Ganhos privados em lugares públicos

 

Por Carlos Magno Gibrail

O rendimento mensal médio no emprego público é hoje de R$ 2.494,00, enquanto no privado é de R$ 1.323,00, uma diferença de 188%.

Lula herdou de FHC 156% e manteve, aproximadamente, esta diferença entre público e privado no primeiro mandato, mas a partir de 2006 acentuou o “gap” chegando até os 188% de hoje.

Estes dados obtidos do IBGE e do Ministério do Planejamento balizaram os jornalistas Gustavo Patu e Pedro Soares em reportagem na Folha, onde chamam a atenção pela acentuada tendência do aumento salarial e do crescimento de contingente no setor público.

Ao mesmo tempo, o jornalista Fernando Dantas no Estado informa que a terceirização de mão de obra cresceu 85% de 2006 a 2009 de acordo com o TCU.

Estes crescimentos de gastos foram sustentados pelo desempenho econômico que manteve a gestão Lula dentro da Lei de Responsabilidade Fiscal, pois o PIB brasileiro , 8º do mundo, avaliza gastos e crescimento.

E gera dispersões e distorções, pois de um lado tal posição da atividade econômica deveria possibilitar remuneração do trabalho privado maior do que a pública. De outro lado, o serviço público poderia ter dado mostras de melhoria, na medida em que oferecendo rendimentos maiores teria maior capacidade e eficiência administrativa.

É por isso que apenas na economia somos 8º do mundo, pois em educação, saúde, habitação, transportes e demais indicadores como IDH, GINI, etc estamos distantes das boas posições.

É por isso também, que é de espantar que diante de desafios tão instigantes, política e políticos fiquem com assuntos privados (aborto, Deus, reajustes corporativos) em funções públicas.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas, no Blog do Mílton Jung

A imagem deste post é do álbum digital de Mateus Waechter no Flickr

Desemprego ganha Nobel

 

Railroad_08

Por Carlos Magno Gibrail


À sabedoria da natureza, que demonstra em seus sistemas que a cura do mal pode ser feita pelo próprio mal, alia-se agora o Prêmio Nobel de Economia.

O Modelo DMP de Peter Diamond do MIT, de Dale Mortensen da Northwestern University e de Christopher Pissarides da London School of Economics, desenvolveu a teoria econômica que apontou a flexibilização do mercado de trabalho para estimular e melhorar a geração de empregos. Isto é, facilitar as demissões irá facilitar as admissões, principalmente se o desemprego não for estimulado com auxílios duradouros.

É um prato e tanto para ser saboreado por Dilma e Serra neste momento de obscurantismo em que o debate presidencial está se encaminhando.
Um pouco amargo talvez para o senador republicano Richard Shelby que impediu a nomeação de Peter Diamond para o FED Federal Reserve, feita por Obama.

O presidente americano certamente buscou Diamond para um dos sete postos do conselho de diretores do Fed e de seu Comitê Federal, que define as taxas básicas de juros, influenciando a atividade econômica e a inflação, porque já sabia o que o economista Paulo Krugman escreveu em sua coluna no The New York Times sobre o trabalho de Diamond: “Trabalho fundamental sobre todo o tema da relação entre o desemprego e a taxa de emprego”.

Uma das conclusões dos premiados do Nobel, é que o mercado de trabalho não funciona como o de produtos, pois oferta e procura não atuam como no caso clássico. Não se encontram na mesma velocidade e com os mesmos custos. Não se amolda também da mesma forma, pois os trabalhadores não estão dispostos a baixar salários na mesma medida que os produtos. Além disso, a mão de obra está sujeita a desmotivação e quando se reemprega pode não desempenhar o suficiente para preencher a necessidade da função.

Na Europa, John Van Reenen, chefe de Pissarides na London School, relata que “ele demonstrou que as regulações do mercado de trabalho, as barreiras ao ingresso no mercado de novas empresas de serviços, as políticas fiscais e previdenciárias afetam as disparidades do emprego em todo o mundo”.
Pissarides defendeu normas mais flexíveis a serem implantadas na Europa e ganhou. Mas não levou, pois segundo Van Reenen: “Essas normas se baseiam nos princípios econômicos corretos, mas que as maiores barreiras à sua implementação decorrem da ausência de vontade política”.

O jornalista econômico Philip Inman do The Guardian reproduzido no Estadão de ontem, discorda: “Esses princípios econômicos “corretos” foram abandonados porque afetam os eleitores comuns”.

A observação importante para os BRICS é que ficam mais fáceis mudanças em início de desenvolvimento do que com estruturas antigas estabelecidas. É uma área em que temos chance de ficar em melhor posição que Rússia, Índia e China. Ou vamos continuar discutindo crenças e normas religiosas?

Obs. A Dinamarca (veja artigo de 17/12/08) comprova a possibilidade da flexibilização.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

Imagem de Timothy Vogel do álbum digigital no Flickr

“Em lugar de estádio, zerar creches”, diz Nossa São Paulo

 

O paulistano está consciente de que a cidade não pode entrar em uma aventura para sediar jogos e abertura da Copa 2014. A opinião é do coordenador geral do Movimento Nossa São Paulo, empresário Oded Grajew, que considera este comportamento um avanço importante da sociedade. Ele lembra que fosse há alguns anos estaríamos defendendo o Mundial a qualquer custo.

Para realizar quatro ou cinco jogos que se faça no Morumbi reformado, comentou. Sugere que em lugar de se colocar dinheiro público na construção de estádios, a prefeitura invista, por exemplo, nas metas com as quais se comprometeu através da criação da Agenda 2012.

“Em lugar de estádio, melhor zerar creches”, citou ao lembrar a promessa da prefeitura de atender 100% das crianças de até 3 anos cadastradas para vagas em creches municipais, até o fim da atual administração. Estariam faltando 40 mil vagas ainda.

Quanto aos investimentos que a capital paulista poderia obter em função da Copa, Oded Grajew entende que a cidade não teria prejuízos. Para ele, o dinheiro a ser aplicado em obras de infra-estrutura terá de vir independentemente dos eventos que São Paulo sediar. Ampliação de aeroportos, sistema de transporte melhor, crescimento dos serviços de saneamento e extensão das redes de comunicação são fundamentais para o desenvolvimento da cidade.

Vuvuzela não cala decepção de trabalhador africano

 

Trabalhador na África do Sul

O estádio Moses Mabhida, em Durban, reuniu na noite de domingo duas verdades desta Copa da África do Sul: o espetáculo do futebol e o escândalo da desigualdade social. Os milionários jogadores da Alemanha já haviam deixado os vestiários de volta para a concentração, após a goleada por 4 a 0 contra a Austrália, quando estourou o confronto entre policiais e centenas de trabalhadores que prestam serviço no local.

Os funcionários protestavam contra o pagamento que consideram insuficiente para a função que realizam. Reclamavam terem recebido ofertas de salário que chegariam a R 1,500 mas não levaram mais de R 190. Em bom português: em vez de R$ 350 por dia, ganharam R$ 45.

Poucos dias antes do início dos jogos, o analista do jornal sul-africano Business Report Terry Bell alertava que os sindicatos e trabalhadores não identificam nenhum favorecimento para os movimentos sociais vindos da Copa e da Fifa. Enquanto a organizadora dos jogos garantia o maior lucro possível para si, eximia-se de qualquer responsabilidade em relação aos direitos trabalhistas advindos de contratações relacionadas a Copa.

Um dos líderes de sindicato que reúne trabalhadores de empresas de energia elétrica Lesiba Seshoka acusou a concessionária de emperrar as negociações por aumento salarial com o objetivo de jogar a opinião pública contra os funcionários, pois estes, supostamente, estariam interessados em prejudicar a realização da competição. “Não podemos adiar a fome para os nossos filhos”, comentou em um jornal que eu lia na praça procurada por milhares de turistas na hora do almoço, em Cidade do Cabo.

Aqui mesmo, em conversas com funcionários, nas áreas de prestação de serviço, é possível identificar outros motivos para a indignação. Muitas das vagas criadas para atendimento do público durante a Copa foram ocupadas por trabalhadores que chegaram dos demais países do continente. Calcula-se que 30% delas estão servindo a pessoas que se deslocaram desde Angola, Gana, Moçambique, entre outros.

Boa parte dos empregos que surgiram na onda dos jogos é temporária e informal. Ou seja, desaparecerá assim que o capitão da seleção vencedora levantar o caneco.

Nem o entusiasmo das vuvuzelas menos ainda a violência do gás lacrimogênio e das balas de borracha – jogados sobre os trabalhadores que participaram do protesto de domingo – serão suficientes para encobrir a frustração desta gente que acreditou no “espetáculo” do futebol.

Aposentados e renegados

 

Por Carlos Magno Gibrail

Da intrínseca cultura brasileira reverenciamos a juventude e renegamos a idade. A começar pela própria. A aposentadoria não poderia encontrar destino melhor do que aquele que vimos ontem, vemos hoje, e certamente, veremos amanhã se não se fizer algo para mudar.

Se as pessoas fossem tomadas como produtos, fato não recomendável, o ciclo de vida provavelmente teria tratamento técnico melhor do que o dos aposentados pelo INSS. O Boston Consulting Group de Harvard estabeleceu quatro etapas dentro do Ciclo de Vida de produtos: Introdução, Crescimento, Maturidade e Declínio. Também chamadas de Criança Prodígio, Estrela, Vaca Leiteira e Abacaxi. A ciência é prolongar a Maturidade alongando a chegada ao Declínio ou, até mesmo, descartando-o e criando diversificações.Este inevitável ciclo, como o da vida das pessoas, exige acompanhamento permanente para adaptação às mudanças do mercado, aqui considerado como meio ambiente.

Matriz_BCG

Entretanto, não é o que tem sido aplicado à vida profissional dos cidadãos brasileiros. Embora, há décadas os aposentados ocupem um proeminente espaço na agenda política nacional.

Collor e FHC postaram medidas a favor da Previdência e, aparentemente, em detrimento dos trabalhadores. Direção que Lula também tomará, quando anuncia veto ao projeto aprovado pela Câmara e que foi votado ontem no Senado. Reajuste acima de 6,14% e fim do fator previdenciário.

O balizamento essencialmente político que tem sido dado aos aposentados tem levado de um lado a uma posição homogênea de quem está no poder e, de outro a um afastamento da técnica, da demografia e principalmente da sociologia.

Há nove meses observávamos que:

“Dos 26,5 milhões de brasileiros aposentados 8,5 milhões ganham acima de um salário mínimo. Não possuem mais força competitiva no mercado de trabalho, que os rejeita. Não recebem reajustes compatíveis na pensão devida pelo Estado, que os discrimina. E são taxados no valor que recebem de aposentadoria pelo Sistema Tributário, que os assalta. Ainda assim são acusados de ameaçar o INSS, como se fossem os responsáveis pela incapacidade atuarial de Governos passados e pela frieza contábil do Governo presente”.

(leia o artigo completo, publicado em 01/07/2009)

Na sexta, o deputado Flavio Dino saiu em defesa dos 8,5 milhões em artigo que elege como justiça social o aumento de 7,7% aprovado pela Câmara e baseado em 80% do PIB de 2008. Acresce ainda que o PIB de 2010 deva crescer pelo menos 6%.

Ontem, o editorial da Folha endossou a posição do economista Fabio Giambiagi, que, há 20 anos, defende mudanças nas regras da Previdência Social propondo equilíbrio contábil e alertando contra as bases numéricas em momentos de economia positiva. A “Bomba demográfica” que intitula o artigo é provavelmente inspirada no livro de Giambiagi: “Demografia, a ameaça invisível”.

Este cenário conturbado fica ainda mais nebuloso quando se introduz a recente opinião dos candidatos Dilma e Serra. Dilma propõe intervenções especificas e momentânea. Serra endossa o que Lula decidir. Ora, Lula já avisou que veta aumentos acima de 6,14%, e a retirada do fator previdenciário. E, assim como nunca neste país, é hora de o jornalismo consciente entrar neste quadro eleitoral e pressionar a posição dos candidatos sem tangenciar para também não renegar os 8,5 milhões de aposentados.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung

De Grécia

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça Da Grécia na voz e sonorizado pela autora

Da galeria de Érato_79 no Flickr

O jornal Zero Hora trazido de Porto Alegre pelo meu fiho Luiz Fernando estampa na capa: “Brasil socorre Grécia com US$ 286 milhões”.

Não sei o que significa essa quantia para você; para mim é dinheiro que não acaba mais, e me faz curiosa. Quero saber que tipo de socorro é esse e leio a matéria.

Pelo que entendi, o FMI – Fundo Monetário Internacional correu a cestinha por alguns países que já foram socorridos antes, e que portanto não podem nem fingir que estão rezando, olhos semicerrados em fervorosa prece, nem que não viram a cestinha passar.

Ainda pelo que pude entender, se todo mundo não participar dessa vaquinha, a vaca vai pro brejo, no mundo todo.

Queria ser uma mosquinha para ver o que acontece nesses bastidores. Ou melhor, não queria não. Já vi gente morrer de overdose muito menor e menos letal.

Mas voltando ao socorro, o negócio foi quebrar o porquinho e meter a mão no bolso.

Agora, se você ingenuamente credita no que eu acreditava, pode mudar o canal, pode desviar a atenção porque mesmo esse socorro compulsório vem com vantagem embutida no pacote. Os países que emprestam na verdade estão investindo. Tipo agiota ou gerson: sempre leva vantagem.

Ainda confessando minha ignorância do tema, vejo o FMI como um Banco Big Brother planetário, que pega cá dá lá, e vice-versa, e leva o seu.

Esses milhões, que no caso são duzentos e oitenta e seis, saíram da nossa reserva internacional. Vou parar por aqui porque não conseguiria nem explicar para um neto meu o que é reserva internacional. Seria um fiasco. Não sou boa para números. Finanças, então…

Aprendi ainda, lendo a matéria, que eu tenho, tu tens, ele tem, nós temos US$ 249 bilhões na reserva internacional e o Brasil vai investir, quero dizer socorrer a Grécia com parcos US$ 286 milhões.

Se você se pergunta o que é que deu em mim para me meter a falar do que eu não entendo – e nem quero entender – eu explico: Não foi a transação financeira que me chamou a atenção.

O caso é que eu amo a Grécia.

Tenho uma ligação incrível com a terra, a cozinha, a música, o idioma, a gente. Pedras, vulcão, mares azuis como o céu de primavera, carneiros assados, batatas ao forno, tudo regado abundantemente com azeite da absoluta melhor qualidade e com limão siciliano. Terra das buzúquias e do mussaká. Da dança, de tragédia e de alegria. Alegria que nasce dali: da tragédia. Quando a tragédia atinge seu ponto máximo é que a gente encontra o chão – o fundo do poço – e consegue dar impulso para de novo respirar.

Com os gregos não é diferente: de tanto treinar, século após século, após século, esse mecanismo se automatizou.

na Grécia a arte faz parte do dia a dia
há tragédia na dança
e dança na tragédia
ali tudo é criação
comida música beleza história e dança
em qualquer situação

Numa casa grega com certeza, se come em volta do fogão, do lado, na frente ou atrás dele, dependendo da arquitetura da cozinha. Muda a cozinha, muda o endereço, e a festa em volta da mesa e do fogão é a mesma.

Enfim, o que vai acontecer com a Grécia?

Não sei. Só sei que muitos gregos que conheci trabalham para o governo. São funcionários públicos; ele ou ela, ou ele e ela e toda a família. O governo paga regiamente e oferece inúmeras vantagens como a de servir a pátria em Nova Iorque ou São Paulo, ganhando em euros mais moradia garantida e viagens de férias para a mãe pátria, duas vezes ao ano.

Syntagma

Eu poderia falar ainda da tristeza de voltar a Atenas e ver o centro, a praça Syntagma modernizada.

O berço do mundo virou cama-box!

E agora vou ouvir um pouco de música grega e sonhar que tudo vai bem, obrigada.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Como as encarroçadoras de ônibus andam no País

 

Roberto Ferreira, da Fabus, há mais de 30 anos, relembra das lutas de empresários e funcionários para o desenvolvimento do setor de carrocerias, no Brasil. Na primeira parte desta nova série de reportagens, o “Ponto de Ônibus” mostra como o segmento enfrentou o período da inflação.

CARROCERIAS SOBRE CHASSI DE CAMINHAO

Por Adamo Bazani

O fechamento de uma empresa e a onda de demissão e incerteza são dos maiores sofrimentos para o trabalhador. Não se resume a números em uma estatística de desemprego, são famílias, sonhos e projetos ameaçados – um carro a ser comprado, uma casa ou um tratamento médico que caem por terra.

Quem assistiu de perto este cenário, por muitas vezes, foi Roberto Ferreira, diretor executivo da Fabus, Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, entidade que reúne as principais encarroçadoras do país. Há 33 anos na função de executivo da entidade, Roberto diz que a indústria de ônibus se desenvolveu muito e vive condição favorável, atualmente. Nem sempre foi assim, ressalta.

“Sou enfático em dizer que a indústria de encarroçamento de ônibus no Brasil é uma grande vencedora, contribuiu com o desenvolvimento do País e, mesmo que a duras penas, soube superar os momentos econômico e social mais difíceis, no s anos de 1980 e 1990”

Nascido no Bosque da Saúde, zona sul da capital paulistao, Roberto Ferreira, de 65 anos, mudou-se para Santo André, no ABC Paulista, quando era criança. Seu primeiro contato com os transportes foi entre os anos de 1966 e 1968, quando administrava com o pai, Olegário Ferreira, uma distribuidora de bebidas na região:

“Eu cuidava da parte administrativa na distribuidora, e meu pai com um velho caminhão vendia as bebidas. Tirando a área central do ABC, as demais ruaseram de barro e cascalho. Quando chovia era um Deus nos acuda. Meu pai atolava com o caminhão e eu tinha de providenciar o resgate. Na época, para trabalhar com transporte, não bastava apenas dirigir. Tinha de entender de mecânica. E eu via meu pai trabalhando, consertando o velho caminhão. Lembro-me, por exemplo, da dificuldade que era, principalmente nos dias depois de chuva forte, a subida da Rua Gamboa para a Juazeiro, no Paraíso, em Santo André. Quantas vezes o caminhão do meu pai atolava neste lugar”.

Na distribuidora de bebidas, Roberto conheceu as dificuldades no transporte e desenvolveu experiência para gerenciar empresas:

“Peguei o tino para gerenciar e dirigir um negócio de uma tal maneira que quando vendemos a distribuidora, ela valia três vezes mais que na época quando entramos no negócio”.

Na década de 1970, Roberto Ferreira continuava no ramo de transportes. Desta vez, como gerente da Expresso Santa Catarina, em Blumenau, uma empresa de transporte de carga seca. Querendo voltar para São Paulo, ele descobre uma vaga para diretor executivo da Fabus.

“Quando cheguei na sede da entidade, na Rua Guaiaúna, na Penha, fui entrevistado por um mestre em transportes: o senhor José Massa, na época presidente da entidade e que, entre 1945 e 1946, fundou a Caio – Companhia Americana Industrial de ônibus -, homem visionário, um dos pioneiros da fase profissional de fabricação de carrocerias no Brasil”.

Em 16 de fevereiro de 1977, ele assume o cargo de diretor da Fabus. Mal sabia que anos depois, por causa da conjuntura econômica, além de problemas específicos no setor, enfrentaria um dos maiores desafios de sua carreira.

“No início, pensava que era mais tranquilo que o gerenciamento da transportadora. Quanto estive à frente da Expresso Santa Catarina, eram problemas como caminhão quebrado, frete não entregue na hora, discussões por causa do preço das entregas, e na Fabus, todas as associadas entregavam seus balanços direitinho e relatavam as necessidades do setor, para entrarmos em contato com montadoras, fornecedores e poder público. Mas, as coisas logo depois não foram tão tranquilas assim”.
Continuar lendo

Quero só o comercial de margarina

 

Por Abigail Costa

Tirei um tempinho nesses dias para uma função diferente: pesquisadora. Nada de laboratório e ampolas. Que pena!

Diante dos meus amigos, da manicure, na fila do caixa do supermercado. Só faltou a prancheta.

“Você está se sentido cansado? Desanimado? Tem que levantar e o corpo pede mais cama?”

Quando a resposta era positiva, isso aconteceu na maioria das vezes, me sentia um pouco mais animada. Era como se eu não estivesse sozinha no mundo do não-quero-fazer-nada.

Ouvi justificativas para o caso.

“Em certos períodos isso é normal mesmo … às vezes a gente precisa de um tempo”.

Mas o que me fez pensar no que estava me incomodando veio da minha querida Maria Lúcia:

“Muitas pessoas estão focadas para um lado ruim que acaba contaminando todo o resto”.

Isso mesmo.

Pregamos o melhor e fazemos diferente.

Quer um exemplo?

Você está se sentindo de bem com a vida? Ligue a televisão no noticiário. Pronto, o terapeuta ganhará mais um paciente.

Jesus! Que coisa mais perversa! É tanto tiro que uma das balas teima em furar a tela da minha 40 polegadas!

Aí o engravatado roubou. O outro mesmo comprovado o crime não foi punido e voltou pra casa. E o sujeito está largado na maca do hospital enquanto a vinheta das eleições já começa a rolar no espaço reservado para a propaganda de margarina.

Falando em margarina. Nem gosto tanto do produto só que ADORO quando aqueles segundos vão ao ar! Adoro ver a família na mesa, aquele sol da manhã entrando pela janela, o pão quentinho saindo fumaça …

De volta as tragédia rotineiras. Outra descoberta da minha pesquisa.

Todos se queixam das notícias sangrentas. Querem a boa notícia. Mas se “eles” exibem, diariamente, o que a gente está careca de ver é porque tem mercado pra isso. Caso contrário, o Ibope registraria queda na audiência.

Entre não querer ver e assistir tem uma longa distância.

Então, mesmo que você se proponha a só prestigiar o “comercial de margarina”, tem sempre um mensageiro do apocalipse:

“Você viu? Que coisa, não, estamos perdidos”.

Pra terminar minha “terapia em conjunto”, o caos é quando o marido chega pra você todo carinhoso e diz:

“Amor, temos que economizar”.

Pronto! Aí me mundo caiu de vez! Pior que desta vez, ele tem razão.


Abigail Costa é jornalista e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung

Reginaldo e Mônica, na alegria e na falência

 

Por Frederico Mesnik

Mônica estava desolada. Com o casamento marcado para o fim do ano, sua festa, que há pouco saciava todas as suas fantasias de princesa, estava agora,reduzida ao quintal de casa. Nada de cornetas reais para sua entrada suntuosa, garçons com bebidas exóticas, ou o amigo DJ para agitar a pista até o amanhecer. A nova realidade comportava somente poucos convidados para uma recepção modesta, sem muita pompa, somente o necessário. A lua-de-mel, antes um cruzeiro pelo Caribe, estava agora transferida para a casa de Peruíbe – e com os sogros, para cortar custos.

Da euforia vieram os planos e da fragilidade das decisões veio à decepção. Com pouco mais de R$ 50.000 resgatados do seu FGTS meses antes, Reginaldo foi seduzido pelo glamour da bolsa de valores. O caminho era fácil. Abre-se uma conta em uma corretora, faz-se a transferência do dinheiro e, em pouco tempo, vem a possibilidade de comprar e vender ações. Como toda corretora moderna, sua plataforma eletrônica dava acesso a um mundo de informações, de dados macroeconômicos a opiniões e recomendações de analistas, grafistas e palpiteiros em geral, via fórum de discussão. Balela para um engenheiro hábil em matemática, capaz de digerir e dominar o mercado financeiro em pouco tempo.

Por que não investe em um bom fundo de ações? Cogitou seu irmão mais novo, Márcio. Hoje, a internet disponibiliza um acervo de informações e rankings sobre os melhores gestores com anos de experiência, toda uma formação específica e habilitação pelos orgãos competentes.

Nada disso, replicou Reginaldo! Já estou dominando o processo. Tenho acesso às informações de que preciso tudo on-line e “de graça”. Porque vou pagar 2% ao ano de taxa de administração se eu sei fazer sozinho?

E foi assim, com toda prepotência de uma mente brilhante e inexperiente que Reginaldo debutou pelos meandros fascinantes dos mercados. O mesmo analista que há pouco recomendara a venda de Petrobras agora mandava comprar. Dizia que o aumento dos preços do minério de ferro já estavam precificados e Vale não era uma boa opção. Do vizinho veio a dica de Varig que subia sem parar com rumores de venda. Nos fóruns discutia-se Itaú. Montou sua carteira ao ponderar tantas ideias de tantas fontes diferentes e ganhou dinheiro. Dobrou seu capital em pouco mais de três meses ao mergulhar no boato da empresa e soube conter sua ganância ao realizar o lucro. Marcou o casamento e deu a Mônica um orçamento dos sonhos, que como já sabemos, estava com os dias contados.

Estava confiante, sentindo-se poderoso e apto para arriscar. Do grafista veio o cenário de realização e do analista uma operação de volatilidade, envolvendo o mercado de opções. Abriu seu Excel e “planilhou” tudo. Calculou os retornos, os riscos, o VAR, as gregas e tudo que havia aprendido com todos os canais disponíveis. Montou sua posição, tomou banho e foi para uma entrevista agendada com uma empresa multinacional de bens de consumo. Ganho fácil com operação casada de mercado à vista e derivativos, difícil errar. Márcio, te dou uma comissão de 1% se você ficar aqui monitorando o mercado para mim, disse Reginaldo. Fique de olho na planilha, e se acender alguma luz vermelha você me liga.
Foi para entrevista com um pé em cada canoa. De um lado o mirabolante mundo dos ganhos fáceis; do outro, a árdua tarefa de arrumar um emprego. Afinal, o casamento estava marcado.

Começou a entrevista e Reginaldo percebeu que seu celular estava sem sinal. Suou frio e perdeu a concentração bem como qualquer chance de receber uma proposta de trabalho. Saiu correndo para ligar para casa e gelou ao ouvir as inúmeras mensagens desesperadas do irmão comissionado. O mercado tinha virado com a descoberta do pré-sal, as gregas abriram, houve chamada de margem e Márcio, sem titubear, zerou as posições com 80% de prejuízo! Era tarde demais.

Os sonhos construídos nas últimas semanas ruíram como a fragilidade de um castelo de areia, junto com os sonhos maritais de Reginaldo e Mônica.

Do surgimento da internet veio a facilidade de acesso às mais diversas informações. A Geração Y mergulhou no mundo virtual e o acesso à bolsa via plataforma eletrônica de home broker cresceu vertiginosamente. Estima-se hoje que aproximadamente 200 mil investidores entre 16 e 35 anos trocam suas posições diariamente na Bovespa, algo como 8% do volume mensal de negociação, ou R$ 8 bilhões. A expectativa de ganhos rápidos e fáceis é um atrativo para uma geração afoita que consegue ouvir música, trabalhar, acessar o Facebook ao mesmo tempo em que opera seu capital nos mercados.

Não sou contra o uso do home broker e para cada regra há exceções com a revelação de talentos. Por outro lado, a grande maioria costuma tomar um tombo grande para depois reavaliar. Já ouvi muitas histórias parecidas – óbvio que usei aqui um exemplo caricato – e todas tem um ponto em comum: investidores educados que vão ganhando confiança com o tempo e percebem, de uma maneira bem cara, que o mercado financeiro é ambiente para profissionais. Operar sozinho é como auto-medicação. Começamos com uma simples aspirina e, em pouco tempo, o farmacêutico indica aquele remédio novo para dor nas pernas. Doses erradas, combinação com outros medicamentos e efeitos colaterais são os ingredientes para comprometer a saúde física.

Não vamos também comprometer a saúde financeira e mental. Para operar sozinho, use uma quantia pequena para brincar e se divertir. Deixe a gestão do seu patrimônio para profissionais! Sabemos que o ser humano tem o viés de esquecer as perdas e de dar mais valor aos ganhos, o que dificulta a auto-análise e a visão real de que sozinho é muito difícil ganhar dinheiro na bolsa com consistência e segurança de longo prazo.

Esperamos que Reginaldo tenha aprendido uma lição, pois o primeiro prejuízo costuma ser o menor e, quem sabe, com sorte e um bom gestor ele e Mônica possam comemorar o primeiro ano de casados com muito estilo.

Leia aqui outros artigos publicados por Frederico Mesnik

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

A psicologia de ser do contra

 

Por Frederico Mesnik

Sir John Marks Templeton, um dos maiores gestores da humanidade disse certa vez que é impossível gerar um retorno superior aos seus investidores sem fazer algo diferente do que a maioria. Essas palavras sábias são esquecidas no cenário atual de alta volatilidade, pouca visibilidade e estratégia míope de que devemos nos posicionar hoje para o mercado de amanhã e fazer o mesmo depois de amanhã e assim por diante.

Em certa ocasião e em sintonia com a opinião de Sir Templeton, Sir John Maynard Keynes disse: “The central principle of investment is to go contrary to the general opinion, on the grounds that if everyone agreed about its merit, the investment is inevitably too dear and therefore unattractive”.

O princípio central de gestão é ser contra o consenso, baseado no fato de que se todos concordam sobre seu mérito, o investimento é inevitavelmente muito desejado e, portanto não atraente. Infelizmente, o mercado de hoje é caracterizado por investidores preocupados em não ter retornos abaixo do seu benchmark e com medo de ir contra a multidão.

Um estudo recente do Professor Partha Dasgupta da St. Johns College mostrou que num horizonte de dois anos, as principais ações compradas por investidores institucionais tiveram um rendimento médio de 17% abaixo das principais ações que estes mesmos investidores venderam, no mesmo período de tempo. Este estudo foi estendido para fundos de ações (large caps, small caps) sendo value ou growth com resultados similares, mostrando que independentemente do seu universo, ser do contra traz resultados no longo prazo.

Não estamos dizendo que ser do contra basta para ganhar dinheiro. Aliás, estar junto com a multidão parece ser a opção menos arriscada. O que estamos querendo dizer é que os fundamentos e nossas convicções ditam nossas decisões de investimento, mesmo que sejam contrárias ao consenso do mercado.

A maior falha de um gestor é a incapacidade de distinguir entre fundamentos e expectativa refletida nos preços dos ativos. Uma casa de apostas é uma boa metáfora para ilustrar a diferença. Aqui temos duas variáveis: os fundamentos que indicam a probabilidade do time ganhar (track-record, jogadores, técnico, situação financeira do clube, árbitros, condições do campo e do tempo, etc) e a expectativa, que podemos ver claramente no quadro de apostas, refletindo o preço em proporção ao prêmio ou no caso dos times, o rateio. Um time com alta expectativa de ganhar a partida e o campeonato paga menos do que aquele com baixa expectativa.

Um bom gestor foca não só no sentimento geral, nas expectativas, mas também em como os sentimentos podem levar a grandes possibilidades de arbitragem entre os fundamentos e as expectativas. Às vezes nos enganamos de que estamos agindo de forma racional e avaliamos todos os prós e contras das diversas alternativas. Mas isso não é verdade na maioria das ocasiões, pois em muitos casos decidir a favor de X não é mais nada do que gostar de X. Compramos carros que gostamos, escolhemos casas e férias que gostamos e depois justificamos nossas escolhas de diversas maneiras. Além do mais, o que gostamos é altamente influenciado pelo que outras pessoas gostam, e escolher boas opções de investimentos é muito mais do que simplesmente comprar o que gostamos.

Um gestor precisa de independência para ter conforto e convicção de apostar contra a multidão quando há uma possibilidade de arbitragem entre os fundamentos e as expectativas. Esta independência torna-se difícil, pois quanto maior este gap, maior a pressão para ser parte da maioria. Além disto, a independência precisa ser objetiva para dar habilidade ao gestor de formar suas opiniões sem ser influenciado por fatores externos. Afinal, os preços não só informam os investidores, mas influenciam suas decisões.

Um bom investidor também precisa ter orientação de longo prazo, pois o ato de investir é inevitavelmente um exercício de probabilidade e precisamos ter a percepção de que o mercado pode demorar a revisar nossas expectativas.

Ter opiniões próprias que às vezes vão contra o consenso não é fácil. O primeiro passo é esclarecer os motivos e endereçá-los, trazendo credibilidade e transparência ao mercado. O importante não é acertar sempre, mas ter a convicção e coragem de correr contra a manada, pois é aí que estão as melhores opções de investimentos.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung