Avalanche Tricolor: uma questão de fé

 

Botafogo 0 x 1 Grêmio
Brasileiro – Maracanã

 

 

Um rosário estava na mão de Alex Telles na saída para o vestiário no primeiro tempo. Pelo que disse ao repórter curioso, sempre leva com ele o símbolo de sua religiosidade. Onde guarda durante a partida, não sei, mas que precisou de muita fé para alcançar a conquista parcial, até aquele momento, sem dúvida. No pior momento do jogo, quando acabávamos de ficar com um a menos em campo, sofríamos pressão intensa de adversário que já foi apontado como candidato ao título e disputava a vice-liderança diante de seu torcedor, soubemos manter a cabeça no lugar e a bola nos pés. Situação rara nos mais de 90 minutos jogados nesse sábado, no Rio de Janeiro. Refiro-me à raridade de controlarmos a bola, pois o equilíbrio emocional se fez durante praticamente toda a disputa. Foi nesse instante que, mais uma vez, um de nossos muitos volantes, Riveros, apareceu no ataque, foi à linha de fundo e, em vez de dar um chutão para dentro da área a espera de um cabeceio salvador, com a cabeça erguida encontrou Alex chegando pela meia esquerda, entregando-lhe a bola com açúcar e com afeto. O camisa 13 gremista – ainda vou pedir essa camisa para mim – na mesma velocidade com que entrou na área, ajeitou a bola para concluir de forma certeira e indefensável: 1 a 0, mantido heroicamente até o fim da partida.

 

O gol teve a crença e coragem de Renato. Na jogada anterior, o técnico havia reclamado de Alex que, em vez de se aventurar na ponta esquerda, ficou recuado durante troca de passe. Temia, com certeza, deixar a defesa desguarnecida em setor do campo por onde o adversário demonstrava preferência em jogar. Mas Renato sabe que seu esquema, por muitos considerado retranqueiro, exige ousadia de seus jogadores. Impõe aos atacantes marcar como zagueiros, às vezes até quando estão atacando, como aconteceu com o atabalhoado Kleber, no lance da expulsão. O treinador escala três zagueiros e aposta na chegada deles na frente, como ocorreu em ao menos dois lances de perigo no primeiro tempo, através de Rodolfo e Werley. Compõe o time com três volantes mas não se satisfaz com seus desarmes, exige a presença deles no ataque quando possível como aconteceu com Souza, em um dos primeiros lances de gol do time; com o incansável Ramiro, que roubava a bola atrás e aparecia como companheiro de Barcos próximo à área do adversário; e com Riveros, tão importante no lance de gol nessa partida quanto o foi ao marcar o gol da vitória no jogo anterior. Os alas também são exigidos pelo técnico, por isso Pará protagonizou bela jogada pela direita quando já tínhamos inferioridade numérica em campo e superioridade no placar. E, claro, só por isso Alex Telles apareceu na entrada da área para receber passe de Riveros e marcar o nosso gol da vitória. Bressan, despachando todo perigo que surgia, e Dida fechando o gol nas poucas vezes em que a bola conseguia cruzar nossa linha de marcação, não fazem por menos. Apesar de não chegarem ao ataque, por razões óbvias, refletem a disposição do elenco em atender às ordens de Renato.

 

Os raros e caros leitores deste Blog sabem que costumo não confundir minhas convicções religiosas com minha paixão futebolística. Não arrisco pedir a Deus nas missas de Domingo por melhores resultados em campo, pois sei que Ele tem coisa demais para se importar. E eu, coisa mais importante para pedir. Mas de alguma maneira as crenças de Alex e Renato contaram com uma forcinha divina nessa partida de sábado à noite. Talvez obra de Padre Reus que assiste às partidas do Grêmio nas mãos de meu pai, que, lá em Porto Alegre, aperta a imagem dele com fé e muita força.

 

N.B: Como reservo minhas conversas com Ele para coisas importantes, desde após a partida tenho pedido toda a força para a recuperação do técnico Osvaldo de Oliveira, que passou mal ao fim do jogo. Além de ótimo ser humano, um amigo para quem sempre vou querer o melhor.

Avalanche Tricolor: Dida, justiça foi feita!

 

São Paulo 0 x 1 Grêmio
Brasileiro – Morumbi (SP)

 

 

Dida tem história no futebol. Foi campeão no Brasil, foi campeão na Europa e foi campeão do Mundo. Pensou em parar, mas o futebol insistiu que ele voltasse. Acabou no Grêmio onde, prestes a completar 40 anos, semana que vem, vive, hoje, o ocaso da carreira – que isso não seja lido com demérito, pois o faz dignamente. Tanto quanto o Diabo sabe mais por velho do que por Diabo, é com experiência que Dida protege nosso gol, além da estatura invejável. Às vezes, sua calma é irritante para a torcida que exige um time vibrante, independentemente da qualidade do futebol jogado. Teve bons momentos nessa temporada, foi justamente cobrado em algumas partidas e ainda devia um desempenho a altura de sua carreira. Uma atuação excepcional que o levasse a defesas além do lugar-comum de um goleiro. É o mínimo que espera o torcedor do time que se atreveu a homenagear em seu hino um goleiro, Lara, e jamais esqueceu a imagem de Mazaropi, campeão mundial de 1983, ou mesmo de Gallato, fundamental na Batalha dos Aflitos.

 

Nesta tarde, em São Paulo, uma das cidades na qual se consagrou, Dida fez a diferença. Foi gigante ao fechar a goleira gremista em jogadas na qual o gol parecia o destino, foi ágil para impedir chutes fortes com endereço certo, se esticou todo para chegar em bolas que tentavam escapar de seu alcance e teve audácia quando, em raro momento neste ano, se aventurou a sair debaixo das traves e abortar lance na entrada da área com os pés. E, claro, como todo grande goleiro contou com a gentileza da bola que desviava para fora quando ele estava, aparentemente, batido.

 

Foi sua atuação fundamental para o Grêmio encerrar a série de quatro jogos sem vitória e se manter entre os quatro primeiros colocados, independemente dos resultados desta noite. Ao impedir o sucesso do ataque adversário, permitiu uma só escapada de bola gremista pelo lado esquerdo, a troca de passe rápida entre Kleber e Barcos, o cruzamento preciso de Alex Telles sobre a linha de fundo e na cabeça de Vargas, que, pequenino, foi maior do que os marcadores para fazer o gol talvez na única jogada realmente perigosa do Grêmio em toda a partida.

Ao contrário do que disse Ganso na saída do gramado, o futebol não é injusto. Fez justiça à carreira de Dida.

Avalanche Tricolor: decisão vai ser em casa

Corinthians 0 x 0 Grêmio

 

Copa do Brasil – Pacaembu (SP)

 

No Sul, tem a Semana Gre-Nal. Ganha direito a letra maiúscula o nome que batiza os dias anteriores ao clássico mais tradicional do Rio Grande do Sul dada a expectativa que este jogo gera nos torcedores. E os efeitos que pode provocar conforme o resultado. O placar final costuma definir o humor de parcela dos gaúchos, nos dias seguintes. Começo a Avalanche com esta explicação para que você, caro e raro leitor, tenha ideia do clima que encaro, desde cedo, aqui em São Paulo, quando o Grêmio tem o Corinthians como adversário. É quase o clima que antecede o Gre-Nal, em Porto Alegre. Provavelmente porque os dois clubes já se enfrentaram em várias decisões e não por acaso juntos detém sete títulos da Copa do Brasil. Durante o Jornal da CBN, na redação, nas redes sociais, no e-mail, quando chego ao supermercado ou passo por um vizinho e sou reconhecido como gremista, lá vem a provocação. Sempre tem um torcedor contrário disposto a lembrar o desafio que enfrentarei logo mais à noite. Não bastasse isso, tem a pressão de todas as demais torcidas de clubes paulistas que nos impõem a obrigação de superar o adversário, como se a nossa vitória fosse deles (não costumam ter a mesma solidariedade na derrota). Por tudo isso, essas partidas são sempre marcadas por preocupação extremada: o que eu vou ter de aguentar no dia seguinte?

 

Já sei que a quinta-feira será mais tranquila com o empate sem gols (nem muito futebol) desta noite, no Pacaembu. Transferimos para o mês que vem (dia 23/10) a decisão, a tensão e a gozação. Com a vantagem de que vamos jogar em casa com nossa torcida ao lado. Até a próxima Semana Gre-Cor.

Conte Sua História de SP: futebol na cabeceira da pista

 

Por Omar Ayub
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Em 1969 mudei da Alameda Barros, 164 (vizinho de fundos da Rádio Globo da rua das Palmeiras), para um bairro longe do centro: Jardim Aeroporto e me tornei o mais novo vizinho do Aeroporto de Congonhas. Para um garoto de 11 anos essa proximidade foi espetacular. Já adianto que apesar do fascínio pelos aviões  não me tornei aviador, piloto ou qualquer profissional ligado a área. Estudei na Escola Estadual de 1º Grau Congonhas (depois denominada Prof.ª Ilka J. Germano) e após na Escola Estadual de 2º Grau Padre Manuel de Paiva. Hoje, somente os edifícios existem, servindo a outras atividades pois as escolas foram fechadas, segundo as autoridades da época devido a baixa procura dos moradores do bairro. Passo pelos prédios e me lembro das salas de aula, dos colegas, da sirene, dos professores e das aventuras que vivíamos na década de 1970. Mas o que gostaria de contar mesmo é de outro lugar que não existe mais.

 

Vizinho a atual Av. dos Bandeirantes e bem “debaixo” da cabeceira da pista do aeroporto na Av. Washington Luís, existia um campo de futebol de várzea, sem um centímetro quadrado de grama, pura terra. Nós garotos que usávamos esse campo o apelidaram de Campão. Não sei se era grande mesmo ou se parecia enorme devido ao nosso tamanho. Acordávamos cedo, aos sábados, para sermos os primeiros a usá-lo, pois a procura era grande e a fila para jogar maior ainda. Enquanto corríamos atrás da bola parávamos de quando em quando para observar os aviões que passavam por cima de nossas cabeças. Parecia que bastava levantar as mãos para tocá-los. Sábados à tarde e aos domingos, o Campão recebia os times de várzea e ficávamos junto a uma torcida numerosa e animada observando e admirando aqueles jogadores uniformizados.

 

O tempo passou muito rápido, a demanda por voos também e a pista do aeroporto precisou ser aumentada. A ampliação custou os sonhos de muitos jogadores e o Campão deixou de existir. Passo todos os dias pela Av. Washington Luís, lembro-me do posto Shell, que já estava lá desde 1969 e foi atingido pelo avião da TAM. Lembro-me das chácaras do bairro que forneciam verduras e legumes e onde hoje existem casas e prédios, mas, principalmente, lembro daqueles garotos que corriam atrás da bola, vibrando, rindo, gritando, sorrindo, xingando…

 

Lá se vão mais de 40 anos e ainda hoje vejo o Wellington, o Antônio, o Paulo, o Claudio Bento, o Augusto, o Mauro Japonês, o Gladstone disputando a bola com a única preocupação de sermos felizes e aproveitarmos aqueles momentos mágicos no Campão, que já se foi.

 


Você pode participar do Conte Sua História de São Paulo enviando texto para milton@cbn.com.br ou agendado entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Avalanche Tricolor: cabeça no lugar e bola no chão

 

Vitória 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Barradão

 

 

Foi na pequena tela do Iphone que assisti à partida de sábado à noite, em Salvador. Estava em São Paulo, na casa de um amigo para comemorar mais um ano de vida. Acompanhei por um desses aplicativos de internet que atualizam o resultado com descrições que, se não ajudam muito a entender o jogo, ao menos nos mantêm informados do placar. É uma sensação curiosa, pois com nova informação a cada minuto, sempre fica a esperança de que naqueles 60 segundos anteriores – e talvez somente naqueles – seu time tenha acertado a troca de passe, os jogadores de meio tenham se movimentado com maestria para confundir os marcadores, um dos laterais tenha aparecido na linha de fundo para cruzar a bola no pé do atacante que, com um drible desconcertante, tenha superado o zagueiro e chutado de forma indefensável para nos colocar em vantagem. Assim que o novo texto surge na telinha e o placar permanece imóvel, a esperança anterior se frustra e uma nova surge, pois não se consegue ter ideia clara de quem domina as ações, qual o desempenho de seus jogadores nem o quanto o juiz atrapalha. Portanto, nunca se deixa de acreditar que o gol vai sair daqui a pouco.

 

Soube mais tarde (e fui conferir o lance em um site) que nosso ala Pará, com boa visão, virou o jogo para seu colega na ala esquerda, Alex Telles, escorar a bola para Barcos que estava acossado pelo zagueiro. O nosso volante mais avançado, Riveros, se deslocou em direção ao meio da área e chamou atenção da defesa, abrindo espaço para Kleber aparacer do lado direito livre, no ponto onde o passe feito por Barcos alcançou. O atacante poderia ter chutado forte, mas fez a melhor escolha e atravessou a bola na pequena área, onde já estava Alex Telles pronto para concluir em gol. Foi o que fez, mas o auxiliar, de quem não sei o nome (nem quero saber), viu irregularidade onde não havia e impediu que o Grêmio abrisse o placar ainda no primeiro tempo, o que poderia mudar a história contada pelo redator que atualiza as informações no serviço pelo telefone.

 

Das poucas vantagens de não assistir às imagens da partida ao vivo está o fato de não ficarmos influenciados pelo desempenho ruim de alguns jogadores e menos ainda incomodados com os passes errados que, me informaram, foram 101, somados os dois times. Nossa visão fica menos catastrófica do que a maioria, mesmo porque, convenhamos, nada do que está acontecendo foge da normalidade. Empatar fora de casa diante do bom momento do adversário não chega a ser um desastre, apesar da sequência ruim nos últimos três jogos. Campeonato com a extensão do Brasileiro sempre terá percalços, haja vista o que aconteceu na rodada desse fim de semana com alguns dos principais candidatos ao título (nós, inclusive). Portanto, só nos cabe por a cabeça no lugar, a bola no chão, precisar mais o passe, enxergar o companheiro livre e acertar o chute no gol. (se o juiz não atrapalhar, melhor ainda).

Avalanche Tricolor: apesar de tudo, uma noite de prazeres

 

Grêmio 1 x 1 Santos
Brasileiro – Arena Grêmio

 

À mesa, companhias especiais, boa comida e compromissos profissionais. Apesar de trabalho, a conversa foi prazerosa. Infelizmente, a agenda para o encontro coincidia com o horário da partida do Grêmio, na Arena. Sem televisão por perto, minha caixinha mágica – o SlingBox – quebrada (nem seria gentil de minha parte tê-la funcionando no Ipad durante o bate papo), restou-me o celular com a atualização dos resultados de tempo em tempo. Embevecido pelas histórias engraçadas que ouvi dos dois parceiros de jantar e pelo vinho, não percebi que o placar parcial de 1 a 0 havia se perdido nos minutos finais. Somente ao pegar o caminho de casa é que tive a informação frustrante e, mesmo sem ter assistido ao jogo, pude imaginar nosso desempenho. Não muito diferente do que vimos nas últimas partidas.

 

Como para tornar menos amargo o fim da noite, na troca de mensagens pelo Twitter, com Deva Pascovicci, da CBN, que narrava a partida de São Paulo e Atlético-MG ouvi homenagem a Milton Gol-Gol-Gol Jung, apelido daquele que você tem a oportunidade de ler todas as quintas-feiras aqui no Blog. Para compartilhar com você este momento de alegria, reproduzo trecho da fala do Deva, gentil e brincalhão como sempre:

 

 

A homenagem ao pai e o jantar com os amigos compensaram o resultado em Porto Alegre. E mesmo com o empate é preciso celebrar o fato de que havíamos acumulado gordura suficiente para nos mantermos no G4, coisa que muita gente boa está tentando e tropeçando.

Avalanche Tricolor: trabalho recompensado

 

Náutico 0 x 2 Grêmio
Brasileiro – Arena Pernambuco

 

 

A semana tem sido dura. Às manhãs normalmente difíceis pela responsabilidade de comandar o Jornal da CBN, se soma uma série de outros compromissos profissionais. Temos gravado edições extras para o Mundo Corporativo: na segunda, foi uma, hoje, mais duas. Estive em eventos nos quais realizei palestra sobre comunicação – atividade para a qual (ainda bem) tenho sido bastante requisitado -, além de apresentar o prêmio Melhores de São Paulo, entregue pela Revista Época São Paulo. Por mais que esses trabalhos me ofereçam momentos de prazer, o tempo de sono diminui, o corpo e a cabeça não descansam como deveriam, especialmente para quem, como eu, sai da cama ainda de madrugada (apenas acompanhado dos sabiás que cantam na janela). Imagine no meio da semana ficar acordado para assistir aos jogos do fim da noite, como foi o desta quarta-feira. Sei que muitos abandonariam essa tarefa, mas eu não consigo botar a cabeça no travesseiro sabendo que o Grêmio está em campo, principalmente na disputa de competição tão equilibrada quanto a desta temporada.

 

Diante da agenda cheia e do esforço para me manter em pé, a única coisa que esperava era ser retribuído por uma vitória gremista. Ganhei mais do que isso: vi Rhodolfo tomar conta da área e desarmar os adversários com dois carrinhos de dar inveja até ao Felipão; vi Wendell estrear com personalidade e talento apesar da pouca idade, sinalizando que não devemos mais nos preocupar com a ala esquerda; vi Maxi Lopes entrar em campo e desorientar sua marcação com belos dribles; além de ter visto Kleber brigar pelo espaço dentro da área, Barcos voltar a marcar e Paulinho comemorar o gol que concluiria os trabalhos desta quarta-feira à noite.

 

Com a vitória de hoje, que nos mantém na disputa pelo título, digo com tranquilidade que todo o meu trabalho foi recompensado. O de Renato e o do Grêmio, também

 


A foto que ilustra este post é de André Kuse/Grêmio.net

Avalanche Tricolor: vitória para lembrar e relembrar

 

Grêmio 3 x 2 Portuguesa
Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Ao deixar Porto Alegre, em 1991, meu primeiro encontro com o Grêmio foi na final da Copa São Paulo de futebol júnior, no estádio do Pacaembu. Fomos goleados pelo incrível time comandado pelo atacante Dener, da Portuguesa, que mais tarde vestiu a camisa tricolor, antes de ir para o Vasco, no Rio, onde morreu precocemente em acidente de trânsito. Fiquei admirado com a performance daquela equipe e passei a acompanhá-la com mais carinho. O encanto se encerrou quando, mais uma vez, a Lusa apareceu no caminho do Grêmio, na final do Campeonato Brasileiro de 1996. Aqui em São Paulo, todos torciam para a Portuguesa, ao menos ninguém lhe queria mal. Eu, cercado de paulistas por todos os lados, praticamente sozinho, com a força e a vontade que apenas os gremistas são capazes de ter diante das adversidades, defendia nossas cores e acreditava no título, mesmo depois da derrota por 2 a 0, no primeiro jogo, em São Paulo. Ao meu lado, havia apenas o Gregório, meu primeiro filho, que não tinha mais de 50 dias de vida, mas já se apresentava coberto no berço pelo manto do Imortal. De plantão, assisti à última partida na redação da TV Cultura, onde todos eram contra mim naquele momento. E foi diante de todos eles que comemorei como louco os gols de Paulo Nunes e Aílton, suficientes para nos dar o bicampeonato brasileiro.

 

Apesar do histórico restrito, se comparado aos demais grandes do futebol paulista, a Portuguesa sempre foi traiçoeira às minhas expectativas. No ano passado, você deve lembrar, foi a Lusa quem interrompeu a trajetória de vitórias gremistas no Brasileiro. Portanto, não me surpreendeu a dificuldade que tivemos para vencê-la no sábado à noite, na Arena. Não bastasse isso, outra vez nossos limites foram testados. Nem sempre a bola chegava ao ataque da forma que gostaríamos, apesar do talento de Zé Roberto. Nem sempre a defesa se posicionava da maneira que desejaríamos, mesmo tendo três zagueiros e dois volantes próximos da nossa área. E, como sempre, nos expomos a riscos e sofrimentos para provarmos quanto somos capazes de superar nossas restrições. De positivo, a sequência de jogadas pelas laterais e o desempenho de Kléber que deixou de ser apenas um trombador, para se tornar fundamental no ataque.

 

Outro fator importante, é que aos poucos construímos uma história na Arena Grêmio, levando para lá a força que emanava das arquibancadas do Olímpico Monumental, inclusive com o aumento na média de público por partida, próximo de 25 mil pessoas. Em nove meses de vida, foram nove jogos pelo Brasileiro e apenas uma derrota. Que essa fique para a estatística e o jogo contra a Portuguesa seja mais um na caminhada de 2013, quando espero comemorar o título da mesma forma que em 1996, mas com mais companheiros ao lado, pois hoje, além do Gregório tenho o Lorenzo.

Avalanche Tricolor: se aprendeu a lição, tudo bem!

 

Goiás 2 x 0 Grêmio
Brasileiro – Serra Dourada (GO)

 

O esporte é rico em histórias engraçadas. Lembrei na noite de hoje do caso de um colega do time de basquete que chegou no vestiário, colocou o uniforme, vestiu o abrigo e atentamente ouviu a orientação do técnico. Ficaria na reserva, mas com boas chances de entrar e, quem sabe, mostrar todo seu talento, garantindo lugar entre os cinco titulares nos próximos jogos. A partida se iniciou, a disputa era equilibrada, a marcação forte, mas o adversário tinha vantagem no placar. O treinador fez uma substituição, fez outra, tentou uma terceira, uma quarta formação, até que olhou para o banco e chamou meu colega. Chegava a chance de mostrar todo seu valor. Aqueceu tempo suficiente para pegar o ritmo do jogo. Quando estava pronto para entrar na quadra, arriou o abrigo e ficou apenas de cueca para a gargalhada dos torcedores. Havia esquecido de vestir o calção e com isso jogara fora a chance de assumir posição de destaque no time.

 

O jogador sem calção foi o Grêmio na noite dessa terça-feira, em Goiânia. Ficou preso no congestionamento, entrou atrasado em campo, perdeu o Hino Nacional, o pique do jogo e o toque de bola. Desatento, cometeu erros infantis e foi incapaz de superar suas limitações, ao contrário das partidas anteriores quando cometemos erros, tivemos dificuldades para executar jogadas, mas, mesmo assim, éramos maiores do que todas as nossas falhas. Com isso, desperdiçamos a oportunidade de seguir na disputa pela liderança do Campeonato e corremos o risco de cair na tabela de classificação.

 

Apesar de tudo isso, não há motivos para desespero. Nossos adversários também cometerão seus tropeços no decorrer das rodadas, quem sabe já nessa quarta-feira. O importante é aprender a lição, compreender nossas carências e resolvê-las durante a semana para que no próximo sábado quando nova chance surgir estarmos preparados para chegar à liderança (sem esquecer de vestir o calção).