Por uma assistência técnica digna da Apple – II

 

apple-logoVocê sabia que existe um recall para trocar a dobradiça do MacBook Air ? Eu não. E ao menos três assistências técnicas autorizadas pela Apple também não. E pela “desinformação” renderia a estas algo em torno de R$ 1.400,00 para cada peça trocada. O incrível é que foi uma loja não-autorizada, na rua dos Gusmões, região da popular Santa Ifigênia, centro de São Paulo, que preferiu ser honesta, abrir mão do serviço e informar o consumidor do direito que tinha.

A má qualidade da assistência Apple, no Brasil, já foi motivo de comentário neste blog (leia aqui) quando tive dificuldades sérias para resolver – e não resolvi – problemas técnicos em dois dos meus Mac. Volto ao tema após ouvir a história de desrespeito com o consumidor contada pela companheira de domingo Maria Lucia Solla.

A dobradiça do MacBookAir quebrou após dois anos de uso. Procurou uma autorizada e se assustou com o orçamento. Soube da MacLemon, na Santa Ifigênia, e, após confirmar que o conserto sairia caro, foi informada da suspeita de que haveria um recall para esta peça. Telefonou para mais duas autorizadas e perguntou sobre o direito dela trocar a peça. Uma delas chegou a dizer que escreveria para a Apple para se informar melhor. Dias depois o funcionário da assistência técnica retornou a ligação para dizer que a Apple negara a existência do recall. Apenas na quarta prestadora de serviço, na qual também precisou lembrar de seu direito de consumidora, é que conseguiu a troca.

Desrespeito, desinformação ou má-fé. Não sei bem como enquadrar este comportamento das autorizadas. Mas está mais do que na hora de a Apple se preocupar com este tema, principalmente no momento em que volta suas atenções para o Brasil. Ou acabarei acreditando de que para a empresa de Steve Jobs somos consumidores de segunda categoria.

Pai, teu legado é nosso, teus caros ouvintes

 

A Rádio Guaíba de Porto Alegre, onde comecei a trabalhar como jornalista, anunciou na sexta-feira, dia 30 de abril, o encerramento da síntese noticiosa que estava no ar desde a fundação da emissora, em 1957. Apresentador desde 1964 do noticiário que surgiu com o nome Correspondente Renner, Milton Ferretti Jung, meu pai, consagrou-se como o locutor de notícias que por mais tempo permaneceu no ar no rádio brasileiro. Seguirá na Guaíba, onde participará como comentarista de um programa esportivo, área na qual atuou dezenas de anos na função de narrador esportivo. É para ele que escrevo o texto a seguir:

Pai,

Tua história nos orgulha. Não apenas a nós que te conhecemos tão intimamente e aprendemos contigo. A todos que cresceram no Rio Grande ouvindo tua voz a pontuar os fatos mais marcantes do país e do mundo. Por muitos anos, cada vez que tocava a característica do saudoso Correspondente Renner, programa que se iniciou com a Rádio Guaíba de Porto Alegre, em 1957, sabíamos da importância do que viria a seguir. A seleção das notícias era criteriosa; a redação, precisa; e a locução irretocável.

A forma com que tu transmitias as informações oferecia credibilidade ao noticiário; acentos, vírgulas, indignações eram percebidos na respiração; a entonação das palavras e a pronúncia dos nomes estrangeiros davam a cada um deles o seu verdadeiro sentido. No ar, pelo rádio, uma aula a todos teus ouvintes, dentre os quais eu sempre estive.

Eu era um ouvinte privilegiado, sem dúvida. Enganado, também. Tu deves lembrar quando a mãe puxava nossa orelha em casa: “se tu não te comportares, guri, teu pai vai te dar uma bronca pelo rádio!”. O Christian, a Jacque e eu parávamos a bagunça pra ti escutar.

Faz algum tempo que o Renner, como o conhecemos, não está ao ar. Mudaram-lhe o nome, perdeu-se a qualidade do texto e a importância dos fatos. Recentemente, em erro estratégico, encurtaram-lhe as edições e desfiguraram até mesmo a tradicional característica.

Tu, não. Perseveravas no talento e na exigência com a performance. Que performance! Com as notícias, seguias a transmitir conhecimento, cultura e responsabilidade. Mantinhas vivo em nossa memória este patrimônio do rádio brasileiro, pois se o Correspondente Esso consagrou a síntese notíciosa, o Renner a eternizou nestes 53 anos dos quais 48 esteve sob tua apresentação.

Assim, a decisão da Rádio Guaíba de tirar de sua grade o Correspondente será incapaz de apagar este legado que é teu. É nosso, teus caros ouvintes, para sempre.

A nos consolar, assim que voltares das férias, o radio-jornalismo terá perdido sua mais bela e competente voz, mas o Grêmio terá ganhado um defensor ferrenho no programa de esportes do qual farás parte, na Guaíba.

Reestreia no Top Blog

 

Um troféu e sete meses depois, estou de volta ao Top Blog. Espaço que ocupei durante a primeira edição do prêmio oferecido à blogosfera brasileira e para o qual volto nesta sexta-feira quando as inscrições estão abertas para a temporada de 2010. Sou muito grato a organização deste evento que me convidou para comentarista e abriu as portas para que eu recebesse o primeiro reconhecimento público de meu trabalho como blogueiro. Verdade que o troféu ganhei muito mais pela “raça e determinação” – como diriam meus ídolos do futebol – do que pelo talento.

Que seja ! O que interessa é que estou de volta e bastante satisfeito com o desenho construído para o blog. Cores amigáveis, espaço confortável, distribuição melhor de texto, imagem e detalhes, além de edição facilitada. Sem contar as boas companhias das quais gostaria de citar uma em especial: Ricardo Kotscho, jornalista de mão boa e cabeça ainda melhor. Dessas pessoas que a gente tem o prazer de apreciar, observar. Na última vez que o vi trabalhando estava traçando o perfil do meu colega de CBN Heródoto Barbeiro para a revista Brasileiros. Com toda a experiência e talento, lá estava ele, cedinho da manhã, com o bloquinho em mãos.

Leia este texto completo aqui

Por uma assistência técnica digna da Apple

 

apple-logoFoi um colega de redação, em 2004, quem me impulsionou a entrar na plataforma Apple. Segurança, consistência, performance e um visual de tirar o fôlego foram argumentos convincentes, mesmo em uma época na qual as lojas especializadas não estavam instaladas no Brasil e os preços eram estratosféricos. Já passei por quatro Macs e os resultados foram extraordinários. Se todas as promessas iniciais não tivessem sido atingidas, o simples uso do Keynote em substituição ao lugar-comum Power Point já teria valido o preço da troca.

Hoje, a Apple não é apenas uma marca de nicho, a popularização alcançada com o Ipod e seus afilhados somado a chegada das lojas ao País aproximaram o brasileiro do mundo fantástico criado por Steve Jobs. Os preços estão competitivos e não preciso mais assistir aos filmes americanos para ver as maçãs iluminadas sobre escrivaninhas de escritório ou mesas de bar.

Está na hora, porém, de a turma que sustenta a marca no Brasil começar a se preocupar com os serviços de assistência técnica. Nestes seis anos, três vezes fui em busca de alguém para consertar minhas máquinas e nunca consegui sair satisfeito de qualquer um desses serviços. Fiquei surpreso com as respostas à pergunta-desabafo que publiquei no Twitter, há um mês, logo após mais uma frustração: Por que a Apple não tem assistência técnica a altura da Apple ? Havia muitos solidários à minha indignação.

Nessa segunda, foi o ouvinte-internauta José Antonio Zagato, arquiteto e urbanista, quem enviou e-mail descrevendo a difícil relação dele com uma das assistências técnicas da marca, em São Paulo. Problema não resolvido, desrespeito à opinião do consumidor, demora para realização do orçamento e serviço entregue fora do prazo fazem parte da extensa lista de reclamações, semelhante a que guardo na memória do meu computador (e na minha, também).

A prestadora de serviço que desagradou Zagato não é nenhuma das duas que usei, mas se comporta da mesma forma – o que apenas me deixa mais preocupado. E Jobs, envergonhado.

O usuário Mac tem em mãos computadores de alta qualidade, programas que satisfazem nossa necessidade e performance de deixar qualquer colega da mesa ao lado de boca aberta. Tem ainda lojas que são um esboço das criadas nos Estados Unidos e uma revista nacional – Mac + – que me leva às bancas todo mês.

Infelizmente, as assistências técnicas da marca constróem um padrão de atendimento que vai na contramão da imagem de qualidade embarcada nos produtos da Apple. E não se trata de pedir nada de excepcional, apenas que respeitem o direito do consumidor.

Uma camisa rosa é reveladora

 

Desde pequeno somos ensinados de que menino veste azul e menina, rosa. Os pais esperam para sair às compras apenas após saberem o sexo do bebê. Os parentes preferem não arriscar e presenteiam tudo amarelo. Serve para os dois. Morrem de medo de trocar as cores. Principalmente se for homem. Imagina o que os outros vão dizer ? E a confusão na cabecinha do menino ?

O tempo passa e as coisas não mudam, até o rapaz resolver vestir uma camisa rosa e sair por aí. A mãe estranha, mas até que acha que a cor lhe caiu bem. Ficou bonitão, as meninas vão gostar, pensa em silêncio para o pai não ouvir.

É cruzar pelo primeiro amigo e lá vem a primeira gracinha: “Pegou a camisa da irmã ?”. O colega na escola não deixa passar em branco e tasca um sorriso malicioso logo de cara. Ele fica vermelho de vergonha, mas dá de ombros às convenções.

Durante toda a vida será assim. Na faculdade, no clube, na família, no primeiro emprego, no trabalho atual. É chegar no escritório e os olhares se voltam para a camisa rosa. Alguns murmuram notas desafinadas da “Pantera”. Das colegas até surgem elogios pelo bom gosto, mas também há as que deixam escapar comentários em tom de brincadeira. O amigo da Igreja não perde a oportunidade de tirar uma casquinha. Só por que ele é crente não vai agir igualzinho ao ateu ? É até pior.

Ninguém fica indiferente diante de um homem vestindo rosa. A cor é reveladora.

Volto a espera da verdade, em 2010

 

A chegada de 2010 não nos deu tempo de remoer 2009, devido as tragédias anunciadas no litoral carioca e na capital e interior paulistas. As autoridades, tenham qual seja o sotaque regional ou político, falaram sem fugir do manual preparado por suas assessorias de marketing. Culparam o passado – que pode ser a gestão anterior ou o trabalho não feito nos últimos 30 anos – e anunciaram decisões para o futuro, sem se importar com o fato de que a população precisa de uma saída agora. Meu medo é que ao dizerem o que dizem o façam com a certeza da verdade.

Depois não entendem a descrença do cidadão com “tudo isso que está aí”. Ficam a justificar a queda da popularidade nos métodos das pesquisas em vez de olharem para os seus próprios modos. Correm em busca de um espaço nobre na mídia para venderem uma imagem que construíram nos gabinetes e se desmanchou no primeiro temporal de verão. Chegam ao absurdo de culpar o clima pela incapacidade de gerenciar crises.

Neste clima, volto nesta quarta ao CBN São Paulo, após sete dias fora do ar, resultado de um sistema de plantão comum nas redações jornalísticas em fim de ano. Período interessante pois dividi a angústia pelos acontecimentos em destaque no noticiário com o prazer de estar mais próximo da parte mais distante da família – aquela que se manteve lá pelo Sul do País, onde a tragédia das enchentes também deixou suas marcas.

Com eles e mais alguns amigos aproveitei o pouco que restou de São Paulo nesta virada de ano, além de chuva e engarrafamento (da capital a Guarulhos foram quase três horas no carro). Menos mal que o que me motivava era a companhia de todos.

Para ficar no campo das notícias, a melhor veio de Porto Alegre ao ouvir novamente – nessa segunda – a voz de Milton Pai na Rádio Guaíba, depois de seis meses de estaleiro. Que ele seja portador de boas novas neste ano.

A todos, um 2010 de verdades (é o que queremos ouvir, senhores e senhoras candidatos) !

Deixa de bobagem, Miss tem de ser bela

O escracho ganhou novo combustível com mais uma edição do concurso Miss Brasil. Programas de humor deitaram e rolaram nas meninas que representam seus Estados. Na internet, a tentativa de uma candidata a Missa Santa Catarina responder a uma pergunta sobre a relação dos Estados Unidos com o aquecimento global está bombando.A pergunta foi tosca e mais enrolada do que as de jornalistas-convidados do Roda Viva (ops, eu já fui convidado). A moça nitidamente não entendeu o que o âncora do desfile queria saber. Ela estava muito mais preocupada em colocar a mostra todos seus dentes em meio a uma boca exageradamente marcada pelo batom vermelho. Precisava manter a coluna ereta para que o bumbum empinasse para trás enquanto os seios se apresentavam ao público. O olhar mirava o corpo de jurados freneticamente. Fora o esforço para equilibrar o penteado feito por algum cabeleireiro de plantão.

Travada, desesperada, sem perder a pose, a menina gaguejou uma, duas, três vezes até o apresentador tirar-lhe o microfone e pedir uma salva de palmas sei lá ao quê.

Inventaram anos atrás que as candidatas a Miss deveriam derrubar o estigma de que mulher bonita é burra. Burro daqueles que imaginam que isto é uma regra. Uma coisa não elimina a outra nem a outra elimina a coisa.

Nos concursos, em especial o Miss Brasil, deixaram de lado o questionário be-a-bá:

Qual o livro preferido ?
O Pequeno Príncipe.
Um ídolo ?
Jesus Cristo.
Uma mulher ?
Minha mãe.
Uma mensagem ?
Pela paz mundial.

Perguntas supostamente mais bem elaboradas passaram a ser feitas às meninas que tiveram de decorar uma série de lugares-comum para atender a expectativa dos organizadores. Ou dos chatos que assistem a estes concursos e esperam ver na passarela candidatas a uma vaga na USP. Deve ser algum fetiche.

As mães das misses, coitadas, passam a véspera do concurso obrigando as filhinhas a fazerem a lição de casa enquanto provam o vestido, acertam o cabelo, discutem a maquiagem e reclamam da dor no dedo causada pelo sapato de salto muito alto.

Das muitas asneiras que assolam o país, a tentativa de transformar aquelas belas mulheres em supostas intelectuais é apenas mais uma. Por que diabos devem saber como combater o desmatamento na Amazônia se nem o governo o sabe ? Por que raios são obrigadas a responder sobre o combate a fome se não é a carne delas que vai resolver o problema das criancinhas pobres ? Por que, diga-me Deus, queremos que entendam de economia global se sequer os economistas entenderam por que o mundo quase acabou dia desses ? Por que não exigir delas a única coisa que se espera que elas sejam: belas, formosas e volumosas ?

Fizeram do concurso de beleza uma tortura para quem concorre e para quem apenas aprecia. Um desfile de constrangimento.

Assassinatos de Battisti não tiveram motivação política, diz Maierovitch

Cesare Battisti

Poucos brasileiros falam com tanta sobriedade e autoridade sobre a extradição – ou não – do assassino italiano Cesare Battisti como meu ex-colega de rádio CBN Wálter Maierovitch. Discutiu o tema no extinto quadro Justiça e Cidadania, tratou na coluna semanal na revista Carta Capital e aprofundou no site do Instituto Brasileiro Giovanni Falconi que mantém com o objetivo de debater o combate ao crime e o respeito aos direitos humanos. Chamou atenção do ministro da Justiça Tarso Genro para o caso que este tinha em mãos. Explicou as diferenças entre ações políticas e criminosas. Entre terror e horror.

Maierovitch relata em coluna escrita no ano passado:

“No dia 6 de junho de 1978, por volta das 16h50, Battisti e o parceiro Diego Giacomini, com barba e bigodes falsos, entraram no açougue de Lino Sabbadin. Perguntaram para a vítima se ela era Lino e, depois de um sim, mataram-no com quatro tiros.

Pouco antes, por volta das 15 horas e na cidade de Milão, Battisti idealizara outra execução, a do joalheiro de periferia Pierluigi Torrigiani. Quando a vítima abria a porta da joalheria, houve o surpreendente ataque a tiros. A vítima, depois de atingida, conseguiu puxar a sua arma. Ao cair no chão, a arma disparou e um projétil atingiu o filho adotivo Alberto Torrigiani, que ficou hemiplégico e utiliza uma cadeira de rodas. O joalheiro Torrigiani, como o açougueiro, não era militante político. Nos dois assassinatos não houve qualquer motivação político-ideológica. Torrigiani, certa ocasião, estava jantando num restaurante de nome Transatlântico e participou da reação a um assalto, que resultou na morte dos dois assaltantes. Não sabia que eram ligados a Battisti, que, em represália, urdiu e participou do projeto covarde de assassinato de Torrigiani.”

Não foi ouvido.

Resultado: Battisti ficará sobre a “proteção” brasileira, desde que Lula não reveja a decisão de seu comandado.

Em conversa por e-mail com Maierovitch, após anúncio de Genro, o presidente do IBGF disse que se envergonha do Brasil, neste caso, e lembrou que “durante a ditadura militar, os que torturaram e mataram os que lutavam contra o regime de exceção, devem ter se alegrado com a decisão de Genro. Afinal, eles podem dizer que foram crimes políticos”.

Leia o texto sobre o caso publicado hoje no site do IBGF:

Por que me envergonho do Brasil – 15 de janeiro de 2009

Outros textos de Wálter Maierovitch no IBGF:

“Extradição de Cesare Battisti. Um Noir para o Judiciário”  – 30 de junho de 2008

““O Desinformado de Berna e o caso Battisti” – 15 de outubro de 2008.

Direitos Humanos: Na mesma medida
– 17 de agosto de 2008.

Grafite em homenagem aos 455 anos de São Paulo

Nova painel de Eduardo Kobra

O grafiteiro Eduardo Kobra pretende entregar este painel à cidade de São Paulo no dia 25 de janeiro quando comemoram-se os 455 anos de fundação. Ele e mais quatro artistas têm trabalho em um espaço minúsculo de calçada na avenida 23 de Maio, próximo do viaduto Tutóia, e pendurados em escadas. Não bastasse a dificuldade natural de uma obra com cerca de 1.000 metros quadrados e o trânsito frenético de carros que passam muito perto deles, o artista ainda sofre interrupcões da polícia. PMs tentaram impedir a pintura por confundirem o grafite com pichação.

O mural apresenta uma cena paulistana na década de 20 e quando pronto vai misturar no mesmo espaço antigos calhambeques que rodavam na cidade e os modernos carros que circulam pela 23 de Maio. Antes que alguém os critique pelo “vandalismo” – expressão que muitas vezes carimba a imagem dos grafiteiros -, a obra tem autorização da prefeitura de São Paulo. E a grana para o trabalho e dos próprios artistas.

Inspeção veicular: Por que pagar taxa se a prefeitura vai devolver ?

Dois dias, uma entrevista e uma nota depois, a prefeitura de São Paulo conseguiu oferecer resposta a pergunta feita pelo CBN SP que está na cabeça de boa parte dos proprietários de veículos obrigados a realizar a inspeção ambiental veicular.

Há algum tempo, donos de carros em São Paulo enviam mensagens ao programa querendo saber por que tem de pagar “taxa” para realizar o serviço se a prefeitura vai devolver o dinheiro ?

Há quem diga que “o dinheiro não será reembolsado”. Outros alegam que o objetivo é “tirar o dinheiro do cidadão”. É a “sanha arrecadatória”, criticam. Ou um argumento bastante comum e simplista quando se trata da relação com o Estado: “É sempre assim”. Esclareço que as frases acima foram reproduzidas de e-mails de ouvintes-internautas

Não acredito nestas possibilidades. O retorno do dinheiro está previsto em decreto de no. 80 da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente, comandada por Eduardo Jorge que é dos agentes públicos mais sérios que conheço. Bem verdade que não há prazo determinado para a devolução do dinheiro nem está concluído o site pelo qual o pedido de reembolso será feito. Há uma promessa de que 30 dias após o pedido ser feito pela internet, a “taxa” de pouco mais de R$ 52 será recuperado, dentro de algumas regras como não ter nenhuma dívida com o município ou estar com o IPVA em dia.

O objetivo do CBN SP era apenas entender a lógica que moveu a prefeitura a tomar esta decisão: cobrar e devolver.

Na segunda-feira, a prefeitura de São Paulo foi procurada pela produção do CBN SP. A alegação é que não havia alguém competente disponível para falar. Conversamos com o advogado Raul Haidar, reconhecida fonte na discussão tributária, que fez duras críticas a cobrança da “taxa” e à própria relevância do serviço. Haidar não encontrou na legislação respaldo para a medida adotada pela prefeitura.

Na terça-feira, após nova abordagem da produção do programa, a prefeitura decidiu escalar o secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Negócios Jurídicos, Zenon Marques. Na primeira resposta, o secretário criticou Haidar e disse que este havia “destilado seu fel” e confundido taxa com preço público. Justificável a reação, pois acabará de ouvir uma edição feita pela CBN com as reclamações do advogado.

Na resposta seguinte, porém, não foi capaz de dizer a única coisa que realmente nos interessava: por que cobrar e devolver o dinheiro ? Insisti. E o tema não foi esclarecido. Tentei mais uma e mais outra. Nada. O secretário já parecia impaciente com as perguntas. Desisti. E antes de o progama se encerrar comentei como é frustrante quando se pretende esclarecer assuntos de interesse do cidadão e não se alcança este objetivo.

Naquele momento, a própria prefeitura admitia que a escolha do entrevistado não havia sido feliz e sugeriu nova entrevista nesta quarta-feira. Aleguei que preferia uma nota por escrito.

A nota da prefeitura foi enviada às nove da noite de terça-feira em quatro laudas e com respostas separadas em 11 ítens, dos quais dez eram para respoder ao que a Secretaria de Negócios Jurídicos entende serem equívocos do advogado Raul Haidar. Ao que nos interessava – e imagino que a você cidadão, também – apenas uma resposta que reproduzo a seguir:

“Os motivos de cobrar a taxa e depois restituí-la aos munícipes: Incentivar aos bons proprietários que apresentarem os seus veículos em ordem. Só os veículos que forem aprovados na inspeção é que terão a restituição do valor. Como não é possível identificar previamente os veículos que serão aprovados, não há como dispensar o pagamento prévio”.

Para a prefeitura, portanto, a “taxa” é pedagógica, não bastando a punição ao motorista de ficar impedido de realizar o licenciamento do carro caso não faça a inspeção veicular.

Não entrarei na discussão se a justificativa é válida ou lhe convence. Deixo para que você dê sua opinião. Mas com certeza teria sido mais produtivo e útil para o cidadão – assim como para a própria prefeitura – se desde o primeiro momento tivesse sido feito este esclarecimento.