Pesquisas: instrumentos perfeitos, fins vagos

 

Por Julio Tannus

 

Parece que em matéria de Pesquisa de Opinião a máxima atribuída a Einstein para caracterizar nossos dias não se aplica nem em sua primeira parte. O que temos visto nos processos eleitorais aos olhos de políticos, imprensa e alguns segmentos de nossa sociedade, é uma derrota das “prévias” eleitorais frente a alguns resultados observados.

 

Coloco dois aspectos que merecem reparo antes que nos defrontemos com situações similares. Em primeiro lugar a importância de se preservar a incolumidade da pesquisa enquanto instrumento de informação dos eleitores, a quem afinal mais diretamente diz respeito. A opinião pública brasileira tem uma longa tradição de servir como “massa de manobras”. É tradição em nosso país falar-se em nome do povo, de tomar decisões para o “bem de todos e felicidade geral da nação”. Entretanto, o que não é tradição em nosso país é passar para a Opinião Pública o que ela é, o que ela pensa, o que deseja, qual sua reação enquanto indivíduo constitutivo da coletividade. Neste sentido, pode-se observar uma leve mudança nesses últimos anos com a publicação crescente de resultados de pesquisa via grande imprensa.

 

E é aqui precisamente um dos pontos que merece reparo. O bombardeio, resultante de interesses múltiplos, do instrumental de pesquisa inviabiliza a constituição de um dos poucos espelhos capaz de refletir a Opinião Pública a si mesma, sua imagem e semelhança. Assim, cabe aos pesquisadores e aqueles envolvidos com o processo de divulgação a responsabilidade de, enquanto profissionais, cuidar para que a utilização do instrumental e as comunicações decorrentes se façam dentro das técnicas e normas que regulam seus usos; contribuindo efetivamente como um instrumento a mais para o aprimoramento da democracia no país. Dentro deste contexto, é importante observar que atualmente a maioria das pesquisas eleitorais utilizam amostras por cota ao invés de amostras probabilísticas, e estranhamente, contrariando os cânones das técnicas de amostragem, publicam a margem de erro. Ora, por não se tratar de uma amostra probabilística, não faz nenhum sentido científico calcular e raciocinar levando-se em conta o erro amostral.

 

Outro aspecto à consideração diz respeito à questão das “prévias” eleitorais. Lembro-me que por ocasião das eleições municipais na cidade de São Paulo, em um passado não muito distante, quando as pesquisas indicavam uma estreita diferença entre Fernando Henrique e Jânio Quadros, li um texto escrito em 1896 (século XIX!) por Gustave LeBon – “The Crowd” – que dizia algo assim “sejam quais forem os indivíduos componentes, sejam ou não semelhantes seu modo de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua inteligência, o fato de terem sido transformados em multidão confere-lhes a posse de uma espécie de cérebro coletivo, que os faz sentir, pensar e agir de modo completamente diverso do que cada um dos indivíduos sentiria, pensaria ou agiria em um estado de isolamento. Há certas idéias e sentimentos que não surgem e não se transformam em atos exceto no caso de indivíduos formarem uma multidão…”. Evidentemente que o fenômeno multidão aqui considerado pelo autor refere-se a situação de aglomeração com a presença física dos indivíduos. Contudo, não é de todo descartável, por um lado, a aglomeração imaginária constituída a partir do espelho mencionado anteriormente. Além disso, o ato de sair à rua, afora o aspecto ritualístico que possa ser considerado e as implicações culturais de que nos fala Roberto DaMatta em seu “A Casa e a Rua”, efetivamente introduz um caráter de multidão. É esse caráter que descarta a idéia absoluta de prévia na pesquisa eleitoral (no meu entendimento, o termo correto a ser empregado no caso é “Pesquisa de Intenção de Voto” e não “Prévia Eleitoral”), pois não se pode antecipar algo que ainda não se constituiu.

 

Em ambas as situações, fica evidenciada a função da pesquisa eleitoral não como uma ação que visa antecipar resultados, mas seu caráter de balizamento para a Opinião Pública , permitindo o acompanhamento pelo seu principal ator do processo, que é o cidadão. Neste balizamento, espelho no qual a cidadania vai reconhecer os seus desejos e anseios, fica estabelecida uma forma de participação onde a identificação da população com as várias tendências políticas pode permitir o livre jogo democrático das eleições.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve, às terças-feiras, no Blog do Mílton Jung

“E o vento levou … a nossa Imprensa ?”

 

Por Julio Tannus

 

 

A notícia de primeira página da Folha de S. Paulo de 29/03/12 “Morumbi é o bairro com mais roubo a casas em SP” carece de explicação. Isto nos lembra do verso de Dominguinhos:

 

Na pressa que tava

Não pude esperar

Eu vivo fugindo pra outro lugar

Aonde a tristeza não saiba que fui

E a felicidade vá lá

 

Me pegue de novo no colo

Me faça de novo menino

Não deixe que eu morra de medo

Não deixe que eu durma sozinho

 

Chega um tempo na vida

Em que a gente presta atenção

Vê que nem tudo no mundo

Carece de explicação

 

Ou seja, tal afirmativa contempla apenas o número de casas roubadas, mas não considera o total de casas existentes no bairro na comparação feita com as demais regiões consideradas na matéria.

 

Como pesquisador, indagamos: É censo ou pesquisa por amostragem? Se por amostragem, qual o tipo de amostra? Qual o tamanho do universo de cada região, ou seja, quantas casas existem em cada região? E o tamanho de cada amostra pesquisada? Qual o coeficiente de confiança? E o erro amostral? E assim por diante…

 

A nosso ver uma notícia correta, precisa e isenta seria algo como: na comparação com o mesmo período do ano passado; ou, proporcionalmente ao total de casas existentes no bairro o índice de casas roubadas é de x% com um erro amostral de y% para mais ou para menos, etc.

 

E aí nos perguntamos, seguindo o arrazoado do Sr. Alberto Dines no programa Roda Viva da TV Cultura de 19/3/12: “não há liberdade de imprensa?” ou “a iniciativa privada no Brasil não dá liberdade?” e também “ela se deixa infiltrar por setores religiosos, políticos, comerciais?”

 

Para então concluirmos: É, padece de explicação!

 

Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada,
co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier)

O impacto da vida digital na vida familiar

 

No começo da semana, Ethevaldo Siqueira, comentarista do Mundo Digital, nos apresentou parte dos resultados de pesquisa mundial feita pela Ipsos Public Affairs, encomendada pela fabricante de biscoitos Oreo, que mostram que o convívio entre crianças e adultos está praticamente desaparecendo e um dos fatores que mais influíram nesta mudança radical na vida familiar e no isolamento das pessoas é, em grande parte, o uso intensivo da tecnologia digital. Meninas e meninos estão conectados na internet, nos celulares, nos games e na televisão, enquanto pais vivem obcecados pelos dispositivos e aplicativos que lhes oferecem aumento de produtividade e ganhos financeiros. Nas palavras do próprio Ethevaldo: a vida em família pode entrar para a lista de espécies ameaçadas de extinção.

 

A maioria dos pais pesquisados acredita que as crianças estão crescendo mais depressa do que as das gerações anteriores, diz que seus filhos deveriam ter mais tempo para simplesmente serem crianças, e confessa que não se diverte diariamente com eles.

 

Enquanto escrevo este post, estou em uma mesa redonda na qual há três computadores conectados, ocupados por mim e meus dois filhos, em uma sala que combina espaço de trabalho, estudo, som e televisão. Sempre preferimos manter os terminais longe dos quartos para evitar o isolamento e garantir, de alguma forma, nossa interação. Um deles está jogando em rede com amigos e o outro aproveita a máquina, em um chat, para estudar para a prova do dia seguinte. A todo momento trocamos impressões, tiramos dúvidas e mostramos uns aos outros aspectos interessantes que encontramos na internet. Costumamos nos levantar para fazer um lanche juntos – agora há pouco, demos uma bela colherada em um brigadeiro que minha mulher deixou pronto antes de ir trabalhar -, às vezes apenas conversamos, e quando o assunto na televisão está mais interessante nos jogamos em um sofá e fazemos uma sessão coletiva. É bem provável que a internet, em especial, nos tome mais tempo do que deveria, nos emaranhando nas interligações digitais; além disso, tem a caixa de correio sempre me chamando, a troca de informação nas redes sociais e outras demandas que surgem a partir do computador. Tenho certeza, porém, que não fosse o acesso que este me oferece não seria possível realizar a maior parte do meu trabalho em casa e isto me afastaria deles, me levando a chegar tarde, desperdiçar tempo no trânsito, na fila do banco e na visita a lojas e casas de serviço.

 

A diretora global da Oreo, Sheeba Philip, com os dados da pesquisa em mãos, comentou que “precisamos restaurar e reconquistar o espírito da infância em todo o mundo”, contou-me Ethevaldo, em nossa conversa na CBN. Concordo com ela, mas não devemos nos enganar e fazer das máquinas bode expiatório de um problema que, me parece, é mais da vida humana do que digital: a dificuldade dos pais de definirem prioridades, e colocarem no topo desta lista a sua família.

Mulheres que compram

 

Por Carlos Magno Gibrail

Na sexta-feira, o varejo norte-americano mudou os rumos da economia mundial, ao apresentar movimentação altamente positiva na tradicional promoção “Black Friday”. Quando após o dia de Ação de Graças apresenta descontos significativos.

Esta é uma medida vital para as previsões econômicas, refletindo o papel importante do sistema comercial no contexto global.
Ao observador atento cabe lembrar a personagem que aciona este mecanismo de compra. A mulher. Compradora absoluta deve ser permanentemente ouvida sobre seus desejos.

Das pesquisas qualitativas de mercado*, que encomendei à OUT OF THE BOX, sobre o comportamento de compras das mulheres, das quais desenhei estratégias e reconsiderei conceitos, destaco alguns ensinamentos:

– Todas admitem que tem seu “dia de perua”, embora reprovem em princípio: “Tem dias que eu penso assim: hoje eu vou de perua! Por exemplo, eu tenho um par de sapatos cheio de coisas, que eu gosto muito de usar, mas não uso com uma roupa emperiquitada, e sim com uma roupa básica – uma perua básica!”

– Produtos precisam sempre levar em conta o “feminino”. “A executiva não é muito inspiradora, não “anima” muito, as mulheres não tem muito que falar dela”.

– A roupa é o produto mais importante para a mulher. “A primeira coisa que penso quando acordo é na roupa que eu vou vestir”. “Por melhor que tenha sido à noite”.

– O brinco é a peça essencial. “A peça mais importante é o brinco”. “Já esqueci a calcinha e não voltei para colocá-la, mas com o brinco já voltei”.

– O aspiracional é o produto a ser vendido. “A mulher atual não quer comprar o “uniforme” da profissional, ela quer a roupa que se identifica com o aspiracional da mulher bonita, bem cuidada, bem resolvida de nossos dias”.

Neste universo, destaco a hegemonia da moda do vestuário. A inovação dos produtos regida pela natureza – primavera, verão, outono, inverno – sabiamente apreendida pelas roupas, é o grande diferencial. Atingirá certamente os demais produtos de consumo. Já acostumados à velocidade de Steve Jobs, teremos que nos adaptar a dinâmica das tendências de moda. Para a felicidade geral das mulheres que compram. Que tal automóveis de verão e de inverno para acompanhar os últimos lançamentos do SPFW (São Paulo Fashion Week)?

Bem, para quem quiser discutir pessoalmente sobre este tema, estarei abrindo o Seminário FASHION LAW em São Paulo dia 8, falando mais um pouco em Moda.

*Pesquisa realizada na cidade de São Paulo através de 1 Discussão em Grupo, junto a mulheres de classe A1/A2, na faixa dos 30/55 anos. E, através de 2 Grupos de Discussão de mulheres classe A/B, entre 25 e 45 anos.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

Água suja e escassa: a culpa é sempre do outro

 

 

Lixo na Represan Billings

O problema é grave, me preocupa, mas a culpa é do vizinho.

Esta é a percepção que eu tive de como pensam as pessoas que moram na Região Metropolitana de São Paulo quando o assunto é a escassez e poluição das águas. A opinião delas foi apresentada em pesquisa inédita encomendada pelo Comitê de Bacias Hidrográficas do Alto Tietê na qual o Ibope ouviu 1008 moradores do maior aglomerado urbano da América do Sul.

Dos entrevistados, 85% dizem que nossos hábitos de consumo ajudam a destruir rios, córregos e mananciais e 66% entendem que o maior desperdício ocorre nas residências. Porém, quando são perguntados sobre o comprometimento para colaborar com a preservação das águas, 74% responderam que não se empenham muito.

“Nós precisamos economizar, precisamos cuidar, precisamos fazer mais, mas quem está desperdiçando é o vizinho”. Foi assim que o presidente do Comitê, Marco Bertaiolli, que também é prefeito na cidade de Mogi das Cruzes, descreveu o comportamento do cidadão diante do tema. Por outro lado, ele ressaltou a importância de que há, atualmente, a consciência da sociedade para o risco de escassez, pois 94% das pessoas disseram estar preocupadas com o desperdício. Um outro dado é que 84% acreditam que o Brasil enfrentará falta de água a médio e longo prazo.

O que fazer diante disso ? – perguntou o Ibope. Ou o que o vizinho pode fazer ? – pergunto eu.

Leia este artigo na íntegra no Blog Adote São Paulo

Mais da metade dos moradores querem deixar São Paulo

 

Nova pesquisa sobre a percepção dos moradores de São Paulo mostra que o número de pessoas que querem deixar a cidade ainda é maior do que o daqueles que pretendem ficar por aqui. O trabalho é realizado pela Rede Nossa São Paulo, com coleta de dados do Ibope, e será entregue à cidade no dia 20 de janeiro. Reproduzo abaixo, parte do texto divulgado pela organização, agora à tarde:

Em resposta à pergunta “Caso pudesse, sairia de São Paulo para viver em outra cidade, ou não sairia de São Paulo?”, 51% das 1.512 pessoas pesquisadas responderam que sairiam. Outros 48% disseram que não sairiam e 1% não souberam ou não responderam.

Embora o percentual de moradores que revelam o desejo de morar em outra cidade ainda seja maioria, o índice caiu em relação à pesquisa anterior, realizada em dezembro de 2009. Na ocasião, 57% dos pesquisados disseram que sairiam de São Paulo, se pudessem. No ano anterior – em novembro de 2008 – o índice foi de 46%.

Outro dado já tabulado – e que, certamente, é um dos pontos que influenciam a vontade das pessoas de viver em São Paulo – está relacionado à sensação de insegurança. Para a pergunta “Pensando no seu dia-a-dia, que situações mais fazem com que você sinta medo na cidade de São Paulo?”, entre as respostas mais citadas estão: “violência em geral”, “tráfico de drogas”, “alagamentos” e “trânsito”

“Motorista não reconhece o outro como ser humano”, diz Roberto DaMatta

 

Acidente na Inajar de Souza

O comportamento dos motoristas brasileiros é agressivo e desrespeitoso porque somos uma sociedade que não aceita a igualdade de direitos e todos se consideram especiais. Enquanto isso, o trânsito é uma área pública onde não se pode oferecer privilégios, não é possível fazer rua pra rico e pra pobre, sinal diferenciado pra carro oficial ou comum. E isto causa mal-estar no Brasil.


Ouça a entrevista de Roberto DaMatta, ao CBN São Paulo

A análise é de um dos mais importantes antropólogos do País Roberto DaMatta que, em entrevista ao CBN São Paulo, disse que os motoristas “nem reconhecem o outro como ser humano, a menos que se envolvam em um acidente”. Do olhar dele, resultado de pesquisa realizada em Vitória, no Espírito Santo, também não escapa o pedestre: “é brasileiro, pertence ao mesmo estilo de vida do motorista e também faz a gambiarra dele”.

Para DaMatta, a grande questão é como mudar este traço cultural do País, que aparece com clareza no trânsito pois o abuso produz mortes e se transforma nesta epidemia de acidentes que estamos vivendo. “Precisamos atacar a raiz do problema, pois no fundo somos uma sociedade com resíduos aristocráticos muito fortes”.

Lembra que o brasileiro vive um paradoxo, pois “gosta de chefetes, Duques, de gente importante, o número 1 da música e do rádio, e ao mesmo tempo é uma sociedade democrática”.

Ele defende a repressão policial, com multa e carteira cassada, mas lembra que a transformação se dará apenas quando houver um pacto social capaz de criar a consciência de que a lei está aí para melhorar a nossa qualidade de vida. “Só pode educar bem se tocar no coração e na cabeça do cidadão”, ensina.

O livro “Fé Em Deus e Pé na Tábua” é resultado de pesquisa desenvolvida por DaMatta, João Gualberto Moreira Vasconcellos e Ricardo Pandolfi, encomendada pelo governo do Estado do Espírito Santo.

Eleitor paulista é de centro-direita, diz cientista

 

adoteA disputa dos adversários de Geraldo Alckmin (PSDB) na corrida ao Governo de São Paulo é para chegar ao segundo turno. E, dificilmente, Marta Suplicy (PT) perde uma das duas vagas ao Senado. A opinião é do cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas Fernando Abrúcio ao comentar o resultado das pesquisas eleitorais divulgadas pelo Instituto Datafolha.

Abrúcio disse que o PSDB é muito forte no interior do Estado, por isso a dificuldade para Aloísio Mercadante (PT) se aproximar dele. Além disso, o eleitorado paulista tem uma tendência de centro-direita o que daria vantagem ao tucano mesmo na disputa em segundo turno. Para o cientista político, o candidato petista dependeria muito dos votos da região metropolitana e de maior identificação com o presidente Lula e a candidata à presidência Dilma Roussef.

Na disputa ao Senado, na qual Marta aparece como líder, Abrúcio acredita que quatro nomes disputem a segunda vaga: Oreste Quércia (PMDB), Netinho (PC do B), Aloísio Nunes (PSDB) e Romeu Tuma (PTB). Ele disse que a desinformação do eleitorado em relação aos candidatos a senador ainda é muito grande.

Para Abrúcio, entrevistado do CBN SP, será possível ter uma ideia melhor sobre o cenário eleitoral duas semanas após o início do horário eleitoral.

Ouça a entrevista de Fernando Abrúcio ao CBN SP

Os 13 candidatos ao Senado pelo Estado de São Paulo foram convidados pelo CBN SP para participarem de entrevistas. Os candidatos a governador também terão oportunidade de conversar com o ouvinte da CBN.

Não comento pesquisas

 

Comento, sim.

Então, o porquê do título acima ? Apenas reproduzo o que disseram os dois principais candidatos – que chamamos burocraticamente de pré-candidatos -, Dilma e Serra, sobre o resultado da pesquisa CNI/Sensus, que demonstra empate técnico, apesar do percentual da petista ser maior do que o do tucano.

No Ceará, José Serra sacou do livrinho de bom comportamento a explicação de que manteria postura adotada desde o início, ou seja, não falaria sobre o resultado. No Rio, Dilma Roussef usou do lugar-ainda-mais-comum da política: “pesquisa é uma fotografia do momento”. Não fosse o sorriso maroto daquele que aparece com vantagem, talvez até pudéssemos acreditar neles.

A verdade é que cada novo número divulgado, mesmo que de institutos pouco confiáveis no mercado, provoca um reboliço no quartel general dos candidatos. Seja sob a desconfiança de quem está em baixa seja na satisfação de quem está por cima, os coordenadores de campanha traçam suas estratégias a partir das pesquisas. Trocam roteiros de viagens, remarcam entrevistas que haviam sido deixadas de lado, pedem socorro a conselheiros ou programam factóides para o dia seguinte.

Nas equipes têm especialistas para desmembrar os números e identificar de onde vem a preferência ou a rejeição do eleitorado. Encomendam pesquisas internas com diferentes temas e formatos para chegar a resposta do que o cidadão quer. Preocupam-se de tal maneira que exageram na dose e pasteurizam os discursos e os candidatos. Os programas de governo são a maior prova disso. Leia sem saber quem é o partido e perceberá o que digo.

Tornam-se tão iguais que até mesmo ao comentar as pesquisas assumem o mesmo comportamento: não comentam – ou quase não.

De minha parte, prefiro prestar atenção na linha do tempo bem mais do que o número publicado. Se este nos dá uma fotografia do momento, aquela nos oferece a radiografia do comportamento do eleitor. Por isso, o trabalho que o jornalista José Roberto de Toledo realiza no Estadão é bastante significativo ao combinar os levantamentos feitos pelos principais institutos de pesquisa e apresentar a média das intenções de votos que, após a inclusão dos dados de Sensus e Vox Populi, mostram que Dilma se aproxima de Serra.

Nos próximos dias tem Datafolha a pesar sobre a cabeça dos candidatos (e sobre o emprego de seus assessores) quando poderemos identificar melhor se Dilma chegou para ficar ou Serra assim que voltar à TV descola, mais uma vez.

Seja qual for o resultado, sem comentários – dirão os candidatos.

Quero só o comercial de margarina

 

Por Abigail Costa

Tirei um tempinho nesses dias para uma função diferente: pesquisadora. Nada de laboratório e ampolas. Que pena!

Diante dos meus amigos, da manicure, na fila do caixa do supermercado. Só faltou a prancheta.

“Você está se sentido cansado? Desanimado? Tem que levantar e o corpo pede mais cama?”

Quando a resposta era positiva, isso aconteceu na maioria das vezes, me sentia um pouco mais animada. Era como se eu não estivesse sozinha no mundo do não-quero-fazer-nada.

Ouvi justificativas para o caso.

“Em certos períodos isso é normal mesmo … às vezes a gente precisa de um tempo”.

Mas o que me fez pensar no que estava me incomodando veio da minha querida Maria Lúcia:

“Muitas pessoas estão focadas para um lado ruim que acaba contaminando todo o resto”.

Isso mesmo.

Pregamos o melhor e fazemos diferente.

Quer um exemplo?

Você está se sentindo de bem com a vida? Ligue a televisão no noticiário. Pronto, o terapeuta ganhará mais um paciente.

Jesus! Que coisa mais perversa! É tanto tiro que uma das balas teima em furar a tela da minha 40 polegadas!

Aí o engravatado roubou. O outro mesmo comprovado o crime não foi punido e voltou pra casa. E o sujeito está largado na maca do hospital enquanto a vinheta das eleições já começa a rolar no espaço reservado para a propaganda de margarina.

Falando em margarina. Nem gosto tanto do produto só que ADORO quando aqueles segundos vão ao ar! Adoro ver a família na mesa, aquele sol da manhã entrando pela janela, o pão quentinho saindo fumaça …

De volta as tragédia rotineiras. Outra descoberta da minha pesquisa.

Todos se queixam das notícias sangrentas. Querem a boa notícia. Mas se “eles” exibem, diariamente, o que a gente está careca de ver é porque tem mercado pra isso. Caso contrário, o Ibope registraria queda na audiência.

Entre não querer ver e assistir tem uma longa distância.

Então, mesmo que você se proponha a só prestigiar o “comercial de margarina”, tem sempre um mensageiro do apocalipse:

“Você viu? Que coisa, não, estamos perdidos”.

Pra terminar minha “terapia em conjunto”, o caos é quando o marido chega pra você todo carinhoso e diz:

“Amor, temos que economizar”.

Pronto! Aí me mundo caiu de vez! Pior que desta vez, ele tem razão.


Abigail Costa é jornalista e escreve às quintas-feiras no Blog do Mílton Jung