Texto publicado no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo
Em sete páginas da edição paulista da revista Época, de fevereiro, os repórteres Camilo Vannuchi e Eduardo Zanelato entrevistam o comandante-geral da PM de São Paulo, Coronel Álvaro Camilo, sobre a ocupação da Cracolândia, centro da capital, que se iniciou em 3 de janeiro – ou seja, há um mês. O homem que lidera a tropa paulista no combate ao crime – e aos viciados de crack, também – diz que na capital não haverá zonas livres para o consumo dessa droga e 80% da região já está melhor do que no ano passado. Na mesma edição da revista (reproduzo a capa ao lado), sem ter lido a reportagem antes, escrevi minhas impressões sobre a Operação Centro Legal, as quais reproduzirei aqui no Blog semana que vem – a publicação está disponível nas bancas, ainda. Aproveito o espaço hoje, porém, para destacar alguns aspectos que considero reveladores e aparecem graças ao trabalho de meus colegas de redação.
Mesmo experiente e bem preparado para a função que exerce e acostumado e treinado para o bom uso da palavra – poucas vezes a PM falou tanto na mídia como neste último ano -, Coronel Camilo tropeçou no discurso quando se referiu a decisão de ocupar a área tomada por drogados:
… Fizemos reuniões com o pessoal do Bom Retiro e da Santa Ifigênia, recebemos apoio do comando, criamos um pelotão com 30 homens e decidimos: “Vamos Limpar”.
“Vamos limpar?” – indagaram os repórteres.
Ao perceber o tom politicamente incorreto, o Comandante pediu para que o termo fosse retirado por considerá-lo inadequado. Errado, sem dúvida, mas revelador. Minha terapeuta junguiana (como não poderia deixar de ser) avaliaria como ato falho, um sintoma que se constitui o elo entre o intuito consciente da pessoa e aquele que está reprimido. A filosofia que moveu a ação estatal estava exposta: limpar a área.
Em outro ponto, Comandante Camilo responde às pessoas que, através dos canais de comunicação abertos pela PM com a população, dizem que a polícia não deveria ser usada para resolver o problema da Cracolândia, pois os dependentes são doentes: “O que todos esquecem é que doente consome. E consumo é crime”. Pouco antes, já havia feito a seguinte afirmação: “A ação está sendo forte em cima de quem trafica e de quem consome. Consumo é crime … Foram presos 100 traficantes nas primeiras duas semanas”. Pelo que se nota, decidiu-se dar de ombros para a presunção de tráfico baseado na quantidade da droga, em um erro bastante comum nas políticas de segurança pública que imperam nos estados brasileiros. Os dependentes estão sendo tratados como criminosos quando deveriam ser pacientes. O problema é que para inverter esta lógica seriam necessárias vagas nas redes pública e privada para o atendimento desses viciados. E a Operação Centro Legal não ter a polícia como protagonista mas, sim, uma tropa de agentes sociais e de saúde.





Era alto demais para alcançar. Mas por que desconfiar da habilidade de jovens em busca de um “tesouro” ? Vimos tantas coisas nessa cidade acontecer. Por vezes me surpreendi, por exemplo, com incompreensíveis grafites que surgem em pontos aparentemente inalcançáveis. Além disso, ver o patrimônio ser depredado por quem vive aqui não chega a ser novidade para ninguém. É triste.


