Dona Lola

Por Fernando Gallo
Blog Miradouro

Agora que começa a passar o luto da morte do marido, companheiro da vida toda dos tempos de Barcelona, Espanha, onde nasceram, e de Córdoba, Argentina, onde foram viver, dona Lola, avó da minha amiga Soledad Miralles, começa a sair de casa novamente.

Tem buscado em um centro de convivência para aposentados, gerenciado pelo governo de Córdoba, algo que preencha o novo vazio de seus dias.

Sim, porque mesmo que a ela, como à maioria dos amigos que fez, falte dinheiro, a província não deixará que lhe falte um mínimo de dignidade para levar os dias que lhe restam.

Para isso, não paga mais do que 10 pesos mensais, algo em torno de 7 reais, e nesse centro, além da companhia, que vem espantar os fantasmas, encontra um cabeleireiro que lhe põe os ralos brancos cabelos em dia, uma manicura que lhe corta as unhas e um clínico geral que cuida para que chegue ao último suspiro com a melhor saúde de que seu organismo disponha.

Também lá, pode comprar – e tem comprado, uma vez por mês, ao menos – por 40 ou 50 pesos, pacotes de viagens para cidades da própria província, ficando às vezes um final de semana, às vezes até 4 dias fora.

– Claro, são quartos coletivos, a comida muito simples e o banheiro às vezes fica fora, e nós temos que caminhar uns 50 metros para chegar até ele. Mas é tudo limpo e organizado e ninguém reclama. Todos têm a opção de não ir, mas está sempre cheio – conta ela.

Dona Lola têm sido verdadeiramente cuidada pelos seus governantes agora que, aos 78 anos, a potência e as possibilidades vão se esvaindo, e tudo o que ela agora mais precisa é justamente disso, cuidado.

Fernando Gallo é repórter da CBN e escreve com mais quatro amigos para o Blog Miradouro. Vá até lá e conheça outros textos desta turma.

Ordem e Progresso no Congresso

Por Carlos Magno Gibrail

Clodovil HernandezDo tiroteio entre o pai de Fernando Collor e Góes Monteiro, que a má pontaria de Arnon de Melo resultou na morte do suplente de Senador José Kairala diante de mulher e filhos que assistiam à sua estréia no Senado, ao pronunciamento de Cristovam Buarque, pedindo o fechamento do Congresso Nacional, nada a acrescentar a respeito de ética, civilidade e moral.

De quatro de dezembro de 1963 até ontem, apenas constatar, que udenista e pessedista foram absolvidos e que Buarque não pode estar falando sério.

Às vésperas de completar 183 anos não é o fechamento do Senado e da Câmara que irá resolver os problemas, pois representar o povo, legislar e fiscalizar a aplicação dos recursos públicos é função essencial ao Estado democrático.

Exemplo vivo da primeira Lei de Parkinson sobre o aumento dos cargos e funções, a Câmara ainda apresenta um órgão como o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar que é a disfunção da própria função.

Tudo indica, entretanto que a exposição que a mídia contemporânea passa a exibir tenderá a inibir os desmandos financeiros e administrativos.

Os dados são provocativos, para 513 deputados, 104 diretores, 3470 servidores concursados, 1350 comissionados, 11500 secretários parlamentares, 2300 terceirizados, totalizando quase 20000 funcionários, mais os aposentados, consomem R$2,6 bilhões dos R$3,5 bilhões da Câmara para 2009.

Temos então 32 funcionários para cada deputado, enquanto nos EUA são 15, no México 6 e na Índia 6.

Comparando o custo mensal com a renda per capita:
Brasil US$49800, 126 vezes a renda per capita – EUA US$30000, 8 vezes – Inglaterra US$26600, 8 vezes – Alemanha US$15200, 5 vezes – França US$9800, 3 vezes.

Entretanto se Buarque, educador experimentado se atentasse para a fala da classe teria percebido que a solução já foi sugerida.

“Cheguei aqui como um alienígena, um estranho, mas não vou deixar passar em branco meu mandato de jeito algum. Estou vivendo do dinheiro do povo, a serviço do povo, e para ele vou trabalhar loucamente. Aos 70 anos resolvi que agora é hora de limpar minha alma para mandá-la de volta a Deus polida, pelo menos com atitudes.” Clodovil Hernandes.

Brigou com o Presidente Chinaglia logo no primeiro pronunciamento, no dia seis de fevereiro de 2007. Clodovil reclamava da falta de educação, do barulho, das longas e improdutivas sessões, do andar arrastado da vida pública. Um estilista, só, não faz verão, mas talvez possa ter alinhavado para o futuro.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 280/08, apresentada em julho do ano passado, não saiu do lugar. Clodovil quis, explicitamente, uma Câmara dos Deputados mais enxuta, com apenas 250 representantes, com um mínimo de quatro e o máximo de 35 vagas por Estado. “A composição da Câmara dos Deputados resulta em um Parlamento com diversidade de idéias, bastante plural, o que é imensamente positivo. Mas o atual número de deputados me parece excessivo, mormente em um momento em que a sociedade se volta contra a classe política e exige a depuração de seus quadros”, disse em sua justificativa.

Nem da Universidade, nem da Política nem das Grandes Corporações, mas do mundo da Moda a observação mais aguda relativa ao Plenário da Câmara, onde 513 deputados se desrespeitam em todos os sentidos. Não ouvem, circulam, não sentam, dormem. Leem jornal, telefonam, conversam, algumas vezes dançam, tentam se esmurrar, etc.

Eu acredito que a maioria dos brasileiros não daria  nem assistiria aula numa classe em que ninguém prestasse atenção em quem fala. Não trabalharia numa empresa em que ocorresse o mesmo.

E você?

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e às quartas escreve aqui no blog sempre atento a tudo o que dizem e deixam de fazer lá no Congresso.

De enchente

Por Maria Lucia Solla

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E então: até quando?Sempre sonhei em me unir à turma do Greenpeace, seja lá onde fosse. Eles me passam uma imagem de gente que está do lado do respeito, e eu iria longe para lutar por ele. Até uma certa idade, me deixaria amarrar na proa do navio, ou nos trilhos da linha férrea.

Agora, longe dessa possibilidade, faço o que posso. Pelo respeito a tudo e a todos. Indiscriminadamente.

Tem gente que acha babaca falar “dessas coisas” feito respeito, consciência, amor, dor, amizade, disciplina, objetivo, admiração. E por aí vai. Mas todo mundo fala: já notou? Fala, mas fala a boca pequena. Em off. Na surdina, para não dar pinta de Nova-Era, Tiozinho-Paz-e-Amor, ou Natureba.

E a gente vai se disfarçando, se blindando, se moldando, encaixando aqui, encaixando ali, cortando o dedão do pé para caber no sapatinho de Cinderela, e vai perdendo o rumo. Vai perdendo a noção. Desloca a perspectiva e se afasta da própria essência. Da alma.

Num fim de semana, um amigo sugeriu que fizéssemos duas listas. Uma de “in” – na moda- e outra de “out” – fora dela.

Depois de falar bobagem até dizer chega, chegamos à conclusão de que o campeão da lista dos “out” era fazer lista de “in” e “out”.

Assista ao slide show acima e perceba como é fácil. Não é preciso ir longe e nem correr riscos para defender o respeito. Enquanto não o ressuscitarmos, tudo fica invertido. As baleias morrem, os pássaros encaixotados são privados de seu vôo, e a água, cantada em verso e prosa, madrinha da vida, passa de salvadora a vilã.

Por onde começar?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça “De Enchente” na voz da autora. Música: As Quatro Estações, de Vivaldi

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos escreve neste blog, demonstra indignação, reclama, mas sempre com o maior respeito.

Se você ensinar hoje, ele fará a diferença amanhã

Por Abigail Costa

Chega uma certa idade, um certo alguém e,  como um relógio, bate o instinto materno.  Neles, o paterno. Começam as conversas, os planos de ter um filho e, por fim, o desejo é concretizado. Passado o momento de emoção, o lado racional cutuca.

Do jeito que o mundo está,  da maneira como andam as coisas, o que restará para eles?

A sua responsabilidade vai até um  certo ponto.  Num dado momento não será mais possível seguir de mãos dadas com as “nossas crianças”. Até para encontrar alívio próprio, você acaba se dando respostas otimistas.  Daquelas: “é,  mas a tecnologia avança a cada dia”,  “as descobertas da medicina andam aceleradas”.

Um dia você abre o jornal  e lá  está: “Fulano, aquele eleito com trocentos votos, tem um castelo”.  Que bom ! Uma maravilha que a Receita Federal desconhece. Prá quem lê o assunto, vira o estômago. Fico imaginando, para quem votou nele a sensação deve ser:  “FDP!”.  Com razão.

Passa mais uma semana e alguns dias e outra bordoada. “Ele” que tem um cargo de confiança, que trabalha há mais de dez anos em Brasília, diz que declarou a compra de um terreno numa área nobre da cidade. O valor da terra: 180 mil reais. Um detalhe foi esquecido. Um detalhe de cinco milhões de reais, preço estimado da “residência”.

E daí ? De que vale a tecnologia para desviar o trânsito, para construir aterros sanitários ? De que vale o homem receber um coração totalmente artificial, se o que corre nas veias é a ganância, a falta de vergonha ? Eles mentem ou, politicamente correto, omitem.

Calma ! Sou otimista por vocação. O que me faz acreditar que no futuro, naquelas cadeiras do Planalto Central, poderão estar sentados homens de bem é a criação que investimos em nossos filhos hoje. Não se trata de quem pode pagar uma escola particular ou não. Falo de valores que não são aprendidos, necessariamente, em instituições de ensino.

Outro dia, tive o privilégio de ouvir do meu pequeno: 

– “Papai, como a criança pode ganhar dinheiro sem depender da mesada?”

– “Porque a pergunta, filho?”

– “Quero tanto ajudar quem tem menos do que eu !”

Ele, junto com os seus filhos, seguramente vão tentar fazer desta uma vida melhor.

Abigail Costa é jornalista e toda quinta-feira, neste blog, mostra por que ainda acredita na capacidade do cidadão

A turma do amém

Por Abigail Costa

Alguns ditados são como aquele pretinho básico: batido, quase todas usam, mas nunca é cafona,  estão sempre no auge…

Um dos meus preferidos é:  ninguém é perfeito!!!!! E não é mesmo!!!!

Embora quase todos os mortais que conheço se julguem  absolutamente perfeitos,  eles não erram, podem no máximo pensar que…. me atrapalhei, também com tanta responsabilidade….

Me incomoda e muito  aqueles que falam, ditam regras e pronto. Não aceitam uma outra idéia, vale a dele e pronto. Principalmente, quando isso vem de um superior.

Mais irritante do que o dono da perfeição,  são os seguidores do “ser perfeito”, e pode apostar: normalmente eles fazem parte da classe do “Amém”.

É como voltar nas brincadeiras de criança e aceitar a pergunta do líder: “Fará tudo o que o seu mestre mandar?”

Mas hoje não se trata do mestre-do-faz-de-conta, e não está aqui nenhuma contestadora de opiniões gratuíta. Não condeno que fulano tenha que aceitar certas “sugestões” para garantir o emprego.

Fico constrangida quando percebo uma situação que alguém deveria ter gritado antes: Ei!!! O Rei está nú!!!!

Alguns até tentam, quase  nunca diretamente. A maioria diz amém. Uma covardia “compreensível” quando se trata de garantir o ganha pão. Cá entre nós, coitados!!!!

Alguém pode até pensar, até mesmo dizer: escrever, falar, tudo isso é fácil, quero ver alí na situação cara-a-cara….

Caros pode até parecer difícl, mas tente. A sensação é de alívio. Você poderá até ser obrigado a fazer, executar, só que de consciência limpa.

Eu falei..

E pode ter certeza você será diferente. O “seu superior” vai pensar  a respeito. No dia seguinte vai te olhar diferente, não mais como um seguidor de idéias, mas como uma idéia a mais.

O melhor disso tudo: é chegar em casa e olhar  para seus filhos de cabeça erguida.

Abigail Costa é jornalista e toda quinta-feira mostra aqui no blog que não faz parte da turma do amém.