Por Caio Luizetto
O desafio de amar comumente vem atrelado a um pressuposto espacial: a premissa de que o amor seria um exercício natural no ambiente da fé e um fardo reservado exclusivamente ao espaço público. Essa demarcação geográfica — a tentativa de definir onde o amor é trivial e onde ele se torna heroico — é uma das miopias conceituais mais crônicas da religiosidade.
Uma miopia que, na verdade, opera em camadas.
A primeira delas é a esterilização maniqueísta da realidade. Constrói-se a tese de dois mundos estanques: o “mundo de dentro”, sacralizado, seguro e iluminado; e o “mundo de fora”, hostil, decaído e ameaçador. Disso decorre a presunção ingênua de que o ecossistema religioso é um reduto de virtude cuja única relação cabível com a alteridade é a profilaxia ou a contaminação colonial — santificar o que está corrompido, mantendo as mãos limpas e as fronteiras vigiadas.
A segunda camada dessa miopia é ainda mais dissimulada: acreditar que o território institucional é intrinsecamente imune ao que denuncia no exterior. Ao consagrar aprioristicamente o espaço comunitário como puro, confunde-se comunhão com mera conveniência estética e espelhamento social. O que se toma por facilidade de convívio muitas vezes nada mais é do que o conforto de partilhar ritos com quem valida certezas e repete jargões. O ego, a omissão e o descarte não respeitam portões eclesiásticos; apenas se adaptam à linguagem sagrada.
Essa fricção artificial sabota o cerne da encarnação. Em Cristo, desmoronam todas as trincheiras identitárias e geográficas: não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, nem os de dentro nem os de fora. Não existe um “eles” para servir de contraste à nossa pretensa pureza; no horizonte do Reino, resta apenas o “nós”.
Se o amor exige coordenadas territoriais ou um perímetro de segurança para se sustentar, ele já deixou de ser graça para se tornar mero pacto de conveniência grupal.
A experiência máxima e definitiva do Evangelho é o amor. Um amor que não cabe em delimitações espaciais, não pede salvo-conduto moral e recusa o conforto do isolamento. Ele é o próprio escândalo de Deus que se faz vulnerável onde quer que a vida pulse, desarmando cercas e desnudando a vaidade dos nossos santuários exclusivos. Onde o amor não é o centro, a religião não passa de trincheira. Onde ele transborda, todo solo se torna sagrado e todo outro, irrevogavelmente, irmão.
Caio Luizetto é teólogo e cientista da religião, pós-graduado em Missão Integral em contexto urbano. Sua produção aborda as relações entre fé, dor, sentido e maturidade espiritual na vida contemporânea. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.
