Muito além de um elegante vestido preto

 

Por Rosana Jatobá
Vestido preto em tela por Bertrand Eberhard

Ela surgiu para esconder as vergonhas, mas hoje em dia revela o íntimo de cada um. A roupa é o sinal instantâneo da auto-imagem que queremos exibir. E, na visão da grande dama da moda, ela pode ser uma arma poderosa e infalível:

“Vista-se mal, e notarão o vestido. Vista-se bem, e notarão a mulher.”

Mademoiselle Chanel revolucionou, não apenas porque libertou a mulher dos trajes desconfortáveis e rígidos do fim do século 19. Mas porque valorizou o senso crítico:

“O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça”.

Se os tempos modernos desafiam nossas escolhas em nome da Sustentabilidade, invocar a genialidade de Coco Chanel pode ser norteador. Foi o que eu fiz quando recebi um presente, que chegou cheio de recomendações:

– Tenha muito cuidado, guarde-o em lugar fresco e escuro, e, se sujar, leve a um especialista. Esta pele pertenceu à sua avó. É um vison!

Vesti e imediatamente senti o poder de transformação do visual. A peça macia e felpuda de cor castanha tinha a pelagem espessa, brilhante e vistosa. Embora com mais de meio século, mantinha um design atemporal. Envolta na altura dos ombros, proporcionava uma sensação de conforto e proteção. Era a mais perfeita tradução do luxo, o acessório que permitia a metáfora: os diamantes estão para as orelhas, assim como a pele está para o corpo.

Chegou o dia de exibi-la. A noite do casamento estava mesmo fria em São Paulo, coisa rara nos últimos invernos. A festa era de gala, num endereço tradicional da cidade, o Jockey Clube. Escolhi um vestido de seda preto, me enrolei no vison e me perfumei,
afinal, segundo nossa musa:

 “Uma mulher sem perfume , não tem futuro!”

 Mas a última olhada no espelho, em vez de glamour, revelava inquietação:

Eu sabia que o animal havia sido morto numa época em que não existia o risco de extinção da espécie. Tinha certeza de que ninguém iria me hostilizar na festa , pois grande parte das mulheres estaria ostentando a sua estola ou casaco de pele. Possuía o aval da papisa da moda, Anna Wintour, editora da vogue americana, fã incondicional de peles e uma das responsáveis pela “fur mania” atual, um boom que não se via desde os anos 80.

Tinha, portanto, razões de sobra para usar o bicho, mas nenhuma tão contundente quanto a deixada pelo legado de Chanel :

“A moda não é algo presente apenas nas roupas. A moda está no céu, nas ruas, a moda tem a ver com ideias, a forma como vivemos, o que está acontecendo.”

Não poderia ignorar que, se usasse o vison, vestiria a capa da indiferença diante de um mercado cruel e fútil, que não para de crescer. De acordo com a Peta (Pessoas pela Ética no Tratamento de Animais), a indústria da pele mata 50 milhões de animais por ano no mundo. Só na China, a produção atingiu números entre 20 e 25 milhões em 2010, ao passo que no ano 2000, oscilava entre 8 e 10 milhões de peles. A organização beneficente invade desfiles de moda e aterroriza as donas do acessório, jogando baldes de tinta para inutilizar a peça. É uma forma de protestar contra os maltratos dispensados aos bichos, que passam suas vidas confinados em minúsculas gaiolas.

Para a extração da pele, são eletrocutados, asfixiados, envenenados, afogados ou estrangulados. Nem todos morrem imediatamente, alguns são esfolados ainda vivos! Em alguns locais, para que as peles fiquem intactas, corta-se a língua do animal, deixando-o sangrar até morrer.

A voz da consciência soprou mais uma vez ao meu ouvido e ouvi o conselho da mestra das agulhas:

“Elegância é recusar.”

Abri mão da gostosa sensacão térmica da pele morta do vison e fui às bodas.

No salão ricamente enfeitado, a fauna mórbida desfilava à minha frente. Era uma profusão de visons, chinchilas, raposas, zibelinas, cabras e cordeiros. Bichos montados, pendurados, entrelaçados em mulheres superproduzidas. …e bem agasalhadas.

Toda concessão tem seu preço.

O ar gelado entrava pelas janelas e resfriava até a minha alma, obrigando-me a contorcer os músculos.

Mas toda renúncia, a sua recompensa.

O desconforto em pouco tempo desapareceu, quando me senti envolvida pelo calor dos braços de um certo alguém. Como dizia Gabrielle Coco Chanel:

“Uma mulher precisa de apenas duas coisas na vida: um vestido preto e um homem que a ame”.

Rosana Jatobá é jornalistas da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP.


Veja mais imagens da galeria de Leemox, no Flickr

19 comentários sobre “Muito além de um elegante vestido preto

  1. As dezenas de milhões de vítimas desse hábito cultural fútil, cruel e primitivo – aqui no sentido mais óbvio da palavra, uma vez que nossas primeiras vestimentas foram feitas de peles de animais quando ainda dormíamos ao relento ou em cavernas – agradecem a escolha desse tema. A indústria da morte sustentada pela moda é tão repugnante quanto sua irmã gêmea sustentada pelo entretenimento – rodeios, circos, touradas, caçadas, pesca “esportiva”, rinhas, etc. Animais não são comida, nem roupas, nem cobaias, nem objetos de diversão. Exceto em situações extremas, como forma de sobrevivência, como no caso dos diversos povos tradicionais que outrora eram hegemônicos nesse planeta – como por exemplo os esquimós. São companhias (pets)? Talvez, mas com muitas ressalvas e fiscalização rígida, para que se evite maus tratos, abandono, criadores que só enxergam o lucro.
    Parabéns pelo texto.

  2. Rosana, que bom. É preciso falar, falar e falar, até que todos consigam associar “o nome à pessoa”. Enqto a população não compreender que por trás do couro, da pele, tem um animal, nada acontecerá. Pense nos sapatos, tênis, carteiras, bolsas tantos objetos introjetados no dia-a-dia, além dos (para nós, conscientes) óbvios casacos, estolas e golas de pele….

    Então vamos repetir e repetir até que as consciências se acendam……

  3. Ler os textos da Rosana é um acalanto para qualquer pessoa, principalmente para nós mulheres e mais ainda para as aspirantes a jornalistas, como eu. Eles são uma prova da união perfeita do bom senso, do dom literário, da sutileza feminina e do exímio jornalismo. Parabéns, parabéns e mais parabéns! Continue escrevendo para esta coluna, ok?

    Beijos e Boa Páscoa!

  4. Que Linnnnnnnnndo!

    Que delícia ser Mulhr e ler esse Texto.

    Feminino, Sério, Decente, Querido – É o desenho de uma Mulher e a sensibilidade de tocar pelas falavras e fazer sorrir.

    Ameiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Parábens Rosana.

    Obrigada Milton por compartilhar.

  5. Ola Rosana
    Feliz páscoa e a todos os seus
    Vc que é a nossa estimada “moça do tempo”.
    Hoje uma chuvarada que dá gosto mesmo!
    Céu totalmente overcast, -RA de acordo metar Congonhas.

    ao meu ver e sentir, nós “sêres humanos” é somos verdadeiros animais.

    Gente do céu!
    Imaginem o sofrimento destes animais quando são pegos, caçados, cruelmente, perversamente esfolados, muitos ainda vivos, agonizantes?

    Não gosto nem de imaginar que isso acontece, mas infelizmente acontece.
    Assassinos isso é que são quem comete tais perversidades com animais, somente para satisfazer os seus bolsos, egos, alimentarem as suas perversidades natas.

    Existem restaurantes no Japão que fritam peixes vivos.
    Sabiam?
    Fazem cortes no peixe ainda vivo e depois coloccam numa frigideira com óleo fervendo.

    Como o “ter” humano é infeliz, pobre de espírito.

    Recentemente ao passar por uma oficina mecânica, tinha um Pit Bull preso a uma curta corrente que mal podia se movimentar.
    Como tenho tb uma cadela Pit Bull, comentei com o proprietario da oficina porque o cão se encontrava numa preso em uma curtissima corrente?

    Resposta do proprietário ou própriootário do Pit bull
    -Mantenho esse cachorro preso desta forma e assim ele vai ficando ca dvez mais feroz, bravo e comida, água so dou a ele uma vez por dia assim ele fica com raiva de estar com fome.
    Se entrar algum vagabundo aqui na minha oficina a noite deixo-o solto ele com a raiva que passou no dia com certeza vai querer descontar no bandido.

    Aproveitando a deixa:
    Por isso existem cães, não somente pit bulls atacando pessoas por ai.

    Selvageria pura!
    Já viram como os índios, por “cidadãos civilizados considerados como selvagens” tratam os animais, a natureza?

    Temos que ficar uns dias na selva junto com os “indios selvagens” para quem sabe poder aprender como devem ser tratgados os animais.
    COM CARINHO E RESPEITO

    Partabéns pelo importante e oportuno artigo de hoje.
    Abraços
    Armando Italo

  6. Adorei o texto!
    Lí torcendo muito para afinal você não sair com o vison, UFA!
    Que frase maravilhosa, “Elegância é recusar”
    Ontem mesmo conversei com minha filha que mora em NY, sobre as peles e sobre a Anna Wintour.
    No ano retrasado recebi um e-mail onde mostravam chineses matando a sangue frio, dezenas de um tipo de lobo, ou raposa, que chegavam confinados, apertadíssimos em gaiolas nojentas, começavam batendo as cabeças deles no chão como se fossem um tapete velho, e retiravam a pele com eles ainda vivos, jogavam sobre uma pilha desses animais sem peles em carne viva, com os olhos abertos ainda, sem pálpebra e olhando para os lados, com lágrimas saindo…..ímóveis ou se contorcendo., uns sobre os outros.Os chineses saem com um caminhão cheio de peles e deixam os coitados vivos ainda, para morrerem à míngua sem o trabalho de darem o tiro ou o golpe de misericórdia.
    Nesta noite não dormi e chorei muito.
    Acho que não existe uma pessoa que tenha coragem de usar uma pele destas após ver este vídeo, a não ser é claro a Anna Wintour, que ja recebeu centenas de vídeos e fotos e não muda de opinião.
    Muito legal este texto Rosana, principalmente por ter mostrado a visão de uma mulher bonita, ligada nas tendências da moda, prestes a participar de um evento social sofisticado e que toma uma decisão que faz a grande diferença, tem um peso especial, mais forte até do que o discurso de um ativista na proteção animal. Vou mandar o texto para minha filha divulgar entre as muitas amigas que vivem neste universo da moda.

  7. Olá Rosana, me senti extremamente reconfortada com a sua atitude: não usar o vison. É desolador o fato que após importante avanço na direção da exclusão das peles no mundo da moda, tenha havido uma retroação sob as bençãos de AW. Chique mesmo é Karl Langerfeld e viva a inteligência.

  8. Olá Rosana, me senti extremamente reconfortada pela sua decisão em não usar o vison. É desolador o fato de que importante avanço na direção da exclusão das peles no mundo da moda tenha retroagido sob as bençãos de AW. Chique mesmo é Karl Langerfeld (Chanel) e sua coleção de pele fake maravilhosa, chamada por ele de pele fantasia, uma referência à introdução por Chanel da jóia falsa, que ela elegantemente chamava de jóia fantasia. E viva a inteligência no mundo da moda!

  9. Rosana,

    Amei!
    “Elegancia é recusar”
    Fiquei ansiosa para terminar a leitura e vê se tinha ou não usado.
    Que bom que não usou. Adorei o texto, você fala de coisas serias de forma leve e elegante.

    Bjs,
    Fernanda

  10. Rosana, li umas matérias sobre estamparia digital, me parece que será o futuro da moda uma vez que na Fashion Week deste ano foi a vedete.
    A impressão digital em tecidos aposta
    no segmento de impressão em tecidos feitos a partir de fios naturais
    dentro do conceito de preservação do meio ambiente.
    Trata-se da impressão – exclusiva no estado de São Paulo –
    feita com Pigmento, uma tinta à base de água da Dupont,
    que dispensa o uso de produtos químicos no preparo
    dos tecidos para receber a impressão, o que garante um processo totalmente ecológico. Fonte: RValentim

    Rosana, parabéns por não usar o vestido de vison, uma mulher bonita fica elegante até com o simples. Vamos salvar os animais. Moda se faz com criatividade e para isso não é preciso pele de animais.

  11. Oi Ró,
    Texto bem conciso e gostoso de ler. Penso que, o que movimenta de verdade a indústria de mortandade de animais para a confecção de roupas de pele são pessoas que não tem um pingo de noção da importância destes animais na natureza, na manutenção da cadeia alimentar. Nada mais fútil ver pessoas desfilando com roupas de pele de animais (hoje, em total risco de extinção). É o que manda é o dinheiro!!!! Mais vale a moda (passageira) que a preservação de espécies de animais raros.
    Abraço,
    Rosaliz

  12. Querida Rosana:
    Não me atrevo a fazer qualquer reparo ao que você disse. Está lindamente escrito. Limito-me somente a perguntar, com cautela, se não haveria um pouquinho de exagero (licença poética?) nos conceitos.
    Ao levar ao pé da letra, não deveríamos comer nem usar nada proveniente do mundo animal . Não existe maneira de usar animais como alimento, ou couro, ou ovos, ou etc., sem confina-los e mata-los.
    Uma evolução deste radicalismo seria até imaginar que não deveríamos consumir nada, absolutamente nada, que utilize trabalho degradante na sua produção ( nem tração animal). Que tal pensarmos um pouco em como são extraídos o ouro e as pedras preciosas? E as pérolas?
    Escala e relatividade são conceitos que deveriam estar presentes em tudo o que fazemos ou pensamos.

  13. Tremendamente inspiradora!
    À parte o conteudo, fartamente discutido e comentado acima, tua escrita é tremendamente inspiradora. Lindo estilo, suave em rítmo e timbre. Uma dança.

  14. Muito bom, o envolvimento da crônica com a historia real, gostei muito do texto Ro. adorei saber que você esta por dentro do desenvolvimento sustentável, temos mesmo que lutar contra qualquer pratica que ajude a acabar com o mundo.

    Para os leitores peço que me mandem textos e informações sobre o tema sustentabilidade, vou fazer meu TCC sobre o tema e qualquer informação será muito útil.

    Muito Obrigada

    denisethomaz@hotmail.com

  15. Oi querida. Lí seu artigo e observei o momento oportuno em que o tema foi desenvolvido. Neste momento em que a humanidade não respeita o ser humano, colocando-o, tabem na lista de extinção, quanto aos pobres animais completamente desprovidos de proteção. Entretanto acho que o tema poderia ir mais fundo, mostrando a preparação dos aparatos destruidores dos animais cuja pele servem para decorar os ombros das mulheres vazias. Imagine que aqui no nosso Brasil, se caça onça, com um grande anzol. Uma isca é colocada no anzol e pedurado a uma altura que o animal precisa pular para pegar a carne que saciaria sua fome. Com um pulo o animal fica fisgado pela boca e provavelmente morta por quebra de sua coluna vertebral. Nenhum buraco na pele. A comercialização está garantida. Os restos da carcaça ficam no mato para atrair outras onças que terao o mesmo destino.

  16. Deixo aqui o link de um filme de 2 minutos produzido pela PETA mostrando o mercado de peles de cães e gatos na China e lá podem encontrar muitos outros para conhecerem melhor este assunto, o comércio de peles.

    Um site indicado pela PETA – http://www.furisdead.com/
    PETA-BRASIL – http://www.veganpride.com/peta_brasil.asp
    PETA – http://www.peta.org/

    Aqui algumas notícias mostrando que as coisas estão mudando:

    “UE concorda em banir pele de cães e gatos May 2, 2007 No dia 12 de abril de 2007, o Parlamento europeu votou a favor de uma proibição completa na importação, exportação e venda de pele de cão e gato em toda a União Européia. A grande maioria dos membros do parlamento europeu votou pela proibição “site da WSPA

    “Israel é o primeiro país do mundo a votar pelo fim do comércio de peles de animais” site WSPA

    Enfim, no site da WSPA, download de um filme com produção impecável feito na Inglaterra “Animais, seres sensientes”
    http://www.wspabrasil.org/helping/downloads/Area-de-videos-da-WSPA-Brasil.aspx

  17. Acordo cedo todos os dias pra trabalhar, mas hoje estava friooooo, 13, !!!!ai peguei 2 blusas, uma de algodão e uma de lã, e pra aquecer mais ainda coloquei uma jaqueta de couro, meu vestuario está longe da elegância, mas admito que não queria sentir frio. Qdo a comprei a jaqueta não pensei exatamente que estaria levando um animal morto pra casa. Agora lendo esse texto minha primeira reação foi virar pra cadeira pegar a jaqueta e olhar dentro, onde a etiqueta diz COURO LEGÍTIMO. Agora me sinto uma criminosa, já a tenho faz tempo, mas o fato é não faço ideia de como ela tenha sido pega. Espero q ele não tenha morrido de forma cruel, e que tenha sido para alimentação e aí sim aproveitado sua pele como segunda alternativa.
    Maravilhoso esse seu texto. bjs Na

  18. Rosana,
    que presente esse texto, muito obrigada.
    De forma sensível e elegante você tratou de um tema tão sério.
    Acho que sua avó ficou muito orgulhosa por você ter feito essa escolha. Em meio a tantos apelos você se manteve firme a seus princípios. Difícil, mas bastante possível.

    Parabéns,
    grande beijo.

    Patícia

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