Avalanche Tricolor: Jean Pyerre é 10

Grêmio 4×2 Ceará

Brasileiro — Arena Grêmio

O 10 de Jean Pyerre na foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

“Temos camisa 10”, gritaram os torcedores nas redes sociais. Perdão, amigo! Sempre tivemos. Nosso 10 apenas não tinha condições de jogar por motivos mais do que conhecidos por todos — só os impacientes e descrentes faziam questão de não entender, preferindo atacar Renato e suas escolhas. E quando nosso camisa 10 voltou, estava vestindo a 21, mas isso, convenhamos, era apenas um detalhe na jornada de nosso craque. 

Aliás, como você, caro e raro leitor desta Avalanche haverá de lembrar, na edição passada desta coluna esportiva, eu escrevi: “nosso camisa 10 —- mesmo que não carregue o número às costas, ele é o 21 do time —- é um jogador especial”. Quis a coincidência que no dia seguinte a minha Avalanche, Renato e o Grêmio decidiram premiar Jean Pyerre com o número que o futebol mundial costuma oferecer aos craques da bola — apesar de que no nosso time a camisa que consagra é a 7; não é mesmo Renato?

A maneira refinada com que Jean Pyerre toca na bola encanta a todos. Isso ficou evidente desde os primeiros movimentos do Grêmio em campo no início desta noite. Com o nosso camisa 10 buscando jogo no meio de campo e conduzindo o time para o ataque, o deslocamento dos jogadores que estão à sua frente ganha em produtividade. Luis Fernando, Diego Souza e Pepê, especialmente, sabem que podem partir em direção ao gol porque a bola será entregue a eles em condições de marcar. Os laterais e volantes que estão ao lado passam e correm porque sabem que vão receber um presente. Todos saímos ganhando quando o camisa 10 está em campo.

O toque não se restringe ao passe. Jean Pyerre enxerga o gol e lança a bola em direção as redes com a mesma facilidade com que deixa seus companheiros em condições de dar sequência à jogada. Hoje, assistimos a dois ou três chutes que obrigaram o goleiro adversário a se esforçar ao máximo para impedir que a bola entrasse. O chute não parece forte. É como se fosse em câmera lenta. Faz o futebol parecer fácil de ser jogado. 

Em campo, Jean Pyerre é leve, solto e preciso … como na cobrança de falta que abriu o placar, depois de um lance bem ensaiado com Diogo Barbosa (1×0). Como no passe que encontrou Luis Fernando livre pela direita para cruzar e Pepê completar (2×0). Como no momento de perspicácia que o fez pegar a bola que acabara de sair pela lateral e cobrar, sem esperar o jogador de ofício, o que deu velocidade na jogada, e, mais uma vez, permitiu que Luis Fernando desse assistência para o gol —- gol de Diego Souza (3×1). 

E não se satisfez …. 

Jean Pyerre mostrou também seu talento no cruzamento que deu a Diego Churín — o atacante sorriso — o prazer de marcar seu primeiro gol com a camisa gremista segundos após entrar em campo (4×1). 

Jean Pyerre é diferenciado. Tem talento. É craque. É o nosso camisa 10!

Avalanche Tricolor: na monarquia do futebol, o passe é o imperador e Renato …

Cuiabá 1×2 Grêmio

Copa do Brasil — Arena Pantanal, Cuiabá/MT

Jean Pyerre a caminho do gol Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

Renato é o Rei. O passe é o Imperador. E antes que alguém pense que o escrevinhador desta Avalanche aderiu à monarquia, assumo o compromisso de me ater as coisas do futebol, apesar deste jogo que tanto admiramos ser capaz de explicar o mundo —- ao menos foi o que o jornalista americano Franklin Foer me convenceu, em livro publicado em 2010.

Quanto a realeza de Renato, se alguém duvida faça uma visita à esplanada da Arena Grêmio, no bairro do Humaitá, em Porto Alegre, e veja de perto a estátua que erguemos para ele que foi o maior jogador da história gremista. E um dos técnicos mais importantes a comandar nossa equipe. Chegou a seis vitórias consecutivas neste início de noite, algo que não havia alcançado desde que reassumiu o comando gremista. Curiosamente, resultados positivos que surgem em uma temporada na qual nunca foi tão criticado nesta última jornada, iniciada em 2016, em que foi campeão da Libertadores, da Copa Brasil e várias vezes do Campeonato Gaúcho.

Por muitas vezes nesses últimos jogos, tanto a televisão quanto os indiscretos microfones ao lado do campo flagraram nosso técnico esbravejando com seus comandados, incomodado com bolas perdidas no ataque, movimentação precipitada, chutes desperdiçados, marcação folgada e permissão para o adversário nos atacar. Reclama de Ferreirinha, critica Lucas Silva, diz impropérios para Cortez, xinga quem passar pela sua frente e tenta acertar o posicionamento de seus jogadores. Ele sabe que para recuperar o futebol que nos fez campeão é preciso melhorar muito.

O Grêmio vive uma fase de transição — e já falei sobre isso em Avalanches anteriores. Sofreu com a lesão e a Covid-19 de jogadores importantes. Obrigou o técnico a mudar a forma do time jogar e abrir mão daquele futebol que encantou o Brasil. Independentemente de todos os percalços, foi campeão Gaúcho, terminou líder de sua chave de classificação na Libertadores, subiu na tabela do Brasileiro e hoje deu mais um passo importante rumo à semifinal da Copa do Brasil, mesmo fazendo seu primeiro jogo fora de casa. 

Soma-se às seis vitórias consecutivas uma série de nove jogos sem perder, mesmo com todas as dificuldades para montar o time em meio as contusões e as competições. E dos muitos méritos de Renato está a paciência em aguardar o momento certo para lançar jogadores no time titular. O maior exemplo — e aí me encaminho ao segundo tema desta Avalanche —- é Jean Pyerre que torcedores pediam em campo há algum tempo em meio a ataques ao técnico que preferia escalar um time sem articulador.

Nosso camisa 10 —- mesmo que não carregue o número às costas, ele é o 21 do time —- é um jogador especial, diferente no toque de bola, com movimentos elegantes em campo, que se diferencia dos demais pela forma como olha o jogo do alto e de cabeça em pé, enquanto dos seus pés surgem as melhores jogadas. Seu passe é preciso —- errou apenas um em todo o primeiro tempo, três em todo o jogo. Dos muitos passes certos —- este fundamento que diferencia os craques dos mortais —, colocou Cortez em condições de cruzar a bola que levou ao pênalti, que foi cobrado por ele com a precisão que tanto esperamos em uma cobrança desta importância.

Jean Pyerre tem futebol para ser titular, mas Renato não se ilude com isso. Sabia pelo que o meio de campo passava, pelas dificuldades com sua condição física e psicológica, impactadas pela doença do pai e o sofrimento da família. O jogador falou muito no intervalo da partida sobre essa condição especial e sensível que enfrentou. E está ciente de que precisa voltar aos poucos para ser o jogador que sonhamos que seja um dia —- um novo Rei da América. Ou o Imperador do Passe.

Avalanche Tricolor: motivos para sorrir

Fluminense 0x1 Grêmio

Brasileiro — Maracanã

Festa do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

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Devagar e sempre. Cadenciando quando pode. Acelerando quando precisa. Trocando passe no meio do campo e esperando a defesa se abrir. Arriscando dribles pela direita ou pela esquerda. Assustando o adversário e tirando a tranquilidade dele com uma marcação mais forte. Nem sempre exuberante — como nos acostumamos —, mas com uma eficiência que chama a atenção especialmente nas últimas partidas.

Assim tem sido o Grêmio nesta transição que Renato realiza com muita paciência e na qual o time disputa três competições. Duas delas, as Copas, nas quais estamos em uma jornada vitoriosa e a alguns passos da final. No Brasileiro, mais longo e desgastante, os resultados voltaram a acontecer e os pontos foram sendo somados: um aqui, três acolá, mais três agora e quando menos esperavam, o Grêmio saltou seis posições na competição, está a três pontos da Zona da Libertadores e a seis da liderança, com um jogo a menos do que alguns dos que disputam o topo da tabela.

Renato tem mesclado jogadores, descansado quem precisa e aos poucos remontado o elenco. Hoje mesmo, voltou a mudar a dupla de laterais, relançou Jean Pyerre no time titular —- conforme já vinha preparando com calma, apesar das cornetadas de torcedores —-, manteve Pepê, afinal o guri é insubstituível, e saiu jogando com Churín, no comando do ataque.

Pepê dispensa comentários —— mesmo que eu insista em fazê-los. Está sempre pronto para disparar, solidário na marcação e decisivo no ataque. Mais uma vez foi ao Maracanã e deixou sua marca. Que me permitam chamá-lo de Rei do Rio, apesar de saber que o título é de Renato. 

Já o gringo parece estar à vontade no time e com seus colegas. Participou de todas as jogadas de ataque no primeiro tempo e com um deslocamento por trás dos zagueiros, soube dar assistência para Pepê marcar o único gol da partida. Mais cedo já havia colocado de cabeça uma bola na trave. E ao longo do jogo, enquanto teve fôlego, disputou jogadas por todo o gramado. 

O sorriso ao fim da entrevista no intervalo da partida foi o que mais me chamou atenção: transmitiu a mensagem de que está feliz em campo, e tudo que precisamos é de jogadores com alegria para jogar. 

Assim como Churín, o Grêmio também volta a dar motivos para o torcedor sorrir. Porque, estamos chegando, nas Copas e no Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: pragmático, Grêmio segue superando etapas

Juventude 0x1 Grêmio

Copa do Brasil – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Festa do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Um antes, outro agora. Um gol em cada partida.  Um bem no início (8min do 1º), outro lá no segundo tempo (24min do 2º). E foi o suficiente para estar nas quartas de final pela sexta vez na Copa do Brasil. Se há de se clamar por um futebol mais fluido, parecido com aquele que nos levou às taças nos últimos anos, sob o comando de Renato., não há do que reclamar quanto aos resultados alcançados. 

Na Libertadores nos classificamos em primeiro da chave; na Copa do Brasil avançamos com duas vitórias; e se colocar o Campeonato Brasileiro na conta, nos últimos sete jogos vencemos cinco e empatamos dois. Resultados que driblaram a carência no futebol apresentado e de jogadores no elenco. Que superaram lesões, vírus e críticas. Que trazem confiança a um time que está sendo reconstruído pelo técnico e passa por um período difícil de transição —- sob forte pressão de torcedores impacientes.

Pedido por muitos, Jean Pierre entrou no segundo tempo e ajudou a transformar o comportamento do time. A bola que o guri joga está sintonizada com a movimentação de nossos atacantes. Rola bonita quando passa pelos pés dele e sai precisa para os pés dos companheiros. “Eu não disse”, gritam os críticos querendo vê-lo entre os titulares, sem considerarem que o treinador tem o grupo sob seu controle, conhece o potencial técnico e físico de seus jogadores, e costuma soltar os craques na hora certa e pelo tempo que puder contar com eles. 

Nesta noite em Caxias, se lá atrás Geromel  e Kannemann cumpriam com maestria seu papel de reduzir ao máximo os riscos de um gol, no pouco que se fez lá na frente, quando se fez foi pelos pés de três dos jogadores questionados neste momento pelo torcedor: Cortez, Diego Souza e Thaciano. O lateral que muitos querem ver longe do Grêmio se aproximou da  linha de fundo, trocou passe com Diego que havia saído da área para buscar a bola e colocá-la na cabeça de Thaciano — e que toque de cabeça foi aquele, seguindo à risca o manual dos bons cabeceadores.

Ninguém pense que não vejo os limites que temos e as dificuldades que enfrentamos para ser o Grêmio que nos fez o maior das Américas, mas enquanto não superamos essa fase me satisfaço com o pragmatismo dos resultados. 

Avalanche Tricolor: prazer, Diego Churín!

Grêmio 2×1 Bragantino

Brasileiro — Arena Grêmio

Churín estreia, foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

O argentino Diego Churín não havia pisado em campo, aguardava o árbitro autorizar a substituição pouco depois dos 20 minutos do segundo  tempo e já chamava atenção do torcedor a quem seria apresentado na noite desta segunda-feira. Com 1,80 metro de altura e 80 quilos, tem porte físico avantajado, ombros largos, braços com musculatura acentuada —- parece ser forte o suficiente para brigar dentro da área com os zagueiros adversários e pronto para disputar posição no comando de ataque gremista.

Chegou a Arena com o bom retrospecto que construiu no Cerro Portenho, do Paraguai. Fez 53 gols em 128 partidas disputadas. Oito neste ano. Na sua passagem pelo último clube fez quase a metade de gols de toda sua carreira. Aos 30 anos, marcou 110 vezes em 324 partidas. 

Hoje não fez o seu, mas esteve presente nos dois gols do Grêmio. 

Assim que entrou em campo, se posicionou dentro da área para a cobrança de escanteio. Eram 22 minutos do segundo tempo, e o Grêmio mal havia chutado uma só bola no gol adversário. No cruzamento, disputou pelo alto com os zagueiros, não alcançou a bola mas esta sobrou para David Braz que colocou no fundo do poço.

No segundo gol, quatro minutos depois, Churín estava novamente disputando a bola na área, passou para Isaque que cortou para dentro e antes que completasse foi surpreendido pela chegada forte e precisa de Orejuela que estufou a rede. 

O argentino apareceu mais umas duas, três vezes lutando pela posse de bola. Em uma delas, voltou até a intermediária para desarmar o adversário e iniciar o ataque, em outras mostrou que  sua força física se impõe em campo. Mesmo sem marcar, deixou seu cartão de visitas e abre boas perspectivas para um ataque carente de gols.

Ao contrário de Churín, a vitória do Grêmio que nos coloca na parte de cima da tabela, mesmo  com uma partida a menos, e em condições de seguir brincando pelos primeiros lugares da competição, que somente agora chega a sua metade, não foi alcançada com uma performance que agradasse os olhos do torcedor. Neste momento, porém, o que mais precisamos é pontuar. E isso conseguimos fazer nos quatro últimos jogos disputados pelo Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: vamos subir a Serra

Grêmio 1×0 Juventude

Copa do Brasil — Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Isaque comemora; foto: LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

Jogo de um só lance —  foi o que pensei assim que a partida se encerrou. E o lance que lembrei foi aos oito minutos do primeiro tempo em uma jogada na qual Isaque conduziu a bola com velocidade, atraiu a marcação de três adversários, passou para Pepê que em dois toques deixou Isaque no caminho do gol. O gol da vitória.

Dali para frente, nos entusiasmamos com alguns dribles de Ferreirinha, daqueles que ficam bonitos no DVD (ainda fazem isso para vender jogador para o exterior?). Um com o calcanhar quase na linha de fundo. Outro em que passou no meio de dois marcadores dentro da área com dois tapas na bola. Teve mais algumas ameaças aqui e acolá. Mas lance de gol mesmo, nem a estatística da televisão mostrou.

Se o entusiasmo foi pouco lá na frente, os riscos cá atrás também. Nossa defesa teve méritos: Geromel, Kannemann e Lucas Silva abateram a maior parte das tentativas de ataque.

Vanderlei se resumiu a cortar alguns cruzamentos a partir do escanteio; e no mais assistiu à partida. No único lance em que teve de se esforçar mais foi vencido pela bola, e o goleador adversário fez o impossível que era jogar para fora. 

Não é nada, não é nada, não é nada mesmo. Mas fechamos a primeira rodada das oitavas-de-final como o único time mandante a conquistar uma vitória. E vamos para o segundo jogo com a vantagem do empate.

Verdade que a maioria de nós preferiria logo um daqueles resultados acachapantes, que nocauteiam o adversário, deixam o cara nas cordas e quando ele acorda, a segunda partida já terminou. Mas aí, amigo, até parece que você não conhece o Grêmio. 

Com a gente costuma ser no limite, na bola na trave, no desvio da barreira, no chute errado do goleador e na defesa inacreditável. É tensão até o último minuto, risco de gol, unha carcomida pelo nervosismo e um tal de pede para  um santo, bate um bumbo para o outro e mais uma sequência de salamaleques.

Vamos buscar a classificação na Serra Gaúcha, na semana que vem, do jeito que a gente gosta: sem jogo resolvido e fora de casa. Ë assim que a gente forjou cinco Copas do Brasil. É assim que sempre encontro esperança de um futebol melhor: na história do Grêmio e na de Renato, também.

Avalanche Tricolor: jogo em duplex é uma marca do rádio esportivo do RS

Atlético PR 1×2 Grêmio

Brasileiro — Arena da Baixada, Curitiba PR

Ferreirinha garante grito de gol do narrador Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

O domingo passou e a segunda já está terminando, mesmo assim decidi escrever esta Avalanche fora de hora. Nem tanto pelo jogo, que sequer tive o direito de assistir. Nem mesmo pela vitória, que parece ter acontecido por inércia do adversário. Escrevo para falar do que ouvi. Da saudade que senti.

Sem que nenhuma emissora de TV tivesse o direito de transmitir o jogo, meu celular se transformou em radinho de pilha; “sintonizei” a rádio Gaúcha na internet e em poucos minutos fui sugado pela memória. Com as partidas da dupla Gre-nal ocorrendo no mesmo horário, a emissora narrou no sistema duplex, uma fórmula típica do rádio esportivo rio-grandense. 

Desde que me conheço por ouvinte de rádio —- e isso aconteceu muito cedo por motivos mais do que óbvios —-, as emissoras não se arriscam a transmitir apenas um dos jogos da dupla Gre-nal. Deixar um dos dois principais times do Estado fora da programação ou se resumir a atualizar o placar e os lances, seria crime de lesa-pátria, daqueles de derrubar a torre de transmissão, queimar a sede e pendurar seus profissionais pelos pés em praça pública. 

Em uma época na qual jogava-se bola quase sempre nos mesmos horários, domingo à tarde e quarta-feira à noite, era inevitável a coincidência na programação. A solução era o duplex, com equipes de narrador, comentarista e repórter dedicadas a cada uma das partidas e disputando espaço na mesma transmissão para levar ao ouvinte os momentos mais marcantes do jogo ao mesmo tempo —- assim como ocorreu nesse domingo.

A bola começa a rolar em um estádio e o narrador descreve o lance até ela parar; o locutor do outro jogo toma a palavra e sai em disparada relatando o que acontece em campo. A palavra dele é roubada se tiver perigo de gol lá no outro estádio e será devolvida em tom de frustração se nada tiver acontecido de importante. Em meio a esse bate-bola, ainda tem de entrar os anúncios comerciais lidos ao vivo pelos narradores. O ponto certo para entrar é a respiração do colega. Atropelar é inevitável, mas se o atropelo for com convicção, estará desculpado. Às vezes, exagera-se na qualidade da jogada para justificar a chamada. Outras, fica evidente a tristeza de quem está diante de uma partida sem graça nem emoção. 

Imagine essa situação quando as equipes resolvem marcar gols ao mesmo tempo. A solução é esperar o fim do grito e arriscar um grito ainda mais alto. Tem jogo de ego, ciúmes e reclamações nos bastidores. Tem ironia, indiretas e brincadeiras no ar. Neste duelo quem tiver mais gogó leva vantagem.  Pra que nunca ouviu, parece coisa de louco. Para quem ouviu, temos certeza de que é, mas loucura que costuma dar certo, seja pelo hábito seja pela qualidade dos profissionais. 

Aprendi a ouvir futebol na Guaíba, que teve a maior e mais qualificada equipe do rádio esportivo no Sul do País. Para que minha afirmação não seja intepretada como a de um filho coruja, pergunte para qualquer um dos colegas do rádio de São Paulo que vivenciaram aquela época. 

Pedro Carneiro Pereira, Armindo Antonio Ranzolin, Milton Ferretti Jung, Samuel Souza Santos e Élio Fagundes faziam parte do time de narradores. Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann eram comentaristas, entre outros nomes que certamente esqueço agora não para demérito dos esquecidos, mas do próprio ‘esquecedor’. Na reportagem tinha  Lasier  Martins —- esse mesmo que é Senador —- e o irmão dele, Lupi Martins; João Carlos Belmonte, que  comandava o grito da torcida para recepcionar o time que subia as escadas de acesso ao gramado; Edgar Schmidt e mais uma penca de gente boa. No plantão de estúdio, o insubstituível Antonio ‘Tem Gol’ Augusto —- pai de Antonio Augusto Mayer dos Santos, colaborador deste blog.

Jogos em duplex com esse time era um espetáculo. Quando chegavam na camionete da rádio nos estádios, especialmente no interior do Estado, eram cercados pelos ouvintes que queriam ver seus ídolos do rádio esportivo. Curti alguns desses momentos na adolescência, viajando com o time da Guaíba para assistir aos jogos do Grêmio. Quando fui repórter de campo na segunda metade dos anos de 1980 ainda havia um rescaldo de admiração por parte dos Guaibeiros —- que era como os ouvintes se identificavam —-,  mas a concorrência feita pela rádio Gaúcha já era bastante expressiva, inclusive tendo levado a maior parte dos grandes nomes da Guaíba.

Tudo isso me veio à mente enquanto ouvia os narradores da Gaúcha disputando o direito à palavra tanto quanto os times buscavam o gol. Quem narrava a partida do Grêmio saiu no prejuízo pela diferença de qualidade dos jogos jogados ao mesmo tempo. Sorte dele — a minha e dos torcedores gremistas, também —- que no segundo tempo entraram Pepê e Ferreirinha. Com estes dois correndo e driblando alucinadamente no ataque, o locutor não pode bobear —- nem os marcadores —- porque o gol está sempre prestes a acontecer.

Avalanche Tricolor: só pode ser coisa dos deuses do futebol

Grêmio 1×1 America de Cali

Libertadores — Arena Grêmio

A festa do gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foi sofrido, não foi? Não que nunca seja. Sempre é. 

Sofremos menos porque a bola não entrou ou por algum risco na classificação —- que não havia até porque uma das duas vagas já era nossa. 

Sofremos mais porque o futebol não encaixou como gostaríamos. Quer dizer …, até se ajeitou naqueles primeiros minutos do segundo tempo, depois da conversa de Renato no vestiário e as primeira mudanças do meio para a frente. Em pouco tempo vimos um time mais móvel, toque de bola mais veloz e chegada na área do adversário —- a ponto de termos provocado um pênalti a nosso favor,

Dali pra frente, foi aquilo que você viu. Erramos o quinto pênalti em oito até então cobrados na temporada. Tomamos o contra-ataque e, em uma bola na qual o atacante adversário sequer pulou, nosso zagueiro desviou para as redes. Santa infelicidade de Kannemann que já havia tomado um amarelo no primeiro tempo, fez um gol contra e levou o segundo  amarelo já nos acréscimos, sendo expulso de campo e suspenso da próxima partida das oitavas-de-final.

Nada mais funcionava e quanto mais velocidade se tentava dar ao jogo, mais rapidamente cometíamos erros. Até mesmo Pepê, sempre uma saída de escape quando a coisa está feia, era incapaz de reter a bola em seus pés. Chegou a tropeçar nela —- coisa rara desde que assumiu a titularidade do time. 

Renato esbravejava, bufava, sentava e levantava irritado com o que via. Olhava para o céu como se pedisse uma ajuda dos deuses do futebol. Olhava como se perguntasse: o que eu fiz para merecer isso? Mudou quem tinha para mudar e parecia que nada daria certo nesta noite de quinta-feira.

Nas redes sociais a corneta tocava alto. Para muitos dos corneteiros os réus tinham sido julgados e considerados culpados, sem direito de defesa. Sem refletirmos pelo passado que nos trouxe até aqui. 

Só faltava o co-irmão vencer o jogo lá fora, a gente ficar em segundo no grupo e no sorteio pegar um daqueles adversários encrenqueiros! Fecha tudo! Bota todos para fora! Começa tudo de novo! Derrube-se a estátua na esplanada da Arena. Quem contratou esses pernas de pau? Impeachment já!

A bola, o adversário e o árbitro conspiravam contra. O anti-jogo, coisa da Libertadores, como costumam dizer, reinava no gramado. O risco de perdemos mais jogadores para a próxima etapa só aumentava com os nervos a flor da pele. 

Foi então que uma luz se fez. Sei lá de onde. Só pode ser coisa do divino que veio para inocentar os pecadores. Não bastasse nos dar de mãos beijadas o primeiro lugar no grupo com a derrota do adversário direto pela liderança na outra partida, ainda nos ofereceu a benção de mais um pênalti com quase dez minutos de acréscimo. Tinha de ser um pênalti.

Diego Souza ajeitou a bola, correu, parou, dançou, balançou e nosso coração paralisou. Quando bateu em gol, o goleiro adversário já estava caído de joelhos. E de joelhos ficamos nós, agradecendo aos deuses pela justiça que se faz a história de Renato e deste time que não anda em boa fase, mas que mesmo assim termina em primeiro lugar em seu grupo.

Os deuses decidiram nos dar mais uma chance. Saibamos aproveitá-la! Renato saberá!

Avalanche Tricolor: criticar os críticos; pode isso, Sandro?!?

São Paulo 0x0 Grêmio

Brasileiro — Morumbi, São Paulo-SP

Pepê disputa jogada no ataque, em flagrante de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Dois colegas na mesa de debate começaram os trabalhos criticando as críticas gremistas ao árbitro e a utilização do VAR ouvidas ao fim da partida desse sábado à noite. A crítica contra os críticos veio ilustrada por um lance logo no início do jogo em que Pepê caiu dentro da área quando recebia a bola em direção ao gol. Os dois decidiram em comum acordo em favor do árbitro. “Lannnnce leeegaaaal — teriam gritado se fossem Mario Vianna, ex-árbitro e  primeiro comentarista de arbitragem que trabalhou na Globo e na Tupi, nos anos de 1960. 

(Para ser preciso —- antes que alguém peça para conferir no VAR, ops, no Google —-, o grito de Vianna era “goooool leeegaaaal”)

Sim, comentaristas de árbitro existem desde aquela época, apesar de terem ficado famosos mesmo com a chegada da função à televisão, em 1989, quando o árbitro Arnaldo César Coelho foi convidado por Armando Nogueira, diretor de jornalismo da TV Globo, a assumir a função. Foi da parceria de Arnaldo com Galvão Bueno que surgiu outro bordão marcante nas narrações esportivas: “pode isso, Arnaldo?”, momento em que o ex-árbitro esclarecia o que havia acontecido no lance.

Hoje é comum todos os programas esportivos contarem com a presença de ex-juízes de futebol comentando os lances mais polêmicos  — alguns difíceis inclusive de tomar uma decisão após ser visto por vários ângulos, o que sempre leva à inocência o árbitro de campo. Na Justiça se diria “in dubio pro reo”. No futebolês: se na tela da TV já foi difícil de decidir, imagine no calor da partida. Verdade que com a tecnologia à disposição, auxiliando nos momentos em que a regra permite, a vida do árbitro no gramado ficou mais fácil. Caiu na área, teve dúvida, o VAR confere e se suspeitar de irregularidade, chama o árbitro de campo para assistir na casinha; caiu na área, o árbitro marcou, o VAR discordou, chama para o cantinho e entram em acordo.

Na partida desta noite, a turma do VAR não estava muito afim de trabalhar —- foi a impressão que tive (ou foi a pressão que os cartolas do adversário tinham feito na semana, a ponto de a escalação da arbitragem sofrer mudanças pela CBF?). Nem tanto pelo lance de Pepê, que por ter ocorrido fora da área, apesar dele ter caído dentro, não existe motivo de revisão do VAR, mesmo que o árbitro tenha se enganado na marcação. Esse é o típico lance em que o erro é do árbitro e o VAR não pode salvar. Mas houve erro? Para os comentaristas de futebol, lembrados no primeiro parágrafo desta Avalanche, não. Tanto que usaram o lance para justificar as críticas que faziam aos críticos gremistas. Usaram o lance errado. Durante a partida, o comentarista de árbitro Sandro Meira Ricci havia sido taxativo: foi falta, fora da área e passível de cartão vermelho porque Pepê seguia em direção ao gol. 

O lance em que o VAR não trabalhou —- e que me deu a impressão de que a turma da cabine estava incomodada por já ser tarde da noite, em São Paulo, e a temperatura estar baixa, pensando que seria muito melhor estar em casa com a família e sem sofrer pressão da cartolagem — foi outro, bem distante daquele, no outro lado do campo e no segundo tempo. Refiro-me a falta que teria ocorrido sobre Geromel em uma bola alçada na área adversária. Nosso zagueiro que raramente recebe cartão amarelo, perdeu a pose, reclamou de nada ter sido sinalizado no momento da jogada e sequer ter havido revisão do VAR.

(Que fique claro, só tem revisão se aquela turma da cabine chama — aquela que eu desconfio não estava muito disposta a fazer sua tarefa no jogo por frio ou por medo. Ou seja, nem o juiz viu em campo nem o VAR, na cabine)

A jogada que foi esquecida pelos críticos dos críticos, e não foi vista nem pelo árbitro nem pelo VAR, segundo Sandro Meira Ricci também foi ilegal. Para ele, Geromel foi derrubado, deveria ter sido sinalizado pênalti e como não o foi, o VAR teria de ter alertado o árbitro. Nem uma coisa nem outra. O juiz Rafael Traci fez cara de bravo, mandou seguir o jogo e na primeira parada puniu a crítica de Geromel com o cartão amarelo.

Além do amarelo de Geromel — que mesmo com razão, exagerou na reclamação —-, Kannemann também foi amarelado em outro lance no qual o VAR não podia interferir e em que o juiz decidiu punir a vítima. Na cobrança de falta quase na linha da área, a barreira adversária claramente avançou, o juiz mandou voltar o lance, e a barreira continuou avançando, tanto que o árbitro insistia para que voltasse à posição correta. Desrespeitado, em lugar de amarelar o homem base da barreira —- como manda a regra —, destinou o cartão ao zagueiro gremista que reclamava para a regra ser cumprida.

Evidentemente que estou dedicando esta Avalanche a falar de comentaristas e de arbitragem porque o futebol ficou em dívida com o torcedor, mesmo que o Grêmio tenha sabido desarmar a principal arma do adversário, depois de sofrido muito nos primeiros 20 minutos de jogo para segurar o toque de bola rápido e envolvente do time da casa. Tivéssemos marcado em alguns dos lances de ataque e saído de campo com os três pontos, meu olhar agora estaria brilhando de alegria, o que se refletiria neste texto. Não foi o que aconteceu, então decidi compartilhar com você, caro e raro eleitor desta Avalanche, meu mau humor com os comentaristas —- que, aliás, admiro muito —- e com os árbitros —- destes, confesso, nunca fui muito fã. 

Sem bom futebol, me restou criticar a critica aos críticos. Pode isso, Sandro?

Avalanche Tricolor: o talento ainda veste a camisa do Grêmio

Grêmio 3×1 Botafogo

Brasileiro —- Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Comemoração do segundo gol de Pepê em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

Houve quem tenha lido a Avalanche anterior e saído dela com a impressão de que usei de estratégia escapista ao enaltecer o capitão de todos os títulos, Maicon, após termos registrado mais um revés em campo. Aos que desconfiaram das minhas intenções, a melhor resposta veio na partida desta noite, em Porto Alegre.

Os gols foram de Diego Souza e Pepê, eu sei, Mas a presença de Maicon no meio de campo fez toda a diferença. Ao sair do gramado, quando a missão já era de apenas nos defendermos diante de um time que tinha superioridade numérica —- devido a expulsão de nosso centroavante logo no início do segundo tempo —-, Maicon era o líder no número de passes: 75, se não me engano. O mais incrível: havia errado apenas um. É muito talento para uma camisa só.

Isso não bastou para o capitão. Ele comandou o time, organizou seus companheiros em campo, chamou atenção da marcação, cobrou empenho e não descansou mesmo depois da vitória garantida. Sua dedicação e liderança se expressaram em uma dessas cenas que passam batido pela televisão e pela observação dos comentaristas. Após mais um cruzamento desperdiçado pelo adversário, Maicon não poupou de uma bronca Pepê, que já havia marcado dois gols, porque nosso atacante não acompanhou o adversário até a linha de fundo. Ele sabe que, neste momento, o time precisa de esforço redobrado e de cada gota de suor que ainda tiver para ser produzida. Por isso reclamou. E Pepê entendeu.

O Menino Maluquinho do Grêmio, aliás, foi outro jogador com atuação incrível  nesta noite. Fez o gol do desempate com um chute certeiro, após receber bola de presente de Diego Souza. E fez o gol que fechou o placar após uma daquelas jogadas de dar orgulho de ser torcedor deste time. O locutor da TV disse que foi gol de videogame. Cheguei a definir como um gol de futvôlei. Um comentarista de futebol amigo meu, resumiu com uma só palavra enviada pelo WhatsApp: genial!

O Grêmio renasce com seu futebol a medida que começa a colocar em campo alguns dos seus principais jogadores. Ainda tem gente para se recuperar e muito caminho pela frente no Brasileiro, na Copa do Brasil e na Libertadores. O mais importante, porém, foi o aceno que fez ao seu torcedor demonstrando que o talento ainda veste a camisa do Imortal.