A Ética tem futuro?

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Na natureza, na tecnologia, na sociedade, o mundo vem mudando. E,não é novidade para ninguém. Nem mesmo a falta de ética, que começa a atingir novas áreas antes preservadas tem ficado a margem deste processo.

 

Ruy Castro em “Muito antes” na Folha de domingo talvez embalado pelo bordão Lulista do “Nunca antes” e motivado pelos acontecimentos entre NOVACAP* e VELHACAP* onde políticos contraventores e contraventores políticos se associam, quebrando tradicional requisito para o sucesso de ambos, relembra éticas históricas. Elementos suficientes para algumas considerações.

 

No Campeonato Carioca de futebol de 1913, Belfort Duarte, jogador do América, com a mão impediu um gol do adversário. Como o árbitro não deu o pênalti, Belfort exigiu que fosse cobrado o lance.

 

No rádio norte americano até o ano de 1950 não se tocava uma determinada música a cada intervalo de 24horas para preservar o ouvinte de escutar de novo a mesma gravação. Bem, depois veio a “payola”, isto é o “jabá”, e a ética foi mudada. Mudança esta rapidamente aceita em território brasileiro.

 

No futebol nacional até os anos 70 não se aceitava misturar na camisa nomes de empresas ou produtos. Hoje, a necessidade maior de aumentar arrecadação chega até os fundilhos dos calções, cada vez maiores, assim como das camisas obrigadas até a serem desfraldadas para utilização das extremidades. E, as sagradas camisas anunciam até camisinha.

 

No cinema e na TV até os anos 70 o merchandising foi utilizado dentro do conceito indireto. Campari e Cinzano marcaram fortemente seu posicionamento. Chegamos agora em nossas novelas e filmes a interferir em roteiros para apresentar marcas e produtos.

 

Na SUPERCAP*, à véspera do dia da mentira, o Bar Léo foi fechado por faltar com a ética ao servir chope da Ashby como se fosse Brahma. Buscando maior margem para cobrir problemas financeiros, passou a comprar o Ashby que lhe rendia mais no Mark Up. Quando alguém reclamava servia Brahma. Em menos de três meses, diferentemente dos eleitores, os conhecedores do sabor original denunciaram a farsa e o Bar Léo foi impedido de operar. Seu invejável currículo não foi suficiente para impedir a ação judicial, pelo contrário. Fundado em 1940, considerado pelo famoso jornalista norte americano David Zingler como tendo o melhor chope do mundo, pela revista Playboy como um dos cinco melhores do mundo, pela Veja São Paulo por quatro vezes como o melhor chope da cidade, pela Brahma como “Diplomata do Chopp” e “Rei do Colarinho”, o Bar Léo terá que ajustar contas com a justiça, a Brahma e os consumidores. O peso da fama agravará a trama. Para reabrir precisará enfim, voltar à Ética.

 

*Para os menores de 40, NOVACAP, VELHACAP, SUPERCAP são apelidos de Brasília, Rio e São Paulo muito usados na fase de construção da então nova capital. Hoje menos nova e mais envelhecida, talvez envilecida.

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Marketing de interrupção: tira esta propaganda daqui

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Imagine você, experimentado viajante, num aeroporto vazio esperando a chamada para seu voo, quando um estranho lhe pergunta afavelmente onde fica o portão sete. É provável que o indique calma e educadamente. Agora passe a mesma cena para Congonhas às 8hs da manhã, o saguão cheio e barulhento. Enquanto você ajeita a agenda de reuniões do dia, a mesma pergunta é feita pela segunda, terceira, ou décima vez. Bem, você nesta altura já não aguenta as interrupções e a mesmice das perguntas. Este cenário é a sua vida. Você tem mais coisas a fazer do que o tempo disponível, você está constantemente sendo incomodado por estranhos, você está exposto diariamente ao menos a quatro horas de propaganda através de interrupções que o faz perseguir momentos de paz.

 

É irônico que esta situação seja obra do Marketing, e de autoria dos mais premiados publicitários e marqueteiros. É o Marketing da Interrupção. Se não bastasse isso, vemos atualmente aumento no som dos comerciais nos intervalos dos programas, assim como a transformação do merchandising em venda explicita.

 

A solução ao Marketing da Interrupção é o Marketing da Permissão, proposto por Seth Godin, e autor da situação acima descrita.

 

Enquanto não há interrupção ao Marketing da Interrupção surge a possibilidade de seu abrandamento. Graças à Folha de São Paulo, que em 2010 publicou pesquisa na qual demonstrava que as emissoras estavam até quatro vezes acima dos decibéis permitidos aos comerciais. E os programas infantis exibiam sons acima da lei. Inclusive o Cartoon Network com decibéis cinco vezes mais. O Ministério Público pediu então a aplicação da lei de 2001 assinada por FHC. A Procuradoria entendia que a função era da ANATEL, mas em março a juíza Leila Paiva Morrison determinou que a função fosse da AGU Advocacia Geral da União. E deu 120 dias para o cumpra-se. Aguardemos.

 

Que os talentos da comunicação tenham éticas próprias, fazendo obras que estimulem consumos inapropriados, se entende. O que não se entende é como não enxerguem a impropriedade de aborrecer a quem precisam enobrecer: sua majestade o consumidor.

 

Enquanto isso, vemos propagandas explicitas nos enredos de novelas e filmes. Da simples aparição de carros da mesma marca chegamos ao lançamento de modelos com descrições dignas das garotas propagandas do início da TV. Apple e Starbucks estão sendo mal copiadas. Kia, Volkswagen, Natura e Itaú têm exagerado. Os vendedores de carros devem considerar que somos um mercado de surdos no amplo sentido, a Natura com toda a reputação positiva nos obriga a visitar sua fábrica na novela global como se fosse parte natural da trama, o Itaú lança produtos interrompendo sem cerimônia o enredo. Melhor que fique nos intervalos do tênis, como o fez com categoria no sábado, embora cobrindo graciosamente as pernas da Sharapova.

 

Obs. Sobre o Marketing Permitido, o abordaremos posteriormente.

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Chico Anysio e suas (boas) ideias para o futebol

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Dentre a multiplicidade de talentos que permearam a trajetória do então estreante cearense Chico Anysio, segundo lugar no teste profissional da rádio Guanabara para locutor e sétimo para ator, o que o habilitou como locutor e ator, afinal perdera para Sílvio Santos e Fernanda Montenegro. Assumiu também as funções de editor de humor e comentarista de futebol.

 

A paixão pelo futebol aflorou quando seu pai, presidente do Ceará FC levou o Palestra Itália à sua terra natal. E encantou o menino Chico e seus conterrâneos. O futebol e o Palestra passaram a fazer parte dele, embora Vasco, Flamengo, América e Fluminense de algum modo em momentos distintos também.

 

Em 17 de janeiro de 2009, para publicar neste blog artigo sobre as regras de futebol, solicitei ao Chico as observações e sugestões para a tão necessária mudança. Editei alguns trechos da sua abalizada opinião.

 

Até agora não houve mudança, mas o adeus de Chico propicia a publicação do material completo que gentilmente me enviou:

MODIFICAÇÕES NAS REGRAS DO FUTEBOL

 

A Copa do Mundo de 2006 na Alemanha, nos deu a segunda pior média de gols por partidas e pela segunda vez o campeonato teve que ser decidido nos penalties, pela falta de gols nos jogos a partir das quartas de final, exceção feita ao jogo da Itália contra a Ucrânia, pela grande diferença de valores das duas seleções – o que permitiu que a Itália vencesse por 3×0. Além deste placar, os demais foram sempre 0x0, 1×1, 1×0 ou 2×0, na vitória da Itália sobre a Alemanha, com os dois gols acontecendo aos 119 e 120 minutos de jogo. O futebol é o único esporte coletivo que insiste em não modificar suas regras, o que não acontece com o basquete e o vôlei. Aqui estamos enviando algumas sugestões para tornar os jogos mais emocionantes e, certamente produzindo resultados onde mais gols venham a acontecer.

 

1- A supressão de um jogador de cada time
2– Em vez do jogo ser disputado em dois tempos de 45 minutos, passar a ser disputado em 4 tempos de 20 minutos, só sendo contados os minutos de bola correndo. O tempo do jogo passaria a ser uma atribuição do 4° juiz. O intervalo do primeiro tempo de 20 minutos será de cinco minutos, com os jogadores permanecendo no campo e o técnico tendo o direito de lhes dar instruções. O intervalo entre o segundo e o terceiro tempo será de 12 minutos, com os times indo para os vestiários
3– Cada equipe poderá fazer até 5 substituições nos dois primeiros tempos e mais 5 nos dois últimos; jogadores substituídos podem retornar ao campo quantas vezes forem necessárias.
4– A bola só sai quando toca no chão (a exemplo do que acontece no vôlei).
5– Quando a bola for pela linha de fundo ao tocar num defensor, será marcado um córner e que será batido do local onde hoje se bate; se a bola for para a linha de fundo propositadamente impulsionada por um jogador do time que se defende, será marcado um mini-corner, que será cobrado da interseção da linha da grande área com a linha de fundo.
6– Quando o jogo tiver que ser paralisado para entrada da maca, o jogador que sair deverá ficar fora do campo por 5 minutos. Ou ele está realmente machucado e precisa dos 5 minutos, ou não está e os 5 minutos se transformam num castigo. (Talvez 3 minutos, apenas)
7– Em bola parada não haverá impedimento.
8– Serão criados dois outros cartões: o branco – que expulsa o jogador por 10 minutos e o azul que obriga o técnico a retirar aquele jogador que recebeu o cartão e colocar outro no seu lugar; este jogador que sair estará eliminado da partida.
9– O tempo que o goleiro poderá ficar com a bola na sua área passa a ser de cinco segundos, em vez de seis, mas haverá uma máquina que marcará com cinco sinais agudos, este tempo. Passando dos cinco segundos, uma falta será marcada contra o seu time, como já acontece, cobrada por um tiro indireto.
10– O empate de dois gols para cada lado dará dois pontos a cada equipe; empatar com um gol para cada time, um ponto; empate sem gols, NENHUM ponto. A vitória com uma diferença de gols igual ou superior a três, valerá quatro pontos.
11– Será criada uma linha prolongando a da grande área e os impedimentos só acontecerão a partir daquela linha.
12– Os árbitros serão instruídos a marcar penalties nas faltas que acontecerem dentro das áreas, como marcam faltas em jogadas iguais acontecidas no meio do campo.
13– Cada equipe poderá cometer no máximo 5 faltas em cada tempo de 20 minutos; da sexta falta em diante a cobrança será feita de uma marca a ser criada dois metros atrás da meia lua da área e sem barreira.
14– Saindo dos pés da baliza, será demarcada uma área de um metro, que será até onde o goleiro poderá tocar na bola, ao ser cobrado um penalty. Se ele tocar na bola fora desta área será marcado gol.
15-Devem ser criados nos novos juízes, os “juízes de áreas”, que marcarão as faltas acontecidas nos escanteios

 

Estas modificações, se não aceitas pela International Board, poderão servir para que seja criado um esporte paralelo ao futebol, com um campo menor e a utilização de nove jogadores em cada equipe (oito mais o goleiro).

 

Este esporte, que poderia ser chamado de PELÉ-BOL, não teria a lei do impedimento e as regras seriam estas que estão acima descritas, além das normais do futebol (exceção feita ao impedimento).

 

Chico Anysio é mais um que confirma que há homens insubstituíveis.

 


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

Romário, o lúcido

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Política e corrupção, tanto quanto futebol e corrupção, são paixões universais absolutamente constatadas e inseparáveis. A variação é na intensidade em que aparecem e no nível de punição. Entre nós brasileiros, é sabido que a intensidade é extrema, enquanto a punição é o dilema.

 

A falta de hábito de penalizar corruptos, mesmo diante de endêmica configuração, talvez possa explicar a heterogênea gritaria em torno das demissões de ministros do atual governo. Da parte dos críticos, dos cientistas políticos e da imprensa em geral. Além, claro, da forte reação negativa dos acusados. A tal ponto que Alfredo Nascimento do PR, revoltado pela dispensa do Ministério dos Transportes, desabafa em termos nada políticos: “Acabou, chega! Ninguém aqui é moleque”. A seguir seu partido ameaça que irá para a oposição, deixando evidente que o PR é uma entidade cuja missão é buscar oportunidades. Sem conceitos e preceitos, mas aliado ao poder, qualquer que seja.

 

Até o ex-presidente Collor, memória curta, esqueceu que foi impedido pela acusação de corrupção, e entrou na orquestração crítica da forma abandonando o conteúdo, mandando recado à Presidenta Dilma: “O diálogo precisa ser reaberto. Digo isso com a experiência de quem desconheceu a importância da Câmara e do Senado”.

 

E, é nesta insensata e inexplicável reação geral, que do mundo do futebol, através de uma das suas melhores expressões, surge nas páginas amarelas da VEJA e no site do Estadão, Romário, com uma lucidez extraordinária. Um chute certeiro como nos bons tempos de goleador sobre o Congresso Nacional. E sobre a CBF, o COL e os executivos municipais e estaduais. Até mesmo sobre ele na conduta como jogador embora tenha sido melhor do mundo. Do Congresso: “Todo mundo acha que no alto clero do Congresso está a nata da nata. Pois o que mais tem no andar de cima é gente no ócio, quando não está metida em pilantragem”. Da CBF: “Eu nunca escondi minha aversão por Ricardo Teixeira. O cara não tem palavra”. Do COL e dos governos: “O pior ainda está por vir, porque o governo deixará que aconteçam as obras emergenciais, as que não precisam de licitações. Ai vai acontecer o maior roubo da história do Brasil”. Dele mesmo: “Eu era muito chato. Para começar, me achava o máximo. Passava dos limites e não estava nem aí”.

 

Esperamos que as previsões de aumento da corrupção sejam um alerta e não uma predição. Romário, de qualquer modo agiu como nos velhos tempos, aproveitou a bola quicando.

 


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

O preconceito de Kill Bill, Jérôme Valcke e Glória Kalil

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Kill, Jérôme e Gloria protagonizaram e polemizaram temas que ganharam efetivo destaque na mídia. Assuntos heterogêneos, mas convergentes pelo evidente preconceito demonstrado, e algumas vezes atribuídos a mal entendidos.

 

A propaganda da União Europeia produz um filme com uma mulher branca vestida de Kill Bill cercada por um chinês mestre do kung fu, por um indiano de luta marcial e um capoeirista brasileiro. Ao ameaçá-la os três guerreiros são cercados pela mulher que se multiplica em 12. Surgem as 12 estrelas que representam os países da Comunidade Europeia e a frase: “Quanto mais de nós houver, mais força teremos”. Stefano Sannino autoridade da Comissão Europeia pediu desculpas e disse que a intenção era de uma mensagem de paz e harmonia, que foi mal interpretada. O filme já foi retirado, mas vale uma visita ao You Tube.

 

 

O secretário geral da FIFA, Jérôme Valcke, amigo íntimo do ex-presidente da CBF e do COL Ricardo Teixeira, disse que dado o atraso nas obras para a COPA 14 era preciso “dar um pontapé na bunda do Brasil”. Preconceituoso, rancoroso e malicioso, pois dada a intimidade já existente com a nossa terra, bem sabe ele que esta é uma das partes mais visadas pela cultura local. A repercussão foi enorme e, espertamente, as desculpas caíram em cima do vernáculo, tentando explicar que na França estas palavras são usadas para apressar tarefas. E ainda não se tem ideia do tamanho do estrago.

 

A jornalista Glória Kalil, autoridade em Moda, com ampla produção literária no setor, sempre chamou a atenção sobre o tratamento mais estético aos cabelos brancos. No manual masculino: “Vá por mim, é esquisito homem de cabelo pintado. Mas, se você não suporta a ideia dos cabelos brancos saiba antes de tudo que não vai enganar ninguém. E recuse tinturas que dão efeito avermelhado e acaju, ultra evidentes”. Como vimos o preconceito da Glória Kalil era com as tinturas, até que a notícia do tardio abandono de Sílvio Santos pelo acaju avermelhado, há tempos sugerido pelo Jassa, dá uma reviravolta: “Será que o Silvio e o Jassa não se dão conta de que criaram uma imagem que é uma referência estética para o povo do Brasil? O vermelho Sílvio Santos entrou para a nossa cartela de cores do mesmo modo que o amarelo da camiseta canarinho. Assumir o branco, Seu Sílvio? Só me faltava essa”.

 

Na verdade o que não falta é preconceito. E para evitá-lo é necessário admiti-lo. Sem preconceito. Chic.

 


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

SP: Metrópole mal-amada

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Não bastasse o desejo de fuga da maioria dos seus habitantes, comprovado através de recente pesquisa, eis que um novo levantamento de opinião revela que mais de 60% dos moradores de São Paulo acreditam que José Serra irá abandonar novamente o cargo de Prefeito, se eleito. E, ainda assim o tucano lidera as intenções de voto.

 

Provavelmente é a expansão da síndrome de Estocolmo, já detectada na assimilação dos efeitos nefastos do trânsito congestionado quando há uma inexplicável inércia e, simplesmente, não há reação por parte da população paulistana.

 

As antigas manifestações do poeta Paulo Bonfim, as notas compostas por Caetano Veloso, as letras de Billy Blanco, as músicas de Adoniram e Rita Lee até as atuais manifestações de Gilberto Dimenstein, todas declarando de algum modo o bem querer pela maior cidade da América Latina, não foram suficientes para sensibilizar esta gente que aqui vive.

 

Tudo indica que a usam como Serra e Kassab fizeram. Serra abandonou a Prefeitura negando a própria palavra verbal e escrita. Deixou Kassab como herança, que conseguiu o feito de montar o quarto maior partido do país sem precisar de nenhum voto. Feito e tanto, pois, além disso, seu conceito é não ter conceito. Fato que acaba de ser provado ao desmanchar o noivado com o PT e cair nos braços de José Serra.

 

Muito se tem comparado São Paulo a New York, mas é bem provável que nem que Frank Sinatra cantasse a cidade ou Woody Allen a filmasse o amor apareceria.

 

Certamente a sina paulistana não vem da brasilidade. Provavelmente da falta de identidade e de má civilidade. Observemos que dentre os dez motivos mais citados para não morar em São Paulo, todos eles seriam administráveis através de boa cidadania:

 

1. Trânsito. 2. Pessoas mal-educadas. 3. Rios poluídos. 4. Pedintes, drogados. 5. Impostos elevados. 6. Fila para tudo. 7. Motoboys, buracos, obras. 8. Assaltos e violência. 9. Prioridades erradas do governo, como proibir bicicleta em parque, proibir feirante de gritar, proibir outdoor. 10. Poluição do ar.

 

E, lembremos-nos do recado de Billy Blanco em “Capital do Tempo”:

 

Paulista é quem vem e fica!

 


Plantando família e chão!

 


Fazendo a terra, mais rica!


 

Dinheiro e calo na mão!…

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketin de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

DASLU: o lado oculto na morte de Eliana Tranchesi

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, designa o tempo atual como Modernidade Líquida, constatando que “A mudança é a nossa única permanência. E a incerteza é a nossa única certeza”. O falecimento de Eliana Tranchesi confirma de certo modo a assertiva de Bauman. Houve mudança até no trato do pós-morte de Tranchesi ao se distanciar da tradição de se falar apenas o lado bom, mesmo que este tenha sido excepcional. Da dedicação plena à DASLU e à família, que se confundiu ao longo de sua existência, Eliana deixou um acervo invejável ao setor de Moda na área de divulgação. Ao mesmo tempo em que foi pioneira no estabelecimento do foco no “estilo de vida”. Aqui talvez a origem maior do sucesso e ao mesmo tempo da repugnância ao luxo exalado pelo seu negócio, por parte de uma grande maioria. A imprensa e também o público em geral. Afinal de contas seu segmento de mercado sempre foi o do luxo e, num país com grandes desníveis de renda e de cultura, a percepção da emoção e da provocação pode estar num mesmo quarteirão.

 

Ao definir prioritariamente o seu negócio pelo “life style” elegendo a classe mais sofisticada como o seu mercado, foi ao encontro das marcas mais expressivas do mundo. E conseguiu respeito e admiração profissionais, trazendo ao Brasil todo o espectro da Moda de luxo, introduzindo a alta qualidade, que serviu de inspiração às mais expressivas marcas nacionais. No exterior era reconhecida e cortejada pela quantidade e qualidade de produtos que operava. Em nosso país foi seguida nas principais cidades com réplicas de sua operação paulistana. Na loja em São Paulo exibia um atendimento adequado ao público alvo, ao mesmo tempo em que propiciava à sua equipe, de copeiras às Dasluzetes, carinho especial na melhor relação empregador e empregado.

 

Chegou ao ápice quando conseguiu reunir todos os departamentos em um prédio de 17mil metros quadrados, totalmente planejado para atender de forma especial os seus clientes especiais. A tal ponto que detalhes e mais detalhes, como que para confirmar a expressão norte americana, de que “Retail is detail” eram as vedetes da Vila Daslu. Não havia corredores com o intuito de levar o visitante a todos os espaços e evitar também a visita de curiosos. Eram mais de 300 marcas internacionais e marcas nacionais das mais importantes, além de uma coleção DASLU com produtos feitos aqui e preços mais acessíveis. No setor feminino não entravam homens. Em compensação o público masculino se servia de mimos como café italiano, uísque 18 anos, prosecco italiano, etc. Esta megaloja que também vendia automóveis especiais, imóveis de luxo, eletrônicos de vanguarda, helicópteros, não durou 40 dias. Mas esta é a parte da história que todos já sabem.

 


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Os libertadores da América e os donos do futebol

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Leoz, Tupac Amaro, Simon Bolivar e Teixeira

 

Quem gosta e entende de futebol identifica a real importância deste campeonato cujo nome homenageia os heróis que libertaram a América espanhola e portuguesa. E como o seu gabarito é testado anualmente pelos resultados dos confrontos com os europeus, acrescido agora dos demais continentes, não há dúvida que o campeão da Libertadores é força proeminente no cenário do futebol mundial. Exceção feita aos recentes episódios protagonizados pelo Internacional e pelo Santos.

 

Mas quem são estes Libertadores da América? São dignos desta homenagem? Oportuna pergunta no momento em que na política os presidentes atuais da Venezuela, da Bolívia, do Equador, da Argentina cerceiam a imprensa; no futebol, a FIFA é posta em cheque pelos ingleses, e o principal dirigente da CBF e do COL para a Copa 2014 pré-anuncia o seu afastamento depois de 23 anos e, em seguida, renuncia ao mesmo. Tudo por conta de denúncias de irregularidades.

 

Infelizmente há uma extraordinária coerência neste mundo da bola, pois tanto alguns dos nomes homenageados dos Libertadores da América quanto determinados cartolas atuais tem a permanência no poder como ponto em comum. Além do pioneiro José Gabriel Condorcanqui, o indígena graduado pela Universidade de San Martin em Lima, também conhecido como Tupac Amaro II, José de San Martin, Manuel Belgrano, José Miguel Carrera, José Artigas e Ramón Cadilla, os demais libertadores da América Simon Bolívar, Bernardo O’Higgins, Antonio José Sucre e D. Pedro I, estavam em sintonia com o poder e sua longevidade.

 

Simon Bolívar além de ajudar San Martin na Argentina dominou a Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá e Peru, tendo sido o segundo e terceiro presidente da Colômbia, além de presidente da Bolívia e do Peru onde mudou a Constituição e se auto-nomeou presidente Vitalício. D.Pedro I cercou o Congresso e instituiu o Poder Moderador que seria exercido por ele mesmo, acima de todos os demais poderes. Bernardo O’Higgins fez com que os governadores enviassem deputados que ele tinha indicado e com um congresso de cartas marcadas renunciou, de forma que com a combinada rejeição ficou com o mandato de Diretor Supremo do Chile.

 

No futebol, a Conmebol, entidade que responde pela Libertadores da América, é presidida por Nicolas Leoz há 25 anos que além da longevidade tem em comum com os demais o gosto pelos títulos de poder e nobreza. O inglês David Triesman, ex-presidente da Federação Inglesa de Futebol acusa-o de pedir o título de Cavaleiro do Império Britânico para pagar o seu voto para que Londres fosse sede da Copa 2018.

 

No aspecto político o Brasil está tranquilo e distante de outros países latino americanos, inclusive pela análise recente de Jim O’Neil, o criador dos Brics. Trata-se do Índice de Condições de Crescimento que envolve a estabilidade política. Entretanto no âmbito do futebol é preocupante, pois as possíveis alternativas giram em torno de José Maria Marin, o apanhador de medalha, e de Marco Polo Del Nero, o protagonista do ingresso para o show da Madona que quase queima a ultima partida do principal campeonato de futebol do país.

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

Prédios sem segurança e sem seguro

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Prédio desaba em São Bernardo

 

Os três edifícios que desabaram no Rio, ocasionando 18 mortes, e o acidente de São Bernardo do Campo com dois falecimentos, tem ao menos contribuído para um oportuno debate sobre a segurança das residências e escritórios situados em construções verticais.

 

Pelo número de prédios e quantidade de pessoas que circulam e moram nestas condições é até admirável que ainda não tenha surgido numero maior de catástrofes. A pouca fiscalização e o desconhecimento sobre condições de segurança, além da inevitável irresponsabilidade de alguns, poderiam ter gerado mais danos.

 

Há tempos, divulgou-se que o ex-ministro Delfim Neto estava levando a sua biblioteca de dez mil livros para o sitio com a precaução de não causar danos estruturais no prédio que morava.

 

É bem verdade que não são muitos que possuem biblioteca deste tamanho, mas também devemos considerar que esta preocupação estrutural não é para todos.

 

Controle e conscientização geral são atitudes óbvias que deveríamos tomar para aproveitar o momento. Ocorre que isto vale tanto para os bem intencionados como para os oportunistas.

 

No Rio, as empresas afetadas cobram lucros cessantes do Estado, enquanto entidades de engenheiros apoiam uma fiscalização com altas taxas visando lucros permanentes e extraordinários.

 

Em São Paulo o prefeito Kassab, embora tenha vetado em 2009, projeto do vereador Domingos Dissei que estabelecia laudo técnico obrigatório para as edificações, porque a Prefeitura já tinha o Contru – Departamento de Controle e Fiscalização de Obras apresenta agora um caça níquel invejável. A obrigatoriedade de cinco em cinco anos, ou até de dois, de laudo técnico por engenheiro especializado para toda a edificação acima de 500 metros quadrados, pago pelo proprietário. Estimasse que o valor será em torno de cinco a quinze mil reais por laudo.

 

A inescrupulosa ação política na busca do aumento de arrecadação e o corporativismo insensato visando faturamento cativo, exatamente por parte de quem pode equacionar o problema de segurança, Prefeitura e Engenheiros, deveriam ser substituídas pelo cumprimento da lei através dos órgãos existentes. E, criar o inexistente seguro sobre as demolições.

 


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

Facebook: fenômeno social e comercial

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O Facebook é o sucesso definitivo desta geração de mídia social pois traz na bagagem cardápio completo. Rompe com o que tínhamos antes. A principal inovação é a chance que dá aos 750 milhões de usuários para criarem páginas totalmente personalizadas. Tanto para funções sociais como para atividades comerciais. Qualquer um pode produzir fotos, filmes e artigos com interesses artísticos ou de vendas e divulgar. Para os amigos e/ou para o mundo. É a customização absoluta.

 

Esta vocação de ruptura que originou a sua criação quando Mark Zuckerberg, para sacramentar a briga com a namorada a expôs no site de Harvard, seguiu em frente. Eduardo Saverin, segunda vítima, brasileiro, estudante de economia e colega de Mark, estudante de computação, viveram em Harvard a experiência inicial do The Facebook. A participação de Saverin era de 25% na recém-criada empresa e enquanto o brasileiro buscava investidores Mark procurava aumentar usuários, e instigado por instintos não recomendáveis deixou Eduardo com 0,3% de ações. Que foram recuperadas através da justiça americana, arbitrando ao primeiro investidor do Facebook 5% de participação.

 

De 4 de fevereiro de 2004 até hoje, quando o IPO do “Feice” poderá impulsioná-lo ao valor otimista de 100 bilhões de dólares, tornando Zuckerberg o nono mais rico do mundo com 28,8 bilhões, atrás de Eike Batista, o oitavo, e Saverin com agradáveis 5 bilhões, milhares de internautas “feicianos” já tem usufruído da rede através do f-commerce, construindo lojas da mais variadas especialidades.

 

E como para comprovar que a customização é uma atualização do passado ressurge a venda direta, agora através de cômodas operações virtuais. Não há mais os riscos de cães bravos ou de clientes agressivos. Em julho, o site Compra Fácil recrutou colaboradores para redes sociais e espera dobrar os 15 mil de hoje para 35 mil até o fim do ano. O Magazine Luiza desde agosto disponibilizou para parentes de funcionários montarem lojas para venda de seus produtos através do “feice”. A partir de janeiro, começou a recrutar internautas em geral e ampliou também ao Orkut o programa “Magazine Você”.

 

Marcas de prestígio começam a entrar no fcommerce, utilizando o “feice” para recrutar pessoas com grandes quantidades de amigos. Richards, Enoteca Fasano, Reserva, Cantão e Hope são uma realidade. Empresas menores se associam a grupos como o formado pela agência WVTodoz que conta hoje com 1700 lojas e, para espanto de alguns, a maioria são de moda. Quem disse que não se pode vender moda pela internet?

 

Quem sabe o “feice” não rompe definitivamente também esta barreira?

 

O Facebook deve estar dando tratos à imaginação dos prestigiados autores de Marketing de Guerra, Al Ries e Jack Trout, que até então atestavam a vantagem do pioneirismo. “O primeiro a chegar normalmente mantêm a vantagem competitiva que lhe dá o topo. Seja sempre pioneiro.” O fenômeno “feice” permite acrescentar que se o último fizer melhor poderá predominar e suplantar o primeiro.

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung