Avalanche Tricolor: Comemora, Vanderlei!

Corinthians 0x0 Grêmio

Brasileiro — Arena Corinthians, SP/SP

Renato e o antirracismo em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

O segundo tempo já estava avançado quando em um contragolpe a defesa do Grêmio cortou mal a bola que caiu nos pés do adversário. Recuada, chegou livre para o chute a gol. Em situação normal de pressão e temperatura, era bater, estufar a rede e correr para o abraço. Havia, porém, uma pedra no meio do caminho. Uma rocha com a dimensão de Vanderlei, que saltou de braços abertos e com uma só mão despachou a bola para escanteio. A vibração com punhos cerrados do nosso goleiro dizia muito sobre o que acabávamos de assistir. 

Aos 36 anos, tendo chegado sob o olhar desconfiado do torcedor, depois de deixar seu clube anterior porque apresentava dificuldades técnicas para se adaptar a estratégia do técnico — diziam que não sabia jogar com a bola nos pés —, Vanderlei logo se tornou titular, no lugar do criticado Paulo Victor, que apesar de ter tido bons momentos com a camisa do Grêmio, revelou-se inseguro, especialmente na segunda parte da temporada passada.

Vanderlei, mesmo tendo ganhado o direito de vestir a camisa número 1, ainda não conquistou o coração do torcedor. Já fez uma sequência de bons jogos desde que chegou à Arena, mas sempre que tomamos um gol, aparece alguém disposto a puxar a lupa, chamar o VAR e fazer contorcionismo para encontrar a falha do novo goleiro. Até mesmo quando o gol é de pênalti há buchicho na arquibancada (que agora é apenas virtual).

Com 1,95 e cara sempre séria, ainda está longe de se igualar a alguns dos grandes nomes que passaram pelo gol gremista nestes anos — para a maioria de nós a imagem de Marcelo Grohe e seus milagres é muito presente. No memorial que mantenho na parede de casa, a camisa autografada por Danrlei está ao lado da de Geromel. Sem falar em Victor, Leão, Mazaropi e, sim, o lendário Eurico Lara — todos merecedores do nosso mais alto respeito. 

Nem se pode exigir essa paixão por Vanderlei. É muito cedo. Por enquanto, ganhou apenas o Campeonato Gaúcho e está sendo testado a cada partida do Brasileiro, da Copa do Brasil e da Libertadores. Uma defesa com a importância desta que fez, nesta noite em São Paulo, sinaliza que está na hora de começarmos a nos convencermos de que estamos nas mãos de um grande goleiro.

Foi ele quem garantiu mais um empate neste campeonato e mais um empate contra este adversário —- é o quarto em dois anos, sem gols. E se hoje não houve gols, Vanderlei tem total responsabilidade no resultado ao fazer aquela defesa magistral.

Tê-lo como destaque nesta partida atípica do Campeonato Brasileiro — na qual o adversário teve dois jogadores expulsos, um deles ainda no primeiro tempo —- também diz muito do que foi o Grêmio nesta noite. Haverá de ser melhor na quinta-feira, creio.

Em tempo: a camisa tricolor trouxe no peito a mensagem antirrascismo que o Grêmio tem propalado ao longo do tempo: somos azuis, pretos e brancos, em meio ao desenho do rosto de negros ilustres que vestiram nossas cores; enquanto Renato estampou uma camisa amarela com a frase “vidas negras importam”. Que o recado seja entendido por todos nós!

Avalanche Tricolor: Diego Souza, o goleador

Grêmio 2×0 Cuiabá

Copa do Brasil —- Arena Grêmio

Diego Souza a caminho do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio engatou oito vitórias seguidas, dez jogos invictos, subiu na tabela do Campeonato Brasileiro e hoje se credenciou a disputar a semifinal da Copa do Brasil, mais uma vez. O melhor momento da equipe nesta temporada — na qual já foi Campeão Gaúcho e conquistou vaga às oitavas-de-final da Libertadores mesmo com um futebol irregular — passa por uma série de personagens, a começar por Renato (sim, aquele que você, torcedor ingrato, pediu a demissão), que soube como poucos ter tranquilidade para administrar toda e qualquer crise que entrou no vestiário. Jean Pyerre, renascido e talentoso, e Pepê, enlouquecido e enlouquecendo, são outros dois nomes que se destacam.

Quero, porém, hoje, dedicar esta Avalanche a um cara que muitos davam como abatido e ultrapassado: Diego Souza, o goleador. Com 35 anos, houve que não acreditasse quando o nome dele foi anunciado como novo reforço para 2020. Aproveitou bem o Campeonato Gaúcho para provar que tê-lo de volta ao time valeria a pena. Foi o artilheiro da competição com nove gols —- tendo feito o gol do título e, antes, o da vitória no clássico Gre-nal, no primeiro turno. Na Libertadores fez um e facilitou a vida de seus colegas nos demais. No Brasileiro está com cinco gols. 

Desde a retomada dos jogos, com a liberação do futebol sem torcida, Diego parecia isolado dentro da área, onde a bola raramente chegava. Esboçava alguns movimentos, mas o resultado não aparecia. Amargou uma série de partidas sem marcar, apesar de ter servido de garçom especialmente para Pepê. Os ombros caídos e os braços jogados ao longo do corpo sinalizavam o desconforto dele com sua produtividade e também com a maneira do time jogar.

Com a chegada de Churín, o Diego Gringo, houve quem apostasse que Diego, o Souza, perderia a posição de titular. Não demorou muito para ele voltar a marcar e em partidas decisivas —- como nos dois jogos destas quartas-de-final em que fez três dos quatro gols do Grêmio. Dois deles hoje: de cabeça, logo no início, e, em seguida, com os pés e com a tranquilidade do matador diante do goleiro. Diego está agora com 18 gols neste ano. 

Acreditar que foi o surgimento de um concorrente para a posição que o fez mudar de postura dentro de campo é precipitado e injusto com o time e com Diego Souza. Ele voltou a marcar não porque Churín está no banco, mas porque o time todo evoluiu após sequência de partidas com vitórias e empates sem convicção. Renato foi capaz de dar segurança a seus jogadores, teve paciência para remodelar uma equipe que sofreu perdas na temporada, seja devido a venda, a lesões ou a Covid19. O time voltou a confiar na troca de passe, com a aproximação dos jogadores, movimentação intensa, dribles e velocidade. E assim a bola voltou aos pés — e à cabeça — de Diego. E quando chega nele encontra experiência, talento e precisão; a possibilidade de parar no fundo do poço é enorme.

Avalanche Tricolor: Jean Pyerre é 10

Grêmio 4×2 Ceará

Brasileiro — Arena Grêmio

O 10 de Jean Pyerre na foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

“Temos camisa 10”, gritaram os torcedores nas redes sociais. Perdão, amigo! Sempre tivemos. Nosso 10 apenas não tinha condições de jogar por motivos mais do que conhecidos por todos — só os impacientes e descrentes faziam questão de não entender, preferindo atacar Renato e suas escolhas. E quando nosso camisa 10 voltou, estava vestindo a 21, mas isso, convenhamos, era apenas um detalhe na jornada de nosso craque. 

Aliás, como você, caro e raro leitor desta Avalanche haverá de lembrar, na edição passada desta coluna esportiva, eu escrevi: “nosso camisa 10 —- mesmo que não carregue o número às costas, ele é o 21 do time —- é um jogador especial”. Quis a coincidência que no dia seguinte a minha Avalanche, Renato e o Grêmio decidiram premiar Jean Pyerre com o número que o futebol mundial costuma oferecer aos craques da bola — apesar de que no nosso time a camisa que consagra é a 7; não é mesmo Renato?

A maneira refinada com que Jean Pyerre toca na bola encanta a todos. Isso ficou evidente desde os primeiros movimentos do Grêmio em campo no início desta noite. Com o nosso camisa 10 buscando jogo no meio de campo e conduzindo o time para o ataque, o deslocamento dos jogadores que estão à sua frente ganha em produtividade. Luis Fernando, Diego Souza e Pepê, especialmente, sabem que podem partir em direção ao gol porque a bola será entregue a eles em condições de marcar. Os laterais e volantes que estão ao lado passam e correm porque sabem que vão receber um presente. Todos saímos ganhando quando o camisa 10 está em campo.

O toque não se restringe ao passe. Jean Pyerre enxerga o gol e lança a bola em direção as redes com a mesma facilidade com que deixa seus companheiros em condições de dar sequência à jogada. Hoje, assistimos a dois ou três chutes que obrigaram o goleiro adversário a se esforçar ao máximo para impedir que a bola entrasse. O chute não parece forte. É como se fosse em câmera lenta. Faz o futebol parecer fácil de ser jogado. 

Em campo, Jean Pyerre é leve, solto e preciso … como na cobrança de falta que abriu o placar, depois de um lance bem ensaiado com Diogo Barbosa (1×0). Como no passe que encontrou Luis Fernando livre pela direita para cruzar e Pepê completar (2×0). Como no momento de perspicácia que o fez pegar a bola que acabara de sair pela lateral e cobrar, sem esperar o jogador de ofício, o que deu velocidade na jogada, e, mais uma vez, permitiu que Luis Fernando desse assistência para o gol —- gol de Diego Souza (3×1). 

E não se satisfez …. 

Jean Pyerre mostrou também seu talento no cruzamento que deu a Diego Churín — o atacante sorriso — o prazer de marcar seu primeiro gol com a camisa gremista segundos após entrar em campo (4×1). 

Jean Pyerre é diferenciado. Tem talento. É craque. É o nosso camisa 10!

Avalanche Tricolor: na monarquia do futebol, o passe é o imperador e Renato …

Cuiabá 1×2 Grêmio

Copa do Brasil — Arena Pantanal, Cuiabá/MT

Jean Pyerre a caminho do gol Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

Renato é o Rei. O passe é o Imperador. E antes que alguém pense que o escrevinhador desta Avalanche aderiu à monarquia, assumo o compromisso de me ater as coisas do futebol, apesar deste jogo que tanto admiramos ser capaz de explicar o mundo —- ao menos foi o que o jornalista americano Franklin Foer me convenceu, em livro publicado em 2010.

Quanto a realeza de Renato, se alguém duvida faça uma visita à esplanada da Arena Grêmio, no bairro do Humaitá, em Porto Alegre, e veja de perto a estátua que erguemos para ele que foi o maior jogador da história gremista. E um dos técnicos mais importantes a comandar nossa equipe. Chegou a seis vitórias consecutivas neste início de noite, algo que não havia alcançado desde que reassumiu o comando gremista. Curiosamente, resultados positivos que surgem em uma temporada na qual nunca foi tão criticado nesta última jornada, iniciada em 2016, em que foi campeão da Libertadores, da Copa Brasil e várias vezes do Campeonato Gaúcho.

Por muitas vezes nesses últimos jogos, tanto a televisão quanto os indiscretos microfones ao lado do campo flagraram nosso técnico esbravejando com seus comandados, incomodado com bolas perdidas no ataque, movimentação precipitada, chutes desperdiçados, marcação folgada e permissão para o adversário nos atacar. Reclama de Ferreirinha, critica Lucas Silva, diz impropérios para Cortez, xinga quem passar pela sua frente e tenta acertar o posicionamento de seus jogadores. Ele sabe que para recuperar o futebol que nos fez campeão é preciso melhorar muito.

O Grêmio vive uma fase de transição — e já falei sobre isso em Avalanches anteriores. Sofreu com a lesão e a Covid-19 de jogadores importantes. Obrigou o técnico a mudar a forma do time jogar e abrir mão daquele futebol que encantou o Brasil. Independentemente de todos os percalços, foi campeão Gaúcho, terminou líder de sua chave de classificação na Libertadores, subiu na tabela do Brasileiro e hoje deu mais um passo importante rumo à semifinal da Copa do Brasil, mesmo fazendo seu primeiro jogo fora de casa. 

Soma-se às seis vitórias consecutivas uma série de nove jogos sem perder, mesmo com todas as dificuldades para montar o time em meio as contusões e as competições. E dos muitos méritos de Renato está a paciência em aguardar o momento certo para lançar jogadores no time titular. O maior exemplo — e aí me encaminho ao segundo tema desta Avalanche —- é Jean Pyerre que torcedores pediam em campo há algum tempo em meio a ataques ao técnico que preferia escalar um time sem articulador.

Nosso camisa 10 —- mesmo que não carregue o número às costas, ele é o 21 do time —- é um jogador especial, diferente no toque de bola, com movimentos elegantes em campo, que se diferencia dos demais pela forma como olha o jogo do alto e de cabeça em pé, enquanto dos seus pés surgem as melhores jogadas. Seu passe é preciso —- errou apenas um em todo o primeiro tempo, três em todo o jogo. Dos muitos passes certos —- este fundamento que diferencia os craques dos mortais —, colocou Cortez em condições de cruzar a bola que levou ao pênalti, que foi cobrado por ele com a precisão que tanto esperamos em uma cobrança desta importância.

Jean Pyerre tem futebol para ser titular, mas Renato não se ilude com isso. Sabia pelo que o meio de campo passava, pelas dificuldades com sua condição física e psicológica, impactadas pela doença do pai e o sofrimento da família. O jogador falou muito no intervalo da partida sobre essa condição especial e sensível que enfrentou. E está ciente de que precisa voltar aos poucos para ser o jogador que sonhamos que seja um dia —- um novo Rei da América. Ou o Imperador do Passe.

Avalanche Tricolor: motivos para sorrir

Fluminense 0x1 Grêmio

Brasileiro — Maracanã

Festa do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

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Devagar e sempre. Cadenciando quando pode. Acelerando quando precisa. Trocando passe no meio do campo e esperando a defesa se abrir. Arriscando dribles pela direita ou pela esquerda. Assustando o adversário e tirando a tranquilidade dele com uma marcação mais forte. Nem sempre exuberante — como nos acostumamos —, mas com uma eficiência que chama a atenção especialmente nas últimas partidas.

Assim tem sido o Grêmio nesta transição que Renato realiza com muita paciência e na qual o time disputa três competições. Duas delas, as Copas, nas quais estamos em uma jornada vitoriosa e a alguns passos da final. No Brasileiro, mais longo e desgastante, os resultados voltaram a acontecer e os pontos foram sendo somados: um aqui, três acolá, mais três agora e quando menos esperavam, o Grêmio saltou seis posições na competição, está a três pontos da Zona da Libertadores e a seis da liderança, com um jogo a menos do que alguns dos que disputam o topo da tabela.

Renato tem mesclado jogadores, descansado quem precisa e aos poucos remontado o elenco. Hoje mesmo, voltou a mudar a dupla de laterais, relançou Jean Pyerre no time titular —- conforme já vinha preparando com calma, apesar das cornetadas de torcedores —-, manteve Pepê, afinal o guri é insubstituível, e saiu jogando com Churín, no comando do ataque.

Pepê dispensa comentários —— mesmo que eu insista em fazê-los. Está sempre pronto para disparar, solidário na marcação e decisivo no ataque. Mais uma vez foi ao Maracanã e deixou sua marca. Que me permitam chamá-lo de Rei do Rio, apesar de saber que o título é de Renato. 

Já o gringo parece estar à vontade no time e com seus colegas. Participou de todas as jogadas de ataque no primeiro tempo e com um deslocamento por trás dos zagueiros, soube dar assistência para Pepê marcar o único gol da partida. Mais cedo já havia colocado de cabeça uma bola na trave. E ao longo do jogo, enquanto teve fôlego, disputou jogadas por todo o gramado. 

O sorriso ao fim da entrevista no intervalo da partida foi o que mais me chamou atenção: transmitiu a mensagem de que está feliz em campo, e tudo que precisamos é de jogadores com alegria para jogar. 

Assim como Churín, o Grêmio também volta a dar motivos para o torcedor sorrir. Porque, estamos chegando, nas Copas e no Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: pragmático, Grêmio segue superando etapas

Juventude 0x1 Grêmio

Copa do Brasil – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Festa do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Um antes, outro agora. Um gol em cada partida.  Um bem no início (8min do 1º), outro lá no segundo tempo (24min do 2º). E foi o suficiente para estar nas quartas de final pela sexta vez na Copa do Brasil. Se há de se clamar por um futebol mais fluido, parecido com aquele que nos levou às taças nos últimos anos, sob o comando de Renato., não há do que reclamar quanto aos resultados alcançados. 

Na Libertadores nos classificamos em primeiro da chave; na Copa do Brasil avançamos com duas vitórias; e se colocar o Campeonato Brasileiro na conta, nos últimos sete jogos vencemos cinco e empatamos dois. Resultados que driblaram a carência no futebol apresentado e de jogadores no elenco. Que superaram lesões, vírus e críticas. Que trazem confiança a um time que está sendo reconstruído pelo técnico e passa por um período difícil de transição —- sob forte pressão de torcedores impacientes.

Pedido por muitos, Jean Pierre entrou no segundo tempo e ajudou a transformar o comportamento do time. A bola que o guri joga está sintonizada com a movimentação de nossos atacantes. Rola bonita quando passa pelos pés dele e sai precisa para os pés dos companheiros. “Eu não disse”, gritam os críticos querendo vê-lo entre os titulares, sem considerarem que o treinador tem o grupo sob seu controle, conhece o potencial técnico e físico de seus jogadores, e costuma soltar os craques na hora certa e pelo tempo que puder contar com eles. 

Nesta noite em Caxias, se lá atrás Geromel  e Kannemann cumpriam com maestria seu papel de reduzir ao máximo os riscos de um gol, no pouco que se fez lá na frente, quando se fez foi pelos pés de três dos jogadores questionados neste momento pelo torcedor: Cortez, Diego Souza e Thaciano. O lateral que muitos querem ver longe do Grêmio se aproximou da  linha de fundo, trocou passe com Diego que havia saído da área para buscar a bola e colocá-la na cabeça de Thaciano — e que toque de cabeça foi aquele, seguindo à risca o manual dos bons cabeceadores.

Ninguém pense que não vejo os limites que temos e as dificuldades que enfrentamos para ser o Grêmio que nos fez o maior das Américas, mas enquanto não superamos essa fase me satisfaço com o pragmatismo dos resultados. 

Avalanche Tricolor: prazer, Diego Churín!

Grêmio 2×1 Bragantino

Brasileiro — Arena Grêmio

Churín estreia, foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

O argentino Diego Churín não havia pisado em campo, aguardava o árbitro autorizar a substituição pouco depois dos 20 minutos do segundo  tempo e já chamava atenção do torcedor a quem seria apresentado na noite desta segunda-feira. Com 1,80 metro de altura e 80 quilos, tem porte físico avantajado, ombros largos, braços com musculatura acentuada —- parece ser forte o suficiente para brigar dentro da área com os zagueiros adversários e pronto para disputar posição no comando de ataque gremista.

Chegou a Arena com o bom retrospecto que construiu no Cerro Portenho, do Paraguai. Fez 53 gols em 128 partidas disputadas. Oito neste ano. Na sua passagem pelo último clube fez quase a metade de gols de toda sua carreira. Aos 30 anos, marcou 110 vezes em 324 partidas. 

Hoje não fez o seu, mas esteve presente nos dois gols do Grêmio. 

Assim que entrou em campo, se posicionou dentro da área para a cobrança de escanteio. Eram 22 minutos do segundo tempo, e o Grêmio mal havia chutado uma só bola no gol adversário. No cruzamento, disputou pelo alto com os zagueiros, não alcançou a bola mas esta sobrou para David Braz que colocou no fundo do poço.

No segundo gol, quatro minutos depois, Churín estava novamente disputando a bola na área, passou para Isaque que cortou para dentro e antes que completasse foi surpreendido pela chegada forte e precisa de Orejuela que estufou a rede. 

O argentino apareceu mais umas duas, três vezes lutando pela posse de bola. Em uma delas, voltou até a intermediária para desarmar o adversário e iniciar o ataque, em outras mostrou que  sua força física se impõe em campo. Mesmo sem marcar, deixou seu cartão de visitas e abre boas perspectivas para um ataque carente de gols.

Ao contrário de Churín, a vitória do Grêmio que nos coloca na parte de cima da tabela, mesmo  com uma partida a menos, e em condições de seguir brincando pelos primeiros lugares da competição, que somente agora chega a sua metade, não foi alcançada com uma performance que agradasse os olhos do torcedor. Neste momento, porém, o que mais precisamos é pontuar. E isso conseguimos fazer nos quatro últimos jogos disputados pelo Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: vamos subir a Serra

Grêmio 1×0 Juventude

Copa do Brasil — Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Isaque comemora; foto: LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

Jogo de um só lance —  foi o que pensei assim que a partida se encerrou. E o lance que lembrei foi aos oito minutos do primeiro tempo em uma jogada na qual Isaque conduziu a bola com velocidade, atraiu a marcação de três adversários, passou para Pepê que em dois toques deixou Isaque no caminho do gol. O gol da vitória.

Dali para frente, nos entusiasmamos com alguns dribles de Ferreirinha, daqueles que ficam bonitos no DVD (ainda fazem isso para vender jogador para o exterior?). Um com o calcanhar quase na linha de fundo. Outro em que passou no meio de dois marcadores dentro da área com dois tapas na bola. Teve mais algumas ameaças aqui e acolá. Mas lance de gol mesmo, nem a estatística da televisão mostrou.

Se o entusiasmo foi pouco lá na frente, os riscos cá atrás também. Nossa defesa teve méritos: Geromel, Kannemann e Lucas Silva abateram a maior parte das tentativas de ataque.

Vanderlei se resumiu a cortar alguns cruzamentos a partir do escanteio; e no mais assistiu à partida. No único lance em que teve de se esforçar mais foi vencido pela bola, e o goleador adversário fez o impossível que era jogar para fora. 

Não é nada, não é nada, não é nada mesmo. Mas fechamos a primeira rodada das oitavas-de-final como o único time mandante a conquistar uma vitória. E vamos para o segundo jogo com a vantagem do empate.

Verdade que a maioria de nós preferiria logo um daqueles resultados acachapantes, que nocauteiam o adversário, deixam o cara nas cordas e quando ele acorda, a segunda partida já terminou. Mas aí, amigo, até parece que você não conhece o Grêmio. 

Com a gente costuma ser no limite, na bola na trave, no desvio da barreira, no chute errado do goleador e na defesa inacreditável. É tensão até o último minuto, risco de gol, unha carcomida pelo nervosismo e um tal de pede para  um santo, bate um bumbo para o outro e mais uma sequência de salamaleques.

Vamos buscar a classificação na Serra Gaúcha, na semana que vem, do jeito que a gente gosta: sem jogo resolvido e fora de casa. Ë assim que a gente forjou cinco Copas do Brasil. É assim que sempre encontro esperança de um futebol melhor: na história do Grêmio e na de Renato, também.

Avalanche Tricolor: jogo em duplex é uma marca do rádio esportivo do RS

Atlético PR 1×2 Grêmio

Brasileiro — Arena da Baixada, Curitiba PR

Ferreirinha garante grito de gol do narrador Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

O domingo passou e a segunda já está terminando, mesmo assim decidi escrever esta Avalanche fora de hora. Nem tanto pelo jogo, que sequer tive o direito de assistir. Nem mesmo pela vitória, que parece ter acontecido por inércia do adversário. Escrevo para falar do que ouvi. Da saudade que senti.

Sem que nenhuma emissora de TV tivesse o direito de transmitir o jogo, meu celular se transformou em radinho de pilha; “sintonizei” a rádio Gaúcha na internet e em poucos minutos fui sugado pela memória. Com as partidas da dupla Gre-nal ocorrendo no mesmo horário, a emissora narrou no sistema duplex, uma fórmula típica do rádio esportivo rio-grandense. 

Desde que me conheço por ouvinte de rádio —- e isso aconteceu muito cedo por motivos mais do que óbvios —-, as emissoras não se arriscam a transmitir apenas um dos jogos da dupla Gre-nal. Deixar um dos dois principais times do Estado fora da programação ou se resumir a atualizar o placar e os lances, seria crime de lesa-pátria, daqueles de derrubar a torre de transmissão, queimar a sede e pendurar seus profissionais pelos pés em praça pública. 

Em uma época na qual jogava-se bola quase sempre nos mesmos horários, domingo à tarde e quarta-feira à noite, era inevitável a coincidência na programação. A solução era o duplex, com equipes de narrador, comentarista e repórter dedicadas a cada uma das partidas e disputando espaço na mesma transmissão para levar ao ouvinte os momentos mais marcantes do jogo ao mesmo tempo —- assim como ocorreu nesse domingo.

A bola começa a rolar em um estádio e o narrador descreve o lance até ela parar; o locutor do outro jogo toma a palavra e sai em disparada relatando o que acontece em campo. A palavra dele é roubada se tiver perigo de gol lá no outro estádio e será devolvida em tom de frustração se nada tiver acontecido de importante. Em meio a esse bate-bola, ainda tem de entrar os anúncios comerciais lidos ao vivo pelos narradores. O ponto certo para entrar é a respiração do colega. Atropelar é inevitável, mas se o atropelo for com convicção, estará desculpado. Às vezes, exagera-se na qualidade da jogada para justificar a chamada. Outras, fica evidente a tristeza de quem está diante de uma partida sem graça nem emoção. 

Imagine essa situação quando as equipes resolvem marcar gols ao mesmo tempo. A solução é esperar o fim do grito e arriscar um grito ainda mais alto. Tem jogo de ego, ciúmes e reclamações nos bastidores. Tem ironia, indiretas e brincadeiras no ar. Neste duelo quem tiver mais gogó leva vantagem.  Pra que nunca ouviu, parece coisa de louco. Para quem ouviu, temos certeza de que é, mas loucura que costuma dar certo, seja pelo hábito seja pela qualidade dos profissionais. 

Aprendi a ouvir futebol na Guaíba, que teve a maior e mais qualificada equipe do rádio esportivo no Sul do País. Para que minha afirmação não seja intepretada como a de um filho coruja, pergunte para qualquer um dos colegas do rádio de São Paulo que vivenciaram aquela época. 

Pedro Carneiro Pereira, Armindo Antonio Ranzolin, Milton Ferretti Jung, Samuel Souza Santos e Élio Fagundes faziam parte do time de narradores. Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann eram comentaristas, entre outros nomes que certamente esqueço agora não para demérito dos esquecidos, mas do próprio ‘esquecedor’. Na reportagem tinha  Lasier  Martins —- esse mesmo que é Senador —- e o irmão dele, Lupi Martins; João Carlos Belmonte, que  comandava o grito da torcida para recepcionar o time que subia as escadas de acesso ao gramado; Edgar Schmidt e mais uma penca de gente boa. No plantão de estúdio, o insubstituível Antonio ‘Tem Gol’ Augusto —- pai de Antonio Augusto Mayer dos Santos, colaborador deste blog.

Jogos em duplex com esse time era um espetáculo. Quando chegavam na camionete da rádio nos estádios, especialmente no interior do Estado, eram cercados pelos ouvintes que queriam ver seus ídolos do rádio esportivo. Curti alguns desses momentos na adolescência, viajando com o time da Guaíba para assistir aos jogos do Grêmio. Quando fui repórter de campo na segunda metade dos anos de 1980 ainda havia um rescaldo de admiração por parte dos Guaibeiros —- que era como os ouvintes se identificavam —-,  mas a concorrência feita pela rádio Gaúcha já era bastante expressiva, inclusive tendo levado a maior parte dos grandes nomes da Guaíba.

Tudo isso me veio à mente enquanto ouvia os narradores da Gaúcha disputando o direito à palavra tanto quanto os times buscavam o gol. Quem narrava a partida do Grêmio saiu no prejuízo pela diferença de qualidade dos jogos jogados ao mesmo tempo. Sorte dele — a minha e dos torcedores gremistas, também —- que no segundo tempo entraram Pepê e Ferreirinha. Com estes dois correndo e driblando alucinadamente no ataque, o locutor não pode bobear —- nem os marcadores —- porque o gol está sempre prestes a acontecer.

Avalanche Tricolor: só pode ser coisa dos deuses do futebol

Grêmio 1×1 America de Cali

Libertadores — Arena Grêmio

A festa do gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foi sofrido, não foi? Não que nunca seja. Sempre é. 

Sofremos menos porque a bola não entrou ou por algum risco na classificação —- que não havia até porque uma das duas vagas já era nossa. 

Sofremos mais porque o futebol não encaixou como gostaríamos. Quer dizer …, até se ajeitou naqueles primeiros minutos do segundo tempo, depois da conversa de Renato no vestiário e as primeira mudanças do meio para a frente. Em pouco tempo vimos um time mais móvel, toque de bola mais veloz e chegada na área do adversário —- a ponto de termos provocado um pênalti a nosso favor,

Dali pra frente, foi aquilo que você viu. Erramos o quinto pênalti em oito até então cobrados na temporada. Tomamos o contra-ataque e, em uma bola na qual o atacante adversário sequer pulou, nosso zagueiro desviou para as redes. Santa infelicidade de Kannemann que já havia tomado um amarelo no primeiro tempo, fez um gol contra e levou o segundo  amarelo já nos acréscimos, sendo expulso de campo e suspenso da próxima partida das oitavas-de-final.

Nada mais funcionava e quanto mais velocidade se tentava dar ao jogo, mais rapidamente cometíamos erros. Até mesmo Pepê, sempre uma saída de escape quando a coisa está feia, era incapaz de reter a bola em seus pés. Chegou a tropeçar nela —- coisa rara desde que assumiu a titularidade do time. 

Renato esbravejava, bufava, sentava e levantava irritado com o que via. Olhava para o céu como se pedisse uma ajuda dos deuses do futebol. Olhava como se perguntasse: o que eu fiz para merecer isso? Mudou quem tinha para mudar e parecia que nada daria certo nesta noite de quinta-feira.

Nas redes sociais a corneta tocava alto. Para muitos dos corneteiros os réus tinham sido julgados e considerados culpados, sem direito de defesa. Sem refletirmos pelo passado que nos trouxe até aqui. 

Só faltava o co-irmão vencer o jogo lá fora, a gente ficar em segundo no grupo e no sorteio pegar um daqueles adversários encrenqueiros! Fecha tudo! Bota todos para fora! Começa tudo de novo! Derrube-se a estátua na esplanada da Arena. Quem contratou esses pernas de pau? Impeachment já!

A bola, o adversário e o árbitro conspiravam contra. O anti-jogo, coisa da Libertadores, como costumam dizer, reinava no gramado. O risco de perdemos mais jogadores para a próxima etapa só aumentava com os nervos a flor da pele. 

Foi então que uma luz se fez. Sei lá de onde. Só pode ser coisa do divino que veio para inocentar os pecadores. Não bastasse nos dar de mãos beijadas o primeiro lugar no grupo com a derrota do adversário direto pela liderança na outra partida, ainda nos ofereceu a benção de mais um pênalti com quase dez minutos de acréscimo. Tinha de ser um pênalti.

Diego Souza ajeitou a bola, correu, parou, dançou, balançou e nosso coração paralisou. Quando bateu em gol, o goleiro adversário já estava caído de joelhos. E de joelhos ficamos nós, agradecendo aos deuses pela justiça que se faz a história de Renato e deste time que não anda em boa fase, mas que mesmo assim termina em primeiro lugar em seu grupo.

Os deuses decidiram nos dar mais uma chance. Saibamos aproveitá-la! Renato saberá!