De coração


 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De Coração na voz e sonorizado pela autora

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Meu coração andou disparando além da conta, no mês passado; o que me levou a passar um dia na emergência do hospital. Ele acalmou, mas eu ainda estou processando o fato, e não tinha me dado conta disso. A gente pensa que é forte, que pode e despode quando quer, mas não é bem assim.

Na sala fria, te furam, examinam teus humores e marcam teus compassos. Invadem a festa, trocam a música, mandam embora a tua turma, escondem a comida, acendem uma luz fria e afiada na tua cara, e a você só cabe se dar conta do quanto é pequeno, na matéria.

Lá, a gente viaja no lado duro, escuro, solitário e esburacado da vida. Não fique nervoso! Não chore! quando é tudo o que você precisa e quer fazer: ficar nervoso, descontrolado, e chorar. Muito.

Chorar esperando que alguém venha apoiar tua cabeça no colo e fazer cafuné para você dormir. Chorar até que segurem tua mão, firme-firme, te olhem nos olhos e digam: vai ficar tudo bem! e você chora, esperando acreditar.

Ali, na ante-sala do purgatório, a gente se sente frágil; fica sozinho, sem roupas nem sapatos. Tiram tudo de você, em troca da promessa de vida. E você dá; sem piar. Na iminência de mais uma agulhada no braço, se entrega total e incondicionalmente. Nem questiona sobre o líquido que goteja braço adentro, invadindo tua reserva; teus segredos. Você se agarra a qualquer coisa que represente esperança de voltar a ver a turma.

Depois de tudo isso, meu caro doutor Amaral, venho aqui pedir perdão pelo sumiço. Empaquei. Não liguei para dar notícia, satisfação de como vou passando. Também não foi por desamor à vida que não fiz o último exame; laboratório confuso, informação truncada, gente atrapalhada. E eu, cansada!

Prometo que logo mais reassumo essa responsabilidade e vou buscar a tua ajuda. Agora não dá.

Aquele pedaço de vida entre parênteses, no hospital, foi mais difícil de assimilar do que eu tinha imaginado. O osso era muito mais duro de roer; muito mais do que eu podia crer.

O senhor tem esmiuçado as vias de acesso e de escape, no mapa do meu coração, e não chegou a um diagnóstico, mas posso arriscar um palpite?

meu coração tem certeza
de que ainda é maluco-beleza
mas eu te peço o favor
não diga a ele
que já não sou mais menina
e hoje mais maluca que beleza

deixa ele na fantasia e eu na incerteza
ou seria o contrário?

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira, realiza curso de comunicação e expressão e, aos domingos, com todo seu coração, escreve no Blog do Mílton Jung


Conheça outras imagens na galeria de imagens de Marcus Zorbis, no Flickr

Na moda, Dunga é arrojado

 

Por Dora Estevam

dunga_herchcovitchQue gosto é gosto e não se discute, todos nós sabemos, mas quando se trata de moda e talento todos dão palpite. A escolha foi feita em cima de dois fatores: praticidade e frio.

Não gastou (e poderia, ele tem dinheiro), ficou super confortável e quentinho. Goste ou não, ele usou um casaco de um estilista brasileiro (muitos teriam colocado importado) e mostrou que podemos, sim, tirar roupas de coleções passadas do armário e usá-las sem problema (como já comentamos nesta coluna).

Estou falando do glorioso Dunga que no jogo da estreia do Brasil contra a Coreia do Norte, na Copa do Mundo, escolheu um casaco que causou tanta estranheza quanto a escolha dos meninos da seleção.

Na decisão pela roupa, Dunga mostrou mais uma vez que tem estilo e personalidade. Pode até ter sido influenciado pela filha, mas ele usou o casaco.

A peça foi desenvolvida pelo estilista mais importante do Brasil, Alexandre Herchcovicht, coleção 2006, a qual foi inspirada em príncipes urbanos, mistura de alfaiataria e esporte. No desfile, o modelo usou gola careca e um chapeuzinho tipo coroinha.

“Confirmado, Dunga está de Herchcovitch e eu tenho um igual! Estou feliz!”, escreveu o estilista animadíssimo no Twitter.

Na produção de Dunga, a blusa debaixo, uma malha com gola olímpica em tom claro (também já usou outras duas vezes), calça e sapatos marrons. Isso é que é legal, o estilista ver a roupa dele na rua, com novas produções e ousadas combinações. Quando ele poderia imaginar que o técnico da seleção brasileira fosse desencavar um casaco de coleção passada e ainda usar na Copa.

Dunga foi muito original. Além de ser um ótimo momento para divulgar a moda brasileira.

Este tipo de roupa usada pelo técnico é apenas para quem entende de moda. Quem não entende e não tem informação crítica mesmo.

Dunga ficou lindo e chique, até mostrou como se vestir dentro de campo. Deixa essa coisa de terno pra executivos, advogados e empresários. Em campo tem que mostrar comportamento arrojado.


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo aos sábados no Blog do Mílton Jung.

Sem recurso eletrônico, torcedor vira idiota

 

Direto da Cidade do Cabo

 

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O futebol movimenta U$ 256 bilhões por ano e se calcula é praticado por 400 milhões de pessoas em todo o mundo, oficialmente em 208 países que fazem parte da Fifa, muito mais do que os 192 filiados a ONU. A quantidade de gente diante das televisões para assistir à Copa do Mundo bate a casa do bilhão, muitos dos quais apaixonados e capazes de ir aonde nenhuma outra fé os levaria.

 

Um jogo desta importância não pode ser decidido por um homem só como ocorre, atualmente, mesmo que ajudado por dois auxiliares. Ou atrapalhado por eles, como ocorreu, nesta sétima rodada de partidas da Copa da África do Sul, com o árbitro maliano Koman Coulibaly, que anulou gol legítimo dos Estados Unidos contra a Eslovênia. A bola cruzada por Donovan partiu do lado direito e passou sobre parte da defesa eslovena para ser jogada às redes por Maurice Edu.

 

Os americanos que se consagrariam com uma vitória histórica, pois teriam virado o jogo depois de estarem perdendo por 2 a 0, reclamaram no ato, mesmo sabendo da incapacidade deles mudarem a decisão. A torcida chiou nas arquibancadas e deve ter se voltado para os dois telões que reproduzem imagens da partida no estádio, mas não tiveram o direito de rever o lance, pois estas são “censuradas” pela Fifa e pelas regras do futebol. A questão é que apenas eles, diretamente envolvidos no jogo, tiveram este direito cassado.

 

A imensa audiência das emissoras de televisão viu e reviu a jogada de longe e de perto, por trás e pela frente, a partir de câmeras com capacidade de gerar slow motion de alta definição. Recursos com área sombreada, linhas imaginárias e imagem digitalizada deram suporte a opinião dos comentaristas. E foram unânimes em apontar o erro fatal.

 

A Fifa que faz acordos milionários com empresas de desenvolvimento tecnológico – a cada Copa temos uma explosão de vendas de aparelhos de televisão mais modernos, por exemplo – é a mesma que se nega a permitir o uso desses recursos no futebol sob a alegação de manter a igualdade de condições na disputa do jogo em qualquer canto do mundo. A entidade entende que para a prática do esporte bastam as traves, as redes, os uniformes e a bola, que podem ser usados por ricos e pobres, sem diferenças.

 

Primeiro, é irônico a instituição que lucra quase U$ 4 bilhões na Copa da África, doa a quem doer, nesta hora ser a porta-voz dos desvalidos. Segundo, a persistir a tese, deveríamos questionar o uso de técnicas avançadas de preparo físico, médico e psicológico dos atletas, afinal os time do Mali não conseguem oferecer a seus jogadores as mesmas condições que os times da Espanha.

 

Curioso ainda constatar que o mesmo futebol que abre mão desta tecnologia, aceita punir após a partida jogadores flagrados cometendo algum ato de violência. Flagrados pelas mesmas câmeras “cassadas” na hora do jogo.

 

Houvesse o “árbitro eletrônico” – se me permitem chamar assim o uso do vídeo para conferir lances polêmicos -, não teríamos sido obrigados a ver o futebol medíocre da seleção da França aqui na África. Em lugar dela, estaria a Irlanda, que vinha jogando muito mais, contudo acabou punida com um gol de mão de Tierry Henry. Tão pouco, os Estados Unidos estariam ameaçados de uma desclassificação pré-matura nesta Copa.

 

Pena os americanos não serem no futebol a potência que o são em outros esportes, pois talvez tivessem força para pressionar a Fifa a aceitar mudanças na regra, como ocorreu, em 2006, com o tênis. Graças a injustiça sofrida pela tenista Serena Williams, na partida contra Jennifer Capriati, pelo US Open, dois anos antes, iniciou-se um movimento em favor do replay-instantâneo. Atualmente, o tenista tem o direito a três pedidos de revisão por set e um adicional caso haja tie-break. O Hawk-Eye – Olho de Águia, em português – não é obrigatório em todas as competições, sendo usada apenas nas que distribuem maior premiação.

 

Na época em que a regra foi implantada, o número 1 do tênis Roger Federer fez duras críticas, sendo hoje um dos que mais se utilizam do recurso. Marat Safin, agora aposentado, chegou a dizer que eram idiotas os que defendiam o Hawk-Eye.

 

Idiotas somos nós, torcedores do futebol, enganados por árbitros que têm cada vez mais dificuldade para acompanhar a velocidade dos jogadores e da bola. Enquanto o futebol não aceita implantar os Olhos de Águia nos estádios da Copa do Mundo, estaremos sempre vulneráveis a manipulação dos Gaviões da Fifa.

 


A imagem acima é da galeria de Tiago Celestino, no Flickr

A violência diminui na África, só até o fim da Copa

Direto da Cidade do Cabo

Jornal da Cidade do Cabo

Duas moças apareceram mortas dentro de uma casa em Parrow, região bem distante dos olhos dos turistas que estão na Cidade do Cabo. Talvez do alto da Table Montain, visitada aos milhares todos os meses, um observador mais atento, de costas para o mar, conseguisse enxergar no horizonte resquícios deste distrito que está no subúrbio e assistiu ao seu empobrecimento, desde o Apartheid. Uma com 20 e a outra com 19, eram amigas de escola e a suspeita é que foram assassinadas por um rapaz que as conhecia. A mais velha das duas vinha se recuperando do vício das drogas, mas parece ter perdido a luta. A polícia promete investigar os motivos do crime e imagina apresentar o matador em breve.

O duplo assassinato vai parar na primeira página dos jornais locais muito mais pela relação que havia entre as duas estudantes e o provável assassino, pois sem o olhar jornalístico da busca do sensacional, o caso seria apenas mais um a fazer parte da crônica de violência contada todos os dias nas cidades da África do Sul, que dominam a parte mais baixa das listas internacionais de pesquisas sobre qualidade de vida.

Por contraditório que pareça, o Cabo que surge no topo destas classificações (é a quarta colocada entre cidades do Oriente Médio e África, segundo pesquisa mundial da Mercer que presta serviço na área de consultoria) não consegue esconder a chaga provocada pela brutalidade. Está aqui a mais alta taxa de homicídio do país com 62 assassinatos por 100 mil habitantes, surpreendente para quem anda nas ruas bem policiadas, neste período de Copa.

Policia na Cidade do Cabo

Para o Mundial, o governo africano incrementou em 44 mil o número de policiais para tentar controlar a violência. Hoje, são 190 mil de acordo com dados oficiais. E especialistas em segurança veem com otimismo o resultado alcançado até aqui, apesar das constantes notícias de turistas, jogadores e jornalistas assaltados, principalmente em cidades como Johannesburgo e Durban. Ontem mesmo, colegas nossos tiveram o cofre de seus quartos arrombado e todo o dinheiro levado embora. As estáticas mostram que o roubo é o “esporte preferido” dos bandidos sul-africanos.

Instituições que estudam questões relacionadas a segurança pública afirmam que os cerca de R 1,2 bilhão investidos no setor para a Copa do Mundo – isto representa algo em torno de U$ 173 milhões – tem reduzido os índices de violência. Gareth Newham, do Instituto para Estudos da Segurança, comparou as taxas de crimes com a Copa do Mundo de Críquete (esporte levado a sério por aqui), em 2003, e calcula que houve, com a de futebol, uma redução de até 24%, segundo informa o jornal sul-africano The Times. Andre Snyman da organização Eblockwatch lembrou que, historicamente, nos meses de maio e junho as taxas são menores se comparadas com setembro, outubro, novembro e dezembro, porém é evidente que a forte presença do policiamento tem inibido os bandidos – por incrível que possa parecer àqueles que nestes sete dias de Copa já foram vítimas de alguns deles.

Long Street na Cidade do Cabo

Ao passear pela mais antiga rua da Cidade do Cabo, Long Street, onde bares com arquitetura vitoriana destacada pela presença de balcões sobre a calçada recebem turistas e moradores locais, chama atenção uma outra característica nas fachadas. O comércio mantém portas de grade na maioria das vezes fechadas nem sempre, porém, altas o suficiente para impedir a invasão de algum assaltante que queira se aventurar na área.

Os portões de ferro se devem a dois fatores, e o primeiro é psicológico, dizem alguns por aqui: há uma paranoia que toma conta das pessoas que vivem em uma cidade na qual se tem notícia a toda hora de algum crime. Pergunto-me se aí onde você vive também não ocorre o mesmo. O segundo motivo é histórico: foi a forma dos brancos se protegerem de invasões que imaginavam seriam cometidas pelos negros ao fim do Apartheid.

O regime que separou as pessoas por cor, raça e horror ainda se reflete na sociedade sul-africana de maneira contundente. Os avanços que a luta de Nelson Mandela implementou são evidentes, mas a cicatriz aparece na pele, na arquitetura e na vida dos negros.

Distrito 6 na cidade do Cabo

Hoje mesmo, estive no Distrito 6 de onde cerca de 60 mil pessoas foram arrancadas de suas casas, a partir de 1966. Além de um museu que lembra aquela barbaridade, quarteirões vazios tomados pela grama e erva daninha foram mantidos para chamar atenção do crime cometido com este povo. Uma injustiça que começou a ser desfeita apenas em 1994.

Atente-se para as datas. O Brasil conquistava o Tetra nos Estados Unidos, quando o regime de segregação estava vindo abaixo. A história é muito recente e ainda viva na África do Sul. Por isso, criticar o país e seu povo pela violência e pobreza que ainda imperam é injusto se não levar em consideração a deterioração sofrida pela sociedade sul-africana.

Injusto, também, é esta gente continuar sendo vítima de uma elite política que ascendeu ao poder na carona de Nelson Mandela e tem esquecido parte de seus ideais. Motivo de seu descontentamento com os organizadores da Copa do Mundo 2010, pois o líder eterno deste país esperava que os jogos trouxessem não apenas visibilidade, mas benefícios concretos para os cidadãos. A ele não bastava um sistema de segurança que se desfizesse assim que a Fifa e sua famiglia fossem embora daqui – o que vai ocorrer no dia 11 de julho. Era preciso uma ação capaz de tirar o país do topo da classificação dos mais violentos do mundo, que transformasse a sociedade sul-africana mais segura não para mim, que voltareiao Brasil em algumas semanas, mas para seu próprio povo.

Morador de rua na Cidade do Cabo

A riqueza apareceu nesta Copa para quem a comanda, para os patrocinadores e seus patrocinados. Alguns segmentos faturaram mais, sem dúvida. Porém, muito do que poderia ficar por aqui foi parar nas mãos de gente lá fora e a renda não foi distribuída como Mandela sonhou.

Por isso, penso naquele senhor maltrapilho, com cheiro de cachaça, sentado na calçada assistindo ao passeio dos turistas em uma rua no centro da Cidade do Cabo. Ele estava sentado, sujo, desconsolado e triste. E, certamente, não se deve ao mal futebol jogado pela seleção da África do Sul.

Pacaembu corre risco de virar mico em 2014

Direto da Cidade do Cabo

São Paulo não ficará fora da Copa do Mundo de 2014. Pode perder a festa de abertura, mas não as partidas. A cidade é a maior, mais rica e mais importante do País – ok, não é a mais bonita – e capital do Estado que abriga boa parte das empresas e investidores com dinheiro para a construção de estádios e infraestrutura urbana. Nem aos cartolas do futebol interessaria a ausência paulistana, o que não significa que estejam preocupados com o fato de a abertura da competição ser feita em outro lugar – no próprio Rio, talvez, onde se planeja a final da Copa.

A cidade, porém, corre outro sério risco com a confirmação da notícia de que o projeto de reforma do estádio do Morumbi foi rejeitado pela “Famiglia Fifa”, conforme noticiamos no programa Arena Terra, do Portal Terra, nessa quarta-feira. O Pacaembu, estádio municipal, se transformaria em um enorme, grande, gordo e caro elefante branco.

O estádio seria uma alternativa, precisaria de reforma, ampliação dos atuais 40 mil lugares, rebaixamento do campo para criação de camarotes, cobertura e muito cuidado para não mexer na arquitetura protegida pelo patrimônio histórico. A Arena do Palmeiras também teria alguma chance, segundo o coordenador local do Comitê Paulistano da Copa 2014, Caio Carvalho. É ele, aliás, quem tem ressaltado que colocar dinheiro público em estádio novo é crime.

Porém, a pressão para a construção de uma arena multiuso aumentará e muito, com o Morumbi descartado. O plano B, negado até a morte pelas autoridades do município, talvez tenha de sair do papel, e se concretizar em terreno no bairro de Pirituba, na zona norte da capital. A arena teria capacidade de até 50 mil lugares, não chegando aos 65 mil que a Fifa exige para que a festa da abertura da Copa ocorra na capital. Dependendo de quem fizer a conta, o custo deste estádio pode variar de R$ 500 mi a R$ 1bi. A intenção é torná-lo parte de um complexo com centro de convenções, exposições e hotéis, onde seria realizada a Expo Mundial de 2020 (a cidade é candidata séria para o evento).

Há quem aposte que com dinheiro em caixa, o estádio estaria pronto em 30 meses, mesmo levando em consideração licenciamento, projeto, licitação, construção e outras necessidades. Porém, não se pode esquecer do desenvolvimento daquela região com ampliação do sistema de transporte, saneamento e comunicação, por exemplo. Ou seja, muito recurso público teria de aparecer.

Empurrando a ideia do Piritubão – apelido que, por si só, não contribui para a imagem do projeto – estaria o Corinthians, haja vista o esforço de Andrés Sanches em espalhar pelos bastidores a informação da falência da reforma do Morumbi desde que desembarcou na África como chefe da delegação brasileira. O novo estádio na zona norte seria construído com o meu, o seu, o nosso dinheiro para depois da Copa de 2014 ser negociado com o Corinthias nos mesmos moldes do Engenhão, no Rio de Janeiro, que hoje está sob o comando do Botafogo.

A encrenca que mais me preocupa, porém, está longe da zona norte paulistana.

A cidade precisará arrumar os R$ 5 mi necessários para manter em pé o Complexo Municipal do Pacaembu – estádio, ginásio, piscina e demais instalações, descontando o Museu do Futebol. Boa parte do dinheiro, atualmente, vem do aluguel para o Corinthians que paga entre R$ 17 mil e R$ 20 mil ou até 15% da renda do jogo, dependendo o que for maior. Mesmo com a participação do clube paulista, o prejuízo que a cidade tem como o Pacaembu é de aproximadamente R$ 1,5 mi por ano.

A prefeitura, ano passado, retomou a discussão com objetivo de negociar a concessão pública para o Corinthians ou qualquer outro clube disposto a encarar a conta de R$ 200 mi para administrar a casa, nos próximos 30 anos. E o fez porque sabe das dificuldades que tem para manter o local, considerado patrimônio público do município.

Sem o Morumbi na Copa 2014, com dinheiro sendo colocado no Piritubão para depois ser entregue ao Corinthians, a cidade terá de arcar sozinha com os custos de manutenção do Pacaembu que se transformará em estádio para ‘barrigudo’ jogar nos fins de semana. A conta vai ficar gorda, e nós – contribuintes – teremos de carregar nas costas este peso.

O Pacaembu pode ruir se o Piritubão for construído.

O jogo do Brasil que os meninos viram

 

Direto da Cidade do Cabo

Escrevo por procuração. Transcrevo o que me disseram dois meninos diante de sua primeira Copa do Mundo. Com 10 e 13 anos, esta é a primeira vez que eles assistem à seleção brasileira diante da responsabilidade de levar a outro Continente nossas glórias, traumas e identidade cultura. Sim, o futebol tem este caráter que se sobrepõe a análise crítica do desempenho individual dos jogadores e do pensamento de seu técnico.

Agora mesmo, quando escrevo, a versão americana do canal de televisão Bloomberg abre o programa Bloomberg News Asia e nas manchetes fala da vitória do Brasil sobre a Coreia do Norte, logo após destacar o discurso do presidente dos Estados Unidos Barack Obama, sobre o vazamento de óleo que provoca um dos maiores desastres ambientais que já assistimos, ao vivo. Nas manchetes oferece pesos parecidos aos dois “fenômenos”.

Por mais incomodado que você esteja com a cobertura jornalística sobre a Copa, não há argumentos suficientes que me convençam de que não se deve dar tal importância a este evento.

Conscientes disto, os meninos tem se envolvido com a Copa do Mundo antes mesmo do álbum de figurinhas chegar às suas mãos. Na sala de aula, têm estudado temas referentes à África, apresentado pesquisas sobre países deste continente e recebido informações sobre as 32 nações representadas no Mundial.

Digo que esta é a primeira Copa deles, pois consta que é a partir dos oito anos que as crianças começam a desenvolver o gosto pelo jogo. Os pais colocam babador com o símbolo do time, gorrinho com as cores e penduram cartaz com os craques (onde ele existirem), mas é depois dos oito anos que os meninos e meninas passam a definir sua preferência. Além disso, na Copa passada, os dois interlocutores desta história não estavam muito afim de “perder” seu tempo diante da TV.

Veem o futebol muito mais pelo coração. E com este sentimento vibraram no segundo gol de Elano: “aquele narigudo com cabelo encaracolado tem cara de choro, parece que tudo vai acontecer errado para ele, por isso estava torcendo pra ele fazer um negócio legal”. Por mais que o futebol tenha me ensinado algumas coisas, muitas vezes peco pela mesma sensação. Vejo um atleta em campo e por ele desenvolvo um sentimento de pena, compaixão, mesmo levando em consideração que está sendo muito bem remunerado para exercer aquele papel.

Ficaram alegres ao ver Robinho com a bola. Toda vez que esta chegava aos pés dele, os dois comemoravam como se soubessem que dali sairia um lance interessante: “ele ia pra cima dos coreanos, não ficava lá parado, queria sempre driblar”. Pensamento complementado pelos mais novo: “não tinha medo de jogar”.

Se Elano os fez vibrar, e Robinho, sorrir, o craque do time, garoto-propaganda de todas as propagandas, Kaká os deixou com raiva. Praguejaram contra o bom-moço durante a partida, várias vezes “Ele não acertava nenhum passe, tinha de ter saído no primeiro tempo”. Não querem saber, os dois, dos problemas físicos que limitam o desempenho do meio-campo brasileiro, querem resultado. Como todos nós. Como Dunga, também.

Dos norte-coreanos, não tiveram dó. Nem mesmo após ouvirem de um professor na escola que nestes países em que há ditadura jogadores que não cumprem seu papel são punidos e voltam para o exército (?). Passaram o jogo todo falando mal do “Rooney Coreano”, o atacante Jong Tae Sae, que teimava em impor perigo ao gol brasileiro. “Ele chorou quando tocou o hino, ele chorou quando cortou a perna, ele chorou quando perdeu o gol, ele chorou quando fez o gol. Ele é um chorão” – disse um. E o outro concluiu: “Vai ver tá com medo de levar chibatada quando voltar pra casa”.

Terminado o jogo de estreia deles em Copa do Mundo já querem saber qual a chance do Brasil contra a Costa do Marfim. “Será que o Dunga vai tirar o Kaká ?”.

Com esta sinceridade sobre o futebol, confesso que ficarei mais atento a opinião deles do que a de uma turma mal-humorada e comprometida que anda solta por aí.

Pré-sal e pós-ética

 

Por Carlos Magno Gibrail

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Enquanto a British Petroleum, maior do mundo em petróleo, não consegue estancar o desastre ecológico no pré-sal do Golfo do México, acarretando insuperável prejuízo ao meio-ambiente americano, Pedro Simon, sucedendo ao conterrâneo e colega de PMDB-RS Ibsen Pinheiro, surge na madrugada de Brasília para brecar os ganhos de Estados produtores de petróleo, gerando contundentes prejuízos ao Rio e Espírito Santo. Mirando lucros eleitoreiros locais a si e a seus pares. Burlando a ética e a Constituição e renegando o próprio passado.

A emenda de Simon, aprovada pelo Senado propõe a divisão igualitária dos royalties entre os 26 estados da federação, desconsiderando a região onde se extrai a matéria-prima. Para compensar os estados de origem transfere à União o ônus regulador do ressarcimento.

Fere o artigo 20 da Constituição que estabelece a compensação ao estado fornecedor e desafia a ordem jurídica, pois entra em contratos já estabelecidos e os desconsidera.

Se o presidente Lula vetar terá 24 governadores e respectivos prefeitos contra, se não vetar terá a aprovação destes, mas violará a Constituição.

A jornalista Lucia Hippolito, conforme pauta na CBN de sexta feira, considera que Pedro Simon “está bancando Tiradentes com a nossa cabeça” e crítica severamente o Governo Lula que colhe a tempestade que iniciou quando enviou ainda nesta legislatura ao Congresso tema tão complexo e cheio de alternativas, aos aproveitadores e oportunistas em véspera de eleições.

O jornalista e escritor Ruy Castro também pensa nessa linha, e em sua coluna na Folha de segunda-feira, ao referir-se à “casca de banana” que Simon quis jogar para Lula, advertiu: “Com essa jogada, Simon iguala-se em marotice e oportunismo aos políticos que já atacou e, com isso, despede-se dos que um dia o admiraram”.

Para que ícones como Pedro Simon não desfaleçam na saída, há que se criar um mecanismo de controle no sistema político, que venha a coibir votações e atos públicos que envolvam gastos e investimentos a serem executados na legislatura seguinte, em véspera de eleições.

Se for a “oportunidade que faz o ladrão”, por que não a “oportunidade que faz o cidadão”?

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

Um exército de abnegados com algum talento

 

Direto da Cidade do Cabo

Chegou veloz, convicto, certo de sua tarefa naquele momento. Maicon sabia qual era seu papel quando recebeu a confiança de Dunga para jogar na ala direita e a bola passada por Elano. Da mesma maneira, não teve dúvida de como chutar, de que lado da jabulani bater. E bateu de maneira que a bola mudasse de direção, escrevesse um roteiro diferente daquele programado pelo adversário.

Robinho havia tentado no primeiro tempo o mesmo através de seus dribles. No pouco espaço que havia no campo de ataque, onde estiveram 21 dos jogadores em boa parte do tempo, ele mostrou o que pode torná-lo um jogador diferente entre os “zés” e “manés” que representam suas seleções nesta Copa. Foi ele, por sinal, que encontrou Elano lá do lado direito, também, por trás da muralha montada pelos norte-coreanos, no segundo gol brasileiro.

Mesmo Kaká, limitado não pela qualidade, mas pelo físico, fez o que podia dado os problemas que enfrentou até agora. Chamou a marcação para ele, tentou se movimentar enquanto não estava com a bola nos pés, e ofereceu espaço para que os companheiros de equipe aparecessem.

Os lances na televisão não vão mostrá-lo na jogada, mas o sempre criticado, Felipe Melo, disse em campo porque recebeu a missão de ser uma dos volantes da seleção. Para que Maicon alcançasse sua glória pessoal – marcar gol em Copa é algo que fica gravado para o resto da vida -, precisou que Felipe desse início a jogada. Para Elano deixar sua marca, precisou que Felipe roubasse a bola lá trás, pegando os “armados” norte-coreanos de surpresa. Aliás, para que o Brasil levasse um gol, precisaram os coreanos que Felipe deixasse o gramado.

Goste ou não, assim é a seleção brasileira de Dunga, formada por jogadores que foram preparados para cumprir sua função, fiéis ao script desenhado pelo chefe durante todo o período de treinamento e sempre dispostos a oferecer um pouco mais do que o talento natural que receberam.

Comprometidos, sim. Abnegados, com certeza. E prontos para encarar todos os adversários que estiverem no caminho de seu compromisso maior: ser hexacampeão mundial. Podem até não alcançar esta marca, mas não tenha dúvida de que Dunga e companhia limitada vão derramar suar até o segundo final desta Copa.

E vão derramar lágrimas, também, como fez Maicon ao comemorar seu gol. Que seja sempre de alegria.

Futebol em um estádio da Copa

 

Direto da Cidade do Cabo

Green Point

Coisa rara quando estou no Brasil é assistir ao futebol em estádio. Houve época em que não saía de dentro de um, hoje tento ficar o mais distante possível. Aqui na Copa, porém, é inevitável o desejo de conhecer ao menos um desses gigantes construídos para os jogos.

Em Cidade do Cabo, a atração é o Green Point, construído no lado mais rico, próximo do mar, com vista para a Table Montain e a 15 minutos a pé de Victoria & Alfred Waterfront, onde se encontram turistas e compras.

Com ingresso em mãos e a oportunidade de ver a campeã do mundo na estreia, o frio e a chuva não seriam barreira para a caminhada do hotel até o estádio. Pelo movimento nas calçadas, muita gente aderiu ao “até a pé nos iremos”, talvez convencidos de que o carro não é a melhor alternativa.

A quantidade de policiais era enorme, reflexo do protesto dos trabalhadores revoltados com os baixos salários que estão sendo pagos. Os agentes privados de segurança fizeram greve no dia da partida, mas pouca coisa mudou no atendimento ao torcedor – há muitos voluntários atuando, também. Foi um deles que me indicou o caminho para a primeira linha de controle, um portão estreito no qual a sacola e você são rapidamente revistados.

Para chegar ao assento número 49, fila 5, no quarto andar, contei com a ajuda de outro voluntário. E não é que meu lugar estava lá, reservado, apesar de ter chegado 20 minutos antes do jogo se iniciar? E que belo lugar. A concepção de Arena multiuso, sonho recente de todos os clubes brasileiros, fica evidente quando você olha o gramado. Tudo parece muito próximo, apesar da distância, beneficiado que somos pela iluminação.

Vuvuzela é muito chato

O Green Point é visivelmente italiano dada a êxtase que toma conta do estádio durante a execução do hino. Os paraguaios, apesar de estarem em minoria, tentavam ganhar espaço no grito, mas, infelizmente, o efeito vuvuzela acabou com a cantoria nos estádios. As músicas que embalaram os jogos de copas anteriores desaparecem com o irritante som das cornetas que só silenciaram quando o locutor oficial pediu respeito durante o hino.

O sistema de som anima a torcida quando anuncia a escalação dos times, e tudo é acompanhado em dois telões com a imagem do jogador. Estes telões reproduzem as imagens que você vê na televisão, mas com censura. Os lances polêmicos são tirados do ar e o cronômetro desaparece assim que se aproxima o fim do jogo. Tudo para evitar pressão sobre o árbitro.

O gol do Paraguai foi reproduzido várias vezes, uma baita vantagem pra quem acostumado a ficar em frente a TV sempre sentiu falta do replay no estádio. E um comentário bem-humorado de um neófito em Copa do Mundo como eu: “Meu primeiro gol de Copa é paraguaio!”

Congestionou o banheiro do estádio

No intervalo, a prova dos nove. E o desafio da fila. Escolha a pior: no bar, enorme como em qualquer estádio brasileiro; no banheiro, impossível de entrar. Incrível como uma arena para 66 mil pessoas tenha banheiros tão mal situados e de difícil acesso. Foi preciso descer dois andares para ainda assim não conseguir chegar até lá. Deixa pro fim do jogo, porque a bola já estava rolando, novamente.

A chuva me acompanhou boa parte da partida com a vantagem de todos os lugares serem cobertos – ou quase todos. O problema foi o vento forte que fez respingar mesmo nos torcedores mais bem protegidos. Nada que estragasse o clima de Copa.

A Itália empatou e o estádio veio abaixo, confirmando minha primeira impressão. A casa era italiana. Aliás, como é saudável ver que os torcedores podem dividir espaço apesar de serem rivais. Enquanto um festeja, o outro respeita. Como deve ser no mundo civilizado.

Com o fim da partida, a primeira constatação: os jogos apresentados até aqui não estão a altura da beleza do estádio. E aproveito para anotar mais um item na coluna dos problemas, ao lado do atendimento no bar e no banheiro: rota de fuga. Para deixar o quarto andar, havia necessidade de passar por uma pequena porta e descer alguns lances de escada. Simples em uma situação normal como a de ontem, apesar do grande número de torcedores. Perigoso em um momento de crise e confusão.

Torcedores seguem para o estádio

Passada esta barreira, o estádio esvazia rapidamente e o deslocamento externo também é fácil, se você não estiver de carro. Os motoristas tiveram de esperar pacientemente a passagem de boa parte da torcida.

Um brasileiro, acostumado a assistir aos jogos do São Paulo, com quem conversei ao fim da partida me disse com um certo ar de tristeza: “hoje entendi porque os jogos da Copa não podem ser realizados no Morumbi, pra fazer como este aqui só colocando tudo abaixo”.

Como o Morumbi já é passado, na volta para o hotel fico a imaginar como seria o nosso Green Point em Pirituba.

É Copa do Mundo e meu coração não saiu de férias

 

Entusiasmado com o futebol, e disposto a torcer pela seleção brasileira, o jornalista Airton Gontow enviou para o Blog o artigo que reproduzo a seguir, no dia em que o Brasil estreia na Copa do Mundo da África:

Por Airton Gontow

Há uma cena emblemática em “O ano em que meus pais saíram de férias”, excelente filme de Cao Hamburger sobre a Ditadura Militar, que tem como pano de fundo a Copa do Mundo de 1970. Jovens da esquerda brasileira assistem a um dos jogos da Seleção cientes de que o certo é torcer para a derrota do Brasil, já que o triunfo do time nacional seria mais uma arma nas mãos do governo militar. Mas na hora do primeiro gol do Brasil o que se vê é uma explosão de alegria.

Vivi uma cena, de certa forma semelhante, muitos anos antes, na Copa do Mundo de 86. Eu estava na Universidade de Tel Aviv, em Israel, onde estudava, assistindo à partida decisiva entre Argentina e Alemanha. Ao meu lado, estudantes judeus latino-americanos, metade deles da Argentina e os outros de países como México, Colômbia, Uruguai e Brasil. Todos manifestaram apoio irrestrito ao “irmano sul-americano”, ainda mais contra a Alemanha, time que, por motivos óbvios, não encontra muitos seguidores em Israel. Quando a Argentina fez o primeiro gol, nossos vizinhos vibraram intensamente e todos nós aplaudimos. Na hora do segundo gol, a vibração foi ainda mais forte e até nos arriscamos a cantar “Vamo, Vamo, Argentina…” Quando os alemães marcaram pela primeira vez houve um silêncio absoluto no quarto. O jogo prosseguiu, com todos nós ansiosos pelo seu término. Na hora do empate da Alemanha o que se viu e ouviu foram gritos ensurdecedores: “Gol! Gol! Gol!” De repente lá estavam todos os jovens estudantes – judeus e sul-americanos! – festejando em pé o gol dos alemães, sob os olhares surpresos dos argentinos que, aliás, saíram do quarto vibrando e sem nos olhar ou se despedir quando sua seleção conquistou o título.

Lembro destas histórias quando penso em Dunga. Meu Deus, não convocou o Ganso! Que loucura, não deu chance para o menino Neymar! Que heresia: o Zangado, ops!, o Dunga, ignorou a recuperação de Ronaldinho Gaúcho no Milan e vai pra Copa com Júlio Batista, Elano e Kleberson. Deixou o Hernanes de fora e convocou o Josué. Ao tirar com razão o Adriano riscou com a caneta, ou melhor, com Grafite, o nome de Fred, o substituto natural. Teremos na Copa o Doni e o Victor, melhor goleiro do País nos últimos dois Brasileirões, ficará por aqui!

Lembro destas histórias quando vejo as entrevistas e outras manifestações de Dunga e seu fiel escudeiro, Jorginho – que acusam qualquer crítica de falta de patriotismo. “Brasil: silencie ou deixe-o!”

Eu e você deveríamos torcer contra a Seleção Brasileira, já que a vitória na Copa poderá significar a perpetuação do jeito Dunga de comandar: a criação de inimigos externos para unificar o grupo; o desprezo pelo talento e o revanchismo. Deveríamos é torcer pela Argentina, do maestro Verón e do craque Messi, com seu futebol de técnica e garra. Ou mesmo pela Espanha, que nunca venceu uma Copa e que hoje joga um belíssimo futebol, com Fúria e arte.

Mas, claro, não dá. O coração simplesmente não deixa. Não há espaço para a razão na hora do futebol. Como jornalista terei sempre o sagrado compromisso de buscar a verdade. Mas não vou escrever “O Elano em que meu país saiu de férias”. Comprei uma televisão nova e até parei em faróis e lojas para decorar minha casa com as bandeiras e outros badulaques do Brasil. Já estou vestido – corpo e alma – com a camisa canarinho. De vuvuzela verde-amarela na mão!

Que o venha o Hexa! Com um gol de Grafite! Pelos pés de Júlio Batista! Com um petardo do operário Elano. “Doni! Doni!” “Dunga! Dunga! Dunga!” Pra frente Brasil!

Airton Gontow é jornalista e cronista.