De esperança

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

sou avessa a dor
mas prefiro dor a dores
que a palavra no plural se pulveriza
clona a si mesma
se banaliza

saudades não me caem bem
mas se inevitável
que venha a saudade
pura sem gelo
já que você não vem

aos ciúmes sou avessa
mas tem hora que não dá para evitar
e acabo topando
com ele
o ciúme singular

Andamos íntimos demais da dor. Com quem falo quem encontro está doendo de mal do corpo ou de mal do amor. Uns mais, outros menos mais. Hóspedes do planeta dor, temos explorado os seus caminhos, andarilhos e curiosos que somos, mas neste ponto do tempo parece que chegamos ao seu ponto central, e é ali que estamos agora, eu doendo aqui, você doendo ali, e a dor do outro sempre parecendo mais branda que a nossa. Pimenta no olho do outro pode não arder na hora, mas acaba respingando na gente, e a pimenta de agora não é fraca não.

Quanto à minha coleção de perrengues, se é aprendizado, resgate ou acerto de contas, se é praga, trabalho-feito ou mau-olhado, depois de espernear, acabo agradecendo por falta de alternativa melhor. Fico “de bico”, que não sou santa e nem de ferro, mas já aprendi que se não impuser resistência, é como picada de injeção, dói menos.

anda duro de roer o osso
pela perda
do que nunca tivemos
pela posse
do que nunca foi nosso

hoje dói é certo
mas o lugar não é ruim não
para onde quer que você vá
se afasta do olho do furacão

amanhã traz nova chance
que é a sua função
a nossa é encarar a fraqueza
a preguiça e a solidão

ontem olhei pela janela do quarto
e vi estrelas no céu
quem sabe meu deus
nem tudo está perdido
no cardápio dos teus sonhos
e na receita dos meus

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: Esperar contra toda esperança

 

Vitória 0 x 3 Grêmio
Brasileiro – Salvador


Esperar contra toda esperança. Ouvi a frase do padre Anderson agora há pouco, durante a homilia das seis da tarde. Com voz de locutor de rádio – ele o é -, repetiu duas, três vezes, fazendo ecoar esta ideia na minha cabeça. Os caros e raros leitores deste blog, em especial desta Avalanche, sabem que teimo em não misturar religião e futebol, pois creio que Ele tenha coisa mais importante para fazer em meio a tantas coisas que nós desfazemos aqui na Terra.

Mesmo levando em consideração o feliz momento de nosso time, não irei fugir desta regra que me impus. Mas achei apropriado reproduzir a frase, afinal a esperança é algo inato ao ser humano. Desistir dela é abrir mão do direito de viver. E quando dá o acaso de você torcer para um clube com uma história de imortalidade, isto tudo se torna muito claro.

Superando todas as expectativas, atropelando os prognósticos e adversários e surpreendendo até mesmo a esperança dos seus torcedores, o Grêmio sobe rapidamente na tabela de classificação. Começa a vislumbrar o topo, apesar de sabermos que nossas metas são bastante humildes. Já falei por aqui que temos de olhar, única e exclusivamente, o jogo seguinte, os próximos três pontos, independentemente do que estiver acontecendo ao nosso redor.

Contudo, quando a vitória ocorre da forma como a que assistimos neste sábado à tarde, é sinal de que alguma coisa está mudando. Não pela dificuldade de se vencer quatro jogos seguidos fora de casa. Nem mesmo porque fizemos uma partida fenomenal. Exatamente pelo contrário.

Em campo, havia apenas cinco titulares. Dos zagueiros aos volantes, todos estavam no banco na partida anterior. No meio de campo e no ataque, a vida não era mais simples. Renato fez malabarismo para escalar o time e, confesso, tive dificuldade de enxergar como eles se colocariam no gramado. Havia o sério risco de termos apenas um amontoado de jogadores.

As coisas tinham tudo para dar errado, mesmo após o primeiro gol de Maylson, outro que tem estado mais tempo na reserva do que no time titular. Quantas vezes neste campeonato, jogando muito melhor do que hoje, saíamos na frente para ceder o empate no fim, às vezes até mesmo tomar uma virada.

E não faltaram chances ao adversário. Mas sempre havia uma gremista no caminho. Muitos à frente de Vítor, quando este próprio não fazia das suas impedindo o gol adversário. O passe saía desconcertado, a bola não ficava em nossos pés, mas o “inevitável” gol de empate não acontecia.

O tempo passava, a marca dos 40 minutos do segundo tempo chegava. Momento crucial, hora ideal para que o destino voltasse a nos preparar mais um revés. Foi assim durante toda a primeira fase deste campeonato.

Pois não é que ao chegarem os acréscimos, fomos nós que ampliamos o placar. Mais uma vez o predestinado Diego – não por acaso – Clementino e Edílson levaram à vitória elástica.

Sem dúvida, tem muita coisa mudando no nosso destino neste Campeonato Brasileiro. Mas é melhor não pensar muito nisso, não. Fiquemos aqui, apenas a saborear cada pontinho conquistado, cada colocação alcançada, refletindo sobre o que nos falam e as mensagens que nos enviam.

É hora mantermos nossa santa humildade sem jamais esquecer, porém, da nossa Imortalidade.

Do que não foi

 


Por Maria Lucia Solla

Dos pés de meias que perdi dentro de casa, na máquina de lavar e na de secar, perdi o interesse e perdi a conta também. Quem é que se preocupa, hoje, com meias? Meias você compra como fraldas, em pacotes, praticamente descartáveis.

Desencanada das meias, hoje me pergunto: para onde vão os sonhos que não se realizam, os beijos que permanecem na boca de origem, os abraços que deixam inertes, os braços?

Vêm de onde? vão para onde? para a Terra do Nunca? do Sonho, da Esperança, do Desejo?

Moram juntos os Sonhos de amor e os de desamor, de construção e de desconstrução, de vida e de morte?

Cheios de nós mesmos, e vazios de vida, nos tornamos veículo conveniente de sonho, esperança e desejo, que nos seduzem projetando imagens do que poderia ser, para depois nos deixar com o gosto amargo na boca, daquilo que poderia ter sido.

Onde nascem? Morrem?

Circulam em nós como se fôssemos bondes antigos, abertos, e seguem pendurados, rindo ou chorando, mas vendo a paisagem do caminho e deixando cada um de nós, lotado, sobrecarregado, e cada dia mais e mais sozinho.

E nós nos viciamos neles. É só um sonho acenar, que a gente breca desesperado, descartando na estrada, outro sonho desencantado.

Aprendemos que esperança e sonho mantêm a gente vivo.

Discordo.

Sonho e esperança escondem de nós, a vida. O que mantém a gente vivo é o estar no aqui, no agora, é o aceitar que esse lugar é o lugar onde chegamos, pegando carona com o imponderável. Só isso.


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

D’aqueles dias

 

Por Maria Lucia Solla
Ouça D’aqueles dias na voz da autora

Ontem foi mais um daqueles dias.

“Aqueles dias” têm enredos diferentes, mas elementos comuns: balbúrdia e tsuname de emoção, sensibilidade à flor da pele, incoerência, derrame lacrimal, incapacidade de realizar tarefa dita normal e dificuldade de concentração. Esse é o sintoma mais grave num mundo onde eficiência é fundamental, e a falta dela, condenação; ponto final.

você pode não ser agradável sociável inteligente
mas se não for eficiente
é considerado socialmente doente

pobre do poeta sonhador
que sofre do mal de amor
pobre de quem tem saudade
e que para tudo por um momento de amizade
que dá o que tem pela fé
e não abre mão da verdade

O fato de não fazer o que deve, sem ter muito claro o que é que deve fazer, é para ser escondido de todos. Dito à boca pequena. Não é falta confessável. É para ser guardada no cofre onde moram a dor de amor, da saudade e a fome de cumplicidade.

quem não tem eficiência de verdade
não anda no ritmo marcado pela sociedade
não ostenta o oficial carimbo
não encaixa a própria vida em planilha do Excel
é condenado a passar seus dias no limbo
Santo Deus do Céu!

Há rótulo e oficina para cada caso, no entanto; pílula mágica vendida na farmácia, legal ou ilegalmente – tanto faz – na drogaria, na academia, na clínica de estética e de dieta frenética. O objetivo é fazer você caber no modelo da hora, e se você atrasa ou adianta, meu filho, é simplesmente largado do lado de fora.

só o poeta sonhador que acolhe e respeita a dor
consegue escapar das teias da eficiência
com arte e com rima
com esperançca e paciência

o homem não tem mais tempo de ser poeta
atrofia o coração e esquece a grandeza do perdão

Mas eu não quero te levar a perder tempo, a deixar as tarefas de lado, a perder a distribuição da senha da eficiência. Nem quero que franza o teu senho pensando na dor que eu tenho, porque amanhã certamente, depois desse expurgar de algo que era preciso deixar, vou sorrir como nunca, vou cantar e desafinar sem medo, sem pudor de mostrar também o avesso da dor.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung