De diferença

 


Por Maria Lucia Solla


Ouça “De diferença” na voz e sonorizado pela autora

não somos todos iguais

a gente só sente
a sede da gente
a sede do outro
é indecente

O que a gente quer, do primeiro ao último dia de vida, é matar a sede e a fome; cada um a sua.

tem o que sai afoito atrás de qualquer tigela
qualquer cálice qualquer panela
e tem o que nem se atreve a cogitar
da própria sede aplacar

Tem o redondo, o quadrado, o triangular, o hexagonal e quantas forem as possibilidades de forma e receita, na prateleira do universo e do seu inverso, que cantamos e choramos em prosa e verso.

tem o agitado e o modorrento
o que corre pelo prado
e o que voa
no impulso do vento

E é aí que nós vivemos, tentando encontrar a nossa turma, a mais parecida e a mais diferente possível pra preencher a fome lícita e aquela proibida.

E na sofreguidão, morremos de inanição. Temos fome, temos sede e fazemos dieta de tudo. Que ironia. Uma regra nova a cada dia.

Um brinde ao fim da tirania do bom, do belo, do bem-estar, do vintém, do que não convém, da atenção e da falta dela. Abaixo as listas de bem-ou-mal isto e bem-ou-mal aquilo. Morte às listas de isso é brega e aquilo é chique. Tem coisa mais brega?!

Eu às vezes me desidrato; outras me afogo, mas cá ou lá, brilhando ou opaca, respostas não tenho; nem chego perto. Quando me aproximo de uma, saio correndo feito o diabo da cruz, e me entrego à incerteza, que é vizinha da loucura, da arte e da beleza.

incerteza abre espaço
pra possibilidade
que nos embarca nas asas da fantasia
transformando em realidade
o que antes era massa de sonho

E é onde quero estar, dia após dia, dos abrires aos fechares dos meus olhos,

ficar contente
despir no palco da vida
o personagem carente
será que não dá pra notar
que ser
é a única maneira de doar

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expresão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung,

Mais da metade dos moradores querem deixar São Paulo

 

Nova pesquisa sobre a percepção dos moradores de São Paulo mostra que o número de pessoas que querem deixar a cidade ainda é maior do que o daqueles que pretendem ficar por aqui. O trabalho é realizado pela Rede Nossa São Paulo, com coleta de dados do Ibope, e será entregue à cidade no dia 20 de janeiro. Reproduzo abaixo, parte do texto divulgado pela organização, agora à tarde:

Em resposta à pergunta “Caso pudesse, sairia de São Paulo para viver em outra cidade, ou não sairia de São Paulo?”, 51% das 1.512 pessoas pesquisadas responderam que sairiam. Outros 48% disseram que não sairiam e 1% não souberam ou não responderam.

Embora o percentual de moradores que revelam o desejo de morar em outra cidade ainda seja maioria, o índice caiu em relação à pesquisa anterior, realizada em dezembro de 2009. Na ocasião, 57% dos pesquisados disseram que sairiam de São Paulo, se pudessem. No ano anterior – em novembro de 2008 – o índice foi de 46%.

Outro dado já tabulado – e que, certamente, é um dos pontos que influenciam a vontade das pessoas de viver em São Paulo – está relacionado à sensação de insegurança. Para a pergunta “Pensando no seu dia-a-dia, que situações mais fazem com que você sinta medo na cidade de São Paulo?”, entre as respostas mais citadas estão: “violência em geral”, “tráfico de drogas”, “alagamentos” e “trânsito”

O cinema triunfa na Paulista

 

Por Carlos Magno Gibrail

Em outras regiões da cidade e do planeta terra, o cinema ao vivo tem ajudado a restituir ao mundo a verdade do mundo. É o que vimos há uma semana, quando um jovem foi agredido no rosto por outro jovem com lâmpada fluorescente.

Até então o grupo do agressor, apoiado por pais e advogados, inventaram situações e acusações infundadas. Bastou a imagem gravada para um dos advogados de defesa conscientizar-se e sair do caso. É bem verdade que mesmo diante da cena irrefutável houve quem discutisse o real, o que comprova a mente distorcida orquestrada pela ética disforme, que criou e desenvolveu comportamento tão desequilibrado nos jovens provocadores.

A enorme repercussão do fato gravado foi do tamanho da sua gravidade, todavia o foco de homofobia, embora relevante, não é o mais importante. O contundente é a agressão em si, gerada do nada ou do tudo. Vindo de meninos com instrução e famílias constituídas.

Esta complexidade deve ser estudada, principalmente para verificar se não é a resultante daquelas escolas cujos pais exigem que os filhos sejam tratados como clientes. E, como tal, sejam os “donos” dos colégios.

Menos complexa, mas tão importante quanto à psicologia do caso é a questão do uso generalizado das câmeras sob o aspecto legal e ético.

A cidade de Londres que previne e pune o crime com a maior quantidade urbana de câmeras do mundo; pesquisadores como Paco Underhill, que formou uma teoria do varejo através das câmeras; esportes como a Fórmula1 e o Tênis, que impedem injustiças nas competições milionárias com repetição de lances duvidosos; assim como uma série de residências, condomínios e empresas que têm tido sucesso na segurança com as câmeras de gravações, são exemplos para análise desta controvertida questão da invasão de privacidade dos cidadãos.

O dinheiro na meia, o dinheiro na bolsa e depois a reza, a mini saia da Uniban e a grande quantidade de babás espancando bebês mundo afora, foram protagonistas de casos que sem elas não existiriam.

O Rodeio das Gordas por falta de imagens gravadas ainda preenche muitas telas eletrônicas de relacionamento.

A FIFA, entidade dirigente do esporte mais popular do mundo, quanto mais expande seu império mais teme as câmeras. Certamente para manter o simulacro tão bem alicerçado do poder centralizado e estimulador para as demais confederações afiliadas. A ponto dos atores principais, os futebolistas, adotarem o mesmo e progressivo papel de simuladores absolutos. Chegam a trocar os pés pelas mãos, até mesmo para vagas no supremo torneio da entidade.

As cidades, cada vez mais populosas, deveriam prevenir e punir a criminalidade urbana como prioridade, sem receios de cerceamento pelas imagens.

É hora de repensar a liberdade de gravar e ser gravado. O cinema poderá ser bem-vindo neste cenário urbano contemporâneo. Reproduzindo o cotidiano com suas tragédias, dramas, farsas e comédias. Cinema ao vivo, para todos e para tudo.

Graças a ele, a promotora da Infância e Juventude Ana Lunardelli decretou ontem a internação dos quatro adolescentes envolvidos na agressão da Avenida Paulista na Fundação Casa por tentativa de homicídio e lesão corporal.

O pedido foi motivado “pelas imagens divulgadas pela polícia”. Sem elas, os agressores, libertados, arquitetavam a defesa com a imaginação que a ausência de imagem permite.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

O uso do celular no avião

 


Carlos Magno Gibrail

O vôo Porto Alegre – São Paulo, na quinta-feira, permitiu e estimulou os passageiros a usarem seus celulares para contatos familiares e profissionais. No Air Bus A312 a TAM passa a disponibilizar o uso através dos Smartphones para ligações telefônicas, SMS, internet e demais conexões eletrônicas, até então apenas possíveis em terra. É a primeira companhia brasileira a utilizar a aprovação da ANAC para os serviços de telefonia e internet nos aviões com SMP serviço móvel pessoal.

De acordo com a Diretoria de Marketing da TAM na palavra de Manoela Amaro: “O uso de celular a bordo foi uma demanda detectada por meio de pesquisas com nossos passageiros que desejam estar conectados ao trabalho, à família e a amigos enquanto viajam”.

A percepção que se tem é que o Comandante Rolim buscava sempre a diferenciação com base no conforto dos passageiros. A questão é saber que público dentre os principais segmentos de estilo de vida dos passageiros da TAM , que a Manoela Amaro está atendendo, ao liberar o uso do celular. O seu pai, pelo feeling, talvez nem precisasse de sistemas de pesquisa, pois diuturnamente estava atendendo em Congonhas os passageiros até o embarque, na escada dos aviões, em cima do tapete vermelho, ao lado do comandante e da chefe de serviço da aeronave. “Boa viagem, Gibrail” foi o que ouvi inúmeras vezes.

A ANAC certamente ao promulgar a liberação do uso do celular levou em conta fundamentalmente o aspecto tecnológico, já testado e aprovado. A OnAir , fornecedora da TAM, aplicou em 135 mil vôos em 356 cidades e 83 países. O serviço permite que apenas oito passageiros utilizem os celulares para ligações telefônicas ao mesmo tempo. Não há restrições para envio de torpedos nem no número de passageiros acessando a internet por meio de smartphones.

Esqueceram apenas de perguntar aos passageiros. Ou, com a “barriga no balcão” como Rolim fazia, ou com a metodologia que permitiu que 0,004% do universo de eleitores brasileiros pesquisados pudesse projetar o resultado de mais de 130 milhões de votos.
Nos Estados Unidos, alerta dado pelos comissários de bordo através do sindicato de classe, levou o Congresso a proibir o uso dos celulares em função da liberdade individual dos cidadãos. Ao mesmo tempo inúmeras pesquisas demonstram que os americanos apoiam a manutenção da proibição.

A FCC Comissão de Comunicações dos Estados Unidos em Washington proíbe o uso de celulares em aviões, em parte devido a algumas preocupações não resolvidas sobre possíveis interferências nos sistemas de telefonia e demais equipamentos de navegação das aeronaves.

O presidente da OnAir, Benoit Debains rebate: “Nos Estados Unidos a situação tem um aspecto emocional forte”, porque segundo ele o ruído normal do vôo não deixa os demais passageiros ouvirem o usuário falando.

As restrições de poucas aeronaves, poucos usos simultâneos e tarifas altas, logo deverão ser ultrapassadas e certamente estaremos diante de um ambiente insuportavelmente poluído.

Como historicamente no embate entre as grandes corporações e os indivíduos, as primeiras sempre vencem, há duas saídas para os que querem sossego nos voos. Separação entre usuários e não usuários ou chegada dos novos consumidores, hoje em fase de gestação. Aqueles que Nizan Guanaes descreve em artigo de ontem na Folha como “os escritores de celulares”. O escrito se sobrepondo sobre o falado no aparelho destinado originalmente à fala.

O torpedo não interrompe reuniões, exige menos firulas, propicia linguagem direta, é mais eficiente, serve mais, incomoda menos. A tese de Guanaes tem coerência, ressência, é contemporânea e pode se adiantar a massificação do celular em aeronaves. E estaremos protegidos.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve as quartas no Blog do Mílton Jung

Biquíni está proibido no parque Buenos Aires

 

Com biquíni não pode, sunga também

O calção de cós alto e bainha raspando o joelho com estampas coloridas acompanham os passeios diários do professor Heródoto Barbeiro pelas alamedas de Higienópolis e combinam com o sandalião de couro que cobre os dedos marcados pelo tempo. Morador antigo da região, não deve causar constrangimento aos vizinhos quando passa por dentro do parque Buenos Aires. Mas que ele não se atreva a vestir a sunga que costuma usar nos banhos de mar, lá no litoral sul. Correria o risco de ser assediado pelos vigilantes da moral e dos bons costumes que trabalham na praça.

É que neste recanto do bairro, forrado de verde, com espaço para passeio tranquilo, cercadinho para animais de estimação e gramado relaxante, existe uma regra. Está lá na Portaria 28/02, artigo 5º, inciso 17: é proibido “tomar sol de biquíni ou sunga”. Principalmente biquíni, dado que até hoje não se registrou nenhum caso de medida punitiva aos frequentadores adeptos da sunga (mas é bom não exagerar, Gabeira).

De acordo com notícia publicada em página cheia da Folha (leia aqui), uma mulher de 58 anos foi convidada a manter a compostura sob o risco de ter de deixar o ambiente. Ela cometeu deslize grave, segundo as normas aprovadas pelo conselho que representa, em última instância, os frequentadores: vestia um biquíni. O artigo não diz se fio dental, asa delta ou outro modelo qualquer, mas o vigilante que abordou a senhora se referiu a “roupa íntima”.

A culpa é da sociedade conservadora, explicou o administrador do parque Eduardo Panten em defesa da proibição que pode ser estendida a outros trajes (ou falta deles), pelo que percebi nas declarações dadas ao jornal. Consta que as babás que levam seus clientes ao parque têm reclamado, também, dos “idosos sem camisa”, especificou um dos oito vigilantes que circulam na Buenos Aires. Isto, sim, algo que pode atrapalhar o passeio do meu amigo Heródoto, apesar de que ele prefere mesmo a camisa do Corinthians que constrange apenas pelas marcas encardidas pelo centenário.

Pelas dúvidas, preferímos conversar com um advogado: ouça a entrevista do coordenador da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP Martim de Almeida Sampaio. E deixe sua opinião.

Crime e aborto eleitorais

 

Por Carlos Magno Gibrail

A criminalização do aborto em 1966 custou ao ditador Nicolae Ceausescu da Romênia, 23 anos depois, uma revolta encabeçada pela juventude, que em boa parte não teria nascido se o mesmo não tivesse sido proibido. Ceausescu foi o único líder comunista do colapso soviético que teve morte violenta. As eliminações do aborto e do controle da natalidade contribuiram para o aumento da população, e as crianças nascidas a partir daí tiveram menos educação e mais pobreza.

A descriminalização do aborto em 1973 nos Estados Unidos gerou 20 anos depois e, até hoje, uma queda significativa no índice de criminalização do país. “Quando o governo dá a uma mulher a oportunidade de escolha quanto ao aborto, ela em geral pondera corretamente se está ou não em condições de criar bem o bebê”.

Estes fatos estão contidos no “Best-Seller” do economista Steven Levitt e do jornalista Stephen Dubner: “Freakonomics” lançado em 2005. Embora embasados em argumentos correlacionados com dados estatísticos e lógica estimulante, as conclusões sempre poderão ser questionadas. O que não se contrapõem é o fato do tema ser mais bem esmiuçado à luz da técnica, da ciência e da crença individual.

O coletivo, o público e, principalmente, o oportunismo eleitoral sempre serão um empecilho para a coerência das conclusões em temas pessoais, envolvendo liberdade e cidadania.

É por isso que jornalistas e analistas políticos estão criticando Dilma e Serra pela falsidade e oportunidade de retroceder na maturação do processo eleitoral brasileiro.

Fernando de Barros e Silva lembrou o episódio de Boris Casoy inquirindo FHC: “Senador, o senhor acredita em Deus”?

Ruy Castro em “Conversões Tardias” declinou-se condenado às labaredas do inferno ao comparar a postura dos candidatos com a ficha religiosa que possui.

Claudio Abramo ressaltou a proeminência dos temas homossexuais e do aborto em detrimento dos grandes assuntos públicos, chamando atenção pela inversão: “O que é privado se discute em público e o que é público se discute em privado”.

Ricardo Melo em seu artigo “Império da mentira” louva as formalidades eleitorais, pois revela pessoas, porque ambos os candidatos foram ateus e eram a favor do aborto, mas hoje ou mentem ou converteram-se momentaneamente.

Benjamin Moser, norte americano, apela para copiarmos a Argentina e Portugal (que vergonha!), que atribuem igualdade para todos no casamento e opina que os atuais candidatos não estão demonstrando a coragem necessária para enfrentar preconceitos.

Entretanto esta contemporânea dramaturgia eleitoral que nos aflige talvez não fosse tão ruim se tivéssemos escolhas reais com diferenças perceptíveis.

Esperamos que a velha máxima do futebol que treino é treino e jogo é jogo possa prevalecer e qualquer dos candidatos que vencer possa crescer.

Mesmo porque, como escreveu José Eli Veiga, Professor FEA USP, seis por meia dúzia, Dilma e Serra nem isso tem de diferente. É seis por seis ou meia dúzia por meia dúzia.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

De sentir-se vivo

 

Por Maria Lucia Solla


A página em branco é desafiadora, atraente, sedutora e, na mesma medida, apavorante.

A página em branco é a parede branca com que fala Shirley, a personagem do filme Shirley Valentine. É o profissional que se ocupa do que está além da anatomia e fisiologia dos corpos de seus pacientes. A página em branco é a pílula para acordar; é a pílula para dormir. É a droga que nos leva na direção temida: para dentro. A amedrontadora rota salvadora. Criação. Redenção.

A página em branco é o bom, grande, amoroso e generoso ouvido que se entrega com receptividade escancarada, com amoralidade de dar inveja, sem tranca, sem regra. Anarquista. E isso assusta, porque a liberdade assusta. É um objetivo cobiçado, mas difícil de alcançar e conviver. A tal da liberdade.

Mas não há dá para resistir a uma página em branco. A gente se rende. A criança desenha durante boa fase da vida, compulsivamente. E quando aprende a desenhar números e letras, nem as paredes resistem. Ela sobe pelas paredes, de alegria, quando aprende a rabiscar a inicial do nome, quando percebe que pode desenhar os sons de seus pensamentos para ser compreendida. O que, no entanto, é ilusão. Escreve-se para se entender, nunca para ser entendido. Se isso acontece, é consequência.

Depois vem o nome inteiro e as subsequentes conquistas. Bilhetes para o papai, declaração de amor pela mamãe, o nome de bichos e personagens preferidos.

depois vêm as cartas
em formato eletrônico
para o namorado
em formato biônico
vêm as confidências
as confissões
atestados de amor e de ódio
amenidades e indecências

página em branco aceita tudo
o meu sim o teu não o nosso talvez
página em branco aceita tudo
desde que seja um pensamento de cada vez

do rabisco à mandala
do indianismo à cabala
do extremismo da esquerda
àquele da direita
tudo isso
a página em branco aceita

da verdade embasada
pela ciência
à mentira deslavada
da falsa inocência
não há letra rejeitada
do russo ao polonês
do grego ao chinês

E em todas as línguas, de todos os cantinhos mais longínquos deste mundo, alguém solitário, agora, neste instante, grita um grito escrito para ser ouvido, visto, lido e assim poder sentir a experiência de estar vivo.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de línguas estrangeiras e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Entre o Ser e o Estar

 

Por Abigail Costa

O trabalho é fascinante. Te dá a oportunidade de se posicionar.

Em determinados casos, no cargo as pessoas tem a sensação de chegar ao olimpo.

O mandar e desmandar. O gerenciar a vida dos outros assim como a troca das estações no ano.

A tecnologia que nos manda a lugares sem sair do próprio escritório nos dá poder – e torna alguns menos toleráveis

Esse é o lado estar.

De volta a realidade mais primitiva, somos.

Somos filhos, somos pais.

Num peso e intensidade que só quem tem e valoriza sabe a importância do ser.

No trabalho nos vestimos para estar bem, pra mandar bem, pra executar bem.

Em casa nos despimos para ser.

Enquanto caminham para estar mais a frente, para estar mais ricos, damos um passo atrás nos sentimentos.

Os botões do “progresso” vão avançando, as emoções empobrecendo.

A pesquisa pode sim ficar para amanhã, a teoria pode esperar.

Na prática, a ausência no jantar, o não saber do elogio que o filho recebeu do professor…. Ele queria ter dito isso ontem. O pai ficou sabendo pela mãe, por telefone.

Não ter ouvido da boca do menino pode parecer pouca coisa, mas vai pesar na balança.

Este momento já passou, como passaram tantos outros.

O que você já deixou de fazer por causa do “estar”?

Não se preocupe ainda dá tempo. Se não for hoje poderá ser amanhã…. Poderá.

Ser militante com o controle na mão exige pulso forte.

Coordenar as emoções exige sensibilidade.

Se tivesse que responder em segundos a última pergunta de sua vida.

O que você prefere terminar: o relatório da firma ou a conversa da escola com seu filho?

Decidiu pelo filho?

Então a situação ainda está sob controle.

As diferenças entre o SER e o ESTAR podem ser revistas.

Abigail Costa é jornalista e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung

De burnout


Por Maria Lucia Solla

Você já ouviu falar da Síndrome de Burnout, ou Síndrome do Trabalho?

É um coquetel de exaustão emocional, de desânimo, insatisfação, falta de perspectiva, fadiga, dor de cabeça, problemas gástricos e ineficiência. O profissional perde a motivação e a qualidade no desempenho da função e começa a faltar; isso quando não carrega o corpo, desprovido de alma. Funções orgânicas se desequilibram e doenças começam a brotar. Estresse e depressão já não podem ser camuflados atrás da montanha de pílulas coloridas, de formatos atraentes, e se mostram sem pudor. Complicações coronárias exibem as garras e o sistema circulatório congestiona.

Os afetados pelos sintomas da síndrome formam um corpo de trabalho, que dá trabalho, uma peça propulsora que retém a máquina. Perde o cidadão, perde a empresa, perde o sistema de saúde, perde a família, perdemos todos.

Então, a empresa é o bicho-papão? Não, assim como o pão não é, da dieta, o vilão. O vilão, em qualquer e toda situação na vida, é a falta de equilíbrio. É muito ao mar ou muito a terra.

Temos dados assustadores de aproximadamente 30% do corpo de trabalho da sociedade brasileira afetado pela síndrome. E o verbo receitado é humanizar. Humanizar o ambiente de trabalho e a comunicação dentro dele. A resposta é respeito, reconhecimento e arte. Falta criação, e não sou só eu, poeta de coração quem diz; há estudos, pesquisas e trabalhos científicos que comprovam que a arte-criação é intervenção eficaz no combate à síndrome. Dentro da empresa. As experiências e pesquisas que tenho feito são insignificantes diante de estudos internacionais, mas mostram resultados significativos.

Então, vai esperar que ela te pegue? Ajeite o paletó na cadeira, arregace as mangas da camisa, e brinque de massinha de modelar com seu filho. Desça do salto, sacuda os cabelos, desligue os celulares na bolsa, avance na caixa de lápis de cor da criançada e crie uma oficina de desenho, na mesa da cozinha, uma horinha por semana. Aproveite o ambiente e realizem juntos uma façanha culinária: pãezinhos de queijo congelados no forno elétrico. Ao final da folia artística outra gastronômica.

Livre-se dos remédios, pinte e borde, com a família e com os amigos, e verá que o sorriso brota fácil e os males se afastam. Passe um dia na praia sem bolsa de grife, deixe o celular em casa e faça castelos de areia. Sonhe muito, preocupe-se menos e realize mais. Aproxime-se da natureza, plante um pezinho de hortelã e tempere a salada com ele. Vibre, crie, cante, encante, se encante, surpreenda e se apaixone de novo e sempre.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Divórcio

 


Por Abigail Costa

Entre mãe e filha a conversa era sobre o casamento mal sucedido da pequena. O filme mostrava uma história que se passava em décadas dos “entas”.

Com mais experiência a cinquentona dizia:

“É preciso sabedoria pra manter um casamento; a rotina, dias mais pesados…. é preciso fazer vistas grossas a traição do marido”

“Mas e a minha felicidade mamãe”, implorava a coitada aos prantos.

Com a voz embargada pelas lágrimas tomou coragem e largou: “Quero o divórcio!”

“Nem pense nisso – a voz da mãe soou mais alto – você ficará marcada”.

Nos anos de mil-novecentos-e-alguma-coisa, ser divorciada era coisa de mulher que não prestava. Pelo menos isso ficou bem claro no filme.

Convivendo com amigas que passaram pelo outro lado do casamento, me pego pensando no assunto. Quanto mais pergunto mais fico impressionada com a coragem dessas mulheres.

Não pela coragem de deixar uma vida confortável de contas pagas e viagens programadas com direito a presentes inusitados.

Coragem de reconhecer que a felicidade acabou. De não se contentar com a vida cheia de surpresas, mas vazia de sentimento.

Mulheres que querem muito mais do que reconhecimento no estado civil.

Deve e é difícil olhar no olho do outro e dizer: não te amo mais, quero me separar de você.

Imagine não saber a reação do parceiro.

Claro que até pode acontecer de um belo dia alguém acordar e ter vontade de ficar só, sair de casa e não voltar mais.

O normal, eu penso, é a relação ir escorregando por entre os dedos, feito xampu mal posicionado na mão.

Mesmo assim, há de se pesar os anos vividos, a vida confortável, os filhos e a tal sociedade.

Perguntei sobre isso. O troco foi ótimo.

“Sociedade quer dizer os outros, é isso? Os outros vão ficar como estão, cuidando de suas vidas. A opinião deles não me conforta a ponto de voltar no tempo, àquela felicidade que existiu.

Me alegra a coragem. Mais ainda quando esta é em nome da felicidade.

Abigail Costa é jornalista e escreve no Blog do Mílton Jung