Conte Sua História de São Paulo: o som surpreendente dos teares na Quarta Parada

Ricardo Célio Sesma Novaes

Ouvinte da CBN

tèxtil
Máquina têxtil Foto: Carlos Pons

De tantos bairros de São Paulo, lembro de minha infância na Quarta Parada.   4ª Parada era a antiga parada do trem na zona Leste que não existe mais — região entre Belém e Mooca junto ao cemitério da Quarta Parada.

Década de 1970, nasci na avenida Álvaro Ramos quase na esquina da Tobias Barreto, bem em frente ao muro do cemitério. Morávamos minha mãe, professora, meu pai, cirurgião dentista, e eu, criança mesmo.

O apartamento ficava sobre um boteco. Dormíamos num dos quartos e o consultório de meu pai era no outro. Ali, na Quarta parada, havia a farmácia de meu avô, Farmácia Nilza,  nome de minha mãe, bem junto à Igreja São Paulo Apóstolo.

Mais para frente havia a loja de automóveis de meu tio. O outro tio morava no prédio em cima da loja.

O bairro vivia em função da fábrica da Santista Textil, onde hoje funciona o SESC Belenzinho. Na madrugada, o som dos teares era surpreendentemente alto. Havia agência bancária, floricultura, muitos consultórios médicos e dentários. Era um bairro vivo.

As férias eram uma farra. Meus primos e eu íamos na farmácia passando pela loja do tio. Ganhávamos sonho de valsa toda vez. A farmácia era como um labirinto, entre os laboratórios de manipulação e as prateleiras de remédios. As seringas eram de vidro e as agulhas de aço inoxidável – ficavam na estufa para esterilização. Meus avós aplicavam injeções, e eu assistia tenso. Eles moravam nos fundos da farmácia.

Às terças feira, era dia de bife à milanesa. As quintas-feiras, dia de macarrão. Minha avó pelava os tomates para o molho, como boa italiana. Sábado, pizza do Ideal, pizzaria que está lá na Álvaro Ramos firme e forte até hoje. Aos domingos, quando a farmácia estava de plantão era o ponto de encontro da mocidade justamente após a missa das 10.

Reza a lenda, que minha mãe e minhas tias conheceram os maridos após a missa. Padre Albanês era o pároco e o postinho de saúde, sob a igreja, era conduzido pelo Dr Aristides. Tinha a gloriosa Escola de Datilografia Silva Jardim. Aprendi a datilografar lá, aos 12 anos, numa máquina de 1910. Minha mãe achava fundamental aprender datilografia.

Havia na região alguns personagens: Salvador era morador de rua. Vivia da ajuda de comerciantes. Meu avô contava que o Salvador era professor de matemática, vítima de um revés familiar.

Havia a senhora do carrinho de flores. Ele não tinha as pernas. Minha mãe contava que ela e o marido foram atropelados pelo trem, o mesmo que corre hoje junto a linha vermelha do metrô.  A família dela tem uma floricultura até hoje ao lado do cemitério.

Com o fim das atividades da Santista Textil, o bairro foi minguando. Os dentistas se mjudaram, as agências fecharam. Meus avós venderam a farmácia, em 1977. Meu tio vendeu a loja de automóveis.

Fomos morar no Tatuapé com o nascimento de meu irmão. E tudo ficou assim até a chegada do SESC já nos anos 2000.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Ricardo Célio Sesma Novaes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

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