Avalanche Tricolor: a vitória de uma torcida

 

Grêmio 2 x 1 Cruzeiro

Gremio x Cruzeiro

 

O juiz acabara de apitar o fim da partida e Marcelo Grohe correu em direção a Geral do Grêmio para comemorar a vitória, jogou a camisa para os torcedores, voltou à goleira, ajoelhou-se e agradeceu. Agradeceu a Deus, a quem é devoto, tanto quanto havia agradecido à torcida gremista a principal responsável pela virada desta noite. Éramos mais de 30 mil no Olímpico Monumental, que não arrederam o pé apesar da dificuldade do time em chutar a gol, da dificuldade ainda maior de superar o goleiro adversário quando conseguia chutar a gol e da tempestade que despencou sobre o estádio assim que a bola começou a rolar. Nenhum trovão, nenhum relâmpago, menos ainda o aguaceiro que teimava em atrapalhar nossas investidas calaram a voz dos nossos torcedores. Assim que levamos o gol em uma jogada isolada e descuidada, o grito soou mais forte nas arquibancadas.

 

Quando voltamos para o segundo tempo, em desvantagem, a pressão aumentou. O time foi empurrado para frente, cada roubada de bola era uma comemoração, divididas eram aclamadas e o esforço para superar a limitação técnica, ovacionado. O gol mais bonito foi o de Marcelo Moreno que entrou no segundo tempo, apesar dos problemas de saúde. Um golaço. Mas foi o de Marquinhos o mais simbólico. Antes de a bola parar no fundo do poço, uma sequência de lances mostrou o que nossa torcida é capaz de provocar. Moreno prensou bola duas vezes com seus marcadores, na segunda, foi jogado ao chão, caiu de joelhos, mas conseguiu fazer o passe. Leandro deu seguimento, entrou com velocidade na área, escapou dos zagueiros e chutou com muita força. No rebote do goleiro, a bola parecia fugir do nosso ataque, mas Marquinhos, caído, com a perna esticada, conseguiu empurrá-la para dentro do gol, quando tudo parecia perdido. Marquinhos, não. A torcida do Grêmio fez aquela bola entrar no gol.

 

Kleber até destacou a energia transmitida no vestiário, durante o intervalo, por Emerson, nosso auxiliar, campeão da Libertadores, do Brasileiro e da Copa do Brasil. Não sabia ele que Emérson era apenas o porta-voz de nossos torcedores e somente por isso fomos capazes de vencer com Naldo, Marco Antonio, André Lima e Marquinhos, e sem Gilberto Silva, Zé Roberto e Elano. À torcida gremista, nosso brinde nesta noite de sábado.

Lembranças de Pedro Carneiro Pereira

 

Por Milton Ferretti Jung

 


Em minha carreira de narrador de futebol, que eu me lembre, não consegui narrar apenas dois jogos. Um deles – não me perguntem o ano, por favor – foi Atlético x Grêmio, no Estádio Independência. Já contei, em uma dessas quintas-feiras, o ocorrido com a transmissão da Rádio Guaíba, nesse jogo. Em resumo, a RADIONAL deixou-me na mão: narrei 85 minutos e só parei quando, nos meus fones, ouvi a voz do meu colega Marco Aurélio, que apresentava o rádio jornal noturno. O motivo que me impediu de relatar uma partida pela segunda vez foi, porém, bem mais sério. Fui escalado para narrar, pelo Campeonato Brasileiro, Desportiva x Grêmio em Vitória, capital do Espírito Santo. A equipe que eu comandava desembarcou no sábado, descansou e, no domingo, rumou para o Estádio Engenheiro Araripe. Em Porto Alegre, Armindo Antônio Ranzolin já começara a narrar Inter x São Paulo. O jogo, em Vitória, começa mais tarde. No Autódromo de Tarumã, localizado no município de Viamão, bem próximo da capital gaúcha, o repórter Clóvis Rezende, acompanhava a 4ª Etapa do Campeonato Gaúcho de Turismo. Antes que se estabelecesse o nosso contato com a central técnica da Guaíba, alguém comentou que um grave acidente havia ocorrido no Autódromo. Tão pronto fizemos contato, fomos informados pelo operador da central que deveríamos retornar para Porto Alegre. O nosso companheiro Pedro Carneiro Pereira envolvera-se num acidente com Ivã Iglesias ao tentar ultrapassá-lo. Os carros se chocaram e ambos bateram no muro de proteção dos boxes. Imediatamente se incendiaram. Os pilotos não puderam ser retirados em tempo de serem salvos. No Beira-Rio, o árbitro Arnaldo César Coelho, ao ser informado do ocorrido, interrompeu a partida por alguns minutos. A Rádio Guaíba encerrou a jornada esportiva e passou a rodar músicas. Saímos às pressas do Engenheiro Araripe, corremos até uma agência da Transbrasil e conseguimos voar, debaixo de mau tempo, para o Rio de Janeiro. Lá,embarcamos no “corujão” da Cruzeiro. Eu e meus companheiros largamos nossas bagagens em casa e rumamos para o velório do Pedrinho. Corria, então, o ano de 1973. Estávamos no dia 21 de outubro

 

Conheci Pedro Carneiro Pereira quando a Rádio Canoas, cujos estúdios situavam-se em Porto Alegre, chamou interessados em fazer carreira no rádio. Entre os inúmeros candidatos a uma vaga de locutor, estava um jovem pouco mais moço que eu. Não me esqueço, sei lá a razão, que vestia uma camisa esporte quadriculada. O teste não era dos mais fáceis. Não bastava, para quem buscava lugar na Canoas, ler, sem errar, textos comerciais e noticiários. Exigia-se, também, que falassem de improviso sobre assunto que desse na cabeça do testado. Somente um dos candidatos passou no teste: Pedro Carneiro Pereira. Em 1958, deixei a Rádio Canoas e sentei praça na Guaíba, onde estou até hoje. Pedrinho e eu narramos várias provas automobilísticas quando ambos ainda estávamos na Emissora da Caldas Jr. Pedro saiu da Canoas, fez teste na Rádio Difusora e,claro,foi aprovado. Indiquei-o para Mendes Ribeiro, diretor de broadcasting da Guaíba. Ele foi contratado e voltamos a trabalhar lado a lado, fazendo dupla, às vezes, na locução comercial. Naquela época éramos dez locutores. A Rádio não aceitava jingles nem spots. Era tudo ao vivo. Acabamos os dois trabalhando na equipe esportiva. A história do Pedrinho, porém, não termina aqui. Na próxima quinta-feira, contarei como foi a estreia dele no automobilismo de competição.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: Uma só palavra

 

Grêmio 1 x 1 Santos
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

 

Os últimos domingos têm se encerrado com uma boa programação de TV, a começar pelos jogos do Grêmio que, por coincidência, estão fechando as rodadas do Campeonato Brasileiro há alguns fins de semana. Ao fim do jogo troco, imediatamente, o apito do juiz real pelo juiz da ficção, conforme confidenciei há alguns domingos, nesta Avalanche. Tenho gostado muito da série FDP da HBO e não apenas por encontrar várias citações ao Imortal, mas pelas divertidas histórias envolvendo o árbitro Juarez Gomes da Silva protagonizado pelo ator Eucir de Souza. Em seguida, assistimos (e uso o plural, porque a família está unida no sofá de casa) à série The Newsroom que conta os bastidores de um fictício canal de TV e do telejornal comandado por Jeff Daniels no papel do âncora Will McAvoy. Neste domingo não foi diferente, apesar de o Grêmio ter tentado estragar a programação com um “empate fora da curva”. Tanto um seriado como o outro compensaram com boa diversão, polêmica e discussões existenciais.

 

E a você que aguentou ler todo o parágrafo anterior a espera de alguma explicação para o resultado desta noite, quando poderíamos ter nos aproximado perigosamente do vice-líder, colocado pressão sobre o líder e ficado ao alcance do desejo maior, tenho a dizer apenas a primeira palavra que me veio à cabeça, menos inspirado no seriado da HBO e muito mais na confusão que fizemos em campo: FDP.

Avalanche Tricolor: revelações no Equador

 

Barcelona (EQ) 0 x 1 Grêmio
Sul-Americana – Guayaquil

Era final de Copa do Mundo para o adversário, que levou 50 mil torcedores ao seu estádio, planejou cada momento da partida como sendo definitivo e na estratégia contou, inclusive, com o apoio dos gandulas para acelerar o jogo. Apenas não contava com a mística copeira do Grêmio que surgiu mais uma vez no Equador. Menos ainda com a excelente atuação de Marcelo Grohe, que, na noite dessa quarta-feira, recebeu o certificado que lhe faltava para conquistar a confiança dos torcedores. Logo no início da partida, momento que poderia ter sido fulminante para nossas pretensões, Marcelo jogou-se corajosamente aos pés do atacante que já havia conseguido escapar da marcação. Comemorei sua defesa como se fosse nosso gol. Não bastasse o talento, teve sorte ao assistir bolas se chocarem na trave e no travessão, uma delas inclusive resultado de fogo amigo quando Anderson Pico na tentativa de salvar o time deu um peixinho na pequena área e, em vez de jogá-la para escanteio, a cabeceou no poste gremista. Nosso ala praguejou e socou a grama ao fim da jogada quando deveria ter olhado para o céu e agradecido aos Deuses do Futebol que viam tudo das nuvens e de dedos cruzados a nosso favor.

 

O gol no fim do primeiro tempo, quando Werley de cabeça completou cruzamento de Elano, não seria, por incrível que pareça, a maior das emoções na partida. Além das já relatadas defesas de Grohe, tivemos Tony expulso no segundo tempo e, com os dez que restaram em campo, ressurgiu o espírito guerreiro que transformamos em marca na nossa história. A vitória fora de casa nos aproxima das quartas-de-final, mas, antes disso, prova aos nossos jogadores que todos têm de pagar um preço muito alto para vestir a camisa gremista, têm de se redobrar em força, expor-se ao perigo, não temer nenhum adversário e jamais se sentirem impotentes. Na noite em que nos dedicamos à Sul-Americana fomos duplamente recompensados: vencemos nosso adversário no Equador e ficamos mais próximos da vice-liderança do Brasileiro – pelo resultado de nossos adversários e pela coragem revelada.

Do Dia do Rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O Dia do Rádio – 25 de setembro – foi, em São Paulo, muito bem lembrado. Mereceu citações e programas especiais, além de reportagem no Estadão. Segundo ouvi no Jornal da CBN, nessa terça-feira, deu também assunto, para o bate-papo, sempre interessante, entre o âncora do noticiário, o Mílton Jung, com Dan Stulbach, Luiz Gustavo Medina e Zé Godoy, no quadro denominado “Hora de Expediente”. Neste blog, na data da comemoração do Dia do Rádio, o Mílton postou um e-mail enviado a ele por Maria Célia Machado, filha do Doutor Paulo Roberto. Ela fez – e ainda há tempo para que leiam – um resumo da carreira radiofônica desse que foi, décadas atrás, um dos grandes nomes do rádio brasileiro. Dentre os inúmeros programas comandados pelo seu pai, eu – que tenho mais de 50 anos – me lembro de dois que, de alguma forma, ainda na condição de ouvinte, acompanhei na casa paterna: “Obrigado, Doutor” e “Nada além de Dois Minutos”. Fui fã de carteirinha de Paulo Roberto.

 

No “Hora de Expediente”, o quarteto abordou também as transmissões de futebol e o Mílton disse que, no Rio Grande do Sul, como é um estado e, especialmente, uma cidade na qual reinam dois grandes clubes – Grêmio e Inter ou, para ser imparcial, Inter e Grêmio – as rádios usam o sistema duplex ou dúplex, como o leitor preferir pronunciar nome que veio do latim. Se existe quem não saiba, nesse sistema, se os jogos forem simultâneos, os narradores se revezam cada vez que a bola pára numa das partidas ou um interrompe o outro, no caso de ocorrer gol. Ouvintes, que escutavam o bate-papo na CBN, um de Minas, outro de Pernambuco, lembraram que se dá o mesmo nesses dois estados, porque, no primeiro, Cruzeiro e Atlético são tão rivais quanto a dupla Gre-Nal e, no segundo, três equipes rivalizam-se: Sport, Náutico e Santa Cruz.

 

Seja lá como for, com diferenças regionais ou não, porque o Brasil é muito grande e, como “o brasileiro não vive sem rádio”, este veículo segue prestigiado. Isso não impede que eu sinta saudade do rádio que conheci nos velhos tempos: o das novelas, o das boas músicas, dos programas de cunho educativ, das heróicas transmissões de futebol e de grandes coberturas jornalísticas, no país e no exterior. E o ainda mais antigo: o do tempo, por exemplo, do Dr. Paulo Roberto, médico e radialista. Podem me chamar de saudosista que não fico brabo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: Um bom resultado e boas histórias do rádio

 

Atlético MG 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Belo Horizonte (MG)

 

Nesta semana que se inicia, teremos um dia dedicado ao rádio, dia 25, terça-feira, e muitos admiradores do veículo falarão sobre o assunto. Na sexta-feira que passou, gravei programa sobre o tema ao lado de nomes consagrados como Joseval Peixoto, da Jovem Pan, José Paulo de Andrade, da Bandeirantes, e Heródoto Barbeiro, ex-colega da CBN, sob o comando de Haisen Abaki, âncora da rádio Estadão/ESPM, que promoveu o encontro. Na conversa descontraída, me emocionei ao ouvir histórias do passado do rádio e citações feitas ao meu pai, Milton Ferretti Jung, este que você lê às quintas-feiras, aqui no Blog. E das muitas, Joseval contou como eram as transmissões esportivas nos anos de 1960 e 1970. Com histórico muito mais recente no rádio e histórias menos heróicas para levar ao ar uma partida de futebol, recorri às lembranças do Milton pai, que, em junho deste ano, relatou em post a aventura que foi não transmitir partida entre Grêmio e Atlético Mineiro, no estádio Independência, em Belo Horizonte, na década de 60.

 

Os detalhes do feito (ou do não feito) você lê em “Uma boa história do rádio”, publicada no dia seis de junho, mas em resumo o que Milton pai escreveu é que por incapacidade da Radional, operadora nacional responsável por levar as transmissões ao ar, e carência tecnológica, ele e o comentarista Ruy Carlos Ostermann, narraram um jogo inteiro e somente souberam que a partida não estava sendo transmitida para o Rio Grande do Sul, pela Rádio Guaíba de Porto Alegre, minutos antes de se encerrar. Talvez por prudência ou falta de memória, meu pai, tão ou mais gremista do que eu, nunca me disse qual foi o placar daquele jogo, afinal ainda era uma época em que os times gaúchos não eram vistos com o devido respeito pelos clubes do centro do país.

 

Aqueles eram outros tempos, pois hoje as transmissões de rádio e a tecnologia disponível não nos impõem mais este tipo de risco, salvo a falta de energia elétrica nos transmissões e outros quetais. O rádio está, inclusive, na internet. E nós torcedores conseguimos assistir aos jogos pela televisão, ao vivo, com precisão e uma sequência incrível de cenas captadas por câmeras espalhadas em todo o campo. O Grêmio também é outro, foi campeão Mundial uma vez, Brasileiro e da Libertadores, duas, e é visto por seus adversários como um inimigo difícil de superar. É com base nesta imagem que vejo o empate deste domingo contra o mesmo Atlético Mineiro, um dos protagonistas da história radiofônica descrita por meu pai, como um bom resultado para quem ainda tem pretensões de chegar a mais um título brasileiro. Verdade que naquela época, anos 60, também éramos pretensiosos, mas ainda não tínhamos a fama de Imortal Tricolor. E isso conta muito.

Palmeiras e a arrancada histórica, há 70 anos

 

José Renato Santiago
www.memoriafutebol.com.br

 

Manhã de 20 de setembro de 1942.

 

Dentro de alguns instantes Palestra de São Paulo e São Paulo se enfrentariam em partida decisiva para o título do campeonato paulista daquele ano. Pelo menos era o que indicava a tabela da competição.

 

O Palestra de São Paulo tinha assumido este nome de forma oficial em 27 de março daquele ano uma vez que um decreto de lei assinada pelo presidente Getúlio Vargas, em janeiro, proibira o uso de termos e denominações referentes as nações inimigas.

 

Sendo assim caiu o nome o Palestra Itália em favor do Palestra de São Paulo. Ainda assim o nome continuou sendo visto com restrições, sobretudo pelos rivais, que usavam de argumentos, supostamente, patrióticos para denegrir o Palestra.

 

Foram muitas as pressões políticas, até mesmo com ameaças de perda de seu patrimônio e retirada imediata do campeonato em disputa, que, aliás, liderava. Diante disso, as vésperas da partida decisiva frente ao São Paulo, no dia 14 de setembro, em uma reunião tensa, os dirigentes palestrinos decidiram mudar novamente o nome da equipe.

 

A história diz que por sugestão do jornalista Ary Silva, foi escolhido o nome Palmeiras. Para a torcida: “…seremos Palmeiras e nascemos para ser campeões…”.

 

Conforme o grande Oberdan confidenciou anos atrás em entrevista, a equipe palestrina estava hospedada em uma chácara em Poá, concentrada para a partida, quando os jogadores foram informados que “…Palestra acabou, agora somos Sociedade Esportiva Palmeiras…”.

 

Sendo assim, embora oficialmente na tabela ainda fosse o Palestra de São Paulo, foi o Palmeiras que entrou em campo em 20 de setembro de 1942.

 

Conduzindo uma bandeira brasileira, sob o comando do capitão do Exército Adalberto Mendes, os jogadores entraram no gramado do Pacaembu para fazer, e porque não dizer, começar uma nova história.
O técnico Del Debbio escalou o novo Palmeiras com Oberdan, Junqueira e Begliomini; Zezé Procópio, Og e Del Nero; Cláudio, Valdemar, Villadoniga, Lima e Etchevarrieta.

 

Coube a Cláudio Cristovam de Pinho ser autor do primeiro gol do Palmeiras, uma enorme ironia, uma vez que ele seria um dos maiores ídolos justamente do maior rival, o Corinthians.

 

A história do Palmeiras começou com uma convincente vitória por 3 a 1 frente ao São Paulo, cuja equipe abandonou o campo logo após marcação de penalidade.

 

Em poucos dias, um novo nome e o título de campeão.

 

Nas arquibancadas, uma faixa: “Morreu líder e nasceu campeão!”…
…e um episódio que entrou para a história como “A Arrancada Heroica”.

Avalanche Tricolor: um abraço monumental

 

Flamengo 1 x 1 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

 

Abraço ao Olimpico from Fuca79 on Vimeo.

 

Acabo de assistir a mais um capítulo de FDP, seriado da HBO que tem um juiz de futebol no centro da trama, e mais uma vez o Grêmio é lembrado no roteiro de José Roberto Torero. Dia desses apareceu nossa torcida em sua avalanche e hoje um dos alunos, ao ser perguntado para que time torcia, disse que era gremista, único clube fora do eixo Rio-São Paulo a ser citado na sala de aula. As referências ao Imortal Tricolor apenas reproduzem na tela a percepção que temos do Grêmio na vida real, e a mobilização desse sábado, em Porto Alegre, confirma nosso sentimento. Na comemoração dos 109 anos, reunimos cerca de 25 mil torcedores, de acordo com informações do site Gremio.net, para dar um abraço no Olímpico Monumental, estádio do qual nos despediremos este ano. E o abraço foi muito além das expectativas, pois para um dia sem futebol no gramado, nossa torcida mostrou sua força ao comparecer em número que é mais do que o dobro da média de pessoas que têm visto os jogos do Campeonato Brasileiro. Não pude estar lá, mas a família esteve bem representada pelo Christian, Vitória e Fernando que fizeram questão de compartilhar conosco o vídeo acima.

 

Antes do seriado da HBO, assisti ao Grêmio enfrentar o Flamengo e empatar partida na qual tínhamos todas as oportunidades para vencer e encostar nos líderes, preparando o bote final à liderança. Fizemos um golaço após troca de passe que deixou clara a qualidade técnica de alguns de nossos jogadores e nosso potencial. E deixamos de fazer muito mais porque, às vezes, tenho a impressão de que falta uma fagulha para acender a alma de cada um dos que estão em campo. Aquela chama que o torcedor é capaz de provocar quando invade o Olímpico Monumental. Também não quero ficar aqui cobrando de uma equipe que tem se mantido em posição privilegiada nesta competição há muitas e muitas rodadas. Mesmo porque – e já escrevi sobre isso na edição anterior da Avalanche – temos de ter muita paciência para darmos o passo (ou seria o passe?) na hora certa, atingirmos o topo na rodada final, no jogo que marcará a real despedida do nosso estádio, na Azenha, quando, então, daremos um abraço monumental, um abraço campeão.

Avalanche Tricolor: paciência, muita paciência

 

Grêmio 2 x 0 Náutico
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

 

 

O Grêmio teve muita paciência, disse Anderson Pico ao fim da partida. Sem dúvida, esta tem sido uma das marcas do Imortal nesta temporada. Tivemos paciência suficiente para trocar bola desde a defesa até o meio de campo. Tivemos paciência para esperar um espaço na retranca adversária para que a bola chegasse aos pés, quem sabe na cabeça, de nossos atacantes. Tivemos paciência para suportar jogadas sem muito sentido, sem destino na maioria das vezes. Jogadas que se perdiam pela linha de fundo, às vezes pelas laterais do campo. Tivemos paciência para ver o time jogando pelo meio congestionado de jogadores adversários, porque pelos lados ninguém aparecia. E se aparecesse, ninguém tinha a inspiração de cruzar a bola para deixá-la em condições de gol. Fomos pacientes para ver Kleber ser escorraçado por seus marcadores sempre que a bola seguia em sua direção. Tivemos muita paciência para que Marco Antônio dissesse por que deveria vestir a camisa gremista. E graças a esta paciência, o vimos marcar um improvável gol de fora da área quando entrar nela parecia impossível. E por causa dela, estamos tranquilamente ocupando a terceira posição no Campeonato Brasileiro. Apenas esperando um ou outro tropeço dos dois advesários que estão a nossa frente. Paciente.

 

N.B: Ver Lúcio, hoje meio campo do Náutico, deixar o gramado aplaudido pela torcida gremista, apenas reforça minha admiração por estes torcedores capazes de preservar a história de seu clube. Lúcio foi grande quando vestiu nossa camisa, e sempre será respeitado por este comportamento. Aplausos para ele, e para os torcedores do Grêmio.

Avalanche Tricolor: estava mais pra Divino

 

Corinthians 3 x 1 Grêmio
Brasileiro – Pacaembu (SP)

 

Você há de convir, caríssimo torcedor gremista, futebol aos sábados, 9 da noite, só se for do Divino, o melhor time da dramaturgia brasileira,  que reúne um grupo de jogadores mais envolvidos em paixões e dramas do que com a bola. Algumas vezes até os vemos trocando passes durante os treinos, em um estádio de subúrbio e sob o comando de um técnico que não apita nada. Sabemos que a bola entra no gol ou se espatifa na arquibancada de acordo com o interesse do autor João Emanuel Carneiro. É ele quem decide o destino de cada jogada na novela. Em um capítulo, Roni, o craque e filho do presidente, estufa a rede para mostrar que está de bem com a vida, mesmo que para esconder sua homossexualidade tenha sido obrigado a casar com Suelen, a maria chuteira do bairro. Em outro, Jorginho, filho adotivo do eterno ídolo Tufão, tropeça na bola como complemento de um capítulo no qual se enreda ainda mais em uma trama familiar difícil de explicar.  Iran, que sonha em morar na zona Sul, e Leandro, por quem Roni é apaixonado, também aparecem com algum destaque, mas não são capazes de mudar o jogo. Neste roteiro que está com a bola toda no Ibope, por mais surpresas que surjam a cada capítulo, me parece bem razoável que o único final feliz que podemos garantir é o da vitória do Divino e a conquista do título no último capítulo, de preferência com gol de Adauto, que voltaria a jogar depois de ter encerrado a carreira precocemente, após perder penâlti na decisão da Segunda Divisão, no Maracanã.

 

Perdoe-me, caro e raro leitor, se dedico o parágrafo inicial desta Avalanche para falar de novela. Mas como tenho sempre a impressão de que o destino tricolor faz parte de um roteiro de drama, sofrimento e glória, escrito pelo destino, quero crer que o resultado desta noite de sábado seja apenas um capítulo desta trama que culminará com a conquista do Campeonato Brasileiro, assim como acontecerá com o Divino, na novela Avenida Brasil.