O que levar da Cidade do Cabo

Direto da Cidade do Cabo

Cidade do Cabo da Table Montain

A beleza intransferível da Cidade do Cabo seria o melhor que teríamos para levar daqui para São Paulo, pensei logo que a Fabíola Cidral perguntou-me sobre o assunto durante o CBN São Paulo, desta terça-feira. Fui injusto com certeza com esta que é a mais europeia das cidades sul-africanas, pois uma atenção maior no entorno e veremos que há muito mais do que a natureza ofereceu.

A limpeza do Cabo chama atenção, mesmo com a cidade tomada de turistas desde o início do mês. São milhares deles desfilando todos os dias, em especial no Waterfront, sem que deixem espalhados pelas calçadas suas marcas. Tive a curiosidade de perguntar a moradores daqui se a situação se devia aos cuidados para a Copa do Mundo e estes me garantiram que a vida por aqui é assim.

Desconhecem a Lei Cidade Limpa, pois é possível encontrar nas empenas dos prédios alguns anúncios publicitários. A poluição visual, porém, é imperceptível, talvez resultado do respeito que têm pela paisagem da cidade, desenhada pela Table Mountain e a baía logo em frente. Mesmo as lojas não usam luminosos extravagantes e na rua principal, Long Street, se esforçam para manter o cenário do passado, com balcões de arquitetura vitoriana que se estendem sobre as calçadas.

Cidade do Cabo

O desrespeito arquitetônico mais gritante está no pé da montanha, onde uma empresa de construção usou de uma brecha na legislação para levantar três torres absurdas que rasgam o visual da cidade. Exageraram tanto que chamaram atenção dos locais e as autoridades foram obrigadas a impedir que a construção seguisse para cima. Foi concluída, está em funcionamento, mas é uma vergonha viver ali.

Hoje pela manhã, encontrei com o jornalista Daniel Piza, do Estadão, que foi nosso colega na CBN, também. E ele me alertou para outro fator interessante que muitas vezes passa despercebido de nossos olhos: a organização nos pontos turísticos. Comparamos a subida a Table Mountain, feita por um teleférico, e a subida ao Corcovado, no Rio de Janeiro, que já havia sido motivo de queixa de um artista chileno que conheci. Aqui, chegasse aos 1.000 metros de altura e se tem um enorme parque para andar de maneira segura e rápida para as condições. As filas, apesar de grande, fluem sem cansar, ao contrário das que encontramos na capital fluminense. A estrutura oferecida ao turista também é muito boa.

Isto se repete em todos os demais pontos de visitação.

Cap Bay e Table Montain

Levaria para São Paulo, o respeito que os motoristas tem com as faixas de segurança. Em um trânsito que anda na mão inglesa, principalmente na área turística, o pedestre tem preferência para atravessar as ruas. Aliás, apesar dos problemas alegados para deslocamento, temos um tráfego bem mais ameno que o da capital paulista, pois falamos de uma cidade com 1,3 milhão de moradores que vivem em um extensa área geográfica, o que faz com que a densidade demográfica seja baixa, muito diferente de São Paulo.

Falaria, também, do respeito aos ciclistas, fator que presenciei nos primeiros dias de visita à cidade, porém ouvi queixas de brasileiros especializados no tema que estiveram por aqui. Renata Falzoni, por exemplo, disse que correram riscos ao encarar ruas e avenidas da cidade. Na dúvida, que levemos apenas o que eu vi e deixemos por aqui o que ela identificou.

A reclamar o serviço de táxi, bastante precário, apesar de termos encontrado motoristas sempre simpáticos e perdidos. Sim, eles pouco conhecem a cidade, parece que desembarcaram por aqui dias atrás para faturar com o movimento da Copa. Aliás, não só parece, pois é o que acontece com vários prestadores de serviço.

Torcedores na Cidade do Cabo

Deixemos por aqui, também, a violência que impera nesta sociedade. Mas São Paulo também é muito violento ? Índices comparados, a taxa de homicídio na capital paulista é metade da que encontramos na Cidade do Cabo. A insegurança, aliás, leva os restaurantes a manter hábito estranho para nós, às 11 horas as cozinhas fecham e não servem a mais ninguém. Quem chegou atrasado terá de se virar em algum pub da área turística.

Uma última coisa que gostaria de levar na mala é o clima que tomou conta da cidade neste Mundial, mas para tal teremos, primeiro, que garantir a participação de São Paulo na Copa2014.

Restaurantes eliminam vuvuzela

 

Direto da Cidade do Cabo

Proibido vuvuzela

A vuvuzela toca mais baixo desde a desclassificação prematura da África do Sul. O som que marca esta Copa caía um tom a cada mau resultado da seleção local e, hoje, passou a soar desafinada com a vitória de pirro contra França.

O técnico Carlos Alberto Parreira não conseguiu fazer com que o time nacional brilhasse a ponto de se encontrar algo tão destacado em seu 11 quanto o som da corneta que se espalhou pelo mundo através das transmissões de televisão. Provavelmente poucos lembrarão, daqui um ano, o nome dos titulares da África do Sul, mas o som da vuvuzela será difícil esquecer.

A medida que os sul-africanos se afastavam da possibilidade de alcançar as oitavas-de-final, aumentava também a campanha contra as vuvuzelas. Não que uma coisa tivesse a ver com a outra. Aparentemente, uma coincidência.

Bares e restaurantes em Waterfront decidiram restringir o uso das cornetas em seu interior para não afastar a freguesia. Em lugar de cartazes solicitando para que se evitasse fumar em local fechado (estes praticamente não existem e o uso do cigarro depende do bom senso do cliente), nos últimos dias surgiram alertas para que as pessoas não soprassem vuvuzelas no local

Assim que conversei sobre o assunto com o gerente de um dos mais movimentados restaurantes do WaterFront, área turística da Cidade do Cabo, o som da corneta soou alto em uma mesa no fundo. Era um turista com pinturas mexicanas no rosto marcando o início de Grécia e Argentina, na televisão. O próprio gerente foi até a mesa e, com um sorriso entre dentes, mostrou o cartaz que pedia: “Please, refrain from blowing vuvuzelas in this store”. Ok, sinalizou o torcedor já com um pedaço de pizza na boca.

Acabar com a vuvuzela é derrubar uma tradição de quase dez anos nos estádios sul-africanos, portanto a intenção é torná-la amigável, evitando os exageros. Soprá-la dentro de aviões está proibido por determinação do governo, dá prisão e processo. E as empresas aéreas foram recomendadas a permitir que estas sejam despachadas em malas no bagageiro.

Vuvuzela gigante na cidade do Cabo

A prefeitura de Cidade do Cabo, em outro golpe na ‘cornetagem’, mandou a Hyundai calar a super-vuvuzela de 37 metros que tocava a cada gol do alto de um viaduto que está em processo de demolição, no centro. O som, acionado através de um botão, estaria causando transtorno no trânsito – e na vizinhança, também, imagino. A patrocinadora quer convencer a administração municipal a ceder nas partidas finais da Copa.

Fora da África, já há manifestações para impedir a importação da ideia para outros esportes. No Torneio de tênis de Wimbledon, já foram feitos alertas para a inconveniência da vuvuzela no entorno das quadras de grama do All England Club, em Londres, assim como os organizadores da Regata Henry Royal, que terão provas a partir de 30 de junho.

No fim de semana, promoção do Florida Marlins distribuiu 15 mil vuvuzelas batizadas de “air horn” (estaria certo se traduzisse por “corno de ar” ? Ok, minha professora de inglês iria corrigir para “buzina de ar”), ação que causou protestos de blogueiros e reclamações em sites especializados. O correspondente do Bleacher Report, Mike MacConell, questiona o fato de que beisebol e vuvuzelas são um choque de cultura. E pergunta: será que a relações públicas do Marlins acredita que os demais torcedores aceitarão ficar no estádio enquanto 15 mil fãs assopram estas cornetas ?

Apesar das reclamações, prepare-se porque esta praga vai se espalhar pelos estádios brasileiros assim que a temporada for reiniciada. Fabricantes chineses estão prontos para encher o mercado com as cornetas que tem origem no chifre de um antílope, o kudu, que servia para convocar os moradores de aldeias para reuniões. Isto me lembra o berrante feito de chifre de boi usado para chamar o gado, no Brasil.

O que você faria se um torcedor estivesse ao seu lado assoprando a vuvuzela durante um jogo de futebol do seu time ?

Esperança africana

Cabo da Boa Esperança

Dia de quatro jogos na Copa da África. E de decisão para oito seleções. Por isso, atualizarei o blog mais tarde. Agora há pouco, conversei com a Fabíola Cidral por telefone, no CBN São Paulo, e resolvi passar por aqui para deixar esta foto do Cabo da Boa Esperança feita pelo meu colega Eduardo Palacios. O cabo leva nome apropriado para todas as seleções que ainda tentam na última rodada desta primeira fase o direito de seguir na África. Inclusive, a própria.

O jogo que os meninos viram II

 

Direto da Cidade do Cabo

“Ainda bem, f.d.p” foi o que Dunga teria dito assim que o juiz deu o apito final da partida contra a Costa do Marfim. Em vez de deixar os meninos envergonhados, eles até que gostaram do desabafo. Foi o que me disseram assim que os procurei para os comentários sobre a vitória e classificação brasileira.

Os dois garotos, de 10 e 13 anos, apresentados neste blog, semana passada, após a estreia da seleção, fizeram tanto sucesso com a sinceridade de seu olhar, que decidi voltar a eles.

Ao menos para os meninos-comentaristas, ninguém precisará pedir desculpas pelos palavrões, ao contrário do que teve de fazer o técnico da França Raymond Domenech, alvo dos xingamento de Anelka no intervalo do jogo contra o México. Depois de afastar o atacante, foi à imprensa dizer que “lamento por todas as crianças que seguem a seleção da França”.

Os dois sabem que tem palavrão que ofende, tem palavrão que dá ênfase, tem palavrão dito no momento impróprio e tem palavrão que alivia. O de Dunga foi de alívio, naquele instantes. Os demais, ditos para quem não tem nada a ver com isso, e está apenas trabalhando, eles não ouviram e, portanto, não comentam. Fazem bem.

Ficaram assustados mesmo foi com a maneira dura com que aquele pessoal da Costa do Marfim jogava: “eles não são os Elefantes, são uns cavalos”, disse o menor. Mais incomodados, ainda, quando viram os marfinenses entrar de sola na canela de Elano. Como já escrevi, o mais velho diz que o meio-campo brasileiro tem “cara de dó” e, por isso, decidiu torcer por ele, em particular. Deu sorte.

Aliás, eles haviam reclamado durante o jogo a falta do gol do Elano. Pedido feito, pedido atendido, depois da boa jogada pela esquerda de Kaká. “Esse cara é legal, ele mostrou o nome das filhas depois do gol”, lembraram os dois, conquistados pela simpatia do “goleador”.

Será que ele pode ser punido por isto ? Espero que não, a mensagem era pra família, caramba.

Lembrei que eles queriam ter tirado o Kaká na partida de estreia já no primeiro tempo, antes mesmo da decisão do Dunga de substituí-lo: “Mas nesse jogo não merecia sair, apesar que disseram na TV que ele tinha de ter sido substítuido antes porque tomou o cartão amarelo”, comentou o mais velho. Sobre a expulsão: “Foi bem esquisito”.

Esquisito é elogio para o que o juiz deixou acontecer no gramado.

“O Robinho foi o Kaká do outro jogo, não fez nada desta vez”, concordaram os dois. “É, mas o Luis Fabiano fez bem mais do que todos eles juntos, num usou a mão, mas fez”, comenta o novinho que não havia nascido quando Maradona consagrou este lance no México86. “Foi o gol mais bonito que eu vi até hoje”, disse o mais velho que só assistiu aquele chapéu de Pelé, na Suécia58, pela televisão e em imagens desbotadas.

A vó, que esteve do lado deles no jogo de ontem, tinha idade para lembrar dos dois gols históricos, mas nunca acompanhou o futebol, só assiste aos jogos pra ficar junto com os netos.

Futebol-família é muito legal, mesmo que de vez em quando escape um palavrão.

O Brasil de Dunga jogou futebol de verdade

Direto da Cidade do Cabo

Futebol de verdade não é aquele sonhado por muitos de nós. Em que os jogadores driblam de maneira impressionante, fazem jogadas fantásticas e gols cinematográficos, que hoje em dia costumam aparecer muito mais na publicidade do que em campo. Lá dentro do gramado, a realidade é muito mais dura, é necessário dar de bico para espantar o perigo, suar a camisa para impedir que o adversário chegue até sua área, romper barreiras formadas por brutamontes para alcançar o gol, agarrar a camisa, o calção, às vezes a própria bola. Se houver possibilidade, faz-se o lance genial, o que é cada vez mais raro, haja vista o que ocorreu nas 28 partidas disputadas nesta Copa da África até o Brasil entrar em campo para enfrentar a Costa do Marfim.

Era o jogo mais difícil desta chave, alertavam os críticos. A melhor seleção do continente africano tinha ainda a presença de Drogba, considerado por alguns o melhor atacante do mundo. A marcação forte, a velocidade de todos seus jogadores e a categoria de alguns são elementos temidos por seus adversários. Além disso, o futebol da estreia brasileira, mesmo que eficiente e equilibrado, ainda gerava dúvidas.

Hoje, a seleção de Dunga mostrou que não será apenas mais uma convidada nesta Copa. É protagonista do jogo mais impressionante até aqui, pois além da dedicação necessária para encarar as estratégias defensivas e físicas impostas no futebol moderno, o Brasil mostrou talento. Foi muito além do time de abnegados do primeiro jogo.

O confronto entre Brasil e Costa do Marfim teve todos os ingredientes de um jogo de futebol. Jogadores se movimentando com rapidez e sendo acompanhados por uma troca de passe interessante como a que resultou no primeiro e terceiro gols brasileiros. Talento individual e categoria como no segundo, marcado por dois chapéus no adversário. E a sagacidade que resultou no único gol marfinês, de cabeça.

Não faltaram os elementos da dramaticidade, como a dividida de bola da qual Elano não se eximiu e pagou caro por esta decisão de coragem. Nem o confronto corporal que puniu o bom-moço Kaká, errado apenas no lance em que recebeu o primeiro cartão amarelo. Como condená-lo, porém, se o que fazia era somente participar de um jogo de futebol de verdade.

Talvez até o árbitro atrapalhado e “engraçadinho” que fez lambanças em campo capazes de ajudar e prejudicar o Brasil, tenha estado lá para contribuir com este espetáculo. Fosse ele rigoroso, o lance mais bonito da partida, provavelmente teria sido anulado. Apesar de que preferia ter visto alguém mais bem capacitado para colocar ordem na casa.

Pra completar, tivemos um personagem. Luis Fabiano com seus dois gols, um marcado pela força e precisão do chute, e outro pela esperteza e categoria ao encobrir três marcadores em espaço restrito da área. Na seca havia seis partidas, o atacante deveria estar sofrendo na sua intimidade, pois sabe que do gol depende sua subsistência. Não poderiam ter ocorrido em momento mais oportuno e de forma mais bonita. Ele é o goleador da Era Dunga com 21 gols marcados em 28 partidas.

O futebol de verdade é feito de sangue, suor e talento. A seleção brasileira nos ofereceu tudo isso na vitória de hoje e, não por acaso, está classificada antecipadamente para a próxima fase da Copa da África. Mérito de Dunga, fiel a suas ideias, confiante em seu exército de abnegados e crente de que a qualidade técnica deles levará ao título de campeão do mundo.

Sem recurso eletrônico, torcedor vira idiota

 

Direto da Cidade do Cabo

 

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O futebol movimenta U$ 256 bilhões por ano e se calcula é praticado por 400 milhões de pessoas em todo o mundo, oficialmente em 208 países que fazem parte da Fifa, muito mais do que os 192 filiados a ONU. A quantidade de gente diante das televisões para assistir à Copa do Mundo bate a casa do bilhão, muitos dos quais apaixonados e capazes de ir aonde nenhuma outra fé os levaria.

 

Um jogo desta importância não pode ser decidido por um homem só como ocorre, atualmente, mesmo que ajudado por dois auxiliares. Ou atrapalhado por eles, como ocorreu, nesta sétima rodada de partidas da Copa da África do Sul, com o árbitro maliano Koman Coulibaly, que anulou gol legítimo dos Estados Unidos contra a Eslovênia. A bola cruzada por Donovan partiu do lado direito e passou sobre parte da defesa eslovena para ser jogada às redes por Maurice Edu.

 

Os americanos que se consagrariam com uma vitória histórica, pois teriam virado o jogo depois de estarem perdendo por 2 a 0, reclamaram no ato, mesmo sabendo da incapacidade deles mudarem a decisão. A torcida chiou nas arquibancadas e deve ter se voltado para os dois telões que reproduzem imagens da partida no estádio, mas não tiveram o direito de rever o lance, pois estas são “censuradas” pela Fifa e pelas regras do futebol. A questão é que apenas eles, diretamente envolvidos no jogo, tiveram este direito cassado.

 

A imensa audiência das emissoras de televisão viu e reviu a jogada de longe e de perto, por trás e pela frente, a partir de câmeras com capacidade de gerar slow motion de alta definição. Recursos com área sombreada, linhas imaginárias e imagem digitalizada deram suporte a opinião dos comentaristas. E foram unânimes em apontar o erro fatal.

 

A Fifa que faz acordos milionários com empresas de desenvolvimento tecnológico – a cada Copa temos uma explosão de vendas de aparelhos de televisão mais modernos, por exemplo – é a mesma que se nega a permitir o uso desses recursos no futebol sob a alegação de manter a igualdade de condições na disputa do jogo em qualquer canto do mundo. A entidade entende que para a prática do esporte bastam as traves, as redes, os uniformes e a bola, que podem ser usados por ricos e pobres, sem diferenças.

 

Primeiro, é irônico a instituição que lucra quase U$ 4 bilhões na Copa da África, doa a quem doer, nesta hora ser a porta-voz dos desvalidos. Segundo, a persistir a tese, deveríamos questionar o uso de técnicas avançadas de preparo físico, médico e psicológico dos atletas, afinal os time do Mali não conseguem oferecer a seus jogadores as mesmas condições que os times da Espanha.

 

Curioso ainda constatar que o mesmo futebol que abre mão desta tecnologia, aceita punir após a partida jogadores flagrados cometendo algum ato de violência. Flagrados pelas mesmas câmeras “cassadas” na hora do jogo.

 

Houvesse o “árbitro eletrônico” – se me permitem chamar assim o uso do vídeo para conferir lances polêmicos -, não teríamos sido obrigados a ver o futebol medíocre da seleção da França aqui na África. Em lugar dela, estaria a Irlanda, que vinha jogando muito mais, contudo acabou punida com um gol de mão de Tierry Henry. Tão pouco, os Estados Unidos estariam ameaçados de uma desclassificação pré-matura nesta Copa.

 

Pena os americanos não serem no futebol a potência que o são em outros esportes, pois talvez tivessem força para pressionar a Fifa a aceitar mudanças na regra, como ocorreu, em 2006, com o tênis. Graças a injustiça sofrida pela tenista Serena Williams, na partida contra Jennifer Capriati, pelo US Open, dois anos antes, iniciou-se um movimento em favor do replay-instantâneo. Atualmente, o tenista tem o direito a três pedidos de revisão por set e um adicional caso haja tie-break. O Hawk-Eye – Olho de Águia, em português – não é obrigatório em todas as competições, sendo usada apenas nas que distribuem maior premiação.

 

Na época em que a regra foi implantada, o número 1 do tênis Roger Federer fez duras críticas, sendo hoje um dos que mais se utilizam do recurso. Marat Safin, agora aposentado, chegou a dizer que eram idiotas os que defendiam o Hawk-Eye.

 

Idiotas somos nós, torcedores do futebol, enganados por árbitros que têm cada vez mais dificuldade para acompanhar a velocidade dos jogadores e da bola. Enquanto o futebol não aceita implantar os Olhos de Águia nos estádios da Copa do Mundo, estaremos sempre vulneráveis a manipulação dos Gaviões da Fifa.

 


A imagem acima é da galeria de Tiago Celestino, no Flickr

A violência diminui na África, só até o fim da Copa

Direto da Cidade do Cabo

Jornal da Cidade do Cabo

Duas moças apareceram mortas dentro de uma casa em Parrow, região bem distante dos olhos dos turistas que estão na Cidade do Cabo. Talvez do alto da Table Montain, visitada aos milhares todos os meses, um observador mais atento, de costas para o mar, conseguisse enxergar no horizonte resquícios deste distrito que está no subúrbio e assistiu ao seu empobrecimento, desde o Apartheid. Uma com 20 e a outra com 19, eram amigas de escola e a suspeita é que foram assassinadas por um rapaz que as conhecia. A mais velha das duas vinha se recuperando do vício das drogas, mas parece ter perdido a luta. A polícia promete investigar os motivos do crime e imagina apresentar o matador em breve.

O duplo assassinato vai parar na primeira página dos jornais locais muito mais pela relação que havia entre as duas estudantes e o provável assassino, pois sem o olhar jornalístico da busca do sensacional, o caso seria apenas mais um a fazer parte da crônica de violência contada todos os dias nas cidades da África do Sul, que dominam a parte mais baixa das listas internacionais de pesquisas sobre qualidade de vida.

Por contraditório que pareça, o Cabo que surge no topo destas classificações (é a quarta colocada entre cidades do Oriente Médio e África, segundo pesquisa mundial da Mercer que presta serviço na área de consultoria) não consegue esconder a chaga provocada pela brutalidade. Está aqui a mais alta taxa de homicídio do país com 62 assassinatos por 100 mil habitantes, surpreendente para quem anda nas ruas bem policiadas, neste período de Copa.

Policia na Cidade do Cabo

Para o Mundial, o governo africano incrementou em 44 mil o número de policiais para tentar controlar a violência. Hoje, são 190 mil de acordo com dados oficiais. E especialistas em segurança veem com otimismo o resultado alcançado até aqui, apesar das constantes notícias de turistas, jogadores e jornalistas assaltados, principalmente em cidades como Johannesburgo e Durban. Ontem mesmo, colegas nossos tiveram o cofre de seus quartos arrombado e todo o dinheiro levado embora. As estáticas mostram que o roubo é o “esporte preferido” dos bandidos sul-africanos.

Instituições que estudam questões relacionadas a segurança pública afirmam que os cerca de R 1,2 bilhão investidos no setor para a Copa do Mundo – isto representa algo em torno de U$ 173 milhões – tem reduzido os índices de violência. Gareth Newham, do Instituto para Estudos da Segurança, comparou as taxas de crimes com a Copa do Mundo de Críquete (esporte levado a sério por aqui), em 2003, e calcula que houve, com a de futebol, uma redução de até 24%, segundo informa o jornal sul-africano The Times. Andre Snyman da organização Eblockwatch lembrou que, historicamente, nos meses de maio e junho as taxas são menores se comparadas com setembro, outubro, novembro e dezembro, porém é evidente que a forte presença do policiamento tem inibido os bandidos – por incrível que possa parecer àqueles que nestes sete dias de Copa já foram vítimas de alguns deles.

Long Street na Cidade do Cabo

Ao passear pela mais antiga rua da Cidade do Cabo, Long Street, onde bares com arquitetura vitoriana destacada pela presença de balcões sobre a calçada recebem turistas e moradores locais, chama atenção uma outra característica nas fachadas. O comércio mantém portas de grade na maioria das vezes fechadas nem sempre, porém, altas o suficiente para impedir a invasão de algum assaltante que queira se aventurar na área.

Os portões de ferro se devem a dois fatores, e o primeiro é psicológico, dizem alguns por aqui: há uma paranoia que toma conta das pessoas que vivem em uma cidade na qual se tem notícia a toda hora de algum crime. Pergunto-me se aí onde você vive também não ocorre o mesmo. O segundo motivo é histórico: foi a forma dos brancos se protegerem de invasões que imaginavam seriam cometidas pelos negros ao fim do Apartheid.

O regime que separou as pessoas por cor, raça e horror ainda se reflete na sociedade sul-africana de maneira contundente. Os avanços que a luta de Nelson Mandela implementou são evidentes, mas a cicatriz aparece na pele, na arquitetura e na vida dos negros.

Distrito 6 na cidade do Cabo

Hoje mesmo, estive no Distrito 6 de onde cerca de 60 mil pessoas foram arrancadas de suas casas, a partir de 1966. Além de um museu que lembra aquela barbaridade, quarteirões vazios tomados pela grama e erva daninha foram mantidos para chamar atenção do crime cometido com este povo. Uma injustiça que começou a ser desfeita apenas em 1994.

Atente-se para as datas. O Brasil conquistava o Tetra nos Estados Unidos, quando o regime de segregação estava vindo abaixo. A história é muito recente e ainda viva na África do Sul. Por isso, criticar o país e seu povo pela violência e pobreza que ainda imperam é injusto se não levar em consideração a deterioração sofrida pela sociedade sul-africana.

Injusto, também, é esta gente continuar sendo vítima de uma elite política que ascendeu ao poder na carona de Nelson Mandela e tem esquecido parte de seus ideais. Motivo de seu descontentamento com os organizadores da Copa do Mundo 2010, pois o líder eterno deste país esperava que os jogos trouxessem não apenas visibilidade, mas benefícios concretos para os cidadãos. A ele não bastava um sistema de segurança que se desfizesse assim que a Fifa e sua famiglia fossem embora daqui – o que vai ocorrer no dia 11 de julho. Era preciso uma ação capaz de tirar o país do topo da classificação dos mais violentos do mundo, que transformasse a sociedade sul-africana mais segura não para mim, que voltareiao Brasil em algumas semanas, mas para seu próprio povo.

Morador de rua na Cidade do Cabo

A riqueza apareceu nesta Copa para quem a comanda, para os patrocinadores e seus patrocinados. Alguns segmentos faturaram mais, sem dúvida. Porém, muito do que poderia ficar por aqui foi parar nas mãos de gente lá fora e a renda não foi distribuída como Mandela sonhou.

Por isso, penso naquele senhor maltrapilho, com cheiro de cachaça, sentado na calçada assistindo ao passeio dos turistas em uma rua no centro da Cidade do Cabo. Ele estava sentado, sujo, desconsolado e triste. E, certamente, não se deve ao mal futebol jogado pela seleção da África do Sul.

Pacaembu corre risco de virar mico em 2014

Direto da Cidade do Cabo

São Paulo não ficará fora da Copa do Mundo de 2014. Pode perder a festa de abertura, mas não as partidas. A cidade é a maior, mais rica e mais importante do País – ok, não é a mais bonita – e capital do Estado que abriga boa parte das empresas e investidores com dinheiro para a construção de estádios e infraestrutura urbana. Nem aos cartolas do futebol interessaria a ausência paulistana, o que não significa que estejam preocupados com o fato de a abertura da competição ser feita em outro lugar – no próprio Rio, talvez, onde se planeja a final da Copa.

A cidade, porém, corre outro sério risco com a confirmação da notícia de que o projeto de reforma do estádio do Morumbi foi rejeitado pela “Famiglia Fifa”, conforme noticiamos no programa Arena Terra, do Portal Terra, nessa quarta-feira. O Pacaembu, estádio municipal, se transformaria em um enorme, grande, gordo e caro elefante branco.

O estádio seria uma alternativa, precisaria de reforma, ampliação dos atuais 40 mil lugares, rebaixamento do campo para criação de camarotes, cobertura e muito cuidado para não mexer na arquitetura protegida pelo patrimônio histórico. A Arena do Palmeiras também teria alguma chance, segundo o coordenador local do Comitê Paulistano da Copa 2014, Caio Carvalho. É ele, aliás, quem tem ressaltado que colocar dinheiro público em estádio novo é crime.

Porém, a pressão para a construção de uma arena multiuso aumentará e muito, com o Morumbi descartado. O plano B, negado até a morte pelas autoridades do município, talvez tenha de sair do papel, e se concretizar em terreno no bairro de Pirituba, na zona norte da capital. A arena teria capacidade de até 50 mil lugares, não chegando aos 65 mil que a Fifa exige para que a festa da abertura da Copa ocorra na capital. Dependendo de quem fizer a conta, o custo deste estádio pode variar de R$ 500 mi a R$ 1bi. A intenção é torná-lo parte de um complexo com centro de convenções, exposições e hotéis, onde seria realizada a Expo Mundial de 2020 (a cidade é candidata séria para o evento).

Há quem aposte que com dinheiro em caixa, o estádio estaria pronto em 30 meses, mesmo levando em consideração licenciamento, projeto, licitação, construção e outras necessidades. Porém, não se pode esquecer do desenvolvimento daquela região com ampliação do sistema de transporte, saneamento e comunicação, por exemplo. Ou seja, muito recurso público teria de aparecer.

Empurrando a ideia do Piritubão – apelido que, por si só, não contribui para a imagem do projeto – estaria o Corinthians, haja vista o esforço de Andrés Sanches em espalhar pelos bastidores a informação da falência da reforma do Morumbi desde que desembarcou na África como chefe da delegação brasileira. O novo estádio na zona norte seria construído com o meu, o seu, o nosso dinheiro para depois da Copa de 2014 ser negociado com o Corinthias nos mesmos moldes do Engenhão, no Rio de Janeiro, que hoje está sob o comando do Botafogo.

A encrenca que mais me preocupa, porém, está longe da zona norte paulistana.

A cidade precisará arrumar os R$ 5 mi necessários para manter em pé o Complexo Municipal do Pacaembu – estádio, ginásio, piscina e demais instalações, descontando o Museu do Futebol. Boa parte do dinheiro, atualmente, vem do aluguel para o Corinthians que paga entre R$ 17 mil e R$ 20 mil ou até 15% da renda do jogo, dependendo o que for maior. Mesmo com a participação do clube paulista, o prejuízo que a cidade tem como o Pacaembu é de aproximadamente R$ 1,5 mi por ano.

A prefeitura, ano passado, retomou a discussão com objetivo de negociar a concessão pública para o Corinthians ou qualquer outro clube disposto a encarar a conta de R$ 200 mi para administrar a casa, nos próximos 30 anos. E o fez porque sabe das dificuldades que tem para manter o local, considerado patrimônio público do município.

Sem o Morumbi na Copa 2014, com dinheiro sendo colocado no Piritubão para depois ser entregue ao Corinthians, a cidade terá de arcar sozinha com os custos de manutenção do Pacaembu que se transformará em estádio para ‘barrigudo’ jogar nos fins de semana. A conta vai ficar gorda, e nós – contribuintes – teremos de carregar nas costas este peso.

O Pacaembu pode ruir se o Piritubão for construído.

O jogo do Brasil que os meninos viram

 

Direto da Cidade do Cabo

Escrevo por procuração. Transcrevo o que me disseram dois meninos diante de sua primeira Copa do Mundo. Com 10 e 13 anos, esta é a primeira vez que eles assistem à seleção brasileira diante da responsabilidade de levar a outro Continente nossas glórias, traumas e identidade cultura. Sim, o futebol tem este caráter que se sobrepõe a análise crítica do desempenho individual dos jogadores e do pensamento de seu técnico.

Agora mesmo, quando escrevo, a versão americana do canal de televisão Bloomberg abre o programa Bloomberg News Asia e nas manchetes fala da vitória do Brasil sobre a Coreia do Norte, logo após destacar o discurso do presidente dos Estados Unidos Barack Obama, sobre o vazamento de óleo que provoca um dos maiores desastres ambientais que já assistimos, ao vivo. Nas manchetes oferece pesos parecidos aos dois “fenômenos”.

Por mais incomodado que você esteja com a cobertura jornalística sobre a Copa, não há argumentos suficientes que me convençam de que não se deve dar tal importância a este evento.

Conscientes disto, os meninos tem se envolvido com a Copa do Mundo antes mesmo do álbum de figurinhas chegar às suas mãos. Na sala de aula, têm estudado temas referentes à África, apresentado pesquisas sobre países deste continente e recebido informações sobre as 32 nações representadas no Mundial.

Digo que esta é a primeira Copa deles, pois consta que é a partir dos oito anos que as crianças começam a desenvolver o gosto pelo jogo. Os pais colocam babador com o símbolo do time, gorrinho com as cores e penduram cartaz com os craques (onde ele existirem), mas é depois dos oito anos que os meninos e meninas passam a definir sua preferência. Além disso, na Copa passada, os dois interlocutores desta história não estavam muito afim de “perder” seu tempo diante da TV.

Veem o futebol muito mais pelo coração. E com este sentimento vibraram no segundo gol de Elano: “aquele narigudo com cabelo encaracolado tem cara de choro, parece que tudo vai acontecer errado para ele, por isso estava torcendo pra ele fazer um negócio legal”. Por mais que o futebol tenha me ensinado algumas coisas, muitas vezes peco pela mesma sensação. Vejo um atleta em campo e por ele desenvolvo um sentimento de pena, compaixão, mesmo levando em consideração que está sendo muito bem remunerado para exercer aquele papel.

Ficaram alegres ao ver Robinho com a bola. Toda vez que esta chegava aos pés dele, os dois comemoravam como se soubessem que dali sairia um lance interessante: “ele ia pra cima dos coreanos, não ficava lá parado, queria sempre driblar”. Pensamento complementado pelos mais novo: “não tinha medo de jogar”.

Se Elano os fez vibrar, e Robinho, sorrir, o craque do time, garoto-propaganda de todas as propagandas, Kaká os deixou com raiva. Praguejaram contra o bom-moço durante a partida, várias vezes “Ele não acertava nenhum passe, tinha de ter saído no primeiro tempo”. Não querem saber, os dois, dos problemas físicos que limitam o desempenho do meio-campo brasileiro, querem resultado. Como todos nós. Como Dunga, também.

Dos norte-coreanos, não tiveram dó. Nem mesmo após ouvirem de um professor na escola que nestes países em que há ditadura jogadores que não cumprem seu papel são punidos e voltam para o exército (?). Passaram o jogo todo falando mal do “Rooney Coreano”, o atacante Jong Tae Sae, que teimava em impor perigo ao gol brasileiro. “Ele chorou quando tocou o hino, ele chorou quando cortou a perna, ele chorou quando perdeu o gol, ele chorou quando fez o gol. Ele é um chorão” – disse um. E o outro concluiu: “Vai ver tá com medo de levar chibatada quando voltar pra casa”.

Terminado o jogo de estreia deles em Copa do Mundo já querem saber qual a chance do Brasil contra a Costa do Marfim. “Será que o Dunga vai tirar o Kaká ?”.

Com esta sinceridade sobre o futebol, confesso que ficarei mais atento a opinião deles do que a de uma turma mal-humorada e comprometida que anda solta por aí.

Um exército de abnegados com algum talento

 

Direto da Cidade do Cabo

Chegou veloz, convicto, certo de sua tarefa naquele momento. Maicon sabia qual era seu papel quando recebeu a confiança de Dunga para jogar na ala direita e a bola passada por Elano. Da mesma maneira, não teve dúvida de como chutar, de que lado da jabulani bater. E bateu de maneira que a bola mudasse de direção, escrevesse um roteiro diferente daquele programado pelo adversário.

Robinho havia tentado no primeiro tempo o mesmo através de seus dribles. No pouco espaço que havia no campo de ataque, onde estiveram 21 dos jogadores em boa parte do tempo, ele mostrou o que pode torná-lo um jogador diferente entre os “zés” e “manés” que representam suas seleções nesta Copa. Foi ele, por sinal, que encontrou Elano lá do lado direito, também, por trás da muralha montada pelos norte-coreanos, no segundo gol brasileiro.

Mesmo Kaká, limitado não pela qualidade, mas pelo físico, fez o que podia dado os problemas que enfrentou até agora. Chamou a marcação para ele, tentou se movimentar enquanto não estava com a bola nos pés, e ofereceu espaço para que os companheiros de equipe aparecessem.

Os lances na televisão não vão mostrá-lo na jogada, mas o sempre criticado, Felipe Melo, disse em campo porque recebeu a missão de ser uma dos volantes da seleção. Para que Maicon alcançasse sua glória pessoal – marcar gol em Copa é algo que fica gravado para o resto da vida -, precisou que Felipe desse início a jogada. Para Elano deixar sua marca, precisou que Felipe roubasse a bola lá trás, pegando os “armados” norte-coreanos de surpresa. Aliás, para que o Brasil levasse um gol, precisaram os coreanos que Felipe deixasse o gramado.

Goste ou não, assim é a seleção brasileira de Dunga, formada por jogadores que foram preparados para cumprir sua função, fiéis ao script desenhado pelo chefe durante todo o período de treinamento e sempre dispostos a oferecer um pouco mais do que o talento natural que receberam.

Comprometidos, sim. Abnegados, com certeza. E prontos para encarar todos os adversários que estiverem no caminho de seu compromisso maior: ser hexacampeão mundial. Podem até não alcançar esta marca, mas não tenha dúvida de que Dunga e companhia limitada vão derramar suar até o segundo final desta Copa.

E vão derramar lágrimas, também, como fez Maicon ao comemorar seu gol. Que seja sempre de alegria.