar por perto. Acompanho a chegada deles. Tem que ser eu a dar o diagnóstico, fazer o tratamento e presenciar a cura. Até chegar nos finalmentes, às vezes custa um pouco.

Falava sobre isso com um amigo. Com  simples perguntas ele me fez ver beleza nisso tudo.

“Quer preocupação mais gostosa do que essa?  Quer maior sinceridade, que a de alguém que pede ajuda só pelo olhar?”

Tem razão.

Cuidando de um,  de outro, dormindo menos, acordando mais cedo. Sabe que  nenhum cartão de crédito paga isso ? Sinto que em determinados momentos erro na dose. Mas  não abro mão da minha limonada.

Abigail Costa é jornalista e às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung sempre pronta a deixar a vida mais doce.

De bem com a TPM

 

FRISO VERMELHO

 

Por Abigail Costa

TPM, uma companheira de décadas.
Chegou assim, CHEGANDO, nem pediu licença, entrou e ficou.
Por diversas vezes tentei deixá-la de fora da minha vida, mas se tem alguém fiel a mim, é a bendita.

No começo me desesperava.
Meu Deus, até ontem estava tudo bem! Agora estou me sentindo péssima.

E a coitada da mamãe que mesmo fazendo “de um tudo” pra me agradar, nada estava bom. Sem falar da sensação de vítima, coitada, rejeitada e INCHADA de fato!

Resumi o que se pode escrever sobre ela. Tem tantos outras impublicáveis.

Se o conselho é “procure um médico”, “terapias complementares”, “blá-blá-blá…” já procurei, já tomei, já fiz.

Com o passar do tempo resolvi tirar proveito, sim, até o ruim, se espremer do lado certo, vinga. Sei quando minha amiga-mensal está se aproximando. Primeiro aviso aos mais chegados. Segundo não sou, estou me sentindo coitada. Agora vem a parte melhor. Faço uso dela, LITERALMENTE.

O que poderia passar por mais um incomodozinho, resolvo, falo, deixo bem claro.
Interessante é a vontade de botar pra fora o que me incomoda, sem medo….
O que antes poderia ser um “isso nem vale a pena retrucar”, com a minha fiel escudeira vale.

É mais que um anti-qualquer-coisa que sara a gente.
É seguro, é legitímo.
É uma coragem que você não sabe de onde vem.
Às vezes o som da própria voz surpreende.

Como me sinto depois?
De alma lavada.
Sem pedido de desculpas, pra mim é claro.

Em tempo: já me despedi da minha… mês que vem tem mais.

Abigail Costa é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung, ao menos uma vez por mês sob o efeito da TPM.

Meu primeiro dia de aula

 

Por Abigail Costa

Neste momento, meus meninos tentam pegar no sono.

O dia deles não foi agitado pela falta de dinheiro para pagar o aluguel, pelo fora da namorada, muito menos pelo temporal na cidade. Isso penso que até estão habituados.

A falta de sono, a ansiedade, tudo tem um nome: recomeço.

Eles voltam às aulas. Tudo novo.

Estavam preparando as mochilas. Cadernos, lápis, canetas. Cheiro de recomeço.

Em meio ao “me ajuda aqui mamãe?”, “gosta disso?” … Um riso nervoso.

O legal é que ninguém tenta esconder nada. Nem daria. Já passei por isso quantas vezes na escola? E na faculdade? Nem fui na primeira semana!

Meu primeiro trabalho. Antes de chegar ao 13º andar atropelei a acessorista e enfiei o dedão no botão número 10. Nem dei tempo para ela falar. A porta se abriu e eu com um pé dentro e o outro no meio do corredor desconhecido, gritei:

– Moça onde é o banheiro?

Só me lembro que tinha tantas esquerdas e direitas que fiquei meio tonta.

De volta a porta do elevador, me desculpei, agradeci.

Dona Rosa, uma senhora negra de blusa bem engomada, unhas grandes e vermelhas me abriu um largo e generoso sorriso.

– É o seu primeiro serviço, fia?

Nem precisava responder, mas ela merecia.
A minha voz não saía direito, pensando que cara deveria ter o meu chefe.

– Começo hoje, tô preocupada.
– Fica não meu anjo! É normal. Todo mundo passa por isso, depois acaba.

De volta aos materiais escolares, olhei para meus filhos e me lembrei da Dona Rosa. É normal.

Aquela senhora me levou pela mão até a recepção. Um gesto do tipo você não está sozinha.

Não com a mesma experiência de Dona Rosa, mas com o carinho de mãe, coloquei meus anjos pra dormir.

“Boa noite, mamãe. Te amo”
“Também amo vocês”

Eles entenderam o recado.
É normal, é novo, a ansiedade vai passar.
Eu estou aqui.

Abigail Costa é jornalista e escreve às quintas no Blog do Mílton Jung. Para ela, todo dia é um recomeço