Sul e Sudeste elegeram Dilma, também

 

O preconceito e a má-informação têm induzido pessoas ao erro e colaborado para ampliar as diferenças que existem no Brasil. Refiro-me a origem dos votos que elegeram Dilma Roussef em detrimento de José Serra. Em mensagens curtas pelo Twitter e textos ilustrados que me chegam por e-mail a todo momento – e por isso resolvi falar sobre o assunto neste blog -, eleitores do norte e nordeste são “acusados” de serem os responsáveis pela vitória petista em uma tentativa de diminuir o resultado relacionando-o ao voto de pobres e analfabetos.

Antes de irmos aos números, ressalte-se que das coisas mais belas que tem na democracia é o fato de o voto do Barão valer o mesmo que o do peão – seja ou não alfabetizado. É dos poucos momentos em que o cidadão vale a mesma coisa diante da lei, raro em um país que costuma julgar conforme a posse.

Importante lembrar, também, que o voto que vem de Oiapoque (AM), Jaicó (PI) ou Caiçara (PB) são de eleitores brasileiros assim como os depositados (teclados) na urna em São Paulo e Rio de Janeiro. Representam o mesmo país. Assim, se Dilma tivesse sido eleita apenas pelo apoio do Norte e Nordeste, já teria sua vitória legitimada. Mas nem isso é verdade.

Somados os votos da região Sul e Sudeste, Dilma chegou a 29,7 milhões, enquanto Serra fez 29,4 milhões. Estaria eleita assim mesmo.

A vitória dela em Minas (16 p.p) e Rio de Janeiro (20 p.p) foi acachapante . O tucano se deu muito bem no Paraná (10 p.p) e Santa Catarina (14 p.p) e foi pouca coisa melhor no Rio Grande do Sul e Espírito Santo.

Lembre-se, também, de que Paraná e Santa Catarina somam pouco mais de 9,3 milhões de votos, enquanto apenas o Rio tem em torno de 8 milhões. E Minas é o segundo maior colégio eleitoral do País, depois de São Paulo, com cerca de 14 milhões.

Puxando o traço: a avaliação de que o Nordeste, os pobres e os analfabetos elegeram Dilma, não bastasse ser de um preconceito irritante revela ignorância.

O insustentável preconceito do ser !

 

Por Rosana Jatobá

álbum de jef_safi no Flickr

Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos.

Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:

– Recomendo um passeio pelo nosso “Central Park”, disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem “farofa” no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar….

De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que , de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado.

Descobri que no Rio de Janeiro, a pecha recai sobre os “Paraíba”, que, aliás, podem ser qualquer nordestino. Com ou sem a “Cabeça chata”, outra denominação usada no Sudeste para quem nasce no Nordeste.

Na Bahia, a herança escravocrata até hoje reproduz gestos e palavras que segregam. Já testemunhei pessoas esfregando o dedo indicador no braço, para se referir a um negro, como se a cor do sujeito explicasse uma atitude censurável.

Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leitão, ela comentava:

-O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso é uma ilusão. Nós temos uma marcha de carnaval, feita há 40 anos, cantada até hoje. E ela é terrível. Os brancos nunca pensam no que estão cantando. A letra diz o seguinte:

O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, quero o teu amor”.

“É ofensivo”, diz Miriam. Como a cor de alguém poderia contaminar, como se fosse doença? E as pessoas nunca percebem.

A expressão “pé na cozinha”, para designar a ascendência africana, é a mais comum de todas, e também dita sem o menor constragimento. É o retorno à mentalidade escravocrata, reproduzindo as mazelas da senzala.

O cronista Rubem Alves publicou esta semana na Folha de São Paulo um artigo no qual ressalta:

Palavras não são inocentes, elas são armas que os poderosos usam para ferir e dominar os fracos. Os brancos norte-americanos inventaram a palavra “niger”para humilhar os negros. Criaram uma brincadeira que tinha um versinho assim:
“Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by the toe”…que quer dizer, agarre um crioulo pelo dedão do pé (aqui no Brasil, quando se quer diminuir um negro, usa-se a palavra crioulo).
Em denúncia a esse uso ofensivo da palavra , os negros cunharam o slogan “black is beautiful”. Daí surgiu a linguagem politicamente correta. A regra fundamental dessa linguagem é nunca usar uma palavra que humilhe, discrimine ou zombe de alguém.

Será que na era Obama vão inventar “Pé na Presidência”, para se referir aos negros e mulatos americanos de hoje?

A origem social é outro fator que gera comentários tidos como “inofensivos”, mas cruéis. A Nação que deveria se orgulhar de sua mobilidade social, é a mesma que o picha o próprio Presidente de torneiro mecânico, semi-analfabeto. Com relação aos empregados domésticos, já cheguei a ouvir:

– A minha “criadagem” não entra pelo elevador social !

E a complacência com relação aos chamamentos, insultos, por vezes humilhantes, dirigidos aos homossexuais ? Os termos bicha, bichona, frutinha, biba, “viado”, maricona, boiola e uma infinidade de apelidos, despertam risadas. Quem se importa com o potencial ofensivo?

Mulher é rainha no dia oito de março. Quando se atreve a encarar o trânsito, e desagrada o código masculino, ouve frequentemente:

– Só podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar é no tanque!
Dependendo do tom do cabelo, demonstrações de desinformação ou falta de inteligência, são imediatamente imputadas a um certo tipo feminino:
-Só podia ser loira!

Se a forma de administrar o próprio dinheiro é poupar muito e gastar pouco:
– Só podia ser judeu!

A mesma superficialidade em abordar as características de um povo se aplica aos árabes. Aqui, todos eles viram turcos. Quem acumula quilos extras é motivo de chacota do tipo: rolha de poço, polpeta, almôndega, baleia …

Gosto muito do provérbio bíblico, legado do Cristianismo: “O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem”.

Invoco também a doutrina da Física Quântica, que confere às palavras o poder de ratificar ou transformar a realidade. São partículas de energia tecendo as teias do comportamento humano.

A liberdade de escolha e a tolerância das diferenças resumem o Princípio da Igualdade, sem o qual nenhuma sociedade pode ser Sustentável.

O preconceito nas entrelinhas é perigoso, porque , em doses homeopáticas, reforça os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidadãos. Revela a ignorancia e alimenta o monstro da maldade.

Até que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alcóolatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:

-Só podia ser mendigo!

No outro dia, o motim toma conta da prisão, a polícia invade, mata 111 detentos, e nem a canção do Caetano Veloso é capaz de comover:

-Só podia ser bandido!

Somos nós os responsáveis pela construção do ideal de civilidade aqui em São Paulo, no Rio, na Bahia, em qualquer lugar do mundo. É a consciência do valor de cada pessoa que eleva a raça humana e aflora o que temos de melhor para dizer uns aos outros.

PS: Fui ao Ibirapuera num domingo e encontrei vários conterrâneos…

Rosana Jatobá é jornalista da TV Globo, advogada e mestranda em gestão e tecnologias ambientais da USP. Toda sexta, conversa com os leitores do Blog do Mílton Jung sobre vida e consciência sustentáveis

Veja outras fotos no álbum digital de Jef Safi, no Flickr

Você vale o que você tem … no momento

 

Por Abigail Costa

Não é de hoje que as comissárias, tirando uma ou duas,  me incomodam. E muito. Não porque usam aquela maquiagem carregada, uniforme que de tão apertado parece ter sido emprestado pela irmã mais nova.

Elas me incomodam pela maneira como tratam as pessoas. Principalmente, as que amargam oito, dez horas no INPS – conhecido, também, como classe turística.

E isso não é privilégio das nossas moças ?

Somando as minhas horas de voo, fechei uma conta meio negativa no quesito educação. As internacionais também sofrem desse mal.



Outro dia numa companhia aérea americana, a viagem tinha como destino Roma, Itália. Pois bem, ao meu lado estava uma siciliana de uns 60 anos. Chega a aeromoça tão experiente quanto a passageira e vomita o cardápio em inglês

– “Ma che è sucesso? ”  

– “Che parla?”

Repetia as frases e as complementava com as mãos.



Entrei na conversa sem ser convidada – eu me senti a desconfortável.  

– “Pollo, pasta !?”



A americana entregou aquela bandeijinha de papelão recém-saído do microondas.


Caraca ! Conclui que má-educação não era regalia Made in Brazil.



Há  pouco tempo meu conceito sobre elas mudou. Ou seria por que mudei de classe ?



A troca não foi só por mais conforto. Foi por mais educação, gentileza e paciência de parte delas.



Na hora de escolher o menu do almoço, uma jovem se ajoelhou ao meu lado. 

– “Esqueci meus óculos” – gentilmente ela explicou prato por prato.

A outra chega:

– ” Com licença, Senhora …. champagne ?”

Caros, detesto ter que admitir isso… Mas é verdade.



Você pode não ter um pardal pra dar água, porém se estiver passeando com o cachorro esnobe da patroa, o tratamento será outro.



Viva as aparências !

Abigail Costa é jornalista e desde que escreve no Blog do Mílton Jung viaja de classe executiva 

Homens fazem ‘ajoelhaço’ pelo perdão das mulheres

 

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Centenas de homens ajoelhados pedindo perdão. A cena se repetiu pelo quarto ano no Sarau da Cooperifa em comemoração ao Dia Internacional da Mulher. Sérgio Vaz explica que o “ajoelhaço” é uma forma de os homens se desculparem por anos de injustiça e preconceito.

No Blog Colecionador de Pedras escreve que não basta o ato simbólico, é preciso mudança de comportamento. Acredita que os frequentadores da Cooperifa tem um perfil menos machista e se ajoelham porque sabem o quanto a mulher é humilhada em seu cotidiano. “Respeito não é apenas uma palavra, é um sentimento”.

Uma camisa rosa é reveladora

 

Desde pequeno somos ensinados de que menino veste azul e menina, rosa. Os pais esperam para sair às compras apenas após saberem o sexo do bebê. Os parentes preferem não arriscar e presenteiam tudo amarelo. Serve para os dois. Morrem de medo de trocar as cores. Principalmente se for homem. Imagina o que os outros vão dizer ? E a confusão na cabecinha do menino ?

O tempo passa e as coisas não mudam, até o rapaz resolver vestir uma camisa rosa e sair por aí. A mãe estranha, mas até que acha que a cor lhe caiu bem. Ficou bonitão, as meninas vão gostar, pensa em silêncio para o pai não ouvir.

É cruzar pelo primeiro amigo e lá vem a primeira gracinha: “Pegou a camisa da irmã ?”. O colega na escola não deixa passar em branco e tasca um sorriso malicioso logo de cara. Ele fica vermelho de vergonha, mas dá de ombros às convenções.

Durante toda a vida será assim. Na faculdade, no clube, na família, no primeiro emprego, no trabalho atual. É chegar no escritório e os olhares se voltam para a camisa rosa. Alguns murmuram notas desafinadas da “Pantera”. Das colegas até surgem elogios pelo bom gosto, mas também há as que deixam escapar comentários em tom de brincadeira. O amigo da Igreja não perde a oportunidade de tirar uma casquinha. Só por que ele é crente não vai agir igualzinho ao ateu ? É até pior.

Ninguém fica indiferente diante de um homem vestindo rosa. A cor é reveladora.

Um beijo contra o preconceito

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Cerca de 1.200 pessoas reuniram-se no dia 20 de setembro de 2009 para lutar contra o preconceito e o estigma de quem tem aids. O fotógrafo e artista plástico de renome internacional Vik Muniz fotografou seis mosaicos formados cada um por cerca de 600 soropositivos e solidários à causa. Uma nova imagem surgiu a partir de várias outras pequenas. Essa é a maior característica do trabalho do paulista radicado em Nova York. A ação faz parte da campanha do Dia Mundial de Luta contra a Aids de 2009, organizada pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, pelo Centro de Referência e Treinamento de São Paulo e pelo Programa Municipal de DST e Aids de Guarulhos e com o apoio de várias organizações locais.

Os voluntários seguraram cartões coloridos para formar imagens de beijos, símbolo universal do amor e da solidariedade. Essa será a primeira obra de Vik Muniz sobre o tema HIV/Aids. O resultado ficará exposto no MASP, Museu de arte de São Paulo. As fotos dos mosaicos foram tiradas no Ginásio Pascoal Thomeu (Guarulhos/SP).

Do site Dia Mundial de Luta Contra a Aids 2009

Um final feliz para Luciana de Viver a Vida

 

Alinne Moraes no papel da tetraplégica Luciana

Casal no altar, pais reconciliados, viciado sorrindo pela recuperação e o vilão pagando seus pecados na cadeia para delírio da torcida. A síndrome do Final Feliz que contamina os autores de novelas está sob ameaça na recém-iniciada Viver a Vida, da TV Globo, graças ao destino traçado à personagem Luciana, modelo que após acidente ficou tetraplégica. A curiosidade é que a preocupação de que o autor Manoel Carlos decida “curar” Luciana no último capítulo é de parentes e profissionais ligados a pessoas com deficiência.

Desde a confirmação da sequela deixada pelo acidente de ônibus, tenho recebido mensagens de pais de jovens com deficiência, filhos que cuidam de pais que sofreram lesões de extrema gravidade na coluna e profissionais de saúde que se deparam com esta realidade diariamente. Temem que a hipocrisia leve a novela a apresentar uma transfusão mágica ou uma cirurgia milagrosa para “salvar” a vida da menina bonita.

Há duas semanas, ocomentarista Cid Torquato, do Cidade Inclusiva, anunciou no CBN São Paulo, o destino de Alinne “Luciana” Moraes, que ainda fazia o papel de modelo de passarela disputando beleza com a colega Helena que casou com o pai dela, Marcos. Ele foi afirmativo ao dizer que ao contrário de outras novelas, Manoel Carlos estava disposto a mostrar a realidade na vida de pessoas com tetraplegia, sem apresentar falsas esperanças.

“Quando encaramos a verdade, fica mais fácil agir naturalmente e é essa verdade dos fatos que faz com que o deficiente encare a sua realidade e passe a exigir respeito, a exigir o compromisso das autoridades frente aos tratamentos e, principalmente, faz com que o próprio deficiente tenha acima de tudo amor próprio e o respeito por si”. A opinião é da ouvinte-internauta Suely Rocha.

Em Viver a Vida, o final feliz não está na descoberta da cura de uma deficiência que limita o movimento do corpo, mas no combate ao preconceito que restringe a inclusão de um cidadão.

Os ônibus na luta pelos direitos civis no mundo

 

Por Adamo Bazani

A atitude isolada de uma mulher negra em uma linha de ônibus municipal se transforma em referência na luta contra a segregação, nos Estados Unidos. E daquele ato surge um líder mundial

Quem diria que um ônibus seria cenário de uma revolução capaz de mobilizar o mundo? Nas pesquisas sobre os ônibus, seja aqui no Brasil ou lá fora, é possível perceber que a história deste veículo, muitas vezes tão criticado, é a história de pessoas: algumas anônimas, algumas bastante simples, algumas que se transformaram em referência.

Rosa Parks é nome nem sempre lembrado. Mais fácil lembrar de Martim Luther King. Os dois se cruzaram justamente em um ônibus, na luta pelos direitos civis e contra as desigualdades. Juntos marcaram a evolução da humanidade (por incrível que possa parecer, os seres humanos evoluem interiormente; nem todos, mas evoluem).

Nos anos de 1950, o racismo no mundo era explícito. A segregação, legitimada. A discriminação, sinal de status para alguns. Neste clima, vivia a costureira Rosa Parks, 42 anos, moradora de Montgomery, no Alabama. Em 1955, os ônibus da pequena cidade americana tinham lugares separados para brancos e negros. Com aqueles tendo preferência sobre estes.

O ônibus, velho, estava lotado e Rosa se negou a dar o lugar dela para um passageiro branco que acabara de entrar. O motorista advertiu de que isso poderia levá-la à polícia, mas ela se manteve firme. Pressionado pelos passageiros da “ala branca do ônibus”, o motorista teve de chamar o policiamento.

O ato levou Rosa à justiça e chamou atenção da comunidade local. No dia do julgamento, o Conselho Feminino do Alabama decidiu realizar um boicote ao transporte público, no Estado. O protesto pretendia mostrar que o serviço público deveria ser um direito de todos, brancos e negros. Rosa perdeu a batalha judicial. Revoltada, a população negra criou uma associação de lutas pelos direitos civis, a MIA – Montgomery Improvement Association.  Foi eleito para presidente da Associação, o recém-chegado a cidade, Pastor Martin Luther King. Nascia ali um líder.

A eloquência e o desejo de justiça sem violência eram marcas de Luther King. Já em seu primeiro discurso, o pastor dizia: “Quero assegurar a todos que trabalharemos com vontade e determinação para fazer prevalecer a justiça nos ônibus da cidade. Não estamos errados. Se estivermos errados, a Suprema Corte desta Nação está errada. Se estivermos errados, a Constituição dos Estados Unidos está errada. Se estivermos errados, Deus Todo-Poderoso está errado.”

O discurso comoveu a multidão em frente de uma igreja batista e marcaria o início de uma luta de dor, sofrimento e superação. O boicote aos ônibus que só deveria ter ocorrido no dia do julgamento de Rosa se prolongou.

Como reação, a prefeitura de Montgomery usou lei de 1921 que combatia qualquer tipo de boicote a negócios lícitos. 80 pessoas foram indiciadas. Entre elas, o pastor que teve de pagar U$ 550 de multa para não ser preso. Outros ativistas, como o pastor Ralph Abernathy e o líder negro ED Nixon também sofreram. Este, assim como Luther King, teve sua casa incendida.

Nada disso os fez desistir. O que era uma questão local, ganhava destaque internacional. O boicote aos ônibus continuava e lideranças nacionais de luta pelos direitos civis, Bayard Rustin e Glenn Smiley, se uniram à ideia. Mais de 42 mil negros entraram nesta luta.

Os taxistas negros implantaram um sistema de carona para que os apoiadores do boicote pudessem se deslocar. Os motoristas – mais de 300 – foram reprimidos. Alguns tiveram a permissão de trabalho cassada, outros foram presos. Mas Luther King, milhares de anônimos, inclusive Rosa, na cadeia ainda, não se rendiam. Os ônibus de Montgomery circulavam vazios, só com os brancos, insuficientes para sustentar o serviço.

Após intensa luta, em 5 de junho de 1956, a Corte Federal dos Estados Unidos, reconhece que a segregação nos transportes públicos era ilegal. Em 13 de novembro, a Suprema Corte do País tem o mesmo entendimento. Vitória.

Um dos momentos mais marcantes na vida de Martin Luther King foi dia 21 de dezembro de 1956, pouco mais de um mês do posicionamento da Suprema Corte. Um dia antes, após 381 dias de boicote, o protesto teve fim, e Luther King e o colega pastor Ralph Abernathy entraram num ônibus, em Montgomery.

Este é o momento que você vê na foto que está neste post extraída de uma edição especial da revista Veja de 1968, ano do assassinato do líder negro, pouco antes de uma marcha organizada pelo comitê que presidia.

Apesar da vitória naquela batalha, a luta contra o racismo, pela igualdade e pelos direitos civis, continua. A passageira de ônibus Rosa Parks, cuja determinação mobilizou o mundo, pressionada e sem emprego, teve de se mudar para Detroit.

A este busólogo, a certeza de que a história do transporte público não se conta a partir de marcas e modelos de ônibus, mas de gente como Rosa Parks.

Adamo Bazani, é repórter da CBN e busólogo. Às terças, escreve no Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: “Azul, negro e branco”

Sport 3 x 1 Grêmio B

Brasileiro – Recife


A TV quase não deu bola. Preferiu repetir exaustivamente jogadas em que os adversários se digladiam dentro da área ou em uma disputa qualquer em detrimento da informação. Na pequena torcida gremista que esteve no estádio da Ilha do Retiro, no Recife, havia a faixa: “Sou azul, negro e branco”.

Recado claro a quem, propositalmente ou não, tenta confundir os fatos, desde o bate-boca de Maxi Lopez e Elicarlos, durante a primeira partida da semifinal da Libertadores, no Mineirão, em Belo Horizonte. Momento em que conhecidos sanguessugas do futebol saíram a dar palpite e se apresentaram como defensores da moral e ética de toda a nação brasileira.

Falei pouco esta semana sobre o tema, e nada escrevi a propósito no blog porque sabem bem aqueles que me acompanham o tom do meu discurso nesta Avalanche. Meu colega de redação Fernando Gallo, que algumas vezes abrilhantou este espaço com ótimos artigos, deixou gravado nos comentários sua frustração por não ter lido por aqui alguma palavra minha. Como se fosse preciso.

Não sinto necessidade de escrever que sou honesto. Parto do princípio que aqueles que me conhecem sabem disso. Os que desconfiam do contrário que me conheçam melhor antes de construir qualquer pensamento a respeito.

Preciso dizer que discordo de qualquer atitude racista ? Minhas posições são públicas, e publicadas diariamente no CBN São Paulo. Quem acompanha o programa conhece minha postura. Quem lê este blog não deve ter dúvida do meu comportamento.

Também jamais me verão levados pelo espetáculo dos fatos, típico no futebol e em boa  parte da cobertura jornalística no País.  Daqueles que fizeram coro contra Maxi Lopez  muitos são os mesmos que fazem comentários jocosos sobre situação social quando falam da torcida do Corinthians,   se assanham a fazer piadas sexistas quando o assunto é o São Paulo ou taxam a ignorância de “baiana” e  a arrogância de “argentina”. Não quero a companhia desses em nenhuma campanha.

É preciso também buscar informacão, ter comedimento e relativizar os fatos.

Lá no pampa argentino, macacos somos todos nós brasileiros, não pela cor de nossa pele, mas por supostamente imitarmos os americanos. Diferentemente do uso dado a palavra no pampa gaúcho, onde a expressão tem conotação racista. Que se mude os hábitos, aqui e lá.

Não vou aqui julgar o atacante gremista. Se ele tomou alguma atitude errada – e, ao contrário de outras oportunidades, isto não ficou claro diante das câmeras – que responda pela injúria. Mas, por favor, não se aproveite desta situação para expor ideias xenofóbicas. Faça deste caso um momento de reflexão sobre atitudes que já tenham sido tomadas por você contra ou a favor de qualquer tipo de preconceito.

Entre torcedores, assim como  nas demais comunidades que se formam neste país seja por afinidade política, religiosa ou social, deve haver quem entenda ser superior ao outro pela diferença de raça. Infelizmente, este é um pensamento que ainda existe na sociedade brasileira. E precisamos condená-lo nos fóruns competentes e com atitudes produtivas, não, oportunistas.

Para o Grêmio, que fique claro a todos, não há opção: somos azul, negro e branco. Somos de todas as raças. Somos um time de raça.