Direto de Roma
Os cinco amigos o esperam ansiosos no boteco em uma rua escondida no extremo sul de São Paulo. Lá é Cidade Dutra, distante do que você conhece, longe, mesmo para quem mora ali. Marcão, aquele torcedor sofrido que citei neste blog, há dois dias, chegou depois do expediente, durante o qual oferece segurança para a casa do patrão. A moto não havia sido desligada nem o capacete retirado e já ouvia a gritaria que vinha do pessoal sentado nas poucas mesas que enchem o salão.
Como um goleiro que repõe a bola em jogo, Marcão passou a mão na encomenda que havia recebido diretamente da África do Sul (“aí é mais barato, chefia”) e a chutou em direção a pequena porta que dá acesso ao bar. Os dois menos combalidos pela cerveja que regou o fim de tarde saltaram antes e conseguiram pegá-la ao mesmo tempo. Puxa daqui, empurra dali, o mais novo levou a melhor. Vantagem que não durou muito, pois o pessoal sem reflexo no primeiro arremesso aproveitou-se do entrevero para roubar-lhe o objeto.
Preocupado com o prejuízo que teria, Marcão gritou mais alto: “Para lá, para lá, essa Jabulani é minha e ninguém tasca”.
Os, agora, seis amigos reverenciavam de seu jeito a bola desta Copa, a mais criticada e querida (no sentido de “pedida”) de todos os tempos. A trataram como um troféu desejado e assim que tiveram um pouco de lucidez passaram a analisá-la de raio a raio. Não viam hora de testá-la no Peladão, campo de várzea da vizinhança que ganhou este nome devido a inexistência de qualquer vestígio de grama entre as quatro linhas, todas devidamente cavadas pelo tempo.
Inversamente proporcional às reclamações dos profissionais da bola, surgiu o desejo dos peladeiros no mundo todo pelo objeto fabricado pela Adidas, especialmente para a Copa da África. Seja no extremo de São Paulo, no comércio de Johannesburgo ou aqui em Roma – de onde escreverei até o fim desta Copa – não é difícil ver alguém comprando, carregando ou chutando a tal bola de supermercado, assim definida pelo goleiro Julio César – que não tem muito o que reclamar dela até aqui – e, posteriormente, comprovada em testes de laboratório.
Parece que todos querem exercitar seus dotes na Jabulani e desafiá-la. Ou desafiar os craques (?) da Copa: “Ela é tão ruim assim ou eles é que são pernas de pau?”. Jamais vão descobrir pois a bola vendida em lojas – e supermercados, também – com preço mais em conta tem diferenças em relação aquela que rola nos gramados da África. Com mais gomos do que a original, ganha mais atrito e oferece efeitos menos danosos.
O curioso desta bola não chega a ser os problemas que pode gerar, em especial aos goleiros. Mas o fato de o objeto ter ganhado vida própria com nome de batismo e tudo. Enquanto estive na África, ninguém me pediu para comprar uma bola, todos queriam a Jabulani.
Verdade seja dita, esta coisa de não chamar bola de bola é antiga aqui no Brasil e se iniciou com o pessoal do rádio que na criatividade de suas narrações a chamavam de tudo, menos de seu nome próprio: balão de couro, criança, menina, gorduchinha, maricota, leonor, pelota, perseguida, maria, redonda, nega, esfera, caroço, esférico, esfera de couro, margarida, caprichosa, pneu, bexiga, … (complete a lista se quiser).
Antigamente, também, os jogadores costumavam tratá-la de forma diferenciada, bem mais carinhosa. Era uma dama a ser cortejada, acariciada. Lembro de alguns que a beijavam antes de chutá-la. Quando pisavam nela, os locutores gritavam: “Tá chamando a bola de Vossa Excelência”. No Brasil, a bola sempre foi admirada como mulher, culpa da gramática que a apresenta como substantivo feminino.
Hoje, os craques que sobram não tem mais tempo para todo este apego, assim que a pegam precisam mandá-la em frente antes que um “zagueirão” chegue rachando e acabe com a graça da jogada. Nosso Elano, infelizmente, sabe do que estou escrevendo.
A bola – a Jabulani – anda com velocidade, sempre tocada com pressa nem sempre de pé em pé, resultado de um futebol moderno que exige cada vez mais força e – ao contrário do que críticos dizem – muito mais jeito para fazê-la chegar ao destino desejado. Por isso tendem a não alcançar seu objetivo.
Desconfio que a bola da Copa não trata ninguém mal, é maltratada por jogadores que têm cada vez menos tempo para intimidades com ela. Para estas quartas-de-final, sugiro que os técnicos destinem uma bola para cada atleta e que os obriguem a dormir abraçado nela para quem sabe, assim, comecem a tratá-la como uma amada amante.
Kaká é dos brasileiros o que mais deixa explícita sua relação sem limites em toques e assistências – uma contradição para um atleta recatado com sua vida privada. Robinho é o mais atrevido ao dançar com ela diante do adversário e, ao menos uma vez até aqui, enfiar-lhe nas redes. Luis Fabiano, sem vergonha, tem demonstrado capacidade de aproveitá-la de todos os jeitos. Por cima, por baixo, de primeira, de chapéu e, se preciso for, passa a mão nela.
Que amanhã, contra a Holanda, os três repitam esta falta de pudor.
O torcedor iria se apaixonar.