Cochichos e recados nos caminhos do Morumbi 2014

 

Direto de Roma/Itália

Toda vez que o presidente Lula abre a boca pra falar de Copa, o projeto Morumbi’14 sai da gaveta novamente, onde está guardado com pastas e documentos importantes que podem decidir o destino do estádio de São Paulo.

No lançamento do estranho logo para o Mundial do Brasil, Lula passou recado ao prefeito da capital paulista Gilberto Kassab (DEM), que está na África sob a alegação de que precisa conhecer programas e soluções desenvolvidas por aquelas cidades.

Kassab foi, na verdade, fazer política, não planejar.

As constatações do prefeito de que São Paulo não deve nada ao sistema de transporte de Johannesburgo e seria impossível construir um Soccer City com dinheiro público poderiam ser feitas de dentro do gabinete dele, no Viaduto do Chá. Haja vista que ao planejarem a Copa da África, as autoridades sul-africanas foram a São Paulo, especificamente na região do ABD paulista, passaram por Curitiba e esticaram viagem a Bogotá, na Colômbia, para entender como transportar passageiros com qualidade. Devem ter ficado presos em congestionamentos na cidade de São Paulo, onde não se investe em corredores de ônibus, há bons anos.

E como Kassab foi fazer política, voltará da África com o recado do presidente lhe coçando a orelha: “Continue a brigar pelo Morumbi” – está no Blog de Cosme Rímoli, em 08/07/10.

Há pouco mais de um ano, em outro cochicho nem tão baixo assim, Lula falou ao Ministro do Esporte, Orlando Silva Júnior, durante cerimônia no estádio do Morumbi: “Diga ao Ricardo (Texeira) para parar de falar m…. . É preciso baixar a crista dele. O Morumbi é o estádio de São Paulo para a Copa” – descreveu Juca Kfouri em 24/06/09

Pode parecer uma contradição (mas só a quem mantém a visão ingênua de que tudo é uma questão de preferência clubística), o corintiano Lula tem sido o “Embaixador do Morumbi” desde o primeiro minuto de jogo e seu esforço aumentou após encontro com o presidente do São Paulo, Juvenal Juvêncio – o mesmo que ao assinar nota em resposta a exclusão do estádio da Copa, ameaçou: “A Justiça é filha do Tempo. O Tempo é o Senhor da Razão. O Tempo dirá. E nós também” (16/06/10). Dirá o quê ?

Há quem não consiga dissociar a frase final daquela nota com o comentário presidencial, na cerimônia africana, de que o Brasil é feito de gente que não desiste nunca. Disse isso em uma das três vezes nas quais citou nominalmente Ricardo Teixeira, durante a cerimônia. Mais do que um slogan, um alerta ?

Destacou, também, o necessário combate a corrupção na Copa 2014. Quando, aliás, não será mais presidente do Brasil: “pode contar comigo no que for necessário” – fez questão de avisar a Teixeira.

Terça-feira (07/07/2010), já em solo africano, em outra das suas frases, Lula não foi descuidado na fala: “Se a CBF adotasse o que eu adotei quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, a cada oito anos a gente trocava a direção da CBF. No sindicato a gente trocava”.

Quanto a Kassab, não-alheio a discussão, voltará a São Paulo talvez com a bagagem vazia de projetos urbanísticos, mas com um aparente alívio: poderá reaproximar seu discurso pró-Morumbi ao do Palácio dos Bandeirantes, de onde se ouvia dos corredores críticas pesadas contra o alcaide. E, ao mesmo tempo, costurar com investidores a construção do Plano B, ou P, o Piritubão.

Desembarcará em São Paulo, com um pé em cada estádio.

Por enquanto, vizinho do Palácio, Juvenal Juvêncio só abre a gaveta de seu escaninho, cheia de pastas e documentos, pra remexer no projeto de reforma do estádio do Morumbi.

É das conversas ao pé de orelha, bate-papo nos bastidores e recados indiretos que se constrói o caminho para São Paulo ser sede da abertura da Copa do Mundo de 2014. Ou qualquer outra coisa que tenha o mesmo valor.

Torci pelo time do Pedro

 

Direto de Roma/Itália

Comecei a partida torcendo pela Alemanha. Sei lá se você é daqueles que consegue sentar diante da TV e assistir a um jogo de futebol sem tender por um ou outro lado. Eu, decididamente, não. Escolhi os alemães por questões familiares, e após a vitória contra a Argentina em que vi jogadores germânicos driblando pra cá e pra lá, desconfiei que ali havia resquícios do futebol-arte que um dia esteve no Brasil.

Poucos minutos haviam se passado até que minha fidelidade fosse colocada à prova. A Espanha, que diziam ter um jogo festivo, marcava a saída de bola, seus atacantes – gente de talento – não deixavam os alemães trocarem passe. E como erraram passes os alemães.

Uma assistência para Villa que fez o goleiro Neuer sair a seus pés mexeu comigo. Um cruzamento forte da direita que encontrou Puyol me chamou atenção. Chutes do ataque espanhol de fora da área mostravam quem tinha mais chances de marcar primeiro.

Foi, porém, no início do segundo tempo que virei casaca, definitivamente. E o responsável foi um cara que não tem nome composto, charmoso nem famoso como Xabi Alonso, David Villa ou Andrés Iniesta. Ele se chama apenas Pedro, veste o número 18, não chega a 1,70 de altura e, apesar de estar às vésperas de fazer 23 anos, já tem muita história pra contar.

É o único jogador do Barcelona a marcar um gol em seis competições diferentes em uma mesma temporada. Da Copa del Rey ao Mundial de Clubes, deixou sua marca em 2009. Foi aposta espanhola para esta semifinal substituindo Fernando Torres. E deu muito certo.

Habilidoso nos dois pés, Pedro fez uma jogada especial pelo lado direito. Driblou um, dois, três, se não me engano, havia também um quarto alemão no caminho. E todos ficaram para trás com cara de desesperados. Ciente de seu papel de coadjuvante, entregou um presente para o companheiro Alonso que desperdiçou o ataque chutando para fora. A televisão, teimosamente, repetia o chute errado e se esquecia de registrar o lance mais interessante do jogo.

Daquele momento em diante, os italianos que assistiam à partida comigo não tinham dúvida de que minha torcida era espanhola. E, aos poucos, eles também se entregaram. A seleção comandada por Vicente Del Bosque – que tem cara daquele avô simpático e satisfeito com o que a vida lhe ofereceu -, contaminada pelo estilo Barcelona de ser, tomava conta do jogo, apesar da insistência da Alemanha em estragar a festa.

O futebol bacana dos alemães, responsável por três goleadas e os melhores desempenhos na Copa da África, não apareceu diante da intensidade dos espanhóis. Mas a seleção treinada por Joachim Loew é jovem – a mais jovem que a Alemanha já reuniu – e, portanto, é de se esperar que seu estilo de jogo ainda possa oferecer bons espetáculos até a Copa do Brasil, em 2014.

A Espanha começou a Copa decepcionando muitos dos que esperavam um show a cada partida, e quando tinha boa performance parecia se satisfazer mais em tratar bem a bola do que colocá-la dentro do gol – fez sete em seis jogos.

Nesta semifinal, mostrou que mesmo quem pretende jogar bonito precisa marcar bem – e até aqui levou apenas dois gols em seis jogos. Houve excessos em alguns momentos e isso é comum quando sobra talento, mas ver que o gol surgiu de jogada pragmática – cobrança de escanteio e cabeceio de um defensor – revela, também, que a Espanha sabe que o caminho da vitória nem sempre está no toque de calcanhar, no drible legal ou em uma jogada fantástica.

Vê-la na final é motivo de satisfação. Mostra que mesmo com os esquemas táticos rígidos e fechados que imperam na maioria das seleções, o futebol moderno ainda tem espaço para o drible, para um toque sutil e para o talento.

A Espanha está na final. O futebol agradece.

E pra mim será muito simples escolher alguém pra torcer no domingo: o time do Pedro.

Propaganda, simulação encantada

 

Por Carlos Magno Gibrail

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Hoje, a propaganda brasileira, forte em números e em criatividade, com R$30 bilhões de faturamento anual e 57 Leões em Cannes, além do título de Agência do Ano pela AlmapBBDO, não depende tanto da política, quanto esta dela.

Entretanto, pela evolução dos últimos anos, a propaganda nacional ficará cada vez menos brasileira, e a sua dependência dos governos e candidatos poderá se tornar significativa.

A globalização e o poder das multinacionais estão concentrando em 17 agências 13 bilhões de faturamento anual dos 30 bilhões de reais de todo o setor.

A conta de propaganda paga pelo governo Lula -Presidência, Ministérios e Estatais – nos últimos seis anos aumentou em 48%. De 2003 a 2009 foram gastos 7,7 bilhões de reais, e apenas de 2008 para 2009 houve a evolução de 796 milhões de reais para 1,17 bilhões de reais.

As campanhas governamentais, a preço de tabela, que são normalmente feitas para o poder público, pois o setor privado é brindado com descontos, aumentaram de 2007 para 2008 de 2,26 bilhões de reais para 2,77 bilhões de reais, de acordo com levantamento do Grupo de Mídia de São Paulo.

Enquanto São Paulo passou de 59,3 milhões em 2007 para 158,3 milhões em 2008, o deputado Luis Carlos do Amazonas informa que São Paulo tem gasto de R$ 2,32 por pessoa, Rio de Janeiro gasta R$ 1,72, Pernambuco gasta R$ 3,7, Bahia gasta R$ 1,45 e Paraná gasta R$ 1,00, no Amazonas a taxa é de R$ 14,00 per capita.

Mas, tão importante quanto os números, é o aspecto ético não comprometido, pois de acordo com a Constituição

A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos” (artigo 37, XXII, § 1.º).

Constatamos que a realidade não é esta postulada pela Constituição.

É o que Jean Baudrillard chama de: “Simulação desencantada – o pornô – mais verdadeiro que o verdadeiro – este é o máximo do simulacro”, que encontramos nas comunicações governamentais com o objetivo da promoção pessoal através do simulacro da divulgação informativa ou de orientação social.

A partir de 3 de julho até 3 de outubro ou 31 se houver segundo turno, os governos federal,estaduais e municipais estão proibidos de veicular qualquer tipo de propaganda que possa ser caracterizada como favorável às administrações.

O que poderia ser um período de purificação passa para o que Baudrillard chamaria de “Simulação encantada – mais falso que o falso – este é o segredo da aparência”, da qual os candidatos vão se travestir e investir. Fecha a propaganda dos governos e abre a campanha dos candidatos.

Dilma na segunda-feira anunciou gastos de propaganda de 157 milhões de reais, Serra de 180 milhões de reais, e a modesta Marina 90 milhões de reais. Como bem rotulou no Estado de 3 de junho Eugenio Bucci, é a época em que : “A propaganda eleitoral vai ao paraíso”.

A eleitoral vai, mas a institucional em espera voltará cada vez de forma crescente, de acordo com a tendência desafiadora dos anos recentes.

É hora de eleição, e é preciso detectar a simulação e ir para a ação.

Do veto através do voto.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung


* Foto de propaganda nazista mostra jardim de infância para crianças alemãs e enfatiza a função materna na Alemanha, o resultado nós conhecemos (Alemanha, 1941)

Faltaram os artistas da bola

 

De Ansedonia/Itália

Meninos brincam na praia

Dois irmãos brincam na praia de Tagliata, em Ansedonia, onde fica a velha casa de Puccini. Não me parecem meninos muito interessados com o que a obra criada pelo mestre da música nos oferece. Jogam futebol dentro d’água. Ou algo que se pareça com isso, pois usam muito mais as mãos do que os pés. Se divertem com uma dessas bolas de supermercado que ganham efeitos especiais com o vento que vem do Mediterrâneo.

De vez em quando, um deles tenta uma bicicleta e nas vezes que acerta, grita o nome de Ronaldo. Pela barriga do adolescente poderia pensar no Fenômeno; mas pelo malabarismo e proximidade só posso crer que se refira ao Gaúcho, que veste a camisa do Milan, por enquanto. O irmão parece torcer pela Juventus, pois se alcança a bola, narra como se fosse uma defesa de Buffon e, se espanta pra longe, chama por Cannavaro.

Tantas as vezes que ouvi da areia da praia o nome de Ronaldo que lembrei de outra figura pela qual cruzei quando estive em Cidade do Cabo, na primeira fase da Copa. Era um pintor de rua, desses que com alguns randis na mão e muita paciência para pousar fazem sua imagem nem sempre semelhante. Na espera de clientes, ele retocava um quadro que simulava uma disputa de bola entre Ronaldinho Gaúcho, com a camisa do Brasil, e David Beckham, com a da Inglaterra.

Craques na pintura

Dadas as circunstâncias desta Copa, a obra do pintor era quase uma ficção, pois os dois craques estavam fora de campo. Ronaldinho sequer foi convocado enquanto Beckham, devido a lesão, ganhou o direito apenas de desfilar seus ternos no banco inglês. Perguntei ao artista por que os dois e não jogadores que estivessem disputando o Mundial: “porque eles são artistas”, respondeu.

Têm razão, tanto os meninos de Tagliata quanto o pintor do Cabo. Se é para criarmos, idealizarmos um mundo perfeito, são as estrelas que devemos exaltar. E se algo chama atenção na Copa da África é o fato de chegar às semi-finais sem um candidato à craque.

Os mais cotados até a bola rolar frustraram as expectativas do torcedor. No Brasil, sem que a Ronaldinho fosse dado o direito de brilhar, Kaká jogou pela metade. Fez poucas arrancadas, sua jogada típica, e nenhum gol. Cristiano Ronaldo, de Portugal, ensaiou passes e dribles, mas produziu quase nada. Rooney, da Inglaterra, Drogba, da Costa do Marfim, e Etoo, de Camarões, não foram nada bem. Messi, da Argentina, foi quem mais rendeu, mas ficou devendo um gol e sumiu quando o time precisou dele, na derrota para a Alemanha.

Das quatro seleções que disputam vaga para a final, a partir de hoje, aparecem jogadores de qualidade. Na Holanda, Sneijder e Robben, e no Uruguai, Fórlan; na Alemanha, Podolski, Müller, Klose e Özil, enquanto na Espanha, Villa e Iniesta. Ressalto: são jogadores de qualidade, não craques (claro que adoraria tê-los no meu time e na seleção).

Qualquer um deles tem chances de se destacar no pôster do Campeão Mundial de 2010 – e merecem -, mas para se transformarem em personagem de uma obra de arte (ou um quadro de rua) e alimentarem a imaginação das crianças que brincam na praia precisarão ir muito além do futebol mostrado até aqui.

Ônibus rodam com pintura fora do padrão

 

Obrigados a mudar constantemente o visual, empresas alegam não terem tempo para colocar veículos nas ruas dentro das exigências feitas pela EMTU como mudanças na cor e destaque para nome do Governo do Estado de São Paulo

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Por Adamo Bazani

As empresas de ônibus que operam linhas intermunicipais nas três Regiões Metropolitanas do Estado de São Paulo têm sido obrigadas a alterar suas pinturas a toque de caixa, por exigência da EMTU – Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos. Os serviços de funilaria e pintura não param sequer aos domingos e nossa reportagem constatou que empresas com frota menor ou mais antiga têm liberado veículos com pinturas incompletas para atenderem as escalas.

Muitos usuários criticam a padronização pois preferem que cada empresa tenha sua identidade visual própria. Pior, porém, é a ‘falsa’ padronização. Isso ocorre pela pressa das empresas em atender as exigências da EMTU. O serviço não fica bem acabado e informações visuais como nome da gestora, da empresa e a indicação que o ônibus é de serviço intermunicipal e metropolitano acabam, literalmente, ficando em branco.

Literalmente porque a “grande” mudança de padrão de pintura dos ônibus intermunicipais foi a troca do detalhe na cor vermelha para a cor branca no desenho da EMTU, imposta às empresas que transportam passageiros entre municípios dentro das regiões de São Paulo, Campinas e Baixada Santista. As viações confirmam, mesmo que não oficialmente, a pressão para a mudança no detalhe da cor.

Além de pinturas incompletas, sem informações, esta pressa faz com que os trabalhos não sejam feitos de maneira ideal e, em vez de todos os ônibus apresentarem um lay out único, como é a proposta da padronização, que ocorre em São Paulo desde os anos de 1990, cada empresa acaba colocando prefixos em lugares diferentes, nomes da viação, da EMTU, o símbolo da gerenciadora e a inscrição “metropolitano” em tamanhos de letras desiguais de companhia para companhia.

As cobranças são tantas que até veículos antigos que estão prestes a serem vendidos têm de ser pintados de acordo com a mudança estipulada pela EMTU no ano passado.

Oficialmente, a EMTU desmente que as empresas estejam sendo pressionadas e não reconhece que as alterações a toque de caixa têm provocado serviços incompletos. Segundo a gestora, erros na pintura são de responsabilidade das viações que recebem todas as indicações para seguir os padrões visuais.

Nossa reportagem ficou por apenas 15 minutos próximo a um hospital em Santo André, no ABC Paulista, na tarde de domingo, na rua Coronel Alfredo Fláquer e constatou as diferenças entre os veículos e pinturas incompletas.

O primeiro veículo intermunicipal a passar foi da Empresa Auto Ônibus Circular Humaitá. O ônibus estava sem a inscrição “Governo do Estado de São Paulo”, sem o nome da gerenciadora (EMTU) e sem a inscrição “Metropolitano”, que indica que a linha liga pelo menos dois municípios. Em seguida veio um carro da Viação São José de Transportes. A pintura estava completa com o nome da empresa, gerenciadora e símbolo do sistema metropolitano. Logo atrás, veio um EAOSA com os mesmos dados, porém com caracteres diferentes, menores que os da empresa anterior.

Adamo Bazani, busólogo, repórter da CBN e observador

NB: Para ver as imagens dos ônibus citados neste texto, visite o álbum do CBNSP no Flickr

Dunga e Felipe Melo, desculpas que o Brasil precisa

Direto de Roma/Itália

Brasil esfarrapado

A ‘coerência’ e mau humor de Dunga, a falta de cabeça de Felipe Melo e, por que não, o pulo fora de hora de Julio César são as desculpas que o Brasil precisa para explicar a si mesmo a saída antecipada da Copa da África. Nunca somos derrotados, pois somos insuperáveis. Sempre perdemos por nossas causas individuais, jamais por nossa incompetência coletiva.

Barbosa foi nosso Cristo em 50, não se pensou na qualidade da seleção do Uruguai que havia goleado adversários e vencido o próprio Brasil em amistosos antes da Copa. O ‘apagão’ de Toninho Cerezo explica para muitos o desastre no Sarriá, em 82, sem que se perceba a praticidade do futebol italiano. A amarelada de Ronaldo, em 1998, e as meias arriadas de Roberto Carlos, em 2006, esconderam na crônica a superioridade dos azuis da França comandados por Zidane.

No aeroporto, leio no Portal Terra, torcedores foram taxativos: Felipe Melo é vacilão. O dedo apontado de maneira acusativa não considera o fato dele integrar um grupo, fazer parte de uma estratégia tática, ser apenas um em meio a multidão de falhas. O volante brasileiro parece ter costas largas suficientes para carregar a frustração de um povo que não perdoa o erro, mesmo que ele próprio erre em tantas outras coisas.

Nos comentários deixados neste blog, há quem prefira acreditar em esquemas mirabolantes a tirar o Brasil da Copa. Gostaria apenas que me ajudassem a entender se desta conspiração fizeram parte os zagueiros brasileiros que deixaram o holandês cabecear sozinho após um escanteio; Kaká que completou jogada genial no primeiro tempo com um chute colocado no ângulo que não se transformou em gol graças ao esforço do goleiro adversário (vai ver ele também fez parte da conspiração); ou mesmo Dunga que não convocou Ganso talvez para ficar, propositalmente, sem opções melhores no banco. Mick Jagger e seu pé frio estariam nessa, também ?

Precisamos sempre de um culpado, uma figura capaz de resumir nosso fracasso e nos eximir de qualquer responsabilidade, e não nos permitimos admitir a superioridade do oponente. Esquecemos das falhas estruturais do futebol brasileiro, da falta de organização dos campeonatos, do desrespeito aos torcedores e dos clubes falidos comandados por dirigentes abastados.

A seleção é reflexo do que ocorre no futebol de um país, mesmo que a maioria dos convocados há muito não jogue por lá. Fenômeno, aliás, que pode ser visto como causa e efeito das coisas que não alcançamos.

A forte presença de nossos atletas no exterior demonstra a capacidade natural do País em assistir ao surgimento de jogadores qualificados, ao mesmo tempo que destaca a incompetência para mantê-los em nossos clubes. Com isso, os times brasileiros não criam ídolos para cativar novos torcedores nem levar os já conquistados aos estádios (sem contar a desqualificação desses estádios).

Para a CBF, autoridade máxima do futebol brasileiro, pouco importa a condição vivida pelos clubes. Os atletas que servem a seleção não dependem deles. Enquanto houver empresas/agremiações suficientemente ricas para levá-los e mantê-los em atividade no exterior, que assim seja. Ganham experiência, convivem com o modelo mais organizado dos clubes europeus, em especial. E se ambientam com os adversários que enfrentarão nas competições internacionais.

Por curiosidade: com os brasileiros que disputam a série A do futebol italiano seria possível formar um time inteiro e seus reservas. Nas 20 equipes que iniciam a temporada 2010/2011 há uma relação de 18 jogadores nascidos no Brasil.

A fórmula, mal ou bem, tem dado certo, pois com todos os erros seguimos sendo os maiores campeões de todos os tempos e com chances de ampliar esta vantagem ao disputarmos em casa o próximo Mundial.

E quando perdemos um campeonato como este da África, desclassificados nas quartas-de-final, logo encontramos um culpado.

Dunga ou Felipe Melo – ou mesmo Júlio César, com todo o crédito por ele acumulado – são inocentes úteis dos cartolas que comandam o futebol brasileiro. Enquanto acreditarmos que nossas derrotas ocorrem devido a eles, bastará mudar o treinador, banir alguns nomes – como fizeram com Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho -, convocar outros que, provavelmente, estarão jogando no exterior e voltar a fazer promessas de títulos e conquistas.

Mudar para que o poder siga nas mãos dos mesmos sanguessugas da paixão do brasileiro. Para que tudo fique como está.

De boca e coração


Por Maria Lucia Solla

O que te mantém vivo? Dizem que você é o que come: Cuidado com o que entra pela boca! mas também dizem: Cuidado com o que sai dela.

No primeiro caso a gente ingere combustível para a máquina funcionar; e há quem afirme viver, há anos, única e exclusivamente, de água e da luz solar. Quem sou eu para duvidar!

No segundo caso não acredito que o cuidado more no cuidar com o que sai dela, porque só sai o que está dentro, certo? É lei da Física.

Na área controversa de alimentos tem os minerais, por exemplo, sobre os quais quando eu era pequena nem se ouvia falar. Sódio, potássio, iodo, cloro, ferro, magnésio, cromo; meu Deus do Céu, que suplemento eu tomo!

fibra fruta legume
nada de muito açúcar
nem muito sal
senão você passa mal

colesterol que sobe
colesterol que desce
tem o bom e o ruim
muito complicado para mim

cálcio zinco selênio
hormônio insulina
hemoglobina e proteína
dessa eu ouço falar desde que era menina

Naquele tempo, a saúde vinha da cor. A pele era amarela ou rosada, a gente ficava vermelho de raiva, verde de ciúme e roxo de dor. E sorria, quando estava tudo azul.

Lá em casa quem ditava a dieta era meu pai. Café da manhã tinha suco de tomate feitinho na hora, docinho, gelado, tomado de canudinho; dali vinha o vermelho. Da gema de ovo, da galinha do quintal, na colher, deitada numa caminha de azeite puro, é que vinha o amarelo e o dourado. Espinafre não podia faltar; dali vinha o verde fácil de assimilar.

Na nossa mesa tinha bife, feijão arroz, macarrão com molho vermelho, feito na panela que fazia a sua parte durante toda a manhã; sem pressa, no fogo lento. Encorpava o molho uma porção generosa de bifes enrolados, guardando recheio gostoso, amarrados por linha forte. Quantas vezes fiquei ali olhando minha mãe que bordava, um a um.

A vovó Grazia vinha toda semana e escolhia o feijão na mesa da cozinha: você vai, você fica. A vasilha no seu colo se enchia enquanto eu olhava maravilhada e intrigada. Que coisa! como ela é que ela sabia?! Mas criança falava pouco, de preferência nada, e eu olhava. Que saudade!

Hoje percebo que era de lá que vinha a saúde, era das mãos delas, não das panelas. Era da entrega, do saber a sua missão; e de cumpri-la. Confidentes, às vezes falavam de perto coisas de gente grande, de certo.

Hoje, sabendo daquelas coisas, me sirvo da memória para entender minha história.

A conclusão a que chego, agora, é de que o que te mantém vivo vem do outro e vem de dentro. Vem dele o olhar de compreensão, o nem sempre te dar razão, o te apoiar quando precisa e tirar teu apoio para que você aprenda a nadar.

o que te mantém vivo
não é cálcio proteína ou a boa digestão
é o que entra e sai da tua boca
o que entra e sai do coração

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Adoro listrado!

 

Por Dora Estevam

listrado3No próximo verão você vai, com certeza, usar pelo menos uma vez uma camiseta listrada. Se já não a usa.

Digo isso porque nos desfiles de tendências Verão’11 Paris, Milão e NY, todos apresentaram modelos com o tema LISTRAS ou náutico se preferir, tanto no feminino como masculino.

Mademoiselle Chanel (1883-1971) que gostava de usar duas cores – em plena juventude – sentiu-se atraída pela camiseta de um pescador e a transformou em uma peça da coleção; peça que nunca mais foi esquecida por estilistas do mundo inteiro.

E eu te digo, caro leitor, Chanel gostava de homens, por isso a inspiração no uniforme masculino. É verdade, enquanto os outros criadores de moda se exorcisavam de vivências infantis para as suas criações, Coco se inspirava em oficiais da cavalaria e escolas abastadas. Por isso, os casacos sem gola e a famosa camiseta listrada, não esquecendo das calças masculinas. Notavelmente a camisola listrada sem gola ou gola canoa (como era chamada a camiseta na época) era uma das peças preferidas de madame Chanel.

Mas nem só de glamour vivem as listras. No passado, elas eram usadas apenas por pessoas “do bem”: prostitutas, palhaços, boêmios. Na cultura medieval, ocupações como açougueiros, moleiros e outras consideradas menos nobres é que podiam usar roupas listradas.

As listras eram tidas como divisor de águas; o não puro, o transgressor, aquilo que dividia, que mudava, tudo contado no livro “The devil’s cloth: a history of stripes” escrito pelo historiador de arte francês Michel Pastoureau.

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Quando as listras começaram a ser popularizadas, elas eram feitas somente em peças íntimas; achavam que as listras podiam tocar apenas as partes “sujas” do corpo. Com o tempo todos os objetos que significavam proteção de barreiras contra a sujeira do nosso corpo eram listrados.

Já reparou como a maioria dos pijamas são listradinhos. Pois é, os medievais acreditavam que as listras serviam para impedir a influência nefasta dos demônios nos sonhos. Elas serviam como um filtro de proteção. No mundo contemporâneo podemos identificar as listras em muitos produtos do nosso uso; as roupas esportivas, pastas de dente, códigos de barras; e, sem dúvida, o vai e vem da moda.

Vertical ou horizontal. Até esta questão virou polêmica, veja só: quando o significado das duas cores foi mudando, elas passaram a ser usadas pela aristocracia, mas somente as listras verticais; as horizontais, imagina, eram usadas pelos serviçais e pessoas mais comuns.

Mas elas chamaram atenção pra valer nas revoluções (elas representavam transgressão, lembra?), a ponto de virarem figurinha fácil em bandeiras; pelo mesmo motivo, tornaram-se as queridinhas de artistas rebeldes.

A polêmica não para. Eu diria que nos dias atuais a preocupação é outra: se engorda ou emagrece.

A listra continua vilã. Vai engordar o quê? Vai emagrecer o quê? A roupa emoldura o seu corpo, não faz milagre – nem o tubinho preto. Ajuda se você tentar usar o velho e bom senso na hora de tirar uma dessas do armário.

De qualquer forma, o que importa é se você gosta e está com a produção em mente. Vá em frente e combine o que puder. Ou faça como os “transgressores”.

Adoro quando vejo páginas e páginas nos editoriais de revistas com as fantásticas produções de xadrez com listra e floral. Acho bem divertido. As variações são incontáveis. Modelos como blusas, vestidos, terninhos (risca de giz), tudo ganha poder quando o motivo é listrado. Agora já sabemos o porquê de os estilistas usarem listras nas coleções.

Listrado é simples, chique e sempre moderno.

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo no Blog do Míton Jung, às vezes vestindo listras

O menino chora

TV italianaDireto de Ansedonia/Itália

O menino chora. Era a primeira Copa dele. Via sua seleção jogar e não tinha dúvida em dizer aos colegas que seu time era imbatível. Ninguém pode com a gente. Certo estava que para ser campeão do Mundo faltavam apenas três jogos. Primeiro, a Holanda. Depois, Uruguai ou Gana, tanto faz. E na final, qualquer um que chegasse estava bom, pois a seleção dele era a melhor.

Um dia antes do jogo, passeou de mãos dadas com o pai e foi a um café na pequena cidade italiana de Orbetelo. Ali era o único lugar com acesso a internet nas redondezas. Queria mandar um e-mail para o avô e desejar boa sorte, pois sabia que ele também estaria diante da televisão torcendo pelo Brasil. Não conseguiu. A conexão caiu. E ainda teve de ouvir o dono do bar apostar na vitória da Holanda. Pois bem !

Hoje à tarde, vestiu uma réplica da camisa azul usada por Pelé na Copa de 58 e foi para casa de uns tios pouco interessados em futebol, mas que aceitaram lhe emprestar a televisão para ver o jogo no qual a seleção brasileira confirmaria toda sua confiança. Era um aparelho de tubo, daqueles modelos mais antigos, improvisado com uma antena colada com adesivo no alto para captar melhor a imagem. O nome dos jogadores e o tempo de partida não ficavam bem definidos. Não importava, a qualidade da seleção dele era nítida.

Ficou orgulhoso quando ouviu o narrador da Rai 1 dizer que havia assistido à mais bela jogada da Copa, logo depois de dois dribles de Robinho, um cruzamento forçado pela falta que recebeu, um toque de Luis Fabiano de calcanhar e o chute colocado, com endereço certo, apenas interrompido por um esforçado goleiro. É o meu Brasil, falou baixo.

Vibrou com a enfiada de bola de Felipe Melo que ofereceu a Robinho a oportunidade de marcar o primeiro gol do Brasil. Que golaço ! Eu não disse que os caras são muito bons ! É campeão, é campeão !

A voz dele estava isolada em uma cidade que parecia viver outro mundo, não tinham vuvuzela nem foguetes nem gritos dos vizinhos, como nas partidas que assistiu no Brasil. Pouco importa, dali pra frente, era só esperar o apito final do árbitro. Mesmo que ainda houvesse todo um segundo tempo para ser disputado não havia nada capaz de acabar com o sonho do menino.

De repente, o goleiro ídolo falha, o zagueiro confiável erra, o volante valentão é expulso. E nem o cara que ele mais admira neste time está em campo para ajudar. Elano ficou fora depois de uma patada que recebeu de alguém da Costa do Marfim. Mas ainda falta muito tempo. Só um gol, o empate, a prorrogação e ganhamos nos pênaltis. A gente ganha nos pênaltis, pai ?
O jogo segue, o tempo passa, o menino com as duas mãos no rosto da sinais de sofrimento. Ainda acredita em um lance de herói, capaz de mudar tudo que está se passando naquela TV. Em todas as suas histórias o super-herói surge para restabelecer a ordem, fazer justiça. Quem sabe agora ? Não, não foi. Dá um chutão lá pra dentro !

Os tios não entendem direito por que aquela agonia. É só um jogo de futebol.

O menino começa a entender. Começa a enxergar o que até então não havia visto direito. Nosso time pode ser bom, mas o outro quer ser melhor. E quando faz melhor, nos supera. A derrota é uma realidade possível, não apenas no jogo. E tem de ser enfrentada, porque não é definitiva.

Os três minutos de acréscimo não importavam mais. Ele não conseguia mais ver a imagem na TV, a voz do locutor anunciando a desclassificação do Brasil não fazia sentido, a bola chutada de um lado ao outro era um objeto estranho. Os jogadores, também. Não se pareciam com os das figurinhas que colocou na álbum com todo cuidado.

O apito final não quis ouvir. Levantou-se sozinho e saiu caminhando pra fora da casa. Não havia vuvuzela tocando nem foguetes nem gritos. Apenas uma lágrima e a descoberta de que não somos invencíveis. Nem no futebol, nem na vida.

Kaká, Robinho e Luis Fabiano, sem pudor

Direto de Roma

Os cinco amigos o esperam ansiosos no boteco em uma rua escondida no extremo sul de São Paulo. Lá é Cidade Dutra, distante do que você conhece, longe, mesmo para quem mora ali. Marcão, aquele torcedor sofrido que citei neste blog, há dois dias, chegou depois do expediente, durante o qual oferece segurança para a casa do patrão. A moto não havia sido desligada nem o capacete retirado e já ouvia a gritaria que vinha do pessoal sentado nas poucas mesas que enchem o salão.

Como um goleiro que repõe a bola em jogo, Marcão passou a mão na encomenda que havia recebido diretamente da África do Sul (“aí é mais barato, chefia”) e a chutou em direção a pequena porta que dá acesso ao bar. Os dois menos combalidos pela cerveja que regou o fim de tarde saltaram antes e conseguiram pegá-la ao mesmo tempo. Puxa daqui, empurra dali, o mais novo levou a melhor. Vantagem que não durou muito, pois o pessoal sem reflexo no primeiro arremesso aproveitou-se do entrevero para roubar-lhe o objeto.

Preocupado com o prejuízo que teria, Marcão gritou mais alto: “Para lá, para lá, essa Jabulani é minha e ninguém tasca”.

Os, agora, seis amigos reverenciavam de seu jeito a bola desta Copa, a mais criticada e querida (no sentido de “pedida”) de todos os tempos. A trataram como um troféu desejado e assim que tiveram um pouco de lucidez passaram a analisá-la de raio a raio. Não viam hora de testá-la no Peladão, campo de várzea da vizinhança que ganhou este nome devido a inexistência de qualquer vestígio de grama entre as quatro linhas, todas devidamente cavadas pelo tempo.

Inversamente proporcional às reclamações dos profissionais da bola, surgiu o desejo dos peladeiros no mundo todo pelo objeto fabricado pela Adidas, especialmente para a Copa da África. Seja no extremo de São Paulo, no comércio de Johannesburgo ou aqui em Roma – de onde escreverei até o fim desta Copa – não é difícil ver alguém comprando, carregando ou chutando a tal bola de supermercado, assim definida pelo goleiro Julio César – que não tem muito o que reclamar dela até aqui – e, posteriormente, comprovada em testes de laboratório.

Parece que todos querem exercitar seus dotes na Jabulani e desafiá-la. Ou desafiar os craques (?) da Copa: “Ela é tão ruim assim ou eles é que são pernas de pau?”. Jamais vão descobrir pois a bola vendida em lojas – e supermercados, também – com preço mais em conta tem diferenças em relação aquela que rola nos gramados da África. Com mais gomos do que a original, ganha mais atrito e oferece efeitos menos danosos.

O curioso desta bola não chega a ser os problemas que pode gerar, em especial aos goleiros. Mas o fato de o objeto ter ganhado vida própria com nome de batismo e tudo. Enquanto estive na África, ninguém me pediu para comprar uma bola, todos queriam a Jabulani.

Verdade seja dita, esta coisa de não chamar bola de bola é antiga aqui no Brasil e se iniciou com o pessoal do rádio que na criatividade de suas narrações a chamavam de tudo, menos de seu nome próprio: balão de couro, criança, menina, gorduchinha, maricota, leonor, pelota, perseguida, maria, redonda, nega, esfera, caroço, esférico, esfera de couro, margarida, caprichosa, pneu, bexiga, … (complete a lista se quiser).

Antigamente, também, os jogadores costumavam tratá-la de forma diferenciada, bem mais carinhosa. Era uma dama a ser cortejada, acariciada. Lembro de alguns que a beijavam antes de chutá-la. Quando pisavam nela, os locutores gritavam: “Tá chamando a bola de Vossa Excelência”. No Brasil, a bola sempre foi admirada como mulher, culpa da gramática que a apresenta como substantivo feminino.

Hoje, os craques que sobram não tem mais tempo para todo este apego, assim que a pegam precisam mandá-la em frente antes que um “zagueirão” chegue rachando e acabe com a graça da jogada. Nosso Elano, infelizmente, sabe do que estou escrevendo.

A bola – a Jabulani – anda com velocidade, sempre tocada com pressa nem sempre de pé em pé, resultado de um futebol moderno que exige cada vez mais força e – ao contrário do que críticos dizem – muito mais jeito para fazê-la chegar ao destino desejado. Por isso tendem a não alcançar seu objetivo.

Desconfio que a bola da Copa não trata ninguém mal, é maltratada por jogadores que têm cada vez menos tempo para intimidades com ela. Para estas quartas-de-final, sugiro que os técnicos destinem uma bola para cada atleta e que os obriguem a dormir abraçado nela para quem sabe, assim, comecem a tratá-la como uma amada amante.

Kaká é dos brasileiros o que mais deixa explícita sua relação sem limites em toques e assistências – uma contradição para um atleta recatado com sua vida privada. Robinho é o mais atrevido ao dançar com ela diante do adversário e, ao menos uma vez até aqui, enfiar-lhe nas redes. Luis Fabiano, sem vergonha, tem demonstrado capacidade de aproveitá-la de todos os jeitos. Por cima, por baixo, de primeira, de chapéu e, se preciso for, passa a mão nela.

Que amanhã, contra a Holanda, os três repitam esta falta de pudor.

O torcedor iria se apaixonar.