De volta às pesquisas eleitorais

 

Por Julio Tannus

 

O Congresso Nacional Brasileiro continua legislando sem qualquer conhecimento de causa; e pior, sem assessoria técnica competente. Em reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo na quinta-feira, dia 14 de junho de 2012, com chamada em sua primeira página com o título “Proposta torna crime erro em pesquisa eleitoral”, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou um projeto que torna crime a divulgação de pesquisa de intenção de voto até cinco dias antes da eleição quando o resultado final ficar acima da margem de erro prevista.

 

Isto é um imenso absurdo!

 

Conforme já manifestei aqui, no texto intitulado “Pesquisas: instrumentos perfeitos, fins vagos”, uma pesquisa de intenção de voto tem a função, única e exclusiva, de balizamento da opinião pública e demais setores da sociedade interessados no assunto. E jamais de antecipar resultados, pois não se pode antecipar algo que ainda não se constituiu.

 

Citei nesse texto dois autores que fazem referência a diferença entre um depoimento individual isolado em uma data determinada, como é a declaração de intenção de voto, e a deposição do voto no dia das eleições, ocasião em que todos saem as ruas para depositar seu voto nas urnas. Ambos os autores, Gustave LeBon e Roberto DaMatta, abordam a questão, enfatizando essa diferença.
Referi-me também a semântica utilizada para as pesquisas de intenção de voto, que são erroneamente intituladas de “prévias eleitorais”. E aqui volto a reafirmar: não se pode antecipar algo que não se constituiu ainda! E também: não se pode punir alguém por um crime que não existiu!

 

Um bom exemplo do absurdo que essa Comissão da Câmara aprovou seria algo como: a partir de agora todo consumidor que declarar intenção de compra de um produto em uma pesquisa e não o fizer, a empresa de pesquisa comete um crime e será punida. Outro ponto incluído na proposta da Comissão da Câmara refere-se ao aumento da multa para divulgação de sondagens consideradas fraudulentas, e mantém a pena de seis meses a um ano de prisão em caso de fraude.

 

E aqui eu questiono: desde 2004 uma Comissão da Câmara discute a regulamentação da atividade, que é multidisciplinar, e até hoje não temos a mesma regulamentada.

 

E mais… Por que se instituiu o chamado leilão invertido na pesquisa de mercado e nenhum órgão legislativo coibiu ou coíbe? Eu explico: o leilão invertido inicia-se a partir de um convite a empresas de pesquisa para apresentarem suas propostas sobre um determinado projeto. Em dia e hora previamente definidas, as propostas são lidas para os representantes das empresas participantes e a partir do menor valor apresentado a empresa responsável por esse valor deve iniciar o leilão dando um lance, que necessariamente tem que ser menor que o valor contido na sua proposta original. E acontecem situações do tipo: o valor médio das propostas girava em torno de R$ 400.000,00 reais. Após os lances arrematou o projeto para execução a empresa que deu o lance no valor de R$ 85.000,00. Ou seja, “leilão invertido” é uma afronta a seriedade e a competência profissional, e um estímulo a fraude. Por que até hoje não houve qualquer impedimento a esse tipo de leilão por parte de nossa legislatura?

 

…E então concluo:

 

Jamais verás um país como este!

 

Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e
co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” recém-lançado pela Editora Elsevier na Livraria Cultura. Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Uma lição aprendida de pesquisa …

 

Por Julio Tannus

 

Situação 1:

 

Em fevereiro de 1990, após ter finalizado um projeto de pesquisa, estava preparando-me para atender um compromisso em Paris/França quando recebo uma comunicação urgente de uma empresa norte-americana, cliente da dita pesquisa, solicitando minha presença na matriz, em Detroit/USA, para fazer uma apresentação dos resultados.

 

Argumento que na data solicitada não seria possível atender ao chamado devido ao compromisso já assumido. De imediato recebo a seguinte comunicação: “informe-nos sobre a data de tal compromisso que tomaremos todas as providências para que, após sua apresentação aqui em Detroit, não deixe de atender ao seu compromisso”.

 

Dito e feito, após minha apresentação em Detroit, colocam-me em um voo Detroit-New York, com conexão para Paris. Já em pleno voo, meu olhar se fixa em uma senhora sentada na poltrona um pouco a minha frente. Vejo ela abrir sua bolsa e retirar um cigarro. Fica por um bom tempo martelando o cigarro sobre o polegar. E de repente, acende e dá uma tragada profunda. Imediatamente, qual um gato gigantesco, seu vizinho de poltrona, um “mariner” de quase 2 metros de altura, dá um salto e, agarrando-a pelos ombros, ergue a velha senhora. Imediatamente a tripulação intercede na situação.

 

Algumas horas depois, vejo-me num voo PanAm sentado numa poltrona de primeira classe ao lado de um executivo norte-americano, embarcado originalmente em Los Angeles. Após os drinques, caviares e camarões de praxe, eis que nos servem a refeição principal. E qual não é minha surpresa quando vejo passar na frente de meu nariz um filé atirado pelo tal executivo americano, que aos berros declara a todos que pagou uma fortuna pelo bilhete e não admite comer sola de sapato.

 

Imediatamente atende aos impropérios do empedernido executivo um comissário de bordo solícito que tenta corrigir tal situação. O executivo rechaça qualquer possibilidade de ajustes e imediatamente põe-se a escrever uma carta para o presidente da companhia aérea denunciando o fato e garantindo que ao seu retorno irá entrar com um processo na justiça.

 

O comissário de bordo resigna-se e volta sua atenção para os demais passageiros.

 

Situação 2:

 

Em abril de 1995, um executivo norte-americano, a fim de cumprir um compromisso inadiável em Roma/Itália, embarca em um vôo da Ibéria, Madri-Roma, na primeira classe. Alguns minutos após a decolagem, o comandante da aeronave informa aos passageiros que, devido a problemas técnicos, irá retornar ao aeroporto de Madrid. O executivo, aos berros declara a todos que pagou uma fortuna pelo bilhete e não admite voltar para Madrid.

 

Imediatamente atende aos impropérios do empedernido executivo o próprio comandante da aeronave, que tenta convencê-lo da sabedoria da decisão tomada. O executivo rechaça qualquer possibilidade de ajustes e imediatamente põe-se a escrever uma carta para o presidente da companhia aérea denunciando o fato e garantindo que ao seu retorno irá entrar com um processo na justiça.

 

O comandante resigna-se e volta sua atenção para a aeronave.

 

Então concluo:

 

Se desconfiamos de quem nos presta um serviço, todo imprevisto é um forte argumento para justificar a desconfiança.

 

Se contratamos um especialista de confiança é dele a responsabilidade maior pelas decisões críticas.

 

Nem sempre a rota planejada deve ser seguida a qualquer custo, o imponderável pode estar presente.

 

Mesmo o mais seguro dos meios de transporte pode sofrer desvios no seu percurso.

 

Profissional é aquele que em situações de emergência oferece caminhos alternativos para contorná-las.

 

Diante da irracionalidade exacerbada a melhor forma de contorná-la é ater-se ao racional.

 

Em processos que envolvem tecnologia e ser humano, resignação pode ser a palavra-chave para o encaminhamento de soluções.

 

Contar com o outro como forma de trabalho exige calma, paciência e sabedoria.

 

…O Cliente nem sempre tem razão!

 

Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier), e escreve no Blog do Mílton Jung

Enfiando os pés pelas mãos

 

Por Julio Tannus

 

Há algum tempo, para ser um pouco mais preciso há cerca de 13 anos, tramitou no Congresso Nacional Brasileiro um projeto de lei que atribuía aos evangélicos a exclusividade da atividade de psicanálise. Já pensou que desespero! Não que sejamos contra os evangélicos, mas temos tudo contra os evangélicos terem a exclusividade da psicanálise. Afinal de contas, 100 anos de ciência de repente nas mãos do sobrenatural!

 

E de repente me deparo com a notícia: “Senado inclui restrições a pesquisas na lei eleitoral”. Isso é muito próximo de atribuir exclusividade da psicanálise aos evangélicos, ou seja, o Senado Federal Brasileiro legislando sobre algo que não tem a menor ideia e a mínima formação.

 

Senão vejamos: segundo a emenda, dados socioeconômicos, como sexo e grau de instrução, terão de seguir padrão do IBGE. Ora, isso é tão absurdo como dizer que, tomando como base os dados do IBGE, há mais mulheres do que homens e mais jovens do que idosos no prédio onde moro. Pois, não só o correto, mas o mandatório é que uma amostra para ser representativa de um universo tenha que ser extraída desse mesmo universo. No caso de pesquisas de intenção de voto, o universo a ser considerado é o universo de eleitores e, portanto, a amostra deve ser extraída desse universo e não do total da população. Assim, a fonte correta de obtenção de amostra é o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e não o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 

Além disto, toda amostra deve ser obtida a partir de informações as mais atualizadas. Os dados do IBGE sobre a população brasileira, os denominados dados censitários, são obtidos a cada 10 anos e o último censo foi realizado em 2000. O que existe de mais atualizado são projeções, portanto sujeitas a desvios. Assim, quem possui os dados mais atualizados desse universo é o TSE e não o IBGE.

 

E, por fim, toda amostra deve ser obtida a partir de critérios metodológicos, e corresponde a uma área técnica da pesquisa cuja responsabilidade está a cargo de um profissional de estatística. E aqui eu pergunto: como e por que uma instituição política como o Senado Federal se propõe a estabelecer critérios técnicos de estatística?

 

Ou seja, o que estamos aqui contestando é o Senado se imiscuir nos critérios metodológicos de uma pesquisa de intenção de voto. Só falta o Senado estabelecer critérios para os procedimentos cirúrgicos da área médica. Deus nos livre…

 


Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada”, recém-lançado pela Editora Elsevier na Livraria Cultura, e escreve no Blog do Mílton Jung

Pesquisas: instrumentos perfeitos, fins vagos

 

Por Julio Tannus

 

Parece que em matéria de Pesquisa de Opinião a máxima atribuída a Einstein para caracterizar nossos dias não se aplica nem em sua primeira parte. O que temos visto nos processos eleitorais aos olhos de políticos, imprensa e alguns segmentos de nossa sociedade, é uma derrota das “prévias” eleitorais frente a alguns resultados observados.

 

Coloco dois aspectos que merecem reparo antes que nos defrontemos com situações similares. Em primeiro lugar a importância de se preservar a incolumidade da pesquisa enquanto instrumento de informação dos eleitores, a quem afinal mais diretamente diz respeito. A opinião pública brasileira tem uma longa tradição de servir como “massa de manobras”. É tradição em nosso país falar-se em nome do povo, de tomar decisões para o “bem de todos e felicidade geral da nação”. Entretanto, o que não é tradição em nosso país é passar para a Opinião Pública o que ela é, o que ela pensa, o que deseja, qual sua reação enquanto indivíduo constitutivo da coletividade. Neste sentido, pode-se observar uma leve mudança nesses últimos anos com a publicação crescente de resultados de pesquisa via grande imprensa.

 

E é aqui precisamente um dos pontos que merece reparo. O bombardeio, resultante de interesses múltiplos, do instrumental de pesquisa inviabiliza a constituição de um dos poucos espelhos capaz de refletir a Opinião Pública a si mesma, sua imagem e semelhança. Assim, cabe aos pesquisadores e aqueles envolvidos com o processo de divulgação a responsabilidade de, enquanto profissionais, cuidar para que a utilização do instrumental e as comunicações decorrentes se façam dentro das técnicas e normas que regulam seus usos; contribuindo efetivamente como um instrumento a mais para o aprimoramento da democracia no país. Dentro deste contexto, é importante observar que atualmente a maioria das pesquisas eleitorais utilizam amostras por cota ao invés de amostras probabilísticas, e estranhamente, contrariando os cânones das técnicas de amostragem, publicam a margem de erro. Ora, por não se tratar de uma amostra probabilística, não faz nenhum sentido científico calcular e raciocinar levando-se em conta o erro amostral.

 

Outro aspecto à consideração diz respeito à questão das “prévias” eleitorais. Lembro-me que por ocasião das eleições municipais na cidade de São Paulo, em um passado não muito distante, quando as pesquisas indicavam uma estreita diferença entre Fernando Henrique e Jânio Quadros, li um texto escrito em 1896 (século XIX!) por Gustave LeBon – “The Crowd” – que dizia algo assim “sejam quais forem os indivíduos componentes, sejam ou não semelhantes seu modo de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua inteligência, o fato de terem sido transformados em multidão confere-lhes a posse de uma espécie de cérebro coletivo, que os faz sentir, pensar e agir de modo completamente diverso do que cada um dos indivíduos sentiria, pensaria ou agiria em um estado de isolamento. Há certas idéias e sentimentos que não surgem e não se transformam em atos exceto no caso de indivíduos formarem uma multidão…”. Evidentemente que o fenômeno multidão aqui considerado pelo autor refere-se a situação de aglomeração com a presença física dos indivíduos. Contudo, não é de todo descartável, por um lado, a aglomeração imaginária constituída a partir do espelho mencionado anteriormente. Além disso, o ato de sair à rua, afora o aspecto ritualístico que possa ser considerado e as implicações culturais de que nos fala Roberto DaMatta em seu “A Casa e a Rua”, efetivamente introduz um caráter de multidão. É esse caráter que descarta a idéia absoluta de prévia na pesquisa eleitoral (no meu entendimento, o termo correto a ser empregado no caso é “Pesquisa de Intenção de Voto” e não “Prévia Eleitoral”), pois não se pode antecipar algo que ainda não se constituiu.

 

Em ambas as situações, fica evidenciada a função da pesquisa eleitoral não como uma ação que visa antecipar resultados, mas seu caráter de balizamento para a Opinião Pública , permitindo o acompanhamento pelo seu principal ator do processo, que é o cidadão. Neste balizamento, espelho no qual a cidadania vai reconhecer os seus desejos e anseios, fica estabelecida uma forma de participação onde a identificação da população com as várias tendências políticas pode permitir o livre jogo democrático das eleições.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve, às terças-feiras, no Blog do Mílton Jung

“E o vento levou … a nossa Imprensa ?”

 

Por Julio Tannus

 

 

A notícia de primeira página da Folha de S. Paulo de 29/03/12 “Morumbi é o bairro com mais roubo a casas em SP” carece de explicação. Isto nos lembra do verso de Dominguinhos:

 

Na pressa que tava

Não pude esperar

Eu vivo fugindo pra outro lugar

Aonde a tristeza não saiba que fui

E a felicidade vá lá

 

Me pegue de novo no colo

Me faça de novo menino

Não deixe que eu morra de medo

Não deixe que eu durma sozinho

 

Chega um tempo na vida

Em que a gente presta atenção

Vê que nem tudo no mundo

Carece de explicação

 

Ou seja, tal afirmativa contempla apenas o número de casas roubadas, mas não considera o total de casas existentes no bairro na comparação feita com as demais regiões consideradas na matéria.

 

Como pesquisador, indagamos: É censo ou pesquisa por amostragem? Se por amostragem, qual o tipo de amostra? Qual o tamanho do universo de cada região, ou seja, quantas casas existem em cada região? E o tamanho de cada amostra pesquisada? Qual o coeficiente de confiança? E o erro amostral? E assim por diante…

 

A nosso ver uma notícia correta, precisa e isenta seria algo como: na comparação com o mesmo período do ano passado; ou, proporcionalmente ao total de casas existentes no bairro o índice de casas roubadas é de x% com um erro amostral de y% para mais ou para menos, etc.

 

E aí nos perguntamos, seguindo o arrazoado do Sr. Alberto Dines no programa Roda Viva da TV Cultura de 19/3/12: “não há liberdade de imprensa?” ou “a iniciativa privada no Brasil não dá liberdade?” e também “ela se deixa infiltrar por setores religiosos, políticos, comerciais?”

 

Para então concluirmos: É, padece de explicação!

 

Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada,
co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier)

O impacto da vida digital na vida familiar

 

No começo da semana, Ethevaldo Siqueira, comentarista do Mundo Digital, nos apresentou parte dos resultados de pesquisa mundial feita pela Ipsos Public Affairs, encomendada pela fabricante de biscoitos Oreo, que mostram que o convívio entre crianças e adultos está praticamente desaparecendo e um dos fatores que mais influíram nesta mudança radical na vida familiar e no isolamento das pessoas é, em grande parte, o uso intensivo da tecnologia digital. Meninas e meninos estão conectados na internet, nos celulares, nos games e na televisão, enquanto pais vivem obcecados pelos dispositivos e aplicativos que lhes oferecem aumento de produtividade e ganhos financeiros. Nas palavras do próprio Ethevaldo: a vida em família pode entrar para a lista de espécies ameaçadas de extinção.

 

A maioria dos pais pesquisados acredita que as crianças estão crescendo mais depressa do que as das gerações anteriores, diz que seus filhos deveriam ter mais tempo para simplesmente serem crianças, e confessa que não se diverte diariamente com eles.

 

Enquanto escrevo este post, estou em uma mesa redonda na qual há três computadores conectados, ocupados por mim e meus dois filhos, em uma sala que combina espaço de trabalho, estudo, som e televisão. Sempre preferimos manter os terminais longe dos quartos para evitar o isolamento e garantir, de alguma forma, nossa interação. Um deles está jogando em rede com amigos e o outro aproveita a máquina, em um chat, para estudar para a prova do dia seguinte. A todo momento trocamos impressões, tiramos dúvidas e mostramos uns aos outros aspectos interessantes que encontramos na internet. Costumamos nos levantar para fazer um lanche juntos – agora há pouco, demos uma bela colherada em um brigadeiro que minha mulher deixou pronto antes de ir trabalhar -, às vezes apenas conversamos, e quando o assunto na televisão está mais interessante nos jogamos em um sofá e fazemos uma sessão coletiva. É bem provável que a internet, em especial, nos tome mais tempo do que deveria, nos emaranhando nas interligações digitais; além disso, tem a caixa de correio sempre me chamando, a troca de informação nas redes sociais e outras demandas que surgem a partir do computador. Tenho certeza, porém, que não fosse o acesso que este me oferece não seria possível realizar a maior parte do meu trabalho em casa e isto me afastaria deles, me levando a chegar tarde, desperdiçar tempo no trânsito, na fila do banco e na visita a lojas e casas de serviço.

 

A diretora global da Oreo, Sheeba Philip, com os dados da pesquisa em mãos, comentou que “precisamos restaurar e reconquistar o espírito da infância em todo o mundo”, contou-me Ethevaldo, em nossa conversa na CBN. Concordo com ela, mas não devemos nos enganar e fazer das máquinas bode expiatório de um problema que, me parece, é mais da vida humana do que digital: a dificuldade dos pais de definirem prioridades, e colocarem no topo desta lista a sua família.

Mulheres que compram

 

Por Carlos Magno Gibrail

Na sexta-feira, o varejo norte-americano mudou os rumos da economia mundial, ao apresentar movimentação altamente positiva na tradicional promoção “Black Friday”. Quando após o dia de Ação de Graças apresenta descontos significativos.

Esta é uma medida vital para as previsões econômicas, refletindo o papel importante do sistema comercial no contexto global.
Ao observador atento cabe lembrar a personagem que aciona este mecanismo de compra. A mulher. Compradora absoluta deve ser permanentemente ouvida sobre seus desejos.

Das pesquisas qualitativas de mercado*, que encomendei à OUT OF THE BOX, sobre o comportamento de compras das mulheres, das quais desenhei estratégias e reconsiderei conceitos, destaco alguns ensinamentos:

– Todas admitem que tem seu “dia de perua”, embora reprovem em princípio: “Tem dias que eu penso assim: hoje eu vou de perua! Por exemplo, eu tenho um par de sapatos cheio de coisas, que eu gosto muito de usar, mas não uso com uma roupa emperiquitada, e sim com uma roupa básica – uma perua básica!”

– Produtos precisam sempre levar em conta o “feminino”. “A executiva não é muito inspiradora, não “anima” muito, as mulheres não tem muito que falar dela”.

– A roupa é o produto mais importante para a mulher. “A primeira coisa que penso quando acordo é na roupa que eu vou vestir”. “Por melhor que tenha sido à noite”.

– O brinco é a peça essencial. “A peça mais importante é o brinco”. “Já esqueci a calcinha e não voltei para colocá-la, mas com o brinco já voltei”.

– O aspiracional é o produto a ser vendido. “A mulher atual não quer comprar o “uniforme” da profissional, ela quer a roupa que se identifica com o aspiracional da mulher bonita, bem cuidada, bem resolvida de nossos dias”.

Neste universo, destaco a hegemonia da moda do vestuário. A inovação dos produtos regida pela natureza – primavera, verão, outono, inverno – sabiamente apreendida pelas roupas, é o grande diferencial. Atingirá certamente os demais produtos de consumo. Já acostumados à velocidade de Steve Jobs, teremos que nos adaptar a dinâmica das tendências de moda. Para a felicidade geral das mulheres que compram. Que tal automóveis de verão e de inverno para acompanhar os últimos lançamentos do SPFW (São Paulo Fashion Week)?

Bem, para quem quiser discutir pessoalmente sobre este tema, estarei abrindo o Seminário FASHION LAW em São Paulo dia 8, falando mais um pouco em Moda.

*Pesquisa realizada na cidade de São Paulo através de 1 Discussão em Grupo, junto a mulheres de classe A1/A2, na faixa dos 30/55 anos. E, através de 2 Grupos de Discussão de mulheres classe A/B, entre 25 e 45 anos.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Água suja e escassa: a culpa é sempre do outro

 

 

Lixo na Represan Billings

O problema é grave, me preocupa, mas a culpa é do vizinho.

Esta é a percepção que eu tive de como pensam as pessoas que moram na Região Metropolitana de São Paulo quando o assunto é a escassez e poluição das águas. A opinião delas foi apresentada em pesquisa inédita encomendada pelo Comitê de Bacias Hidrográficas do Alto Tietê na qual o Ibope ouviu 1008 moradores do maior aglomerado urbano da América do Sul.

Dos entrevistados, 85% dizem que nossos hábitos de consumo ajudam a destruir rios, córregos e mananciais e 66% entendem que o maior desperdício ocorre nas residências. Porém, quando são perguntados sobre o comprometimento para colaborar com a preservação das águas, 74% responderam que não se empenham muito.

“Nós precisamos economizar, precisamos cuidar, precisamos fazer mais, mas quem está desperdiçando é o vizinho”. Foi assim que o presidente do Comitê, Marco Bertaiolli, que também é prefeito na cidade de Mogi das Cruzes, descreveu o comportamento do cidadão diante do tema. Por outro lado, ele ressaltou a importância de que há, atualmente, a consciência da sociedade para o risco de escassez, pois 94% das pessoas disseram estar preocupadas com o desperdício. Um outro dado é que 84% acreditam que o Brasil enfrentará falta de água a médio e longo prazo.

O que fazer diante disso ? – perguntou o Ibope. Ou o que o vizinho pode fazer ? – pergunto eu.

Leia este artigo na íntegra no Blog Adote São Paulo

Mais da metade dos moradores querem deixar São Paulo

 

Nova pesquisa sobre a percepção dos moradores de São Paulo mostra que o número de pessoas que querem deixar a cidade ainda é maior do que o daqueles que pretendem ficar por aqui. O trabalho é realizado pela Rede Nossa São Paulo, com coleta de dados do Ibope, e será entregue à cidade no dia 20 de janeiro. Reproduzo abaixo, parte do texto divulgado pela organização, agora à tarde:

Em resposta à pergunta “Caso pudesse, sairia de São Paulo para viver em outra cidade, ou não sairia de São Paulo?”, 51% das 1.512 pessoas pesquisadas responderam que sairiam. Outros 48% disseram que não sairiam e 1% não souberam ou não responderam.

Embora o percentual de moradores que revelam o desejo de morar em outra cidade ainda seja maioria, o índice caiu em relação à pesquisa anterior, realizada em dezembro de 2009. Na ocasião, 57% dos pesquisados disseram que sairiam de São Paulo, se pudessem. No ano anterior – em novembro de 2008 – o índice foi de 46%.

Outro dado já tabulado – e que, certamente, é um dos pontos que influenciam a vontade das pessoas de viver em São Paulo – está relacionado à sensação de insegurança. Para a pergunta “Pensando no seu dia-a-dia, que situações mais fazem com que você sinta medo na cidade de São Paulo?”, entre as respostas mais citadas estão: “violência em geral”, “tráfico de drogas”, “alagamentos” e “trânsito”

“Motorista não reconhece o outro como ser humano”, diz Roberto DaMatta

 

Acidente na Inajar de Souza

O comportamento dos motoristas brasileiros é agressivo e desrespeitoso porque somos uma sociedade que não aceita a igualdade de direitos e todos se consideram especiais. Enquanto isso, o trânsito é uma área pública onde não se pode oferecer privilégios, não é possível fazer rua pra rico e pra pobre, sinal diferenciado pra carro oficial ou comum. E isto causa mal-estar no Brasil.


Ouça a entrevista de Roberto DaMatta, ao CBN São Paulo

A análise é de um dos mais importantes antropólogos do País Roberto DaMatta que, em entrevista ao CBN São Paulo, disse que os motoristas “nem reconhecem o outro como ser humano, a menos que se envolvam em um acidente”. Do olhar dele, resultado de pesquisa realizada em Vitória, no Espírito Santo, também não escapa o pedestre: “é brasileiro, pertence ao mesmo estilo de vida do motorista e também faz a gambiarra dele”.

Para DaMatta, a grande questão é como mudar este traço cultural do País, que aparece com clareza no trânsito pois o abuso produz mortes e se transforma nesta epidemia de acidentes que estamos vivendo. “Precisamos atacar a raiz do problema, pois no fundo somos uma sociedade com resíduos aristocráticos muito fortes”.

Lembra que o brasileiro vive um paradoxo, pois “gosta de chefetes, Duques, de gente importante, o número 1 da música e do rádio, e ao mesmo tempo é uma sociedade democrática”.

Ele defende a repressão policial, com multa e carteira cassada, mas lembra que a transformação se dará apenas quando houver um pacto social capaz de criar a consciência de que a lei está aí para melhorar a nossa qualidade de vida. “Só pode educar bem se tocar no coração e na cabeça do cidadão”, ensina.

O livro “Fé Em Deus e Pé na Tábua” é resultado de pesquisa desenvolvida por DaMatta, João Gualberto Moreira Vasconcellos e Ricardo Pandolfi, encomendada pelo governo do Estado do Espírito Santo.