Expressividade: prefira falar em pé

 

Desde a semana passada, divido com você o capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril. Agora, você lê a oitava parte deste capítulo:

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EM PÉ, POSIÇÃO COM SENTIDO

 

Visite um  estúdio de rádio e você verá lá dentro a mesa com os microfones, várias cadeiras em volta e um computador ao centro. Vá a uma emissora de televisão e você encontrará uma bancada para a apresentação do programa. Em ambos os casos, os apresentadores ficam sentados. Posição que, se mantida por longo tempo, é, comprovadamente, prejudicial à saúde. Os reflexos desta postura podem ser sentidos, por exemplo, na coluna, com a pressão sobre as vértebras e dores nas costas; na circulação do sangue, provocando formigamento nas pernas; e na própria respiração.

Ao permanecer sentado você pressiona o diafragma, músculo que separa da cavidade torácica a abdominal e, como já comentamos no capítulo anterior, que intervém ativamente na respiração.

O problema é mais frequente para os profissionais de rádio que apresentam programas, algumas vezes, por até três horas, sem direito a sair do lugar (na televisão, a tendência é que a duração seja menor). A situação é semelhante para quem costuma realizar palestra que na maioria das vezes acontece atrás de uma mesa e sentado. Falar por muito tempo nestas condições provoca desconforto e cansaço que podem ser notados na voz.

 

Na televisão, há algum tempo, já assistimos a telejornais em que os apresentadores estão em pé. Longe da posição estática imposta pelas bancadas, eles se movimentam pelo cenário que pode ser, inclusive, virtual, dado os recursos técnicos à disposição. A intenção foi criar mais um artifício para atrair o telespectador tornando a apresentação mais ágil e expressiva. A medida beneficia também a respiração proporcionando uma fala mais confortável.

 

No início da história do rádio havia um número considerável de programas apresentados em pé. Nos de auditório, o apresentador interagia com o público. No radioteatro, os atores tinham mais facilidade para dramatizar as cenas. Com o fim dessa linha de programas, os locutores foram parar nas cadeiras. A postura tornou ainda mais formal a narração dos textos. Era uma época em que os radialistas tinham de ter de preferência uma voz grave e potente. Enchiam o peito de ar, baixavam o queixo e olhavam por debaixo das sobrancelhas cerradas, imitando os tenores nas óperas, para soltar o vozeirão. Os recursos técnicos eram limitados, o que de certa maneira prejudicava os que não se encaixavam nesse perfil. Com o tempo, o padrão radiofônico se desenvolveu, atendendo a exigência do próprio público. Apesar dos avanços, os radialistas permanecem sentados em suas cadeiras por comodismo ou porque os estúdios ainda são construídos à moda antiga.

 

Conheço, até hoje, apenas um âncora de rádio no Brasil que arriscou mudar de posição. O jornalista Heródoto Barbeiro, já apresentado no capítulo anterior, responsável por um programa que tem três horas e meia de duração, na Rádio CBN, começou a experiência intercalando alguns momentos sentados, outros em pé. Logo essa passou a ser a posição preferencial. Mais adiante, simplesmente aboliu a cadeira. Com um microfone acoplado ao fone de ouvido, ao estilo das operadoras de serviços de atendimento telefônico, ganhou mobilidade. Enquanto fala, comenta ou entrevista, se movimenta. Ao dar pequenos passos massageia os pés no chá com mais benefícios à saúde. Quando quer descansar, inova mais uma vez. Fica de cócoras, encostado na parede.

 

Com fonoaudiólogos integrando as equipes de trabalho das emissoras de rádio e a aplicação de recursos de economia, talvez se consiga mudar o hábito que ainda impera no rádio. Logo aí em frente, tempo não tão distante, imagino estúdios em que o locutor possa falar em pé, com bancadas altas e tendo à disposição cadeiras para quando este entender oportuno. A novidade certamente provocará narizes torcidos e muxoxos nos corredores. Mas, afinal, não é isso que sempre acontece quando há quebra de comportamentos?

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso clicando aqui

Expressividade: respirar melhor ajuda a comunicar melhor

 

Aqui vai a sétima parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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Foto: Pixabay

 

UMA PAUSA PARA RESPIRAR

 

Não, não estou convidando você para fechar o livro, sair à rua e respeitar um pouco de ar puro. Se quiser aproveitar a desculpa, fique à vontade. Mas, por favor, volte em seguida para esta leitura. O título, logo aí em cima, é para reforçar a ideia de que a pausa na locução, entre tantas outras mensagens implícitas, serve para respirar. Ao retomar o fôlego, garantimos a expressividade da fala. Mantemos o controle da ação.

 

A voz pode ser entendida como resultado do ar que circula no sistema respiratório. A sua produção ocorre na laringe, onde se encontram as pregas vocais — juro que prefiro a expressão “cordas vocais”, além de mais sonora parece-me mais significativa, mas não me atrevo mudar, mesmo porque sou minoria neste livro. Quando o ar é inspirado e entra nos pulmões as pregas se afastam. Ao falar, o ar sai dos pulmões fazendo-as vibrar e se transforma em ondas que ganham ressonância na boca, nariz e faringe. A articulação deste som ocorre pela ação da língua, dos lábios, mandíbulas e palato. Chega aos ouvidos do interlocutor completando o processo de comunicação. Assim, o ar é percebido como som e, portanto, quanto melhor a respiração, melhor a possibilidade de se comunicar corretamente.

 

O jornalista Heródoto Barbeiro, em seu livro “Falar para liderar —- uma manual de media training”, revela conhecimento de causa, fruto de sua competência na arte de comunicar e de seu comportamento influenciado pelo zen-budismo, ao escrever:

“Tem coisa que a gente pensa que já nasce sabendo e por isso não admite que alguém nos ensine. Entre elas está o respirar, o comer e o sorrir. Você vai dizer que se não soubesse respirar e comer já teria morrido, mais ou menos alguma coisa parafraseando Descartes: “respiro, logo existo”. Não é bem assim”.

A lista das coisas que acreditamos saber mas temos muito a aprender é bem maior, sem dúvida. Você não tem certeza de que sabe pensar? E ter relações sexuais? Temos muito, ainda, a entender com os orientais. Fiquemos, por agora, com o tema respirar.

 

A ciência Yogue, há mais de 3 mil anos, proclama que a vida é respiração. Não apenas porque a morte é resultado certo em pouco minutos se ficarmos sem ar, ao contrário da ausência de comida, água ou sono. Os Yogues, de sabedoria avançada e profunda, aos desenvolverem uma percepção extra-sensorial ficaram admirados pelo fenômeno da respiração. Compreenderam que para respirar conscientemente é preciso determinação e concentração. Feito assim, conectamos corpo e mente e encontramos o equilíbrio necessário na busca pela qualidade de vida.

 

Há muitos anos, profissionais, que têm na voz ferramenta de trabalho, são orientados a respirar com o diafragma. Nas primeiras tentativas que fiz para falar em voz alta e usar este tipo de respiração tinha a sensação de estar me preparando para a dança do ventre. Com o passar do tempos entendi bem a diferença entre os dois movimentos e preferi ficar apenas com o primeiro. Hoje, apesar de não ser um especialista no assunto, arrisco outras formas de respiração: pausada, circular, abdominal, diafragmática ou completa, dependendo da necessidade. Já aprendi que este ato vai muito além da absorção do oxigênio e eliminação do gás carbônico. Em meio ao trânsito, antes de uma apresentação ou quando não estou relaxado para dormir, muitas vezes expirar e inspirar profundamente são suficientes para encontrar um ponto de equilíbrio.

 

Observe sua respiração. Se estiver curta e rápida, sua mente estará trabalhando de forma agitada, nervosa. Se for irregular, você deve estar perturbado ou ansioso. Mas se sua respiração for suave, é sinal de tranquilidade. Aceite-a como está e ela mudará, como tudo na vida muda. Tudo surge e passa, e observando a respiração por um período, você tomará consciência disso. Controle seu ritmo respiratório e você controlará sua mente.

 

Aprender as técnicas de respiração é importante para combater a ansiedade que influencia na forma de se expressar pela fala. O nervosismo leva a pessoa a falar muito e rapidamente, dois aspectos que podem ser desastrosos na comunicação. Portanto, se houver limite de tempo para sua mensagem, não apresse o discurso, preferia uma versão menor e mais direta. Se a informação tiver de ser transmitida em um momento de estresse e emoção, não esqueça: foque na respiração, controle-a, se necessário for, e isto vai se refletir, até mesmo, na qualidade da sua voz.

 

Outras orientações você encontra na fonoaudióloga mais próxima de sua casa.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso clicando aqui

Expressividade: pausa é silêncio, complementa a palavra ou muda seu sentido

 

Leia a sexta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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SILÊNCIO RODRIGUIANO

 

A importância da palavra é inquestionável. Quem a domina, comanda. Haja vista a preocupação com a formação de monopólios do setor de comunicação. Nos regimes totalitários as emissoras de televisão, os transmissores de rádios e as oficinas dos jornais são alvos preferenciais. Não há democracia sem liberdade de expressão. No Brasil, um dos pioneiros desta luta pelo direito do cidadão expressar opinião foi Nélson Rodrigues que, em 1943, revolucionou a dramaturgia com a peça Vestido de Noiva. Pernambucano, nascido em 1912, este jornalista e romancista transformou-se no mais importante autor do teatro contemporâneo. Morto aos 68 anos, forjou um legado de conceitos e ideias batizado pela crítica de “rodriguianos”. Ironicamente, um dos homens que mais souberam manejar as palavras era, também, um apreciador do silêncio:

“A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: — o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão”.

Pausa é silêncio. E, por assim ser, gera expectativa de quem ouve, motivo pelo qual deve ser usada como parte da mensagem para chamar atenção do receptor seja pela quebra de ritmo, seja pelo próprio vazio em si. Se palavras têm diferentes significados, não-dizer também ganha razão dentro do contexto. Pode ser insatisfação ou respeito. Leva à reflexão ou provoca indignação. É complemento da palavra ou muda seu sentido.

 

Na locução do texto, o silêncio leva o ouvinte a compreender a mensagem desde que feito de forma natural e no momento certo. Exclamação, vírgula e ponto são marcas de um discurso que devem ser respeitadas e permitem a retomada do fôlego do orador. No processo de comunicação, em que os interlocutores estão focados na compreensão do sentido das palavras e orações, a pausa não é menos importante, mesmo que o ouvinte não as perceba conscientemente.

 

Valorizar o silêncio foi a primeira recomendação que ouvi ao ser convidado para um desafio inédito na minha carreira profissional: narrar futebol na televisão. Faço questão de ressaltar o veículo no qual iria exercer a função porque, fosse no rádio, não caberia neste capítulo e sequer mereceria tal destaque. O diretor de jornalismo da Rede TV!, na época de fundação da emissora, era Albertico Souza Cruz que, motivado pela ideia do jornalista Juca Kfouri, passou a defender mudança substancial na cobertura dos jogos de futebol. Ambos entendiam que a exuberância e a qualidade das imagem que fazem parte de uma transmissão televisiva, eram suficientes para atender as necessidades do telespectador, cabendo ao locutor o papel de coadjuvante. No que, no meu entender, tinham plena razão, a tal ponto que aceitei o trabalho, apesar da minha inexperiência como narrador esportivo (as brincadeiras em torno da mesa de futebol de botão, ainda na infância, nunca constaram do meu currículo).

 

Hoje em dia, as emissoras de televisão oferecem à audiência uma quantidade enorme de imagens de um mesmo jogo com a presença, nos estádios, de um sem-número de câmeras. Somam-se a isso todos os recursos técnicos de reprodução, câmera lenta e computação gráfica à disposição do público. De casa, munido de um controle remoto, é possível selecionar a cena a que se pretende assistir e escolher o melhor ângulo para rever aquele lance duvidoso. Do lado de fora do campo, às vezes até dentro do gol, microfones captam todo e qualquer barulho. O grito quase impublicável do torcedor, o choro do craque machucado, a orientação do técnico, que tenta organizar seu time, o chute na bola e até o barulho da chuva. Seja qual for o som que fizer parte do espetáculo, chega até os aparelhos de televisão, capazes de amplificá-lo em equipamentos ainda mais potentes.

 

Em meio ao espetáculo de som e imagem que se transformou a transmissão esportiva, o narrador precisa encontrar o lugar dele. Deixar de lado a participação emotiva e quase histérica que ocupa, atualmente, nas principais emissoras de televisão. “Valorizar o silêncio”, como repetia Alberico a todo momento no ponto eletrônico que me acompanhava nas coberturas dos jogos de futebol. Atender a esta exigência significava me limitar as informações básicas, como o nome de quem estava com a bola ou o que sinalizava o árbitro. Abrir mão do “óbvio ululante” —- apenas para usar mais uma referência rodriguiana. Ou será que o telespectador, depois de todas as imagens à sua frente, ainda precisa ser informado que “o chute foi com o pé direito, no canto esquerdo do goleiro”?

 

O silêncio, confesso, incomodava a mim — que desde o início defendi a proposta, mas tinha dúvidas de como seria recebida e de minha própria capacidade profissional para a função — e aos telespectadores — acostumados a gritaria que reina nas transmissões esportivas. Somente os mais refinados se deram conta de imediato que ali se quebrava um paradigma do telejornalismo esportivo. Saía o “animador de auditório”, entrava o “narrador de futebol de televisão” —- papel que espero possa, um dia, ser desempenhado por alguém mais bem preparado do que eu.

 

O momento mais significativo desta experiência foi durante a partida entre Bayer de Munique, da Alemanha, e Real Madrid, da Espanha. O jogo, válido pela Copa dos Campeões da Europa, marcava a despedida do craque alemão Lothar Matheus. Faltando cinco minutos para a partida se encerrar, o técnico do Bayer decidiu fazer uma homenagem a Matheus e promoveu a substituição dele. O árbitro parou o jogo para que esta fosse realizada. Juca Kfouri, que comentava, e eu, apenas trocamos olhares e silenciamos. Durante oito minutos, o telespectador em casa teve o direito de assistir ao adeus de um dos mais interessantes jogadores do futebol internacional, sendo cumprimentado por colegas, adversários e árbitro, aplaudido em pé por todos que estavam no estádio, e, finalmente, caminhando, já solitário, até o fim de um corredor onde estava a porta do vestiário, sem a interferência do locutor e comentarista. Nenhuma palavra substituiria aquelas cenas. Valorizamos o silêncio e a inteligência do telespectador.

 

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Expressividade: a palavra certa é um agente poderoso

 

Começamos a semana com a quinta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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Foto: Pixabay

 

A PALAVRA CERTA NA HORA CERTA

 

Mark Twain foi notável humorista, escritor, americano, que nasceu em 1835, batizado Samuel Langhone Clemens. Autor de “As aventuras de Tom Saywer” consagrou-se escrevendo para crianças e adolescentes. Sua crítica à política externa dos Estados Unidos fez com que outros trabalhos de excelência, que falavam com o público adulto, demorassem a chegar por aqui. Morto em 1910, seu talento aparece, atualmente, registrado nos principais livros de comunicação e repetidos exaustivamente em artigos e ensaios. De palestras a discursos, Twain é lembrado em frases que aos poucos foram sendo torcidas e retorcidas. Incontestável é sua qualidade em destacar a importância da palavra — não apenas pelo texto que expressa uma técnica essencialmente verbal, mas, também, por citações deixadas para a história:

“A palavra certa é um agente poderoso. Sempre que encontramos uma dessas palavras intensamente certas… o efeito resultante é físico e espiritual, além de imediato”.

O redator está sempre em busca da palavra certa. A que vai conquistar, marcar, que tem de ser percebida pelo interlocutor para que cumpra seu propósito. Entra, então, o papel do locutor, de quem se exige a interpretação correta. É fundamental que ele entenda o que está escrito e para isso tem de dominar os temas tratados no noticiário. À medida que compreende, transmite com precisão. A mensagem torna-se clara. Todos os significados implícitos da palavra se valorizam com a ênfase que dá expressividade à fala, a partir dos recursos disponíveis como entonação, intensidade, ritmo e pausa, entre outros. Resultado: a mensagem vence a batalha pela atenção do receptor. E convence.

 

Para que esse processo tenha seu objetivo atendido, é fundamental o papel do redator. Um texto bem escrito ajuda a locução. Leva o apresentador a entender o sentido da mensagem, possibilitando uma interpretação melhor. Quem escreve deve levar em consideração que a notícia no rádio e na televisão será falada, portanto deve ser redigida de maneira clara, objetiva e simples. Escrever como se fala. A compreensão tem de ser imediata, caso contrário, se perde. No jornal e na revista permite-se a reflexão simultânea e posterior ao ato da leitura — o leitor tem o direito de voltar ao texto, reinterpretá-lo. O ouvinte, não.

 

No Brasil, lê-se pouco, escreve-se menos ainda e se prepara mal os estudantes de jornalismo. Soma-se a estes fatores uma facilidade proporcionada pela informática: a ferramenta de copiar e colar. A fonte de boa parte dos textos de rádio e televisão são as agências de notícias que têm as informações redigidas com as normas da língua escrita. Como o ”control + c, control + v” tem sido utilizado indiscriminadamente e sem que a redação seja adaptada para a língua falada, a locução é prejudicada. As notícias têm frases longas, que dificultam a respiração, e palavras com sonoridade ruim, que se transformam em armadilhas para o locutor. A melhor maneira de o redator não impor esses riscos ao apresentador é ler em voz alta todo o texto escrito. O ouvido será um ótimo conselheiro.

 

O jornalista catalão Iván Tubau, doutor em filologia francesa, graduado em arte dramática e professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro “Periodismo oral”(Jornalismo oral), lançado em 1993, chama atenção para a necessidade de aqueles que escrevem os textos jornalísticos destinados a uma execução oral traduzirem a linguagem popular, sem destruí-la:

“Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios, procurando que estes a sigam conhecendo como sua”.

Tubau, que em seu livro combina a teoria e a prática da arte de falar nos meios de comunicação, ensina que “ao escrever para quem ouve deve-se escrever como quem fala”. Ao mesmo tempo em que analisa a importância do redator na expressividade do texto oral, Tubau lembra a figura do locutor, a quem cabe a interpretação correta deste discurso, e, por isso mesmo, deve ser um bom escritor, também.

 

Para melhor percepção, a mensagem precisa ser entendida por completo. Não basta tê-la parcialmente. Registre mais esta de Mark Twain:

“A diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa é a mesma diferença entre o relâmpago e o vaga-lume”

Só por curiosidade: Mark Twain foi um dos primeiros a comprar uma máquina de escrever —- aquela sobre a qual abri parênteses no capítulo anterior —- e consta que seu romance “As aventuras de Tom Saywer” foi o primeiro livro cujos originais chegaram datilografados aos editores.

 

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Expressividade: a importância da ênfase certa na palavra certa

 

 

Aqui está a quarta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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Foto: Pixabay

 

 

NO BANCO DOS RÉUS

 

 

“Ele não tem uma voz confiável”. Quantas vezes você já ouviu essa frase. É quase um julgamento final. Sem direito à apelação. Do som emitido, define-se a personalidade. Logo que começamos a falar, nossa imagem passa a ser construída no imaginário do interlocutor. Fala mole? É inseguro. Fala alto? É autoritário. Não para de falar? É uma “mala”. Para não sermos condenados nos primeiros minutos de jogo, é preciso cuidado na forma de se expressar. E poucas coisas são tão importantes na busca da confiabilidade através da fala do que a ênfase que funciona como um grifo na palavra.

 

 

Minha primeira experiência como apresentador de telejornal foi na TV Cultura de São Paulo. Na redação conheci uma das melhores vozes femininas da televisão brasileira, Valéria Grillo. Logo notei que antes de ir ao ar, ela pegava a caneta e começava a rabiscar todo o texto datilografado no papel (houve uma época era que os textos eram escritos em uma tal máquina de datilografia, espécie de computado da “Era das Trevas”, em que bastava apertar as letras do teclado para as palavras saírem impressas no papel. Você talvez ainda encontre algumas destas máquinas em antiquários). Aprendi com minha colega de redação que cada risco tinha um significado diferente. Alguns alertavam para o fim do período. Outros para a vírgula que vinha em frente. Um que parecia uma sequência de pequenas ondas sublinhava os nomes próprios. Os mais fortes pediam uma ênfase especial para a palavra. Não era nada simples, porque não bastava copiar os hieróglifos na minha lauda. Era preciso antes saber qual a palavra a ser valorizada.

A inflexão tem de ser dada nas palavras-chave do texto. Naquelas que são importantes para o entendimento do discurso e, portanto, devem chamar atenção do receptor.

Exatamente aquilo que fazia o locutor do Correspondente Renner quando o preço dos produtos aumentava. Não se pode esquecer que enquanto falamos, uma série de outros fatores disputam com a gente a atenção do ouvinte. Se ele está em casa, é a comida no fogão, o vizinho que fala alto ou as crianças que brincam no pátio. Se está no carro, tem o sinal de trânsito, o anúncio no cartaz, o menino fazendo malabarismo para pedir dinheiro ou a moça bonita que atravessa a rua. Lá se foi nossa mensagem ouvido abaixo, sem sequer ser percebida por quem de direito.

 

 

Quando se quer chamar atenção para alguma palavra escrita, usa-se o negrito, o itálico ou o sublinhado. Na palavra falada também temos ferramentas apropriadas. Para ênfase deve-se usar a articulação de forma mais precisa, diminuir a velocidade da fala e reforçar a intensidade. O prolongamento da palavra, o grifo usado em algumas situações, não costuma atingir o resultado pretendido. Apenas aumenta o tempo da locução — alguém já disse que tempo é dinheiro? —-, retira a finalidade da entonação e passa a sensação de que o texto está arrastado.

Quem tem o domínio da voz, subverte a ordem. Muda a intenção do discurso apenas na escolha da palavra a ser enfatizada. Quem não o tem, promove estragos na comunicação.

Políticos e executivos de grandes empresas costumam encomendar discursos às suas assessorias. Se não houver extrema afinidade entre quem escreve e quem lê, o prejuízo pode ser enorme. Recomenda-se que, ao receber um texto escrito por terceiros, leia-se antes acompanhado do seu autor, para que mudanças de tom e ênfases inapropriadas não levem a erros de interpretação. Neste mesmo texto que você lê agora em cada palavra, vírgula, ponto e contraponto há uma intenção que talvez seja percebida apenas por este escrevinhador. Uma sonoridade para quem escreve, mas que pode ser absolutamente sem sentido para quem o lê.

 

 

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Expressividade: não confiamos em que não age naturalmente

 

Você acompanha a terceira parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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O BICHINHO DO HÃ-HÃ

 

Algumas pessoas quando se preparam para falar têm o péssimo hábito de chamar o “bichinho do hã-hã”. Colocam a mão fechada diante da boca e dão duas tossidas curtas. Deixo para as fonoaudiólogas explicarem os males que esse cacoete provoca na saúde vocal. A mim cabe destacar que esse comportamento já se transformou em caricatura de oradores. Em qualquer paródia, no rádio ou na televisão, em que aparece alguém pronto para o discurso, lá vem o malfadado “hã-hã”. Transformou-se em símbolo do político “enrolão”, da autoridade provinciana, uma espécie de chato de galocha. Daqueles que não deixam escapar uma festa na empresa, um casamento do cunhado ou o batismo do filho do chefe sem pedir a palavra para um breve improviso. Essa gente que já ganhou lugar anedótico no imaginário popular. Que ainda não se deu conta que a “Era do Discursão” já era.

 

A comunicação passou a ser fator de transformação da sociedade. A mensagem é recebida por uma audiência mais qualificada. Mesmo o cidadão do pequeno vilarejo lá nos cafundós do Judas não se satisfaz mais com as palavras bonitas do “doutor”. Em lugar das citações tiradas do livro de poesia barata, quer definições. Não se satisfaz com a promessa de “mais saúde, educação e segurança”. Que saber como conquistá-las. Não se seduz pelos “minha gente”, brasileiros e brasileiras” e “trabalhadores do Brasil”, que marcaram a fala de velhos presidentes da República e passaram a ser mais repetidos do que estrofe de marchinha de carnaval. Sem o mesmo sucesso, diga-se de passagem.

Para conquistar o ouvinte apenas com a fala é preciso ganhar a confiança dele. E nós não confiamos em que não age naturalmente. Por isso, o tom deve ser coloquial, como se estivéssemos em uma conversa a dois. O mais próximo possível de um bate-papo. Ressalto a palavra “possível”porque mais adiante veremos que a comunicação, dependendo do meio pelo qual é feita, sempre terá aspectos artificiais. Na próxima vez em que você for convidado para umas rápidas palavras na reunião da empresa, experimente conversar com seus colegas em vez de discursar. Você notará a diferença nos cumprimentos que receberá logo após o evento.

Aqueles que trabalham ou usam o rádio para se comunicar têm que ter cuidado ainda mais especial. A fala é o principal instrumento da comunicação radiofônica. Não me refiro apenas à voz. Essa é um fator fisiológico resultado de uma série de ações do corpo, desde o ar que sai dos pulmões, provocando as pregas vocais, até a forma como o som lá produzido vai se refletir nas cavidades da face e será articulado pela língua e afins. Falar é um processo muito mais complexo. É a maneira como a voz se expressa.

 

Você já parou para ouvir João Gilberto ao violão, certamente. A voz desse baiano refinado é quase um suspiro capaz de conduzir o público para o mundo dele. Aproxima as pessoas para seduzi-las em seguida. Mas, como ressaltou certa vez o jornalista Daniel Piza, apenas parece ter um fio de voz, porque, em sua juventude, cantava à la Lúcio Alves. Ouça João Gilberto e aprenda a lição que soa em meio à canção. Um tapa de luva naqueles que pensam em se transformar em líder na marra. Para quem não entendeu que no mundo da comunicação não se vence no grito. Mas na fala afinada com o bom senso.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

Expressividade: transforme o ouvinte em “escutador”

 

 

Você acompanha a segunda parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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foto: Pixabay

 

 

SEGURANDO NO GOGÓ

 

 

Maria Adelaide Amaral escreve livro, peça e minissérie. Consegue fazer tudo isso com sucesso e paixão. Durante entrevista em que contava suas façanhas na televisão, passamos a conversar sobre “A Casa das Sete Mulheres”, trabalho que arrebatou público e crítica na TV Globo. Logo que ela se deu conta que conversava com alguém natural da terra que serviu de cenário para história, não se conteve e perguntou: “Você sabe cantar o Hino do Rio Grande do Sul?”. Saber o hino, eu sabia, mas cantar, nem pensar. Apesar de ser um profissional da voz, nunca tive afinação suficiente —- ou seria consciente? — para a música ou para o grito de gol. No futebol até arrisquei, mas fujo do karaokê como o diabo da cruz. Para não correr o risco de Maria Adelaide Amaral insistir no convite para que eu desse uma “palhinha” em público, expliquei, constrangido, que música não cantava nem se fosse o hino do meu time do coração.

 

 

Minha carência vocal para algumas atividades me leva a admirar gente que é capaz de segurar a audiência apenas no gogó. Músicos, professores, padres e pastores que transformam a palavra em um poderoso elemento de sedução. Radialistas também fazem parte deste grupo já que têm na voz seu principal recurso para exercer esta arte que exige apuro técnico, esmero profissional e muito jogo de cintura.

 

 

Se nada disso lhe causa admiração, acompanhe esses números e você verá o quanto é desafiante a tarefa da turma aí de cima.

De toda a informação transmitida de uma fonte vocal, portanto que chega até você apenas pelos ouvidos, 60% são retidos nas primeiras três horas. Três dias depois sobram apenas 10%. Talvez isso explique porque os telefones das redações de rádio toquem frequentemente. São ouvintes querendo detalhes de uma notícia que eles não sabem bem a que horas foi divulgada nem, exatamente, sobre o que se tratava, mas lembram, com certeza, que era algo importante para eles. Se comparar os números acima com o poder de retenção da mensagem quando a fonte é apenas visual, você já terá percentuais bem mais generosos. Após três horas do momento em que a imagem foi divulgada, o receptor terá retido 72% da mensagem, enquanto que três dias depois, o índice ficará em 20% —- o dobro do volume de informação retido se a fonte for verbal.

O estudo divulgado pela pesquisadora mexicana Maria Cristina Romo Gil, que integra o Conselho Nacional Para o Ensinamento e a Investigação das Ciências da Comunicação, no livro “Introducción al conocimiento y prática de la radio”, que apresenta as estatísticas sobre a retenção da mensagem pelos sentidos, traz uma informação que não deve desanimar, mas, sim, servir de desafio para quem tem de garantir a audiência apenas no “gogó”. Quando a fonte da mensagem é audiovisual, portanto recebida pelos olhos e ouvidos, 85% da informação são mantidos pelo receptor ao fim de três horas e 65% ficam na memória após três dias. Se servir de consolo: apesar dos números, os telefones nas redações das emissoras de televisão tocam com a mesma frequência, senão maior, que nas redações de rádio.

 

 

As estatísticas parecem não querer ajudar este pessoal que não pode contar com a imagem ou com a própria expressão do corpo para ilustrar o que falam. Por mais que se pesquise, os dados mostram que o componente não-verbal é responsável por cerca de 80% da comunicação. Cabe a esses profissionais enfrentar os moinhos de Quixote com as armas que estão à sua disposição. Transformar o ouvinte em uma espécie de “escutador”. Tirá-lo desta posição confortável, passiva, em que a intenção ao ligar o rádio é apenas a de perceber o som e criar no ambiente uma espécie de fundo musical com a voz do locutor. Incentivá-lo para um novo comportamentos ativo, em que a atenção está voltada para aquilo que é comunicado. Ao provocar esta mudança, o comunicador está próximo de levar a audiência a atingir o estágio ideal que resulta da combinação de escutar e prestar atenção. É o momento da concentração na mensagem, quando o ouvinte não é mais sequer “escutador”e, sim, um “assimilador”.

 

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

Dia Mundial da Voz: “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”

 

Minha primeira experiência em livro surgiu pelas mãos da fonoaudióloga Leny Kyrillos, organizadora de “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), publicado em 2005. Ela convidou 19 especialistas no tema da comunicação para que descrevessem o resultado de seus estudos e pesquisas. Eu era o 20º autor, uma espécie de gaiato neste navio, que  reunia mestres e doutores. Ao contrário dos demais colegas de publicação, era apenas um jornalista que havia aprendido muito mais dentro da redação do que na academia. Minha missão foi falar da vivência ao lado de colegas de profissão e de como uma série de fonoaudiólogas foi fundamental para minha formação. 

 

Para marcar o Dia Mundial da Voz, comemorado no dia 16 de abril, que neste ano tem como tema “Em tempos de distanciamento físico, a voz nos aproxima”, começo hoje a reproduzir, aqui no Blog, o capítulo de minha autoria “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”: 

 

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Milton F Jung, o pai, foi a voz do Rio Grande e apresentou o Correspondente Renner

 

 

“Aqui fala o Correspondente Renner …”. Durante 42 anos, esta frase marcou uma das mais tradicionais sínteses noticiosas do rádio brasileira. Uma corneta estridente, com toque militar, era a característica musical que identificava o programa de notícias da Rádio Guaíba, de Porto Alegre. Já nos seus primeiros acordes, o ouvinte se ajeitava na cadeira, o motorista levantava o som do rádio no carro, as crianças tinham de fazer silêncio. E nos restautaurantes em que o serviço de alto-falante retransmitia a emissora, o barulho diminuir, como testemunhou, certa vez, Claudionor Bayard, garçom de uma churrascaria de Carazinho, cidade do interior do Rio Grande do Sul.

 

“Aqui no restaurante acontece uma coisa engraçada. O serviço de alto-falante funciona na Guaíba o dia inteiro. Quando chega a uma da tarde toca aquela corneta do Rener. O ruído ambiente baixa para mais da metade. As pessoas começam a falar mais baixo e até o barulho dos talheres diminui. Todos prestam atenção no Correspondente Renner”

 

Claro que estou falando de um tempo em que na sala da casa ou no salão do restaurante, o rádio predominava. Os aparelhos de televisão ainda não haviam encontrado seu lugar definitivo nem tinham tamanho suficiente para se sustentarem pendurados nas paredes. Época em que as sínteses noticiosas eram a principal e mais confiante fonte de informação. Naqueles tempos, em Santa Rosa, outra cidade gaúcha, as casas que tinham janelas de frente para a calçada permaneciam abertas. Não havia a necessidade das grades e muros que fazem parte da arquitetura atual. Lá de dentro era possível ouvir o som do rádio que ecoava pelos corredores de madeira e vazava para a rua. Lembro sempre de uma história que ouvi do jornalista Eridison Lemos, que após deixar o interior do Estado, fez sucesso nas redações das rádios Guaíba e Gaúcha.

 

“Quando eu trabalhava numa estação de rádio, em Santa Rosa, meu horário de saudade era a uma da tarde. Morava a uns 500 metros da emissora e ao me dirigir para casa ía ouvindo o Correspondente Renner sem levar nenhum rádio comigo. Eu ouvia pelo rádio dos vizinhos, pois em cada rua ou quadra havia pelo menos uma pessoa ouvindo a Guaíba”

 

Síntese noticiosa é um programa radiofônico em que os principais fatos são apresentados em textos curtos e diretos, com duração que varia de cinco a dez minutos. A locução é feita com velocidade, passando a sensação da urgência dos fatos ali noticiados. A fórmula foi consagrada pelo Repórter Esso que começou a ser transmitido pelas rádios Nacional, do Rio de Janeiro, e Record, em São Paulo, em agosto de 1941. Dezesseis anos depois, em maior de 1957, no Sul do País entrava no ar a Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que tinha como destaque na sua programação o Correspondente Renner. O noticiário, que começou com quatro edições diárias, em pouco tempo se transformou na principal fonte de informação do público gaúcho.

 

O Correspondente Renner teve quatro apresentadores em toda sua história, que se encerrou em 1999 quanto a empresa patrocinadora que emprestava o nome à síntese não renovou contrato com a Guaíba. Atualmente o patrocinador é a Portocred. A mudança foi apenas no nome já que a emissora manteve as demais características do programa. A começar pelo apresentador Milton ferrete Jung que durante 35 anos foi reconhecido como a “voz do Renner”. fato que lhe garante desde então um recorde. É o locutor que há mais tempo apresenta um mesmo noticiário no Brasil.

 

Aqui, caro leitor, peço licença para uma pausa nesta conversa. Há necessidade de alguns esclarecimentos urgentes antes que você desista desta leitura e pule logo par ao próximo capítulo.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, mesma produção deste que lhe escreve. É natural do Rio Grande do Sul, assim como o autor deste texto. Trabalha na Rádio Guaíba, de Porto Alegre, como já fiz no início da minha carreira, lá pelos anos 80. Narra futebol, como já tentei certa vez em televisão. Se não bastasse tem o mesmo nome do acima assinado. Não se espante. Apesar das coincidências não sou eu, não. Mesmo porque ainda não fui contaminado pelo vírus que toma conta de alguns jogadores de futebol que costumam falar deles próprios na terceira pessoa: “O Zé Bedeu chega para somar”, o “o Zé Bedeu promete que vai jogar com muita raça e determinação”. E dê-lhe Zé Bedeu pra lá e pra cá na entrevista do próprio. As nossas semelhanças não são mera coincidência. O Milton, personagem desta história, além de ser tudo aquilo que já descrevi, é meu pai. Posso garantir, contudo, que a presença dele neste texto tem razões bem mais lógicas do que somente os laços familiares, como você verá mas adiante.

 

Esclarecimentos à parte, vamos em frente.

 

Seja pelas questões familiares, seja pelo costume de boa parte dos gaúchos, ouvir o Correspondente Renner era uma obrigação em casa. Quantas vezes minha mãe não abusou de nossa ingenuidade para garantir silêncio e respeito na sala logo que o noticiário começava: “vamos ficar quieto, crianças, se não o pai de vocês vai acabar ouvindo esta bagunça”. Anos depois, mesmo sem ainda ter lido os ensaios de Marsahl McLuhan, percebi que aquela caixa de madeira de onde saía o som da voz de meu pai não tinha ouvidos. Não demorou muito para outros fatos bem mais relevantes naquela transmissão me chamarem atenção.

 

TUDO ESTAVA CARO DE MAIS

 

José Sarney era o presidente da República. Na política, o Brasil ainda aprendia a viver no regime democrático. Na economia, um caos. A inflação era galopante. o preço da gasolina, ainda sob controle “rígido” do governo, subia a cada semana. E no Correspondente Renner, Milto Ferretti Jung traduzia a indignação do cidadão apenas com o recurso da voz. A mudança de tom que beirava a ironia, a quebra de ritmo na frase e a articulação mais precisa da palavra ao informar o novo valor do livro da gasolina expressavam um sentimento que aproximava o radialista do seu público. Tornava-o cúmplice do ouvinte, propiciando a identificação do receptor com aquilo que era transmitido.

 

Foi naquele período que, pela primeira vez, percebi o poder que o locutor de notícias tinha de persuadir o público através da expressividade da voz. Uma lição marcante para quem começava a sonhar com a oportunidade de se transformar em jornalista e colocar em prática aquilo que aprendera dentro de casa. Mais Importante ainda porque esta ferramenta me soava inusitado para a época, principalmente se o assunto era a síntese noticiosa. Imperava no rádio o padrão impostado quase monocórdio. Mas valia o “vozeirão” do que a expressão.

 

O incômodo popular com as constantes mudanças de preços naqueles tempos de inflação draconiana — nós já vivemos épocas assim, não lembra mais? — era reporduzido na ênfase da narração de Milton Ferretti Jung. Daquela forma, o locutor conspirava, consciente ou não, contra a retórica objetiva do rádio na qual a linguagem usada na construção do discurso era direta e reta. Sem espaço a interpretações, imaginavam os autores da tese.

 

Poucos locutores arriscavam novas fórmulas na apresentação das notícias mesmo porque ainda havia os mitos da imparcialidade e da objetividade da informação. Como se a simples seleção dos fatos transmitidos e a própria ordem com que estes são apresentados já não expressassem uma ideia. Até hoje, manuais de radiojornalismo de algumas emissoras reforçam a necessidade de se manter estes dois componentes na edição de um programa. Confundem imparcialidade com isenção e objetividade com correção.

 

Mostrem-me um jornalista imparcial e eu lhe apontarei uma mentida. Este só existe na teoria acadêmica. Você nasce, vive, convive, aprende, entende e pensa. Em cada etapa deste processo sofre influência. Cria suas próprias teses. Desenvolve suas ideias ou as copia. O jornalista — parafraseando aquele ministro do Trabalho —- também é ser humano. Tem seus valores e a partir deles toma partido, às vezes tem partido. Quase sempre torce para este ou aquele. Vibra com seu time de futebol, reza nesta ou ora naquela religião. Preza alguns, desgosta de outros e odeia mais tantos. Onde está a imparcialidade?

 

A meta tem de ser outra. Ao jornalista cabe a isenção ao executar se trabalho. Esta é possível. Aliás, é necessária. Deve ter respeito com o entrevistado, esteja este na seção dos que preza, desgosta ou odeia (se houver problema com este último, tome um Engov antes e outro depois que passa). Não há jornalismo sem o contraditório. Os diferentes pontos de vista devem ser apresentados para que o público tenha a sua própria opinião. É na busca da isenção que se afasta o risco de os meios de comunicação transformarem-se em doutrinários, instrumentos de grupos econômicos, políticos e religiosos.

 

Amanhã, leia a segunda parte do capítulo Santo de casa não faz milagre mas tem expressão, do livro “Expressividade, da teoria à prática”

Sua Marca: duas dicas de livros sobre marcas, mídias e comportamento

 

” … a gente tem de ter essas ferramentas, o investigativo, essa capacidade de pensar, e aí o que a gente lê é muito alimento para tudo isso” —- Cecília Russo

O papel da leitura na gestão de marcas e desenvolvimento de carreira é fundamental a medida que temos a necessidade de desenvolver o olhar crítico sobre as coisas, o que nos permite aprofundar a análise e buscar soluções para os desafios do negócio. Jaime Troiano e Cecília Russo falaram desse tema no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, com o jornalista Mílton Jung, na rádio CBN., e trouxeram duas indicações de livros que ajudam a refletir sobre a função das marcas na sociedade.

 

Um dos livros é “O fim da Idade Média e o Início da Idade Mídia”, de Walter Longo, publicado pela Alta Books, que discute o universo de informação no qual vivemos nos tempos atuais. Para Jaime Troiano, o livro alerta para o fato de que se temos uma quantidade enorme de dados à disposição é preciso estar preparado para extrair o que realmente nos interessa, fazendo deles uma ferramenta de desenvolvimento do seu negócio.

“O Big Data não é Big Ideia”

O outro livro é “A Era Do Ressentimento. Uma Agenda Para O Contemporâneo”, de Luis Felipe Pondé, publicado pela Leya Editora. Dentre tantas áreas da vida humana que o filósofo analisa em seu livro, Cecília Russo destaca um dos trechos do livro que se refere ao mundo das marcas:

“As marcas, portanto, deverão cumprir cada vez mais o papel de dizer o que é essencial como valor (e fazer esse valor valer, uma vez que seus produtos são confiáveis naquilo que ela diz representar) e separar o joio do trigo na vida dos contemporâneos desesperados por sentido que os prenda em vínculos incerto e dolorosos” (pag.104)

Ou seja, diz Russo, é a tese que os profissionais de branding defendem há algum tempo sobre o compromisso que as marcas têm de serem confiáveis, de dizerem, expressarem e agirem naquilo que acreditam ser, de forma genuína, verdadeira.

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.

Comunicar para liderar: isso é coisa de mulher! 3

 

Hoje, você lê a terceira é última parte de capítulo que Leny Kyrillos e eu dedicamos à liderança feminina, no livro “Comunicar para liderar” (Editora Contexto). As duas primeiras estão disponíveis também neste blog:

 

Por Leny Kyrillos e Mílton Jung

 

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ilustração de PIXABAY

 

Acesse aqui para ler a primeira parte de “Comunicar para liderar: isso é coisa de mulher!”

 

E aqui para ler a segunda parte deste capítulo

 

…

 

Das mulheres, hoje, espera-se a persistência nas diferenças em lugar da cópia de comportamento. Para cometer os mesmos erros que os homens, eles já são insuperáveis. Elas precisam valorizar as qualidades que as caracterizam e se adaptar às situações que precisam ser enfrentadas. As discussões sobre políticas corporativas, por exemplo, são odiadas por boa parte das mulheres, segundo Kathryn Heath, que realizou uma pesquisa para saber do que elas gostam e não gostam nas reuniões de negócio. Na vida, lidamos com vários fatos impertinentes e nem por isso desistimos de seguir em frente. Então, o desconforto diante dos debates em torno das políticas corporativas não pode prejudicar sua carreira.

 

Para ser a primeira mulher a ocupar a sala de editor-chefe em 172 anos de história da The Economist, a mais tradicional revista de economia de língua inglesa, Zanny Minton Beddoes teve de vencer 12 homens que concorriam à vaga. Imagina quanta política ela teve de fazer para chegar lá? Ou você pensa que o histórico dela no FMI e o conhecimento que absorveu em Harvard e Oxford seriam suficientes para vencer a acirrada disputa? Lógico que influenciaram, o conhecimento na área é fundamental, mas sem um bom lobby o cargo estaria, novamente, sob a batuta masculina. Ou seja, da mesma forma que dizem não admirar essa prática, as mulheres sabem da necessidade de se sobrepor a essa disputa e podem aplicar algumas estratégias.

FAÇA VOCÊ MESMO

 

Para as mulheres sobreviverem à política corporativa, segundo Heath:

 

  1. Encontre um agente – assim como jogadores de futebol, ter alguém que “venda seu passe” dentro da empresa, ressalte suas qualidades e defenda seu nome nas discussões internas elimina o constrangimento da autopromoção. O agente também leva vantagens, pois transmite a imagem de alguém altruísta, capaz de trabalhar pelo sucesso de outro.

  2.  

  3. Planeje os cenários – tenha como base o tripé: personalidades, motivações e variáveis. Identifique quem são as pessoas com as quais terá de se reunir, antecipando-se à forma como cada um pode reagir às suas propostas; acrescente as motivações para analisar e comparar o que acredita que cada pessoa espera realizar; e estude as variáveis relevantes que possam influenciar as pessoas enquanto a reunião se desenvolve.

  4.  

  5. Transforme seu mentor em patrocinador – o mentor é uma espécie de conselheiro na carreira, e o patrocinador é quem vai levá-la à frente. Por considerar difícil para as mulheres encontrarem patrocinadores, Heath sugere que se use a proximidade e confiança do mentor para fazê-lo advogar em sua defesa. Porém, não se engane, mentores podem oferecer excelente apoio profissional e emocional; mas, se não estiverem em posição politicamente confortável dentro da empresa, talvez não sirvam para ser um patrocinador da sua carreira.

  6.  

  7. Faça política mais impessoal – mulheres que enxergam a política como um jogo no qual se ganha e se perde são mais resilientes e têm respostas mais inteligentes durante o embate. A discussão não é a favor ou contra uma pessoa, é por ideias e projetos. Para despersonalizar a política, no momento de maior tensão, em que há risco de perda de controle,desvie o olhar de seu oponente, isso ajuda a manter a calma e evita o impulso de partir para o ataque. Contato visual é importante, mas, nesse caso, pode prejudicar você.

  8.  

Uma negociação bem-sucedida nos leva a atingir nossos objetivos e a fazer com que as pessoas continuem nos admirando. Portanto, entre nesses embates sabendo que existem ao menos duas verdades: aquela relacionada ao seu ponto de vista e a do ponto de vista do seu interlocutor. A verdade absoluta é praticamente inalcançável, e saber disso vai ajudar as mulheres a compreenderem melhor o que está em jogo no momento. No mínimo, fará ouvir seu interlocutor, o que é fundamental para que o diálogo se desenvolva e a comunicação seja eficiente. Outro aspecto a ser levado em consideração é que as mulheres aumentam suas chances em uma negociação se passam a imagem de pessoas agradáveis e demonstram preocupação com o outro. Têm de manter o perfil feminino. Em resumo: têm de ser mulher de verdade!

 

A comunicação é privilegiada se, além das palavras e estratégias, soubermos usar a postura a nosso favor. Amy Cuddy, psicóloga da Universidade de Harvard, ensinou que o corpo molda quem somos e podemos nos transformar a partir dele, com efeitos fisiológicos comprovados, desde que atentos ao nosso comportamento e assumindo posições que transmitam confiança. Diante de discussões internas, precisamos reforçar os sinais que caracterizam os líderes, tais como entusiasmo e autoridade.

 

As mulheres já são craques quando o assunto é empatia e simpatia; pesquisas mostram que, apesar de terem a mesma pontuação que os homens no quesito quociente emocional, ganham quando se trata de empatia e simpatia. Então, deve-se investir mais na busca dos fatores que englobam poder e credibilidade. Há gestos que podem ser evitados e movimentos a serem ressaltados, muitos dos quais convenientes para homens e mulheres; alguns, no entanto, que se referem especialmente a elas.

 

Você já deve ter percebido que as mulheres tendem a inclinar a cabeça para o lado quando estão interessadas em um assunto, movimento que pode ser entendido como de atenção ao interlocutor, mas também como de submissão. Para evitar a mensagem ambígua e buscar autoridade, prefira manter a cabeça em posição neutra. Os tornozelos cruzados ao conversarem de pé é outro gesto comum entre as mulheres que pode transmitir a sensação de timidez, quando na realidade essa posição é consequência do uso de sapatos com salto alto. A postura ereta, os ombros para trás, a cabeça erguida e os pés descruzados ampliam o espaço e geram confiança.

 

Lembre-se: as pessoas são frequentemente mais influenciadas pela forma como se sentem em relação a você do que pelo que você está dizendo. Por isso, considere ganhar aquela conversa já no aperto de mão: com firmeza, sem ser agressivo e mantendo contato visual. Sorria, pois o sorriso tem um efeito poderoso sobre as pessoas, estimulando seu próprio bem-estar e transmitindo confiança. Através da ressonância magnética funcional, pesquisadores da Universidade de Duke provaram que o cérebro é mais ativo quando se lembra de pessoas que sorriem

 

Acesse aqui para ler a primeira parte de “Comunicar para liderar: isso é coisa de mulher!”

 

E aqui para ler a segunda parte deste capítulo